mercredi 22 août 2007

O ser humano e a cultura

Façamos o ser humano segundo a nossa imagem, semelhante a nós (Gênesis 1.26). Toda a criação de Deus é o cosmo do ser humano. Assim afirmam os dois relatos da criação e o Salmo 8. Mas em que sentido o ser humano é a imagem de Deus? Como Deus confere ao ser humano essa correspondência? A partir da antropologia bíblica podemos ver que:
[α] Em primeiro lugar o ser humano é fruto de uma intervenção de Deus. Há uma concessão de encargo que diferencia o ser humano do resto da criação. Ele é apresentado como um momento sublime, especial, como um ser que coroa toda a ação criadora de Deus (Salmo 8.6). Ele recebe responsabilidade (Gênesis 2.15-17) e poder de decisão (2.18-23).
O que significa isto? Imagem pode ser entendido como a constituição do humano como ser racional e ser moralmente responsável, e semelhança como harmonia com a vontade de Deus. Mas, no hebraico não há a partícula “e”, de modo que os termos se reforçam: imagem semelhança.
A alienação embaçou essa imagem semelhança, que pode ser restaurada pela comunhão com o Senhor. Imagem/semelhança é transcrição do eterno na existência, mas inclui algo que é comum a Deus e a nós: a liberdade de escolha.
Aqui é importante entender a relação entre alienação e consciência. Em Romanos 5.12, Paulo afirma que a hamartia entrou no cosmo pelo humano e com a hamartia a morte. Ora, hamartia era uma expressão militar dos gregos, que se referia ao ato do arqueiro errar o alvo, quer no treinamento, quer na batalha. Paulo utiliza a expressão no sentido de que a humanidade vive num estado em que errar o alvo caracteriza a existência humana. Por isso, uma tradução possível para hamartia é alienação, já que implica em distanciamento do objeto.
Errar o alvo, ou seja, a alienação, enquanto estado da existência, leva à conseqüências. Paulo privilegia uma delas, a consciência da morte. Para o apóstolo, o estado de alienação da existência produz uma consciência matricial, a consciência da morte. A partir da consciência da morte temos a consciência do divino e a consciência da diversidade, já que não somos bichos e, por extensão, não somos natureza, temos a consciência de que coisas e ações podem ser boas ou não. Dessa maneira, hamartia implica em conseqüências: necessidades diante da lei, daquilo que é ou está frente à existência e possibilidades diante da liberdade, daquilo que não existe, mas pode ser criado.
Assim, errar o alvo, no distanciamento, na alienação estão necessidades e lei e possibilidades e liberdade, que não se excluem: estão correlacionadas na existência humana, fazem parte do estado da existência.
[β] Em segundo lugar, Deus deixa claro a finalidade da decisão de criar um ser pessoal, segundo sua imagem. Tal ser deverá ter uma relação especial com o restante da criação (1.26). Deus cria e entrega ao ser humano sua criação. Este ser pessoal deverá estar sobre ela, numa relação de trabalho, produção e administração (2.15,16,19). O ser humano relaciona-se com a criação e através do uso e de suas descobertas em relação a ela, mantém uma permanente relação com Deus.
E como ele consegue isso? Através da cultura, enquanto processo social e objetivo de sujeição da natureza, e através dessa necessidade de expansão e domínio, pessoal e subjetivo, que é peculiar a todo homem e mulher livres.
Para Rubem Alves, a cultura é um jeito particular de ser gente, e por isso para falar da graça de Deus temos de responder a pergunta: quem é o ser humano? (Salmo 8:4)
Voltemos ao início. Gênesis 1:26, 27 - Também disse Deus: “Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; (...) Criou Deus, pois, o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou”. Esse texto marca uma mudança de ritmo e de forma na criação: até então Deus falava e tudo vinha à existência, na criação do ser humano temos, antecedendo-a, uma declaração de intenção e uma descrição. Façamos o ser humano...
O ser humano, imagem e semelhança de Deus, é um ser coletivo. Quando Deus chamava, Adão!, macho e fêmea se voltavam para falar com Ele. E em Gênesis 2.24, Deus instrui macho e fêmea a tornarem-se uma unidade humana, indicando que as duas pessoas deveriam formar uma unidade harmônica.
Após ter comunicado aos humanos a relação de domínio que teriam sobre o cosmo, Deus os colocou numa floresta. E por que? Porque o domínio e, por extensão, o destino humano não pode se dar pela submissão, mas pela integração, como a floresta tropical, que é o resultado de uma ecossistema integrado. O humano, então, deveria ser jardineiro, cuja responsabilidade consistiria em administrar com habilidade a floresta, sua comunidade, seu mundo.
A aproximação à cultura tem de partir de uma perspectiva positiva: a unidade na diversidade. E o primeiro sentido dessa unidade na diversidade é a contextualização da espiritualidade humana, que se expressa enquanto presença do divino nas culturas, respeitando as peculiaridades da imagem de Deus em cada grupo humano. Ou seja, a partir dessa leitura podemos a compreender as culturas e suas complexidades.
[γ] Em terceiro lugar, a imagem de Deus é traduzida na relação que mantém com as criaturas, já que é uma relação de domínio. Ele reina sobre o universo produzido pelo poder criador de Deus. Mas aqui há um detalhe sutil: este direito de domínio não lhe é próprio, ele reina enquanto imagem de Deus. Ele não é proprietário, nem tem autonomia irrestrita sobre a criação. Aqui um elemento importante é a solidariedade. Uma vez compreendida a ação de Deus no despertar da consciência de justiça, os cristãos devem envolver-se em causas pró emancipação do ser humano, tornando-se parceiros dos que estão sendo despertados para mitigar o sofrimento humano.
E se toda a criação de Deus é o mundo do ser humano, há a total desmitização da natureza. Não há astros divinos, terra divina, animais divinos. Todo o universo pode tornar-se o ambiente do ser humano, seu espaço, que ele pode adaptar às suas necessidades e administrar. E tal postura nos leva à responsabilidade ecológica. Os cristãos devem posicionar-se na luta ecológica, no sentido de mitigar o sofrimento imposto à natureza, seguindo o modelo da floresta tropical.
[δ] Mas imagem de Deus traduz abertura à transcendência. Aqui estão dados os elementos que nos permitem entender porque faz parte da humanidade o abrir-se à transcendência e viver com ela. Há um deslumbramento permanente diante do absoluto, do sobrenatural e do mistério. Estamos diante de um ser que pode pensar o que não está aqui e agora, e que pode refletir sobre o que vai além da realidade factual. E é por poder pensar tais realidades que não podem ser vistas, que o ser humano enquanto imagem de Deus pode refletir sobre a eternidade e relacionar-se com o transcendente. Assim, ao ser feito imagem de Deus, o próprio Deus transfere à humanidade a capacidade de relacionar-se com Ele.
[ε] Esse ser humano de que fala Gênesis 1.26, que é imagem de Deus, não é uma pessoa em particular, pois a continuação do texto fala que eles dominem. Assim, estamos diante da criação da humanidade e o domínio do universo não é dado a uma pessoa, mas a comunidade dos homens. Assim, ninguém pode ser excluído da autoridade de domínio dada por Deus à humanidade.
Da mesma maneira, em Gênesis 1.27 temos uma outra característica fundamental dessa mesma humanidade: ela é formada por homens e mulheres. Para alguns teólogos, como Karl Barth1, tal explicação de Gênesis 1.27b, de uma humanidade formada por dois sexos, é apresentada por Deus “quase à maneira de definição”.
Logicamente, há uma intenção para que o texto bíblico aprofunde-se em tais minúcias. É a de apresentar como o universo criado deveria ser administrado: através da convivência de seres que se completam e se amam. Ou seja, esse ser plural só poderia exercer o domínio através da comunidade, completando-se como ser humano e mulher.
Vejam, macho e fêmea os criou (Gênesis 1.27). Por acaso são duas criações? Então, formou o Senhor Deus ao ser humano do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o ser humano passou a ser alma vivente” (Gênesis 2:7).
Então, o Senhor Deus fez cair pesado sono sobre o ser humano, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o Senhor Deus tomara ao ser humano, transformou-a numa mulher e apresentou a ele (Gênesis 2:21-22). Macho e fêmea são uma criação só, pois, o barro e o sopro só aparecem uma vez. A fêmea não é uma segunda criação, é uma duplicação, onde estão realçadas características recessivas no primeiro.
Esta é a lista dos descendentes de Adão. Quando criou os seres humanos, Deus os fez parecidos com ele. Deus os criou homem e mulher, e os abençoou e lhes deu o nome de humanidade (Gênesis 5:1-2)
Duas pessoas com um mesmo nome: humano. E a mulher ganha nome diferenciado, Eva, no processo de alienação: o primeiro humano pôs na sua mulher o nome de Eva por ser ela a mãe de todos os humanos (Gênesis 3:20). E por que? Porque, como fruto da alienação, o macho cresce a partir das dependências femininas: as limitações da gravidez e do parto. E, por isso, ela não se emancipa e é subjugada por ele (Gênesis 3:16).
A verdadeira imagem
A alienação rompe com a possibilidade da humanidade ser imagem de Deus viva e eficaz. O errar o alvo é um estado da existência e o mal se faz presente como opção ao seu ato livre. Assim, o ser humano lançou-se ao domínio de seus iguais, inclusive através do derramamento de sangue; suprimiu o equilíbrio e a mútua solidariedade, humildade e amor, entre macho e fêmea; mitificou a ciência e a técnica; e lançou-se à destruição da própria natureza.
Mas Cristo é “a verdadeira imagem do Deus invisível” (Colossenses 1.15 cf. 2Co 4.4) e a Ele cabe fazer, ao nível escatológico, aquilo que à humanidade tornou-se impossível. “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra, por isso, indo, fazei discípulos em todas as nações...” (Mateus 28.18.).
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