mardi 30 novembre 2010

A religião como espelho

[Com meus alunos da Pós-graduação lato-sensu em Teologia e História do Protestantismo no Brasil estamos discutindo Marx, Weber e Durkheim. Para facilitar os debates em sala de aula estou colocando aqui um artigo que pode criar vetores para as discussões. Abraços, Prof. Dr. Jorge Pinheiro].
 
O texto onde Marx expõe sua análise de religião, de forma melhor definida, está na “Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel”. Para Marx, a religião é ideologia, falsa consciência, espelho de apresenta uma realidade de sofrimento e dor, por isso, diante da religião, o filósofo deve fazer a crítica da religião, já que a partir desta crítica veríamos não a imagem refletida, mas a realidade que está na origem da religião. Assim, a crítica da religião nos levaria à crítica do Estado, das classes dominantes e das formas opressoras de organização social.

Dessa maneira, para Marx, a religião seria imago do próprio ser humano, a encobrir a verdadeira configuração do mundo, e só a crítica da religião poderia levar o ser humano a reconhecer que não existe outra realidade a não ser aquela que ele próprio cria.

"A crítica colheu nas cadeias as flores imaginárias, não para que o homem suporte as cadeias sem capricho e consolação, mas para que lance fora as cadeias e colha a flor viva. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, atue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão, a fim de que ele gire em torno si mesmo e, assim, à volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira à volta do homem enquanto ele não circula em torno de si próprio." (Marx, 1989)

Para Marx, a base e fundamento de toda crítica da religião é o próprio ser humano, já que ele é o responsável pela transformação do mundo, não de maneira autônoma ou solitária, mas socialmente:

"O homem faz a religião; a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a perder-se. Mas o homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. E este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido." (Marx, 1989)

Dessa forma, considera Marx, é o próprio ser humano quem cria e dá forma, socialmente, à religião, e esta serve explicar e manter aquelas realidades que devem ser revolucionadas. Nesse sentido, enquanto imagem que acoberta e mantém o status quo da alienação, impede que as pessoas tomem consciência da situação de exploração a que estão submetidas, já que não estão preocupadas com a realidade desse mundo, mas projetam seus sonhos para um mundo além, de justiça e paz:

"A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para que abandonem uma situação que necessita de ilusões. A crítica da religião é, pois, em germe a crítica do vale de lágrimas de que a religião é a auréola." (Marx, 1989)

É importante entender que Marx não estava errado ao fazer a crítica das religiões na Europa de sua época, quer católica, quer protestante, que se tornaram instituições de reforço e manutenção dos Estados nacionais. Como estudiosos da religião, no entanto, devemos entender que nem sempre o cristianismo cumpriu este papel. Foi, sem dúvida, transformador na sua primeira época e também o tem sido em várias partes do mundo onde levanta as bandeiras da justiça social. Como Enrique Dussel, teólogo argentino, devemos dizer que a religião superestrutural necessita desta crítica da religião, que será sempre crítica do Estado, da política, de cultura, da sociedade inteira. Mas, apenas a crítica não terá forças para transformar a realidade, é necessário que ela adquira forma material através de uma religião infraestrutural que, aliada à práxis social, seja capaz de se apossar das utopias de transformação da sociedade. Só assim, a crítica daquela religião que aliena e exclui tomará corpo numa outra religião, infraestrutural, que, enquanto práxis social, ajudará a construir meios e possibilidades para que o ser humano deixe de olhar para si próprio como pessoa humilhada, abandonado, desprezível. (Marx,1989).

Referências Bibliográficas

MARX, Karl. Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel. In: Manuscritos económicos e filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1989.
___________. A ideologia alemã. São Paulo: Hucitec, 1996.


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