lundi 17 novembre 2008

A Teologia sob a ótica das Ciências da Religião

Elementos para a discussão, a partir de Deus é Brasileiro
Prof. Dr. Jorge Pinheiro

A religião cristã desde seus primórdios se dividiu em correntes a partir de diferentes leituras dogmáticas, o que tem repercutido nas abordagens das ciências da religião, em especial da filosofia da religião. O questionamento do pensamento de expoentes dogmáticos obriga o pesquisador da religião a examinar, já que tais dogmáticas abrigam preocupações éticas e normativas, seus fundamentos teológicos, a fim de estudar suas coerências internas para que possam, de fato, repercutir nas ciências da religião. Nesse sentido, nossas análises das teologias visam nos remeter à filosofia da religião, sem as preocupações pertinentes às teologias propriamente ditas.

Quando o pesquisador da religião analisa a compreensão cristã do ser humano confronta-se com duas áreas de conhecimento: a antropologia e a teologia. A antropologia pode ser pensada como a história natural do seres humanos e os estuda em suas relações enquanto produtores de cultura: costumes, ideologia e bens. Já a teologia pode ser entendida como o conhecimento sistematizado do que é visto como eterno, mas que brota no mundo do condicionado.

Um sistema teológico deveria responder à necessidade de afirmação da mensagem cristã e à interpretação dessa mensagem para cada geração. A teologia seria, então, a interpretação metodológica dos conteúdos da fé e teria um lugar no conhecimento, por lidar com um objeto especial e empregar um método especial. Tal compreensão da teologia coloca o teólogo sob a urgência de prestar contas da forma como relaciona a teologia com outras expressões do conhecimento, devendo, dessa maneira, responder a duas questões: qual é a relação da teologia com as ciências e qual é a sua relação com a filosofia?

O teólogo sempre se depara com a questão de quem é o ser humano, pois a reflexão sobre o transcendente leva-o a pensar sobre que ser é este humano. E se o transcendente revela-se aos humanos vem a pergunta: quem é este ser a quem o transcendente se revela? E a conclusão é que toda teologia necessita ter um caráter antropológico. Em outras palavras, a reflexão sobre o transcendente exige uma compreensão antropológica do discurso teológico. Ora, isso interessa ao pesquisador da religião, pois se, a partir da teologia, o teólogo pode justificar seu interesse antropológico, será que o inverso é verdadeiro? Será que a partir da antropologia é possível chegar à teologia? São os diferentes questionamentos e as diferentes respostas que surgem da pergunta, que nos interessam como pesquisador da religião.

E nos interessa, em especial, a afirmação de que o ser humano está aberto à transcendência. Ou seja, faria parte do humano a busca do transcendente, que seria uma abertura, um tropismo. Mas até onde essa abertura poderia levar? A resposta a esta questão gira ao redor do alcance da liberdade humana.

A questão da autonomia

A polaridade comunhão/ alienação dá-se a construção da história, ou seja, as pessoas e as comunidades humanas interagem, por opção ou por omissão, na construção de sua história. O transcendente seria soberano porque criara e mantém o universo, sustentando-o na universalidade do Espírito. A soberania especial estaria somente sobre a comunidade que permanece na escolha. As outras comunidades estariam fora desta soberania especial, da graça que gera comunhão plena, exatamente porque usaram a liberdade para escolher a alienação. E quanto maior é a alienação, mais o transcendente retrai sua soberania sobre elas, a graça que gera comunhão plena, o que explica o mal enquanto feituras pessoal e social humanas. E para que o processo histórico se dê, o transcendente contrai espaço-temporalmente sua justiça executora. Por paixão ao ser humano, ele contrai a ação de seu conhecimento.

Caso o transcendente, a partir de seu conhecimento, definisse todas as ações livres, as pessoas e as sociedades poderiam fazer apenas aquilo que o transcendente por conhecer definisse, sem poderem tomar decisões alienadas, sem poderem se afastar dele. Assim, o transcendente dirige o seu fazer, mas interage com as pessoas e as comunidades humanas na produção da história, enquanto obra que nasce da correlação liberdade/comunhão e liberdade/alienação.

A polaridade comunhão/alienação não apresenta o ser humano como bom ou mal, mas como ser que age a partir dessa polaridade. Isso fica claro no diálogo que o transcendente tem com Caim, quando diz que ele está inclinado para o mal, mas deve dominá-lo. Essa conversa apresenta um padrão humano, a tendência à alienação. Assim podemos ler Gênesis 6.5, 8.21 e Deuteronômio 31.21. É interessante que nenhum desses textos fala do ser humano como essencialmente corrupto, mas inclinado à alienação. A própria palavra yetzer, que vem da raiz yzr, utilizada quando as Escrituras hebraicas falam de inclinação maligna, significa moldar, propor-se. A idéia é que o ser humano é dirigido por suas inclinações, imaginações, sejam elas boas ou más. É yetzer que, combinado ao julgamento livre no âmbito da existência, possibilita o arrependimento.

Diz Deuteronômio, o transcendente coloca diante do ser humano a possibilidade do bem e a possibilidade do mal. Os seres humanos terão comunhão se obedecerem aos mandamentos do Senhor e serão alienados se desobedecerem aos mandamentos do Senhor (11.16-28). Assim, só o transcendente apaixonado é capaz de fazer com que exista a liberdade humana e mantê-la. Essa graça, oriunda do transcendente e derramada sobre a humanidade, possibilita a construção da história.

Amor, história e Reino

Na dialética do amor realiza-se a vida. O amor é o movimento da vida. A vida em sua essência também é dialética. É una em sua essência, mas divide-se na multiplicidade dos seres para, finalmente, reencontrar-se na unidade.

No Reino de Deus o que é comum a todos é a vida em Deus. Este não é um caráter comum expresso em conceito, mas é amor, um viver que une os crentes, um sentimento no qual todas as oposições, quer inimizades, quer direitos, ou ainda aquelas unidades que subsistem como oposições, são anuladas.

Os três momentos da dialética de Hegel: a concepção da realidade uma, as realidades separadas e a realidade outra vez unificada. Toda a realidade é somente uma, o mundo é somente um, a humanidade também. A realidade é uma, mas está separada: o que é e o que não-é estão juntos, a realidade unificada. Para o jovem Hegel, a espiritualidade reconcilia a reflexão e o amor, unindo-os no pensamento. A vida espiritual, que é a vida do amor, realiza a exigência da filosofia cristã de reconciliar as oposições do finito e infinito. Ou seja, Hegel substitui espiritualidade por cristianismo. O cristianismo reconcilia a reflexão e o amor unindo-os no pensamento, ou na percepção, usando a linguagem de Paulo. O objetivo racional de Hegel é sempre a reconciliação dos contrários: o cristianismo privatizado e o cristianismo social, liberdade e necessidade, finito e infinito. Já maduro Hegel definiria a tarefa do conhecimento como a construção do absoluto pela consciência, que superando oposições produz o processo dialético.

O finito não pode ser pensado sem pensar o infinito, pois não é um conceito isolado e sem conteúdo próprio. O finito consiste em ser um momento do infinito. O finito é atingido pela negação, mas não é simples negação, uma vez que é limitado por outro que não é ele mesmo. Ou seja, o finito é uma negação do infinito, no sentido que é uma particularidade, um momento, uma determinação. Sempre que se determina, se nega. Por exemplo, se numa sala de aula, um professor chama um aluno pelo nome, naquele momento ele está negando todos os demais alunos e determinando um único apenas.

Devemos negar a negação e afirmar que o finito é mais que o finito, ou seja, que é o momento da vida do infinito. O processo que resolve a oposição é o processo dialético: finito e infinito não são dois mundos separados. Sempre que se tem o final do processo se tem a identidade, porque contém todas as diferenças. O conhecimento para Hegel é um processo que nunca se dá no início, mas no final, por isso o conhecimento é sempre histórico.

Para Ritschl, a religião é fruto da necessidade social que o ser humano tem do transcendente. E foi a partir de seu interesse científico pela história que construiu seu pensamento filosófico. Entre 1870 e 1874, publicou sua principal obra, em três volumes: A doutrina cristã da justificação e reconciliação.

Em toda a religião o que se busca, com a ajuda do poder espiritual sobre-humano ao qual o homem rende culto, é uma solução da condição na qual o homem se encontra por ser por um lado parte da natureza e por outro uma personalidade espiritual que pretende dominar a natureza”.

Comentando Troeltsch, Mendonça afirma que o protestantismo de hoje não é mais o de Lutero e Calvino, pois a cultura eclesiástica medieval deu lugar à moderna cultura européia/ americana, conforme conceito utilizado por Troeltsch. O novo protestantismo perdera de vista a idéia de uma total cultura eclesiástica.

Reconheceu como se fossem princípios genuinamente protestantes o fenômeno da crítica histórico-filosófica, a formação de comunidades eclesiásticas livres do estado e a doutrina da revelação baseada na iluminação e convicção pessoal íntima. O velho protestantismo condenava tudo isto como naturalismo, fanatismo ou entusiasmo sectarista”.

As rupturas com a metafísica da ortodoxia protestante, aliada ao processo de secularização do mundo ocidental, consolidaram a leitura social do cristianismo, que confrontava a fé com o seu ambiente social, econômico e político. Esse cristianismo procurou compreender os desafios da contemporaneidade, e propôs o combate pela realização do Reino de Deus, a reflexão filosófica cristã voltada às questões sociais e a luta contra as injustiças.

Quando se fala de Reino de Deus fala-se de leituras filosóficas que procuram analisar a influência do meio social sobre o universo religioso e a formação espiritual do ser humano. E que consideram a espiritualidade afetivo/existencial e a espiritualidade histórico/social faces de um mesmo Reino de Deus. As filosofias do Reino de Deus inscrevem-se, dessa maneira, numa perspectiva de correlação e possibilitam uma reflexão que fornece instrumentos teóricos para alimentar as lutas contra a injustiça, para criar novas formas de relações existenciais e sociais e para dar dignidade aos brasileiros ali onde são excluídos e segregados.

Notas
Paul Tillich, Teologia Sistemática, São Leopoldo/ São Paulo, Sinodal/ Paulinas, 1984, pp. 13, 22, 25.
Wolfhart Pannenberg, “Nossa vida está nas mãos de O transcendente”, Fé e Realidade, São Paulo, Fonte Editorial, 2004, pp. 13-20.
Jürgen Moltmann, Trindade e Reino, de O transcendente, uma contribuição para a teologia, Petrópolis, Editora Vozes, 2000, p. 221.
George Wilhelm Friedrich Hegel, “The Religious Teaching of Jesus”, in Early Theological Writings, idem, op. cit., p. 278.
Albrecht Ritschl, The Christian Doctrine of Justification and Reconciliation, Nova York/ Edimburgo, Scribner´s Sons/ T&T Clark, 1900, p. 199.
Antonio Gouvêa Mendonça, Protestantes, pentecostais e ecumênicos, o campo religioso e seus personagens, São Bernando do Campo, UMESP, 1997, p. 115.
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