mardi 2 novembre 2010

Alienação, princípio que possibilita a vida consciente

Uma leitura -- a partir de Hegel e Tillich -- da simbólica expulsão do jardim das delícias

“Poi Dio il SIGNORE disse: «Ecco, l’uomo è diventato come uno di noi, quanto alla conoscenza del bene e del male. Guardiamo che egli non stenda la mano e prenda anche del frutto dell’albero della vita, ne mangi e viva per sempre». Perciò Dio il SIGNORE mandò via l’uomo dal giardino d’Eden”. Genesi 3.22-23.

A teologia estabelece uma proposição fundante, princípio sem tempo e sem espaço, sobre o qual especular é impossível, pois transcende a capacidade da imaginação e seria diminuído pela expressão. Está além da razão, por isso, é impronunciável. O postulado é: há um absoluto que antecede a existência manifesta. Esta causa é a raiz sem raiz do que foi, é e virá. Desnudo de atributos não tem relação com o finito. É o que é e está além do pensamento.

O que é está simbolizado por dois aspectos, o anti-espaço absoluto que representa a subjetividade, aquilo que nenhuma mente pode excluir ou conceber por si mesma. E o anti-repouso absoluto. A consciência é inconcebível se a separamos da mudança, e o movimento simboliza a mudança, sendo esta sua característica. Este aspecto da realidade una tem um símbolo gráfico, o primeiro sopro. Este axioma da teologia, o que é, remete àquilo que a inteligência finita simboliza como trindade.

A natureza da primeira causa, causa sem causalidade, aflora dentro do finito como consciência, realidade que permeia a natureza, enquanto noumeno. Esta realidade é o campo da consciência absoluta, essência que transcende toda relação com a existência condicionada e da qual a existência consciente é um símbolo. Mas, ao atravessar pela negação a dualidade, sobrevém o espírito/consciência e a matéria/sujeito e objeto.

O espírito/consciência e a matéria/sujeito e objeto devem ser considerados não como realidades independentes, mas como correlações do absoluto, que constituem a base do ser condicionado subjetivo/objetivo. Considerada esta tríade da teologia como a raiz da qual procedem toda manifestação, o sopro assume o caráter de ideação pré-natureza. Ele é a fons et origo da força de toda consciência individual e fornece à inteligência guia no esquema da natureza. Tal raiz pré-natureza é aquele aspecto do absoluto que é a base dos planos objetivos do cosmos. Tal ideação pré-natureza é também a raiz da consciência individual, já que a substância pré-natureza é o substrato da matéria nos graus de sua diferenciação.

A correlação desses dois aspectos do absoluto é essencial para a existência do universo manifesto. A ideação da natureza, separada de sua substância, não pode ainda se manifestar como consciência individual, uma vez que é somente através de um veículo, a alienação da ideação, que a consciência aflora como eu sou eu, como alienado que necessitou de base física para focar-se enquanto estágio da complexidade. Da mesma forma, a substância da natureza, separada da ideação da natureza, permaneceria como uma abstração vazia da qual a consciência não poderia emergir. O universo manifesto, portanto, é permeado pela correlação que é, pela própria essência de sua existência como manifestação.

As correlações sujeito/objeto, espírito/matéria são símbolos da realidade una, mas no universo manifesto se dá a correlação que possibilita sujeito e objeto, espírito e matéria. Essa correlação é a alienação existencial, ponte através da qual as idéias são impressas enquanto substância da natureza na forma de leis da natureza. A alienação é a dinâmica da ideação da natureza, é meio inteligente que guia a manifestação. Assim, da ideação da natureza procede a consciência. E da substância da natureza procedem os meios que possibilitam à consciência individualizar-se, levando à consciência reflexiva. A alienação, em suas manifestações, é o elo entre a mente e matéria, princípio que possibilita a vida consciente.
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