samedi 11 septembre 2010

Os irmãos do livre Espírito

Kenneth Rexroth, Communalism, "Eckhart, Irmãos do Espírito Livre".

No século XII, Joaquim de Fiore (1132-1202), um abade de Cistercia, apresentou uma criativa interpretação da literatura apocalíptica. Segundo ele, a história humana deveria ser dividida em três períodos: a era do Pai, no Antigo Testamento, a era do Filho, com o Evangelho e a Igreja, e a era do Espírito Santo, quando toda lei seria abolida, porque os seres humanos, imersos no Espírito, agiriam de acordo com a vontade de Deus. Teria, então, início o Evangelho perpétuo do Sabbath eterno. Este teologia foi desenvolvida mais tarde por escritores espiritualistas e parte dela atribuída a Fiori.

A combinação de práticas e teologias, que tomavam como ponto de partida as vidas de Jesus e Francisco de Assis e a esperança escatológica de Fiori, foi explosiva. Embora Jesus fosse, na Idade Média, uma imagem passadista do homem que deu origem ao Natal e à Cruz da Páscoa, o espiritualismo franciscano foi evangélico, soube aproveitar-se da crescente alfabetização, e fomentou a leitura do Novo Testamento e da literatura devocional. A pobreza se tornou tema central na luta contra a ordem estabelecida. Para os espiritualistas franciscanos a pobreza esteve presente na vida de Jesus, dos apóstolos, mas também na alegria de Francisco de Assis e tais fatos eram um anúncio da felicidade do reino que viria em breve.

Francisco de Assis e depois Pierre Jean Olivi, franciscano que apresentou uma interpretação do livro do Apocalipse segundo o espiritualismo franciscano, tornaram-se figuras marcantes. Francisco era visto como “o anjo do sexto selo”, e Olivi “o anjo cujo rosto era como o sol”. O fundamento dos princípios franciscanos era a pobreza, mas essa não era a visão da hierarquia, que condenou a visão de que Jesus e os apóstolos viveram na pobreza. Diante de tal afirmação, para os espiritualistas, o papa passou a representar o anticristo.

Os espiritualistas, os beguines de Provença e os fraticelos não acreditavam que Jesus e os apóstolos tivessem bens em comum, mas que não possuíam bem algum. Esses franciscanos eram partidários da pobreza absoluta e da severidade de costumes, liberta da tradição de Roma.

O uso da riqueza de Roma por parte de legatários e de ordens escolhidas pelo papa significava que ele dispunha de crédito através da imensa riqueza de um fundo de reserva. Em seu exílio em Avignon, o papado pedia dinheiro emprestado. No ápice da controvérsia sobre a questão da riqueza, João XXII promulgou a doutrina da sacralização da propriedade, alinhando a Igreja, explicitamente, aos grandes proprietários. No curso do debate com João XXII, o filósofo William de Occam, e o ex-líder da ordem, Michael de Cesena, levantaram questões fundamentais: se o uso, a fidúcia, e não a posse da propriedade era permitido, como ficava a questão do dinheiro? Discutiram-se as implicações do significado do dinheiro e da propriedade. Se a propriedade é ruim, quem detém a propriedade e permite a fidúcia, logicamente, não é cristão. Os fiduciários e legatários são parasitários e culpados de cumplicidade. Então, uma sociedade cristã deveria abolir a propriedade.

A Igreja estava em franca oposição à criação de ordens religiosas devotadas à pobreza total e ao auto-sacrifício. Mas, a vida leiga dedicada à caridade, o evangelismo e a crescente popularidade do espiritualismo colocaram a Igreja diante de um impasse. De todas as maneiras, optou naquele momento por proibir a formação de novas ordens religiosas. Tal decisão da hierarquia romana fomentou o surgimento de comunidades leigas livres do controle e do conhecimento eclesiástico. Tais agrupamentos tornaram-se secretos e suas convicções deixaram de ser públicas. As comunidades beguines se espalharam pela Europa, especialmente na Renânia e no norte da França, onde esses cristãos eram conhecidos como “entusiastas apaixonados”: eram pessoas que desejavam viver juntas, dedicar suas vidas à oração, contemplação e ao trabalho comum. Permeando algumas delas, surgindo como fenômeno de uma nova esperança, estavam os Irmãos do Livre Espírito.

As doutrinas dos Irmãos do Livre Espírito remetem ao pensamento divergente do primeiro século do cristianismo. Ensinavam que pela contemplação a pessoa une-se a Deus e é deificado. Eleva-se acima das leis, da Igreja e dos ritos. Então pode fazer o que deseja. A união com Deus torna o pecado impossível à pessoa espiritual. Então, a oração e os sacramentos tornam-se inúteis e ela caminha em direção ao que almeja.

Os Irmãos do Livre Espírito tomavam como base para sua teologia a afirmação do apóstolo Paulo de que "onde o espírito de Deus está, há liberdade" (2Coríntios 2.17), mas também Agostinho e Mestre Eckhart, entre outros. Não formaram um movimento organizado: atuaram em comunidades, que mais tarde vieram a ser conhecidas como anabatistas. Deixaram poucos registros, exceto quando eram capturados por seus inimigos, ou em testemunho extraído sob tortura quando julgados. Foram acusados de hereges e de prática de orgias de sexualidade. Testemunhos nem sempre confiáveis falam de cultos onde o erotismo sexual se fazia presente.

Papas, bispos e inquisidores caçaram e condenaram os Irmãos do Livre Espírito. Mas sobreviveram porque nas cidades da Renânia e nos Países Baixos era fácil uma comunidade ocupar uma casa e apresentar-se como associação de leigos devotada à oração, leitura bíblica e trabalho.

O século XV testemunhou um crescimento das associações religiosas e comunidades livres. E a Igreja tinha que tolerar suas existências para evitar levantes e revoltas. Como a vida e a pregação de Francisco de Assis produziram uma alteração de percepção, essas novas comunidades trouxeram outras leituras do cristianismo, que marcaram a literatura renana da época. E o doutor do novo espiritualismo foi o Mestre Eckhart.

Paralelamente ao crescimento da filosofia escolástica, a Igreja desenvolveu uma teologia espiritualista, mística. A começar por Bernardo de Clairvaux (1090-1153), oponente de Abelardo, e continuando com Hugues de Saint-Victor (1096-1141), Richard de Saint-Victor (†1173) e os franciscanos de São Boaventura (1221-1274), os doutores místicos da Igreja resistiram à aristotelenização dos escolásticos. Suas raízes estavam no neoplatonismo de Agostinho, nos escritos do areopagita Dionísio, discípulo do apóstolo Paulo, e em João Scotus Erígena.

Todo esforço foi concentrado para solucionar o dilema representado pela experiência mística. Tal experiência trouxe consigo a convicção de uma realidade inquestionável. O místico em sua concepção de Deus esbarra no poder imbatível do fato empírico. A doutrina cristã diz que Deus criou o mundo a partir do nada. O ser humano é totalmente contingente. Deus é totalmente onipotente e auto-suficiente. Como ultrapassar esse limite pela experiência? De uma forma ou de outra todos os grandes místicos ortodoxos dispensaram esse último problema do conhecimento alegando que a alma detém um conhecimento primário de Deus. O conhecimento da realidade de Deus deriva dela. Conforme a descrição de São Boaventura a alma chega até Deus pelo amor através da escada das criaturas até que finalmente a alma descobre que o último degrau foi o primeiro, a scintilla animae, a centelha de Deus na alma não é apenas uma faculdade do conhecimento místico, ela participa diretamente do Ser divino. Este processo é delineado em um tom mais emocional e intensamente devocional pela retórica apaixonada de São Boaventura. Esse processo é básico e explícito na epistemologia de Richard de São Victor e mais ou menos implícito em São Bernardo. Naturalmente, esse assunto remonta ao próprio Platão em seu diálogo com Phaedo. É o conhecimento de Deus que proporciona o conhecimento das idéias. Esta tradição central da teologia mística nunca teve sua ortodoxia questionada porque ela sempre pareceu operar dentro do contexto do desenvolvimento escolástico. Mas a verdadeira situação foi bem outra. Seus expositores pertenciam a uma tradição puramente cristã, pelo menos essa foi a opinião geral, considerando que os partidários das idéias de Aristóteles tinham que defender sua versão pagã e sua filosofia secular árabe. Dessa forma São Tomas de Aquino e Duns Scotus ficaram na defensiva.

Mestre Eckhart e seus descendentes trouxeram outra tradição peculiar para a Renânia. Começando por Santa Hildegard de Bingen no princípio do século XII, Elizabete de Schönau, Elizabete da Hungria, Condessa da Turíngia no século XIII e Mechthild de Magdeburg, essa tradição foi continuada por mulheres, e foi caracterizada por experiências visionárias, emocionais, cheias de imagens eróticas, e uma crítica dos abusos da Igreja e da corrupção do papado. A maioria deles eram escritores e constam entre os mais importantes fundadores da literatura alemã. Uma análise destas visões colocadas na tela na forma de pintura, revela que Santa Hildegaard sofria de enxaqueca, e os intensos padrões claros que ela via são sintomas daquela doença. Como suas descendentes, todas aquelas mulheres tinham uma proeminência especial ao misticismo luminoso semelhante ao de São Boaventura, e de Philo, o judeu neoplatônico do primeiro século, caracterizado por visões constantes e recorrentes, plenas de luz -- a aura da própria experiência mística. O Raiar da Luz Divina de Santa Mechthild é uma das mais belas obras do idioma alemão. Saturadas de luzes místicas e simbolismo erótico, seus poemas, com apenas algumas leves alterações, poderiam ser transformados em canções de um extremo amor romântico.

A mais antiga teologia mística cresceu nos monastérios entre homens instruídos e contemplativos. O misticismo renano floresceu em Béguinages e outras comunidades semi-monásticas de mulheres devotas associadas à pobreza, à oração, à meditação e ao trabalho. Seus mestres estavam apenas um degrau acima da ortodoxia em relação aos dissidentes Irmãos do Espírito Livre. O testemunho de frequentes espancamentos e torturas praticados pela Inquisição sobre supostos entusiastas insanos e infelizes místicos renanos é suspeito. Até mesmo nos registros de queixas temos apenas um caso, onde uma casa de Béguines é acusada de prática de orgias sexuais, a casa das denominadas Irmãs de Schweydnitz. Provavelmente foi verdade, embora se assemelhasse mais a uma sessão de leitura erótica moderna. Frequentemente os inquisidores pareciam estar engajados em uma guerra contra as mulheres. Uma das béguines foi reiteradas vezes acusada de "crimes" pela performance de ritos da Igreja em suas capelas e pela prática de confissão mútua, práticas proibidas às mulheres.

Há apenas um documento questionável na totalidade do movimento do misticismo béguine, provavelmente influenciado pelos Irmãos do Espírito Livre. Margarete de Parete foi julgada e queimada em Paris no ano de 1311, acusada de ensinar que quando a alma é consumida pelo amor de Deus ela participa de Deus, podendo fazer qualquer coisa que o corpo sensual desejasse. Recentemente foi descoberto o manuscrito de seu livro, O Espelho das Almas Simples, que foi impresso. Como foi constatado por Mestre Eckhart e seus sucessores a interpretação por parte da Inquisição foi baseado em um equívoco. Ela ensinava que no sétimo estágio da iluminação, o ápice do processo dos sete estágios que remonta aos primórdios da literatura mística e é descrito de uma forma perfeitamente ortodoxa, a alma une-se a Deus. Pela graça ela livra-se do pecado. Ela absorve toda a Trindade e perde sua própria identidade, tornando-se incapaz de pecar. Dali para a frente vive inteiramente no amor de Deus como um serafim. Não precisa de nenhuma Igreja, sacerdócio, ou livro. Seu conhecimento é diretamente compartilhado no conhecimento de Deus. Não pode pecar porque sua vontade é a vontade de Deus; pobreza, oração, sacramentos, ascetismo, penitências, jejuns, tornam-se coisas destituídas de qualquer importância para a alma, mergulhada em Deus, onde privações e símbolos inexistem. A alma usa estas coisas apenas para pagar um indiferente tributo à natureza, ao mundo e à comunidade religiosa.

É fácil verificar que a mais leve troca de ênfase pode transformar este ensino em uma justificação da imoralidade atribuída aos Irmãos do Espírito Livre, ou à histeria que mais tarde tornou-se responsável pelo esmagamento da comuna revolucionária anabatista de Münster. Mas para Margarete de Parete a ênfase estava em outro ponto, uma vez que temos em mãos uma documentação confiável criada de boa fé pelos próprios místicos perseguidos. Naturalmente do ponto de vista da Igreja Católica ela foi uma herege.

Margarete de Parete foi queimada na fogueira e esquecida. Mas a influência de Mestre Eckhart é forte ainda hoje. Eckhart conheceu o problema da contingência e da onipotência, criador-e-criatura-do-nada tornando Deus a única realidade e a presença ou impressão de Deus prevalecendo sobre o nada, a fonte da realidade na criatura. Realidade, em outras palavras, é a participação da criatura no criador estruturada hierarquicamente. Do ponto de vista da criatura este processo poderia ser reverso. Se a criatura é real, Deus torna-se o Divino Nada. Deus é nada, como diz o escolasticismo, o objeto final de todos os vaticínios. Isso é impredicável. A existência da criatura, na medida em que existe, é a existência de Deus, e a experiência da criatura de Deus é no final das contas igualmente impredicável. Não pode nem mesmo ser descrito; pode apenas ser apontado. Nós podemos apenas apontar para a realidade, a nossa realidade ou a realidade de Deus. A alma vislumbra Deus pelo conhecimento, não pelo amor como concebe o primitivo misticismo cristão. Amor é um artigo do vestuário do conhecimento. A alma primeiramente treina a si mesma, sistemática e inconscientemente, até que finalmente se confronta com a única realidade, o próprio conhecimento, Deus se torna manifesto em si mesmo. A alma não pode dizer nada sobre esta experiência no sentido de defini-la. Apenas pode revelá-la a outros.

Este é o modo neoplatônico de negação ensinado por Agostinho. Mas as deidades neoplatônicas mentem sobre realidade, não há como dizer que ela existe nesse sentido. Eckhart, frequentemente acusado de dualismo, na verdade foi um monista extremado, contudo há uma diferença entre sua teoria do ser e o panteísmo de pensadores como Spinoza. Para Eckhart, a realidade é densa, não existe nenhuma porta de ligação entre o processo interno de Deus, a Trindade, e o mundo de sua criação. Deus (Godhead) gera o Filho e cria o mundo ao mesmo tempo ou no mesmo momento da eternidade. Não é necessário muita pesquisa para concluir que o ensino de Eckhart pode ser qualificado como ortodoxo. Todavia, quanto à co-eternidade do Filho e do mundo, seus críticos rapidamente o acusaram de herético.

"Antes de existir qualquer coisa, a Palavra já existia", disse São João, "Ele criou tudo o que há — não existe nada que ele não tenha feito". O procriar da Palavra é um processo dual — interno e externo — o conhecimento de Deus se revela pela sua criação, e a criação se revela pelo conhecimento, pelo Logos, do mundo. A criação é a roupagem do vazio.

Embora Eckhart se comporte como um intelectual rigoroso em seus tratados latinos — a alma se eleva a Deus pelo conhecimento, ou melhor, percebe Deus nos recantos mais íntimos do ego, do ser, absoluto e contingente, é revelado pelo saber — em seus conhecidos sermões pela Alemanha, pregado principalmente às freiras dominicanas e às congregações beguines, ele adota a extensa linguagem familiar da teologia do coração. "A alma", diz ele, "torna-se noiva de Deus, torna-se feminina em todos os aspectos, torna-se uma esposa virgem, torna-se liberta de qualquer outro compromisso, Jesus é concebido na alma gerando frutos".

A união amorosa é total e auto-suficiente. O amor não é vontade de satisfazer um desejo; mas a plenitude do ser compartilhando a alma em Deus. Oração, boas ações, esmolas, são inúteis a menos que tais coisas fluam de uma vontade consumida pelo amor de Deus e submissa à sua vontade. Onde Eckhart julgava adequado à sua audiência, apresentava sua teologia em termos de vontade mais do que em termos de conhecimento, e fazia isso de propósito. Foi por inspiração de seus sermões populares que muitos apaixonados místicos posteriores acabaram contraindo núpcias espirituais com Ruysbroeck.

Segundo Eckhart, qual é o principal dado que nos permite tomar conhecimento da existência? O principal dado é a imprevisível, indescritível experiência religiosa em si mesma. Em suma, a alma pode ser definida como a fonte, a primavera da qual floresce toda realidade e que pode ser alcançada pela contemplação. Nesse ponto começa a doutrina da luz interior que caracterizou as comunidades místicas daquele tempo, e que é central na teologia quaker. O aspecto prático também descende de Eckhart — o quietismo. A experiência religiosa revela-se por uma crescente quietude. "Não se turbe o vosso coração".

O misticismo de Eckhart aparenta ser algo bem solitário — alguém poderia pensar que tal misticismo dissolveria não apenas a Igreja e seu culto, como também toda experiência religiosa comunal. Pelo contrário, ele funciona como uma locomotiva ajudando no desenvolvimento da vida comunitária. Os Amigos de Deus, a Fraternidade da Vida Comum, e grupos semelhantes tanto de pregadores como de leigos espalharam-se rapidamente por toda Renânia, pelos Países Baixos, Alemanha Ocidental, e Boêmia. Foi como se a Igreja desenvolvesse anticorpos tão ortodoxos quanto profiláticos para combater a infecção dos Irmãos do Espírito Livre. É evidente que o ensino de Eckhart não era nada ortodoxo. Ele apenas o ajustou à ortodoxia na medida do possível.

No final de sua vida, o arcebispo de Colônia posicionou-se contra ele. Ele apelou ao Papa João XXII e em 1329, dois anos após sua morte, vinte e oito das suas proposições foram condenadas. Mais uma vez vemos João XXII efetuando representações contra as demandas das comunidades cristãs mais devotas, negando-lhes uma vida espiritual mais rica diante do decadente establishment medieval.

Fonte
Kenneth Rexroth, Communalism, Seabury Press, 1974, capítulo 4 "Eckhart, Irmãos do Espírito Livre", pp. 43-60.
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