vendredi 12 décembre 2008

Versus - Páginas da Utopia

Versus - Páginas da Utopia

Luto pelo Maio francês

Jorge Pinheiro em debate público (foto de Rosa Gauditano).

Quando em 1968, em Paris e outras cidades do mundo,
a juventude começou a gritar mais forte,
as esperanças ganharam as ruas em movimento.


Por Jorge Pinheiro • Versus 19 • março de 1978

1968. Ruptura. Desequilíbrio. Rebelião. Ano zero de um novo ciclo de Kondratiev, possivelmente mais 30 anos de crise permanente do sistema.

Mas, é impossível entender 1968 sem olhar, ainda que de relance, para a acumulação que se deu nos sete primeiros anos da década de 60. A luta dos negros norte americanos pela igualdade e, posteriormente, com a desesperada guerra do Vietnã, o aparecimento do Poder Negro (1966); o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, a crise dos mísseis e o pó da derrota no Vietnã, o cisma estalinista, a revolução cultural (1966–1968) e o aparecimento de Dubcek com esperança-de-um-novo.... caminho na Tcheco Eslováquia; setores latino–americanos de armas na mão querendo seguir o caminho do Che, as guerrilhas camponesas peruanas, o fracasso da experiência janguista e o surgimento de novas ditaduras. A crise do dólar, a Guerra dos Seis Dias...

1968 foi síntese. Foi um momento que se abriu para outros momentos. E, por isso, não pode ser olhado como passado, mas como presente que se recria, que adquire outras formas, mas continua colocando a mesma questão essencial: que tipo de sociedade nós queremos verdadeiramente?

O historiador político, o socialista Jacques Julliard, na época, colocava uma interrogação que de fato sintetiza todo o pensamento contestatório de 68: não necessita a esquerda encontrar urgentemente uma nova saída, que não seja o parlamentarismo que se mostrou impotente, e que não seja a ditadura burocrática, que se mostrou totalitária? E o próprio Julliard responde: temos que procurar um novo sistema de representação popular.

A preocupação de Julliard era procedente – 1968 significou de fato uma negação. A juventude descobria que estava à margem do sistema, o mercado de trabalho não se expandia, e suas reivindicações não eram ouvidas. Os tchecos negavam o estalinismo. Na América Latina negava-se a ditadura.

Mas todas estas negações tinham algo em comum, eram apenas a primeira negação hegeliana. A superação dela, a outra negação, perdeu-se no movimento. Por isso, 1968, de conjunto, revestiu-se de um caráter bakuniniano, com quase todas as suas características: por um lado, romântico, mas desesperado e sem saída. No entanto, como síntese dos anos 60, 1968 não é um fim, mas abre novos caminhos, que vai acumulando determinações. E é por isso que, dez anos depois, nós dizemos: não há lugar na história para aqueles que se contentam com o título de “velhos combatentes”, que vivem na nostalgia e da nostalgia. Estes não entenderam o que foi 1968. E, sem dúvida, continuam formulando a questão como Julliard, esquecendo que a preocupação está correta, o questionamento em si é formal.

A estratégia não elimina as táticas. A crítica do stalinismo não elimina o socialismo, assim como – à inversa – a crítica da sociedade capitalista não elimina os recursos do parlamentarismo. E embora isso seja de difícil compreensão para alguns, é exatamente o grande salto que começamos a dar dez anos depois. O surgimento do Partido Socialista pode ser, no Brasil, a estrutura que mantém o movimento. Ou, como dizia Leon Bronstein, “sem organização dirigente a energia das massas se volatiliza como o vapor que não está comprimido num cilindro a pistão. Se o movimento não surge nem do cilindro, nem do pistão, não é mais que vapor...”

Assim, de 1968 nos fica um comentário, dialético sem dúvida, de Aragon, o espanhol. Nas ruas. Em maio.

“O mois des floraisons, mois des métamorphoses
Mai qui fut sans nuages et juin poignarde
Je n´oublierai jamais les lilas e les roses
Ni ceux que ce printemps dans ses plis a gardés”.

“Oh mês do florescimento, mês das metamorfoses /
Maio sem nuvens e junho apunhalado/
Não esquecerei jamais os lilases e as rosas/
Nem aqueles que a primavera abrigou em suas copas”.