vendredi 4 avril 2008

Os deuterocanônicos e a Igreja cristã

O que são os livros deuterocanônicos?

O termo deuterocanônico é formado pela raiz grega deutero (segundo) e canônico (que faz parte do Cânon, isto é, do conjunto de livros considerados inspirados e normativos por uma religião ou igreja). Assim, o termo é aplicado a livros e partes de livros bíblicos que só num segundo tempo foram considerados como canônicos.

Eles têm importância teológica?
O adjetivo deuterocanônico é aplicado a um número de textos pelos cristãos que consideram que tais textos são inspirados e fazem parte integrante da Bíblia. Sendo também a terminologia teológica aplicada a esse conjunto de livros.

O fato de setores do cristianismo não os considerarem inspirados, não caracteriza a desvalorização desses livros, pois são considerados patrimônios históricos da fé: refletem e fizeram parte das crenças cristãs ao longo da História, sendo portanto de grande valor literário e religioso. Lutero reconheceu a importância dos mesmos para a formação cristã e incluiu na sua tradução da Bíblia para o alemão estes livros como apêndice. Além da Igreja católica apostólica romana, outras igrejas utilizam-se dos livros deuterocanónicos em suas Bíblias, como as Igrejas ortodoxas (copta, siríaca, grega e russa), anglicana e maronita.

Quais são os livros deuterocanônicos
São deuterocanônicos os seguintes livros bíblicos: Tobias, Judite, I e II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, também chamado Ben Sirah, e Baruque. Fora os livros deuterocanônicos podemos também encontrar fragmentos deuterocanônicos dentro de livros canônicos como: adições em Ester e adições em Daniel nomeadamente os episódios da Casta Susana e de Bel e o dragão.

A origem dos deuterocanônicos
Os livros deuterocanônicos foram escritos no período intertestamentário, época que segundo os Evangelhos a revelação do Antigo Testamento ainda se fazia presente, culminando com João Batista (cf. Mt 11.12; Lc 16.16).

Os textos deuterocanônicos, acima citados, chegaram até nós apenas em grego (alguns escritos originalmente nessa língua, outros traduzidos de versão hebraica que se perdeu), fazendo parte da chamada Bíblia dos Setenta, ou Septuaginta, a tradução da Bíblia em grego, feita por volta do século III a.C, para uso dos judeus da diáspora, e adoptada pelos cristãos desde o início como seu texto bíblico de referência. Tais textos não se encontram, pois, na Bíblia hebraica ou Tanach.

Num famoso encontro de rabinos judeus, o chamado Concílio de Jâmnia, realizado nos finais do século I d.C, destinado a procurar um rumo para o judaísmo, após a destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C, os participantes decidiram considerar como textos canônicos do judaísmo apenas os que existiam em língua hebraica e que remontassem ao tempo do profeta Esdras.

A crítica moderna considera que alguns livros do cânon judaico são posteriores ao tempo de Esdras, como é o caso do Livro de Daniel, e que os fariseus não dispunham de condições científicas para datar com precisao um texto, e nem mesmo para atribuir a ela um autor. De qualquer forma, os critérios por eles adotados excluíram os livros deuterocanônicos do cânon judaico.

O uso dos deuterocanônicos pela Igreja
Estes livros já eram conhecidos pelos cristãos, que os citavam e utilizavam. Encontramos citações nas obras de Ireneu, Justino, Agostinho, Jerônimo, Basílio Magno e Ambrósio. Assim, foram considerados inspirados por Ireneu, Justino, Agostinho, Cirilo e Cipriano. Outros, porém, os consideraram eclesiásticos: não canônicos, porém não contrários à fé. Foi o caso de Melitão, Rufino e Atanásio.

Jerônimo inicialmente negou a canonicidade dos deuterocanônicos. Porém, os estudiosos encontraram uma mudança posterior de sua opinião em suas cartas escritas a Rufino e a Paulino, bispo de Nola. Embora existisse discordância nas opiniões dos Pais da Igreja, esta discordância não influenciou o parecer comum da Igreja dos primeiros séculos. Nenhum concílio da Igreja dos primeiros séculos recusou a canonicidade destes livros. Ao contrário, foram declarados canônicos nos concílios regionais de Roma (382 d.C, dando origem ao cânon Damaseno), Hipona I (cânon 36, 393 d.C), Cartago III (cânon 47, 397 d.C), IV (cânon 24, 417 d.C), Trullo (cânon 2, 692). Um documento conhecido como decreto Gelasiano (496 d.C) também apresenta a canonicidade dos deuterocanônicos.

A aceitação comum dos deuterocanônicos como livros inspirados pode ser constatada nas primeiras versões da Bíblia, como a Vetus Latina e a Vulgata. No Oriente, a Septuaginta foi adotada como a versão oficial do Antigo Testamento.

Como a história registra, os deuterocanônicos faziam parte da vida dos judeus através da tradução grega chamada Septuaginta ou Tradução dos Setenta (LXX). A primeira tradução da Bíblia para o latim, conhecida como Vetus Latina continha os deuterocanônicos do AT. E na Vulgata, tradução empreendida por Jerônimo no século IV, estavam presentes os deuterocanônicos do AT. A primeira Bíblia impressa da história, conhecida como a Bíblia de Gutenberg, também continha os livros deuterocanônicos do AT. E nas primeiras versões protestantes, como a KJV (King James Version), os deuterocanônicos também estavam presentes. Um exemplo é a versão original da KJV de 1611.

A oposição aos deuterocanônicos
No início do séc. XV, um grupo dissidente da Igreja copta (também chamados de monofisistas), conhecidos como jacobitas questionaram o Cânon Alexandrino entre outras coisas. Em 1441, O Concílio Ecumênico de Florença, através da Bula Cantate Domino (4/2/1442) reafirmou o caráter canônico do Cânon Alexandrino.

Com a Reforma protestante, Lutero questionou o caráter canônico dos deuterocanônicos negando inclusive seu caráter eclesiástico, pois para ele estes livros nada acrescentavam à fé, mas os incluiu na sua tradução da Bíblia para o alemão, colocando-os como apêndice. Em 1545, foi convocado o Concílio de Trento, que reafirmou o caráter canônico do Cânon Alexandrino.

No início não houve consenso entre os protestante sobre o Cânon do AT. O Rei Jaime I da Inglaterra, responsável pela famosa tradução KJV (King James Version), defendia que os deuterocanônicos deveriam continuar constando nas bíblias protestantes. Praticamente na mesma época surgiu uma tradução conhecida como Bíblia de Genebra, que definiu os deuterocanônicos como apócrifos.

Somente após a "Confissão de fé de Westminster" (séc. XVII), os protestantes ingleses influenciados pelo calvinismo e puritanismo removeram das suas listas os livros deuterocanônicos, passando a adotar como lista de composição do AT o Cânon Hebraico conforme instituído no Concilio de Jâmnia. Princípios desta confissão foram espalhando-se por várias denominações e seu conteúdo funcionou como resposta ao concílio de Trento.

Atualmente, evangélicos têm denominado esse livros de apócrifos, por considerarem que neles existem erros geográficos e que não há provas de fatos narrados nesses livros, abdicando da utilização dos mesmos nas suas igrejas.

Existem deuterocanônicos no Novo Testamento?
É importante dizer que, segundo exegetas, também no NT existem livros deuterocanônicos. Seriam eles Tiago, Hebreus, Apocalipse, 2 Pedro e 2 e 3 João que tiveram sua canonicidade contestada.

Lutero não considerou canônicos Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse, que na sua tradução da Bíblia para o alemão deixou-os num apêndice sem numeração de páginas. Mas os demais reformadores aceitaram a tradição cristã, já que esses livros eram utilizados nas comunidades, e eles foram definitivamente incluídos no Novo Testamento.

Bibliografia
BITTENCOURT, Benedito P., O Novo Testamento, Cânon, Língua, Texto. São Paulo: Aste, 1965
LIMA, Alessandro. O Cânon Bíblico, A Origem da Lista dos Livros Sagrados. São José dos Campos. SP: Editora COMDEUS, 2007.
LIVROS DEUTEROCANÔNICOS, Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Deuterocan%C3%B4nico
PASQUERO, Fedele. O Mundo da Bíblia, vv.aa. São Paulo: Paulinas, 1986.
ROST, Leonard. Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudo-Epígrafos do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1980.
SHELLEY, Bruce L., História do Cristianismo ao alcance de todos: uma narrativa do desenvolvimento da Igreja Cristã através dos séculos. São Paulo: Editora Shedd, 2004.
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