jeudi 29 octobre 2009

Via Política entrevista Jorge Pinheiro

Jorge Pinheiro, teólogo, professor e jornalista, lança Teologia da
Vida, seu novo livro. Modernidade, globalização, racionalidade e
transcendência surgem na forma de crônicas escritas durante os últimos seis
anos. Aqui, ele fala com Via Política e com nossos leitores.

Via Política - Jorge, por que uma teologia da vida?
Jorge Pinheiro - A teologia faz parte da minha vida. Eu a vivo como
estudioso e pesquisador, como alguém que multiplica com outros a paixão pela
vida. Mas, também como pessoa construída na cultura judaico-cristã, que vê
nos detalhes do cotidiano e no passageiro a presença matizada ou direta da
transcendência. Quando falo de teologia da vida, em termos acadêmicos, e
faço correlações com o jovem século XXI, com a alta-modernidade e a
globalização, entendo que nosso pensamento lógico fere as liberdades das
pessoas e se levanta como inimigo das comunidades críticas e participativas.

P - Mas como falar contra a racionalidade moderna, se ela construiu
esse mundo?
R - Bem, o racionalismo como está aí corrói as forças da vida e
transforma tudo em objetos de cálculo e controle, inclusive o próprio ser
humano. E o humanismo, tão caro a todos nós, se secularizou e passou a
separar as pessoas e o mundo da fonte criativa e do mistério da existência.
Ou seja, o pensamento racionalizado e o humanismo secularizado construíram
esse mundo tecnobiológico, desumano, sem alma, que está aí.

P - Mas, e como seria esta teologia da vida?
R - A teologia da vida, apoiada no pensamento crítico e na arte,
contesta a auto-alienação de vida. Percebe a estrutura sociológica da
sociedade, a dinâmica das pessoas nas modernidades, o caráter paradoxal da
espiritualidade e as raízes do conhecimento existencial. E a partir daí
procura enriquecer a teologia com a interpretação da própria existência e
criar instrumentos intelectuais para a revolução do pensamento.

P - E qual é a base filosófica do caminho que a teologia da vida
procura traçar?
R - Não vou entrar em detalhes, mas citar pensadores que de alguma
forma foram colocando parâmetros para a construção dessa teologia. Podemos
falar de Schelling, para quem a existência era experiência pessoal; de
Kierkegaard, que falou da experiência imediata em face da eternidade e da
fé; de Feuerbach e da experiência humana em sua existência sensorial.

Mas, essa teologia da vida deve passar por Marx, onde a experiência
humana determinada socialmente, no contexto da classe social, é lida em
termos de teoria sócio-econômica. E não podemos esquecer Nietzsche, com a
experiência do humano determinado biologicamente, concretizado em vontade de
poder. Pensaria também em Bergson e na experiência da vitalidade dinâmica,
na existência criativa e temporal, e em Heidegger, que culminaria esse
caminhar pela teologia da vida, com a experiência do humano preocupado com o
Ser, na existência vivida sob a angústia, o cuidado e a determinação.

P - Interessante, mas os leitores que costumam acompanhar seu trabalho
vêem você como um tillichiano de carteirinha. Onde é, então, que entra Paul
Tillich na teologia da vida?
R - Espera aí, não sou tillichiano de carteirinha. Mas estudioso dele.
E se teologia da vida é experiência humana imediata, pessoal, existência
histórica, momento criativo, expresso numa interpretação geral da história,
então, Tillich está presente, embora não precise ser citado.

P - Fale-nos, então, dessa sua paixão pela vida e, em consequência,
pela teologia.
R - Para mim, viver a vida é viver a teologia, quer seja no estudo, na
pesquisa, em sala de aula ou exposta no púlpito. Mas a que mais me eletriza
é aquela dos detalhes, que devemos fazer vivendo, como pessoa entre pessoas.
Esse viver teologia é uma ordem radical e apaixonada. É, de certa maneira,
uma lei, um mandamento do qual não escapo. O leitor, no livro que estou
lançando - Teologia da Vida - lerá histórias escritas em forma de crônicas,
redigidas entre os anos 2003 e 2009, algumas delas publicadas em
ViaPolítica. Vou citar algumas: meu aniversário de 60 anos, visto como
milagre, as lágrimas que não derramei na morte de minha mãe, o perdão como
possibilidade de reconstrução da vida. O pecado como fato que nos afasta da
vida, a política como ação solidária que mantém a vida, e a beleza da
negritude como herança humana.

São temas de reflexões, variados como uma construção não previamente
determinada, que aconteceu no escorrer da contingência. Falo também de
autores e autoras amadas, de cidades francesas, de artes, cinema,
literatura, e assassinato. Falo da vida, feita de heróis, marinheiros e
fazendeiros, de bonecos e olhos azuis, mas também de punhais, de
esquecimentos e heranças tristes.

Para o leitor, deixo um conselho: nossas esperanças falam de
promessas, vividas, viventes e a viver, por isso olhamos não somente para o
deserto, mas também para os pampas. Entre o deserto e o pampa, caro leitor,
está a sua vida, seja você um menino solto nas ruas de Porto Alegre, um
teólogo como o judeu Rosenzweig, uma católica como Adélia Prado ou um
teólogo na contracorrente como Georges Bataille. Por isso, não se esqueça,
alguns mistérios, deliciosamente colocados a nossa frente, são desafios
marcados, que nos obrigam a pensar o impensável. Faça a sua viagem e que a
paixão pela vida seja para você o pão de cada dia.

11/10/2009
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