vendredi 22 août 2008

A Teologia da Libertação Negra ganha relevo na política americana

Fernando Lugo, Rafael Correa, e mesmo Lula, considerando-se a forte militância petista das pastorais sociais, ascenderam ao poder na América Latina inspirados pela Teologia da Libertação. Nos EUA, Barack Obama coloca em relevo a Teologia da Libertação Negra. O candidato democrata à presidência dos Estados Unidos foi formado pela Trinity United Church of Christ [Igreja Unida da Trindade de Cristo], a maior igreja dentro da denominação protestante de maioria branca United Church of Christ, conhecida por ser uma das mais liberais do país e inspirada na Teologia da Libertação Negra.

Recentemente, Obama rompeu com o reverendo Jeremiah Wright, considerado o seu mentor espiritual. Jeremiah Wright, recém-aposentado da Igreja, afirmou que os Estados Unidos foram alvo de terrorismo porque têm um governo terrorista. O pastor, em função de sua postura contundente, passou a criar problemas para Obama, e o candidato democrata preferiu se afastar.

Porém, Obama nunca negou a influência do reverendo negro em sua vida política. Em seu livro autobiográfico A origem dos meus sonhos (Editora Gente, 2008), Obama fala da influência em sua vida religiosa do pastor Jeremiah Wright, líder espiritual da Trinity United Church of Christ de Chicago: “Filho de um ministro batista [que] resistiu à vocação paterna no começo, se alistou nos marines ao sair do college, e flertou com a bebida, o islã e o nacionalismo negro nos anos 60 (...) onde aprendeu hebreu e grego, leu Tillich e Niebuhr e os teólogos da libertação negros”.

Num segundo livro, A audácia da esperança: reflexões sobre a reconquista do sonho americano (Editora Larousse do Brasil, 2007), livro mais recente e já rompido com o reverendo Jeremiah Wright, Obama reconhece que o título do livro é uma frase tirada de um dos sermões do pastor Jeremiah Wright e que o mesmo representa “o melhor do espírito americano”. Antes de cunhar seu Yes we can (Sim, nós podemos), o lema político de Obama era audacity of hope (audácia da esperança), algo semelhante ao ‘Sem medo de ser feliz’ da campanha de Lula de 1989.

Sobre a sua relação com Obama, o pastor Jeremiah Wright disse: “Os oponentes de Obama exploram trechos dos meus sermões como arma política para amedrontar eleitores contra a candidatura de um negro. Meus sermões fazem parte de uma longa tradição de pregadores da igreja negra nos EUA. A igreja negra americana surgiu da opressão da população negra escrava e por isto meus sermões refletem sobre os séculos de discriminação, falam da libertação negra, numa tradição política e religiosa que é muito distinta da tradição européia. Diferente, mas não inferior”.

O reverendo Jeremiah Wright, que inspirou Obama para o mundo da política, é um dos principais representantes da denominada teologia da libertação negra. O pastor costuma afirmar: “Venho de uma tradição religiosa onde gritamos na igreja e nos manifestamos no piquete de greve”.

Jeremiah Wright teve como um dos seus professores de teologia James Cone, considerado o principal teólogo da teologia da libertação negra. De acordo com o jornalista e escritor Eileen Markey, o reverendo James Cone foi o criador da teologia negra e seu primeiro proponente ao publicar a obra Black Theology and Black Power [Teologia negra e poder negro] em 1969. Considerado o pai da teologia da libertação negra, Cone é o professor de Teologia de Charles A. Briggs no Seminário de União Teológica em Nova York e ainda uma referência nessa teologia. Segundo, Eileen Markey “em seu segundo livro, A Black Theology of Libération [Uma teologia negra de libertação], ele escreveu que o Deus da Bíblia esteve bem mais preocupado com ‘a falta de justiça social, econômica e política para com aqueles que são pobres e indesejados na sociedade’. Cone argumentou que este Deus trabalha pela libertação dos negros oprimidos na América contemporânea. Porque Deus está ajudando os negros oprimidos e é identificado com eles, o próprio Deus é apresentado como negro”.

Eileen Markey destaca que “as origens da teologia da libertação negra são políticas e intensamente temporais, como a teologia da libertação de Gustavo Gutiérrez, a qual inspirou as comunidades cristãs de base da Guatemala e de El Salvador e condenou a opressão econômica e política do povo da América Latina. Ambas as teologias permitem que Cristo escape da segurança da igreja. Como no Novo Testamento, ele está profundamente preocupado com a justiça para com o oprimido”.

Na análise do jornalista Eileen Markey, M. Shawn Copeland, professor de teologia no Boston College, considera a teologia da libertação negra como uma das maiores teologias – ou formas de estudar Deus – que se desenvolveu ao longo dos movimentos sociais e políticos das últimas quatro décadas: “A teologia negra se desenvolveu a partir do fermento político dos movimentos de direitos civis e de poder negro. Ela responde ao colapso do pensamento desta época. As velhas concepções já não são mais adequadas à situação”.

A teologia negra da libertação ganha força na esteira dos assassinatos de Martin Luther King Jr. e Malcolm X: “As pessoas estavam em busca de uma forma de apelar para a Bíblia e tomar parte nas questões contemporâneas, como o Poder Negro e os direitos civis”, afirma o reverendo James Cone.

A teologia da libertação negra se expandiu como “uma crítica das dinâmicas, pelas quais as estruturas de raça, classe e gênero reduzem a plenitude da vida para aquelas pessoas que descobrem não fazerem parte da cultura dominante”, afirma Jamie Phelps, professor de teologia e diretor do Instituto de Estudos Católicos Negros na Universidade Xavier de Nova Orleans, citado na análise de Eileen Markey. Em outras palavras, “em face da extensão pela qual raça, classe e gênero agem para negar aos pobres, às mulheres e às pessoas de cor o pleno reconhecimento de sua identidade como seres humanos feitos à imagem e semelhança de Deus e para negar sua plena dignidade humana e participação, como sujeitos, dentro da sociedade e da igreja, portanto, em face desta extensão nós precisamos falar sobre libertação”, diz Jamie Phelps.

É dessa vertente religiosa que vem Barack Obama. A religião sempre fez parte da política americana, é comum os candidatos encerrarem os seus discursos políticos com um “Deus abençoe a América”. Ainda que conste da Constituição americana uma rigorosa separação entre o Estado e a Igreja, as religiões fazem parte do cotidiano da política americana. Bush construiu parte de sua base de poder explorando o “voto religioso” a partir de uma agenda neoconservadora.

Os norte-americanos podem imaginar um negro ou uma mulher como candidatos à Presidência do seu país, mas não um ateu”, afirma o jornalista Bernardo Carvalho acerca da importância da religião para os americanos. Em sua ascensão meteórica rumo ao centro da política americana Obama abandonou o seu passado agnóstico e associou-se à Trinity United Church of Christ. A Trinity, conhecida por pregar a teologia da libertação negra reivindica elementos das tradições africanas o que está em sintonia com a origem paterna de Obama, uma vez que seu pai nasceu no Quênia.

O jornalista Bernardo Carvalho relata a visita que fez à Igreja de Barack Obama: “São quase 11h e a Trinity United Church of Christ, no South Side de Chicago, está cercada por vans e câmeras das principais redes de TV americanas desde as 8h. É o primeiro domingo em que o novo pastor, o reverendo Otis Moss empossado em fevereiro, ocupará a cadeira antes reservada a Wright. No centro da igreja, vestido com túnica branca com pregas coloridas, que combinam com os motivos africanos dos trajes dos pastores associados ao redor, Moss finalmente se refere ao trauma, lendo uma Declaração de Interdependência, na qual presta homenagem ao pastor Wright, sem mencioná-lo pelo nome.

Nada é direto. Moss já não se refere à ‘crucificação do reverendo Wright’. O texto cita Entre Quatro Paredes, de Sartre, para falar da ‘estranha tragicomédia grega’ em que a comunidade da Trinity se viu envolvida nos últimos meses. ‘Somos um povo humilhado, e as feridas do nosso encontro com a história deixaram cicatrizes na nossa alma. A Bíblia é clara: somos pressionados por todos os lados, mas não fomos destruídos!’

É essa declaração de resistência e superação, ao mesmo tempo em que agradecem ao Senhor com uma celebração de êxtase coletivo, que dá o tom trágico, desesperado e heróico do culto. Aqui, Deus foi transformado em estratégia de luta e mobilização social. Enquanto as outras igrejas pregam a obediência, a Trinity aprendeu a fazer o elogio da rebeldia, em reação à segregação.

Daí a catástrofe de constatarem o óbvio e o irreversível: que Obama só tinha alguma chance de se eleger presidente de um país como os EUA depois de se desvencilhar do reverendo Wright e de sua igreja. A igreja inteira canta e dança sem parar, ao som de spirituals, freedom songs, folk e até jazz, por quase três horas seguidas. O mezanino sacode. A igreja parece vir abaixo, os pastores pingam de suor, as pessoas dançam, cantam e batem palmas. Mulheres tremem na platéia, numa espécie de transe, e são reconfortadas por vizinhos e vizinhas. Agradecem ao Senhor e choram.

A incorporação de formas do misticismo africano como modo de resgate cultural das origens é deliberada e bem-vinda, ao contrário das congregações negras mais conservadoras, como a evangélica The Potter's House, em Dallas, no Texas, a maior igreja negra dos EUA. No South Side de Chicago, o reverendo Moss termina seu sermão de domingo invocando grandes homens que permaneceram à sombra da história, às margens da grandeza, sempre fiéis a sua visão.

É difícil não ver aí uma referência à própria relação entre o reverendo Wright e Barack Obama. Uma referência que traduz a visão da igreja: a tragicomédia de um pai espiritual que, por sua radicalidade inconveniente, é obrigado a se recolher à sombra para que o filho possa vencer num mundo injusto”, conclui o relato Bernardo Carvalho.

O rompimento de Obama com o reverendo Jeremiah Wright é explicado por Dwight Hopkins, especialista em teologia negra e teologia da libertação negra da Universidade de Chicago. Segundo o teólogo, “a maior parte da mídia norte-americana não tem conhecimento suficiente sobre a igreja negra nos EUA e sua imbricação com a política”.

Dwight Hopkins, referindo-se a Obama e ao reverendo Dwight Hopkins, explica que o problema são as biografias: “Os dois homens têm duas histórias de vida, experiências e personalidades diferentes. O pai de Obama era da África, sua mãe, uma mulher branca de Kansas. Os dois se encontraram no Havaí, que é um dos lugares mais multiculturais, multiétnicos e multirreligiosos dos EUA. É nesse ambiente que Obama cresceu. Sua opinião sobre o que os americanos são é baseada em interações multiculturais, esperança de pessoas vivendo juntas. Já Wright é um pastor de terceira geração, que cresceu ouvindo falar de escravidão, dos 40 acres e uma mula que foram prometidos aos negros libertos. Cresceu na parte negra da Filadélfia na época do assassinato de Martin Luther King, da ascensão dos Panteras Negras, trabalhou na campanha pela eleição do primeiro prefeito negro de uma cidade grande nos EUA. Ele vê o país não pelo que o país pode ser, mas pelo que viveu. Eles vêem dois países diferentes”.

Segundo Dwight Hopkins, Obama representa uma nova geração de líderes negros, multiculturais e birraciais. “O DNA deles é diferente do dos líderes negros de velha guarda como Wright acha que todo negro que disputa um cargo público tem de basear seu programa na plataforma negra, enquanto Obama acha que o caminho é pensar nos problemas gerais da população americana, entre eles a desigualdade racial”.

Enfim, em plena contemporaneidade, quando se pensava que Deus estava morto, ou pelo menos, empurrado para o seu cantinho, ele ressuscita. Ressurreição de Deus é o título de uma grande reportagem publicada, recentemente, pelo jornal argentino Clarín. Por sua vez, o espanhol e secularizado jornal El País intitulava a reportagem sobre o 'boom' de livros religiosos na cada vez mais laica Espanha: "Somos secularizados mas nos interessamos por Deus".

Fonte
Conjuntura da Semana. Notícias do Dia do IHU de 13-19 de agosto de 2008.
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