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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A consciência, a violência manifesta e Ana Netrebko, "From Janitress to Opera Diva"

A consciência humana procede também da ideação da violência, e fornece os meios que possibilitam à violência individualizar-se como substância do humano. A alienação em suas manifestações é o elo entre a existência humana e a matéria da violência, presença e paradoxo que equilibra vida e morte, permanência e destruição. Por isso, o rabino de Tarso, disse que o homem novo constrói a paz, porque derribou a parede da separação que estava no meio, a inimizade e aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para criar, nele próprio, o novo humano, fazendo a paz. Essa á a boa notícia para todos os que estão mergulhados na violência da iniquidade da sociedade de classes, opressora do humano: propomos a violência dos excluídos de bens e possibilidades como justiça que constrói a paz.

E eu completei: sem poder não há justiça. E o que é o oposto da justiça? Podemos dizer, iniquidade. Certo, mas o oposto da justiça é também exclusão de bens e direitos, é a escravidão. Por isso, muitas pessoas fogem da violência manifesta que se impõe a partir da justiça e do poder, porque buscam conforto e segurança. Ora, o conforto e a segurança podem ser bons, mas não são de fato o bem maior. Uma pessoa que passa a vida à procura de conforto e segurança no final pode se dar mal, porque quando se evita a dor, se evita construções mais profundas.

Por mais que muita gente fuja temerosa diante da violência manifesta, mesmo daquela que nasce da justiça, a violência é inevitável, pois é fruto dos limites quebrados. Há tempo para tudo, como disse o meu amigo Qohelet, tempo de matar e tempo de curar, tempo de guerra e tempo de paz. Portanto, se quisermos ter justiça e, consequentemente, paz, a chave não é eliminar a violência da justiça, mas ao contrário ser agente do poder que nasce da justiça. 

O preço da justiça é o poder que se manifesta na proporção dos limites quebrados, quando a exclusão de bens e direitos exclui a possibilidade de cidadania e liberdade. Nesse sentido, a violência manifesta, mesmo aquela que nasce da justiça causa dor. A conquista e construção da liberdade se dá com dor. Mas o que chamamos dor é muitas vezes esforço. O parto e o trabalhar a terra, metáforas da expansão humana, como disse o Eterno para o casal que se lançava ao mundo, implicam em dor, em esforço. A partir daí podemos entender a relação entre violência e dor, e que, embora o esforço possa ser doloroso, diante da justiça não se pode fugir dessa realidade. Quem deseja uma viagem confortável e segura vai perder as mais impressionantes conquistas da vida.

-- Puxa, Qoh, acho que nos entendemos.

Por Jorge Pinheiro


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Corrupção, uma palavra

[Uma reflexão  de Jones de Freitas]

Car@s

Gostaria de discutir mais essa questão da corrupção.

Numa mensagem recente aqui na lista, me chamou a atenção pela centralidade do argumento:

"Todos nós, ou boa parte, temos um vínculo afetivo com Lula e o PT mas (discordando do Daniel) fez água no barco moral do partido. Quem era bom saiu ou ficou totalmente sem poder de fogo. O PT vai aprender com a lição e se reformular, resgatando suas origens? NEM MORTA! Acabou isso! Depois de sentir o gostinho do poder e se corromper, não tem volta atrás! Se quando eles não conheciam isso eles não optaram por abrir mão... imagine agora que conhecem? Além disso, tem o orgulho ferido, o rabo preso para esconder, os compromissos já feitos. Conheço gente do PT, ótimos pais de família, sindicalista pé no chão no passado... Estão riquíssimos!! Moradores do Leblon ... mesmo sem assumirem cargos de confiança (quarto escalão). Não podem mais abrir mão disso. Meu conselho é: esqueçam esse partido! Ele é o PMDB do futuro." (09/09/14).

Ou seja, o PT pecou, comeu e gostou do fruto proibido e, portanto, está condenado para a eternidade. Não pode ser reformado. Está perdido e devemos todos esquecê-lo.

Como todo governo tem algum grau de corrupção, aqui e na Suíça, esse tipo de análise não esclarece muita coisa.

A análise moral da corrupção também não explica a esquizofrenia que seria um governo corrupto por natureza, mas que por algum misterioso instinto suicida fortalece e respeita a independência do
Judiciário, da PF, da PGR, do TCU, da AGU, etc. etc.  A discussão é tão confusa que  a maioria das pessoas deve achar que o Roberto Costa era do PT e quem descobriu tudo foi a revista Veja e não
a PF e a Justiça.

Citando uma recente mensagem do Daniel:

"O engraçado é que o governo que tanto "aparelhou" e cometeu "malfeitos" é o mesmo que recuperou a capacidade operacional e deu autonomia à Polícia Federal, ao Ministério Público, à CGU e até, quem diria, do TCU (Lula autorizou em 2003 a criação de 600 vagas de auditor, o que praticamente dobrou a capacidade de trabalho do órgão de controle). Se no projeto de poder do PT estava já premeditada a roubalheira, foi um tremendo tiro no pé (pra não dizer burrice!)."

Há uma novidade no Brasil: colarinhos-brancos, gente muito poderosa atrás das grades. Isso acontecia no passado?

Para mostrar as limitações do argumento moral na análise política, imaginemos um governo de ascetas, de gente impoluta que faça uma política econômica com brutal concentração de renda, empobrecendo e jogando no desemprego dezenas de milhões de pessoas, transferindo renda dos pobres para os ricos.  Isso não seria corrupção, mas uma decisão de política macroeconômica que refletiria uma determinada correlação de forças. Seria exaltada pela mídia conservadora, levaria a significativa melhora dos índices do Brasil nas agências de classificação de riscos, etc. Os fariseus todos teceriam loas a essa política que levaria ao desespero milhões de pessoas, justamente as mais vulneráveis. Um roubo monumental praticado à luz do dia e  dentro da melhor moral e bons costumes.

Não é à toa que o argumento da corrupção seja tão utilizado pela direita. Ela ri do PT, novato nessas lides, sempre deixando o rabo de fora. Observem o Maluf e o Arruda, ambos gozando de inabalável apoio do eleitorado mais conservador – o mesmo que deblatera contra a corrupção política.

Outra coisa interessante: todos sabemos que uma das saídas para um melhor controle da corrupção é a reforma política. Também sabemos que esse Congresso jamais aprovará qualquer reforma política. No entanto, quando se procura aumentar a participação popular ou propor uma Constituinte para fazer a reforma política quem apoia essas propostas? Quase ninguém do campo anticorrupção.

Tenho enormes críticas e decepções com o PT. A corrupção é a menor delas. 

Abraços
Jones de Freiras

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

CRISTINA BRANCO, Fado Tango Tour - CATANIA JAZZ XXVIII - 7 MARZO 2011 - ...



Cristina Branco en concert à Gijón, Asturies en août 2007.

Cristina Branco (née le 28 décembre 1972 à Almeirim, Portugal) est une chanteuse portugaise, particulièrement populaire aux Pays-Bas.

Cristina Branco s'intéresse surtout au jazz, au blues ou à la bossa nova et aux formes de musique contemporaine, jusqu'à ce que son grand-père lui offre, pour ses dix-huit ans, un disque d'Amália Rodrigues. Elle y découvre l'émotion du fado.

Elle s'accompagne fréquemment au piano. Au disque comme en concert, elle bénéficie presque toujours de la prestation de Custódio Castelo à la guitare portugaise. Branco et Castelo composent également, des morceaux à la fois résolument modernes et profondément ancrés dans la tradition.

Citation

« Le fado, c'est la vie. Je ne vois pas cette musique comme le destin. Le destin, c'est ce que nous en faisons, ce n'est pas une chose qui arrive par hasard. Je ne crois pas en cette nostalgie. Je pense que le fado parle de la vie, de celle qui existait dans les années 1940 et 1960, mais aussi qui existe en 2003. Il ne s'agit plus de parler des clichés de la société portugaise, de la mer, des marins, des découvreurs qui partaient et des femmes restées seules à pleurer. Le fado représente beaucoup plus que ça, c'est parler d'aujourd'hui, de la guerre s'il le faut. »

Cristo, a centralidade de nossa ação política

A centralidade do Cristo
e a ação política cristã
Jorge Pinheiro

Qual o papel dos cristãos protestantes numa sociedade em crise?
Em Cristo, a centralidade da ação e fé reformada é a solução para os problemas brasileiros?
  
I. Três questões que devem ser levadas em conta

(1) A revolta generalizada do brasileiro urbano contra a atual situação em que vive grande parte da população. Por isso, somos exortados à reforma radical, no sentido protestante, diante do grito de revolta de uma população que desperta para a consciência de que a exclusão de bens e possibilidades não é uma situação irreversível e permanente. 

(2) As manifestações e mobilizações apontam para aquilo que Tomás de Aquino afirmava: “há um mínimo de condições exigidas para a prática da virtude”. Assim, a existência de vidas em condições desumanas, injustas, inferiores, leva milhões de brasileiros à prática de atos contrários aos padrões morais.

(3) O Brasil quer definir sua identidade enquanto nação.


II. Reformas e resistência à mudança social no Brasil

O Brasil não enfrenta um problema de subdesenvolvimento, mas outro, mais complexo, que é o do desenvolvimento desigual.

A resistência à mudança no Brasil localiza-se predominantemente na natureza patrimonialista de um país que repousa sobre o pensamento arcaico. E tal pensar não está apenas nas zonas rurais tradicionais – do Nordeste e outras regiões --, mas dentro do próprio Brasil urbano.

Diante de tal situação, qual a missão da juventude protestante? Será possível uma resposta coerente, que apresente saídas para os grandes dilemas brasileiros?

A situação brasileira se insere num contexto mundial, que é fruto das transformações sociais e dos imperativos morais e religiosos decorrentes da ampla utilização da ciência aos meios de produção. Em última instância, a técnica é boa pois modifica as condições de vida das pessoas, mas, paradoxalmente, virou o mundo de ponta cabeça.

Somos exortados a viver a reforma radical, no sentido protestante, em marcha, já que não é mais possível tolerar a exclusão de possibilidades de milhões de brasileiros.

Os jovens protestantes não podem divorciar-se da luta pela justiça. E essa luta traduz ao nível do real atributos do próprio Cristo, já que ele fez do brasileiro administrador e não dono absoluto deste quase continente. Esse Cristo redentor e santificador lança sobre nós o desafio do Brasil, já que é impossível adotar a criança da manjedoura e esquecer a realidade, colocar-se sob a cruz e esquecer a sociedade em que vivemos.

A vida é o primeiro passo para a construção de uma centralidade do Cristo. Vamos ler Lucas 4. 16-21.

Temos aqui o programa ministerial de Jesus. E no texto, Lucas destaca os quatro pontos programáticos de Jesus Cristo: anunciar uma nova ordem aos excluídos de bens e possibilidades; proclamar a libertação aos deserdados da terra; restaurar a vida dos que estão sendo ceifados pelas enfermidades; e apregoar o ano aceitável do Senhor.

Ora, se os três primeiros itens do programa se referem aos aspectos materiais da vida humana, sobre o que trata o quarto item? Ao compromisso, a opção por estar na trincheira ao lado daqueles que lutam por dignidade e justiça.

Aqui, está, à maneira protestante radical, as sementes para uma centralidade do Cristo em nossas vidas e na vida da nação.

E podemos tirar dez conclusões desta abordagem profética.

(1) A nossa fé deve interpretar a condição humana à luz do propósito de Cristo. (2) Somos porta-vozes de Cristo para condições específicas. (3) Somos jovens reformados em ação. (4) Somos jovens do povo de Cristo e de nosso tempo. (5) Exercemos uma ação política à luz da compreensão do destino do povo de Cristo. (6) O propósito básico de nossa pregação social é a aliança no sangue do Cristo. (7) Amor e integridade, justiça e juízo são importantes para a estrutura política, para a religião organizada e para a organização e instituições econômicas da nação. (8) Nosso compromisso é com Cristo. (9) Cristo participa dos combates pela justiça, é a centralidade de nossa ação. (10) Hoje, somos desafiados, na centralidade do Cristo, a enfrentar os dilemas destes dias.
  
III. Cristo, a centralidade da reforma radical

Se os jovens protestantes colocam-se na brecha social e consideram fundamental participar da vida real do país, em que sentido podemos falar da centralidade do Cristo numa reforma radical da sociedade brasileira?

O que significa, em última instância, a centralidade do Cristo?

Teologicamente, fazemos a proclamação da soberania de Cristo, depositando sobre os ombros de nossa juventude a tarefa de aceitar o desafio do momento, a fim de demonstrar a evidência da ação do Cristo no mundo.

O perigo é, em meio às rápidas transformações sociais, ficar atrás em nosso pensamento social e pregar um evangelho que não seja compreensível e adequado às necessidades da sociedade em mudança.

O papel dos jovens protestantes numa sociedade em crise é seguir os passos de Cristo, amante apaixonado dos excluídos de bens e possibilidades.

E atenção, juventude

Cristo é a centralidade para a solução dos problemas brasileiros porque sob sua soberania está nossa ação política, a favor do brasileiro e da vida, na reforma permanente do reinar de Deus. E neste que fazer, o fazemos todos, juntos a partir de nosso atuar transformador.






domingo, 14 de setembro de 2014

A igreja de Cristo -- através da fé veículo de adoração



Pastor Jorge Pinheiro
Igreja Batista em Perdizes -- Culto da noite -- 14/09/2014

Talmud -- história, ética e teologia

 O TALMUD
História, Ética e Teologia

JORGE PINHEIRO, PhD

Entre os anos que vão da destruição do beit sheni (segundo templo) até a derrota da revolta de bar Cochba (70 a 135), Israel vive um momento muito especial em sua história, que recebe o nome de “período de Yavne”. Esse período caracterizou-se por novas tentativas de reconquistar a independência por meios militares e pela formação de um novo sistema de governo, que permitiu aos judeus sobreviverem sem um Estado.

Um homem, o rabino Yochanan ben Zakai, inicia a reconstrução da vida judaica, não mais em Jerusalém, mas em Yavne. Restabelece as funções do sanhedrin (sinédrio), fixa os meses e os anos bissextos, possibilitando a manutenção das festas judaicas mesmo sem templo. Yavne transforma-se assim num centro da cultura nacional judaica e de sua espiritualidade.

Anos mais tarde, o rabino Gamaliel, filho de um dos líderes da revolta contra Roma, é reconhecido como líder da nação e substitui ben Zakai, tornando-se chefe do sinédrio de Yavne. Tem início uma política de unificação das diferentes seitas judaicas: sacerdotes saem de Yavne em direção aos pontos mais distantes do galut (diáspora), com a finalidade uniformizar doutrinariamente o povo judeu. O contato com os cristãos é proibido e tem início de ambas as partes uma separação histórica entre cristianismo e judaísmo.

Na Academia de Yavne são estabelecidas as características das festas judaicas, agora sem sacrifícios e peregrinações anuais. É realizada uma nova tradução do Tanach para o grego, já que a Septuaginta, muito usada pelos cristãos, não incorporava a visão dos rabinos de Yavne.

Outro nome que se destacará em Yavne é do rabino Akiva ben Yossef. Viaja por quase toda a diáspora,  da Gália, no Ocidente, à Babilônia, no Oriente. Prega a Tanach e transforma-se em um de seus mais importantes intérpretes. Após o fracasso da revolta de bar Cochba, é preso e condenado à morte.

Vencida a última resistência judaica, o imperador romano Adriano toma uma série de medidas que lembram em muito as leis de Antíoco IV Epifanes: proíbe o estudo do Tanach, a prática da circuncisão e a ordenação de novos rabinos. Derrotados e perseguidos, a grande maioria dos judeus deixa a Judéia e refugia-se no Galil (Galiléia), primeiro em Usha e posteriormente nas cidades de Tzipori e Tveria. No Galil será estabelecido o centro da cultura judaica nos séculos II, III e IV.

Nessa época, duas instituições, que já existiam, passam a definir a vida política e religiosa judaica, a nessiut e o sanhedrin. A nessiut era a presidência, e seu ocupante recebia o título de nassi, o patriarca e era o líder máximo do povo judeu. Com pequenas exceções, o cargo de nassi foi ocupado pelos descendentes do rabino Hilel, o sábio, que descendiam, segundo a tradição, da linhagem do rei Davi. O nassi era eleito pelo sanhedrin e o cargo era vitalício. Ao nassi cabia nomear os dirigentes das comunidades do galut e recolher contribuições para a manutenção do governo judaico. Como desde o século I, a lei escolar de Shimon ben Shetach definia a gratuidade e obrigatoriedade da instrução primária para todos os meninos judeus, o nassi era responsável por garantir que em cada cidade houvesse ao menos uma escola. O patriarca também representava o povo junto ao império romano. O cargo de nassi só vai ser extinto em 427.

Enquanto o nassi fazia as vezes de rei, o sanhedrin fazia as vezes de parlamento, combinando os poderes legislativo e judiciário. Nos dois séculos posteriores à derrota de bar Cochba, o sanhedrin reunia os rabinos e principais eruditos da época. Os saduceus, que representavam a aristocracia e a classe alta, já haviam desaparecido da vida judaica. A orientação rabínica tinha o peso hegemônico dos fariseus. Assim, a atividade principal do sanhedrin consistia em discutir as leis da Torah e intepretá-las e adaptá-las à nova realidade. Nesse sentido, o sanhedrin passou a ser um beit midrash, uma casa de estudo. Os rabinos realizavam discussões e debates e seus discípulos acompanhavam com interesse a seqüência das argumentações. Mas nada era anotado. Tudo era guardado de memória. Os rabinos mantinham, também, cursos sobre assuntos de interesse cotidiano, de forma que as salas do sanhedrim estavam sempre cheias de estudantes, futuros rabinos do povo judeu.

Além de funcionar como beit midrash, o sanhedrin era também beit din elion, o supremo tribunal.

E assim, no correr desses anos, vai-se formando um novo corpo de leis, derivadas da Torah, que não se encontram nela, mas que tinham como finalidade dar respostas à nova realidade que surge com o fim na nação judaica geograficamente estabelecida. Como a Torah é sagrada, nada é agregado a ela para evitar que pudesse de alguma forma lhe fazer sombra. Por isso, a nova legislação não é escrita em lugar nenhum.

Com o passar dos anos, esse corpo de leis torna-se tão vasto e as condições da diáspora culturalmente tão complexas, que se tornou necessário escrever o material acumulado até aquele momento. O primeiro texto foi preparado ainda no período de Yavne. Os rabinos Akiva e Meir também redigiram várias leis orais. Temos assim, a mishná (repetição) do rabi Akiva e de outros.
Mas será no final do século II, sob a presidência do nassi rabi Yehudá, da linhagem de Hilel, que foi editada de forma ordenada a primeira Mishná, com a aceitação plena do sanhedrin. Ela incorporou trechos das mishnaiot anteriores.

A Ética dos Pais

A Mishná contém seis partes chamadas shishá sedarim. Cada seder inclui diversas massechtot (tratados) e cada tratado se divide em prakim (capítulos) e perek (parágrafos). Foi redigida em hebraico e contém, ao todo, 63 tratados e 528 capítulos. Os seis livros que formam a Mishná são: Zeraim (sementes), que trata da agricultura e das orações; Moed (festividades), sobre as leis do shabat e dos chaguim; Nashim (mulheres), contém as leis referentes ao casamento, ao divórcio, ao adultério, etc.; Nezikin (prejuízos), sobre a lei civil, criminal, contratos, fraudes, castigos, etc; Kodashim (coisas sagradas), trata da ordem no culto do beit hamikdash e da kasrhrut; Toharot (purificação) sobre o cerimonial da purificação, banho ritual (mikvá), etc.

No tratado Pirkei Avot - Ética dos Pais, por exemplo, temos ensinamentos morais que tratam de boa conduta, estudo, justiça e retidão, sintetizando séculos de cultura judaica:

“Qual o justo caminho que um homem deve escolher para si? Aquele que é uma honra para ele que o pratica e uma honra para ele de parte dos homens. Se tão cuidadoso de um preceito leve quanto de um grave, pois não sabes qual a recompensa dada aos preceitos. Considera a perda de um preceito segundo a sua recompensa e o ganho de uma transgressão de acordo com sua perda. Observa três coisas e não cairás em poder do pecado: sabe que está acima de ti um olho que vê, um ouvido que ouve e que todos os teus feitos estão escritos num livro.” (Rabi Yehudá ha Nassi).

“Bom é o estudo da Torah junto com a ocupação no mundo, pois o labor em ambos faz esquecer o pecado e todo estudo da Torah desacompanhado do trabalho resulta em nada e acarreta o pecado. E todos os que se ocupam do trabalho comunitário se ocupem dele por amor do Nome dos céus, pois o mérito dos seus pais os sustenta e sua justiça permanece para sempre. ‘E quanto a vós, disse Deus, vos darei grande recompensa, como se vós mesmos os tivésseis realizado’.” (Rabi Gamaliel, filho de Yehudá ha Nassi).[1]

Após terminarem seus estudos primários, os meninos que desejavam prosseguir seus estudos eram encaminhados para o Sanhedrin. Lá estudavam a Mishná do rabi Yehudá e as compilações de histórias e tradições que formaram o Midrash, a Tossefta e a Baraíta. Os professores, conhecidos como amoraítas, expositores, conforme ensinavam acrescentavam novas interpretações aos textos dos tanaítas, rabinos cujas discussões estão registradas na Mishná. As conclusões dos amoraítas foram consideradas um complemento, Guemará, da Mishná do rabino Yehuda. Temos, então, a partir da união desses tratados, o Talmud da Palestina ou Talmud Yerushalmi.

Derivado de dml (ser instruído), Talmud traduz a idéia de aprendizado ou ensino. Seu ponto de partida, como vimos é a lei oral, que segundo a própria tradição rabínica repousa em Moisés, que teria recebido de Deus duas leis, a escrita e a oral[2]. Ambas se complementam, mas apenas os judeus têm a segunda[3].

No século IV, novos conflitos entre judeus e romanos levam a destruição das cidades de Tzipori, Lud e Tveria. Milhares de judeus são mortos ou vendidos como escravos. Choques políticos e administrativos entre o Sanhedrin e o patriarca e as difíceis condições econômicas levam o centro de Eretz Israel a sucumbir definitvamente. Há uma maciça emigração de religiosos e amoraítas para a Babilônia.

O último patriarca importante será Hilel II, que é também conhecido por ter realizado os cálculos do calendário judaico, utilizado até os dias de hoje.

Na Babilônia, os emigrantes palestinos juntaram-se à comunidade judaica, que desde os tempos das deportações realizadas por assírios e babilônicos, manteve-se nas cidades de Nehardea, Mahoza, Pumbedita e Sura. É interessante notar, que nessas cidades havia uma rede de ensino primário judaico de alto nível, que o melhor do pensamento palestino tinha migrado para elas e que os reis sassânidas, então no auge de seu poder, aceitavam muito bem a presença judaica na Babilônia.

Rav Ashi, líder da academia de Sura, inicia a compilação do material religioso existente, organiza sua exposição e distribui o material conforme os critérios definidos. Anos mais tarde, quando os sacerdotes zoroastristas iniciam uma dura perseguição religiosa aos judeus, Ravina, o último dos amoraítas babilônicos e chefe da academia de Sura, dá seqüência ao trabalho de Rav Ashi. Surge, então, uma obra monumental, o Talmud babilônico.

Temos então dois talmudim, o Talmud Yerushalmi e o Talmud Bavli.

Assim, os sábios cujas discussões estão registradas na Mishná viveram em Eretz Israel na época dos fariseus, entre os anos 100 a.C. e 200 d.C. Após a finalização da Mishná, outros mestres realizaram novos comentários e readaptações da Mishná, dando origem a um complemento, a Guemará. Este segundo trabalho foi realizado simultaneamente em Israel (entre os anos 200 d.C. e 350 d.C.) e na Babilônia (entre os anos 200 d.C. e 500 d.C.). No entanto, a Guemará babilônica é considerada mais importante.

A Teologia do Talmud

Essa obra traduz setecentos anos de trabalho, cita estudos e conclusões de mais de mil rabinos, mas tem por base apenas três fundamentos:

1. Existe apenas um Deus verdadeiro, justo e bom.
2. A Torah, dada por Ele, contém toda a verdade e a justiça.
3. O homem deve fazer o possível para ser verdadeiro, justo e bom. E a melhor maneira de chegar a essas metas é investigar e cumprir a Torah.

Dessa maneira, o Talmud foi um guia para o povo judeu nos terríveis anos do galut e nas perseguições da Idade Média. A lei em seu sentido estrito, mais conhecida como halachá, manteve a coesão do povo. E tudo aquilo que não é lei, ou seja, as histórias, lendas, fábulas, contos, biografias, provérbios, receitas, matemática, astronomia e medicina, a agadá, serviu como fonte inesgotável de inspiração para a cultura e folclore judaicos. Em parte essa tradição de estudo deu ao povo judeu um alto nível cultural, que manteve mesmo nos momentos mais sombrios da história humana.

Os rabinos costumam dizer que para se nadar no mar do Talmud e não se afogar, é necessário saber nadar muito bem, ou seja, conhecer profundamente a Torah. O Talmud é uma imensa enciclopédia onde todos os assuntos se encontram misturados.

O pensamento judaico é oriental, totalmente diferente do pensamento grego. O judeu começa a falar de um assunto, discorre sobre diversos outros, responde a perguntas que não têm nada a ver com o tema central, e no final da conversa volta ao assunto inicial. Isso leva a teologia ocidental, acostumada à lógica aristotélica, a evitar navegar mais profundamente nas águas do Talmud. Além disso, para o leitor comum, o Talmud apresenta outra dificuldade, está escrito em três idiomas: hebraico bíblico nas citações do Tanach, hebraico da Mishná na Mishná e aramaico na Guemará. Para levar o judeu da alta Idade Média a mergulhar com mais confiança no Talmud, o exegeta Rashi (rabino Shlomo Itzhaki), ao redor do ano 1.100, na França, elaborou uma série de comentários que ainda hoje são de grande ajuda para os estudiosos modernos.

Assim, podemos definir a teologia do Talmud através do seguinte conceito: o conhecimento da idéia de Deus entre os judeus viveu uma revelação crescente. Mas na época do beit sheni o conceito de Deus era bem semelhante ao de hoje: um ser infinitamente poderoso, bom, criador dos céus e da terra, e juiz supremo dos homens. No entanto, nenhum homem pode ser julgado pelas suas ações, se dois fatores não foram levados em conta: a liberdade de escolha e a existência de uma lei que diga o que é certo e o que é errado. Para os rabinos do Talmud não adianta a pura vontade de escolher o bem. Por isso, a Torah é um presente de Deus, permitindo ao homem transformar sua boa vontade em práxis.

Acontece que a Torah, afirmam os talmudistas, apesar de sua transcendência e revelação, está histórica e culturalmente situada no momento em que foi escrita. É preciso um midrash (hermenêutica) para que seus ensinamentos e sua ética possam ser compreendidas e utilizadas pelo judeu de outras atualidades. Vejamos, agora, um exemplo da teologia do Talmud, em dois trechos de um midrash do texto de Ex 20:2.

Eu sou o Senhor teu Deus. Por que os Dez Mandamentos não foram ditos no começo da Torah? Eles fornecem uma parábola. A que isso pode ser comparado? Ao seguinte: Um rei que entrou em uma província disse ao povo: Posso ser vosso rei? Mas o povo lhe disse: Fizeste algo bom para nós para que nos governeis? Que ele fez então? Construiu-lhes a muralha da cidade, introduziu o abastecimento de água para eles, e lutou suas batalhas. Então quando ele lhes disse: Posso ser vosso rei? Eles lhe disseram: Sim, sim. Da mesma maneira, Deus. Ele trouxe os israelitas para fora do Egito, dividiu o mar para eles, fez descer o maná para eles, fez subir um poço para eles, trouxe codornas para eles. Lutou por eles a batalha com Amaleque. Então Ele lhes disse: Eu serei vosso rei. E eles Lhe disseram: Sim, sim. Rabi disse: Isto proclama a excelência de Israel. Pois, quando todos eles estavam diante do Monte Sinai para receber a Torah, todos se decidiram igualmente a aceitar o reinado de Deus alegremente. Além disso, foram garantia um para o outro. E não foi somente no que diz respeito a atos públicos de Deus, revelando-Se-lhes, desejou fazer Seu pacto com eles, mas também no que diz respeito a atos secretos, como está dito: As coisas encobertas são para o Senhor nosso Deus e as reveladas...” (Dt 29:28). Mas eles Lhe disseram: No que se refere a atos públicos, estamos prontos a fazer um pacto contigo, mas não faremos um pacto contigo com referência atos secretos, para que nenhum de nós cometa um pecado secretamente e a comunidade inteira seja considerada responsável por ele”.
(...)
“Outra interpretação: Eu sou o Senhor teu Deus. Quando o Santíssimo, louvado seja, levantou-se e disse: Eu sou o Senhor teu Deus, a terra tremeu, como está dito: “Ó Senhor, saindo Tu de Seir, caminhando Tu desde o campo de Edom, a terra estremeceu” (Jz 5:4). E continuou a dizer: “Os montes vacilaram diante do Senhor” (v.5). E também diz: “A voz do Senhor é poderosa. A voz do Senhor é cheia de majestade” (Sl 29:4) até “E no seu Templo cada um diz: Glória!” (v. 9). E até suas casas estavam plenas do esplendor da Shekiná. Naquele tempo todos os reis das nações do mundo se reuniram e vieram a Balaam, filho de Beor. Eles lhe disseram: talvez Deus esteja para destruir Seu mundo com um dilúvio. Ele lhes disse: Sois uns tolos! Há muito tempo Deus jurou a Noé que não mais traria um dilúvio sobre o mundo, como está dito: Porque isto será para mim como as águas de Noé, pois jurei que as águas de Noé não inundariam mais a terra”(Is 54:9). Então eles lhe disseram: Talvez Ele não traga um dilúvio de água, mas Ele pode trazer um dilúvio de fogo. Porém ele lhes: Ele não vem trazer um dilúvio de água nem um dilúvio de fogo. Simplesmente o Santíssimo, louvado seja, vem dar a Torá ao Seu povo. Pois está dito: “O Senhor dará força ao Seu povo...” (Sl 29:11). Logo que ouviram isto dele, todos voltaram as costas e cada um foi para o seu lugar. E assim todas as nações do mundo foram convidadas a aceitar a Torah, a fim de que não tivessem escusa para dizer: Se nos houvessem convidado, teríamos aceitado. Pois, veja, elas foram convidadas e se recusaram a aceitar a Torah. (...)”.[4]

Bibliografia Mínima Recomendada

Guinsburg, J., Do Estudo e da Oração, São Paulo, Editora Perspectiva, 1968.
Gundry, Robert H., Panorama do Novo Testamento, São Paulo, Edições Vida Nova, 1991.
Berezin, Rifka, Caminhos do Povo Judeu, vol II, São Paulo, Fed. Israelita do Est. de SP, 1988.
Scholem, Gershom, A Mística Judaica, São Paulo, Editora Perspectiva, 1972.





[1] Pirkei Avot (A Ética dos Pais), Capítulo II in J. Guinsburg, Do Estudo e da Oração, São Paulo, Editora Perspectiva, pp. 170.
[2] “Moisés recebeu a Torah do Sinai e transmitiu-a a Josué e Josué aos anciãos e os anciãos aos profetas e os profetas transmitiram-na aos homens da Grande Sinagoga. Esses disseram três coisas: ‘Sede ponderados nos vossos julgamentos, formai muitos discípulos e levantai uma cerca em volta da Torah”. Pirkei Avot (A Ética dos Pais), Capítulo Primeiro in J. Guinsburg, Do Estudo e da Oração, São Paulo, Editora Perspectiva, p. 168.
[3] “Asseverando que as leis orais remontavam ao tempo de Moisés, no Monte Sinai, os rabinos elevaram suas contraditórias interpretações do Antigo Testamento a uma posição de maior importância que o próprio Antigo Testamento”. Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento, São Paulo, Edições Vida Nova, 1991, pp. 52.
[4] Mekhilta, cap. 5, “O Senhor Teu Deus, in J. Guinsburg, Do Estudo e da Oração, São Paulo, Editora Perspectiva, pp. 194-196.