vendredi 20 août 2010

Protestantismo de missão comemora 155 anos


Sergio Prates Lima

Exatamente há 155 anos, em Petrópolis, era dado o pontapé inicial da Escola Dominical em caráter permanente no Brasil, numa classe com cinco crianças estrangeiras, numa classe dirigida pela missionária inglesa Sarah Poulton Kalley, esposa do pastor, médico e missionário escocês Robert Reid Kalley. Kalley, após um período em Portugal, na Ilha da Madeira, onde implementara diversas escolas de primeiras letras, aliando às prédicas atendimento médico e farmacêutico à população, tendo sido condecorado pelas autoridades funchalenses com o título de O Bom Doutor Inglês, viu a situação mudar e sofreu perseguições, junto com seus seguidores, fato denominado por pesquisadores locais como a Diáspora Portuguesa, fato que levou cerca de dois mil madeirenses a procurar o exílio, dirigindo-se para os Estados Unidos, Trinidad e Tobago, Havaí e mesmo Brasil.

Já viúvo e casado em segundas núpcias, Kalley aportou no Rio de Janeiro em 10 de maio de 1855. Mudou-se para Petrópolis em busca de melhores ares e sossego, tornando-se vizinho do palácio de verão do imperador, D. Pedro II, de quem viria a se tornar amigo. A primeira igreja foi organizada na Corte, no Rio de Janeiro, em julho de 1858, a Igreja Evangélica Fluminense, no centro da cidade hoje, Rua Camerino.

Era uma igreja de pobres, de escravos forros e de mascates, mas que prestou relevantes serviços à comunidade acatólica do país, ao inserir-se na luta pelos direitos dos acatólicos, especialmente na questão dos direitos civis e o respectivo registro civil, já que nascimento, casamento e óbitos, com seus respectivos registros eram prerrogativas católicas e aos seus seguidores, sendo o catolicismo a religião oficial do Império Brasileiro.

Kalley foi um grande batalhador em prol dessa e de outras causas, escrevendo artigos na imprensa secular, publicando folhetos e livretos, distribuídos junto às Bíblias pelos colportores que arregimentou. É dele também a denominada Pastoral da Liberdade (sugiro sua leitura em artigo escrito por Douglas Nassif Cardoso, publicado em revista da UMESP), em que condena veementemente a escravidão então vigente em nosso país.

Dois membros da igreja tinham escravos e foi-lhes dado, pela igreja, um prazo para alforriá-los. O que o fez, continuou como membro da igreja e o que se recusou a fazê-lo foi excluído pela igreja. Essa posição progressista da Igreja Evangélica Fluminense certamente é desconhecida pela maioria dos protestantes/evangélicos do país, tendo em vista a especificidade do ministério de Kalley; embora de origem presbiteriana, era desvinculado de sua igreja de origem e era independente, mantendo-se às suas expensas, contando também com a ajuda de amigos e familiares da esposa, ricos industriais ingleses.

Após um período de 21 anos, Kalley retornou à Escócia, deixando um importante legado. Organizou a Igreja Evangélica Fluminense, a Igreja Evangélica e Congregacional de Niterói e a Igreja Evangélica Pernambucana, que com outras dez igrejas, reunidas em 1913, deram origem ao que hoje é a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil, que conta com cerca de 400 igrejas em todo o país.

Que Deus continue a abençoar os evangélicos brasileiros, que têm uma importante data a comemorar.

Sergio Prates Lima -- “A História é a versão dos eventos passados sobre os quais as pessoas decidiram concordar." (Napoleão Bonaparte)
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