mardi 7 décembre 2010

Elementos para uma hermenêutica da complexidade

Primeira parte

Por três séculos, desde Isaac Newton, os cientistas descreveram o mundo como semelhante a uma máquina. Governando o mundo estavam os princípios de regularidade e ordem. Todas as coisas eram a soma das partes; as causas e efeitos estavam ligados linearmente; e os sistemas moviam-se de modo determinístico e previsível. É claro que os cientistas desde longo tempo estavam atentos para os fenômenos que contradiziam a lógica linear: as formas espirais das chamas de fogo, os redemoinhos em correntes e as formações de nuvens, por exemplo, não podiam ser representadas por simples equações lineares.

O desenvolvimento da teologia a partir do final do século vinte baseando-se em hermenêuticas a alta-modernidade que tinham por base as ciências naturais e a teoria de sistemas sugeriu modelos diferentes para se pensar como as coisas ocorrem e daí a percepção de que a revelação e como consequência a compreensão de Deus, da Trindade e da Cristologia, por exemplo, só podem ser compreendidos a partir de abordagens fundamentalmente não-lineares.

O significado da palavra complexidade remete àquilo que encerra elementos, conjunto de coisas, fatos e circunstâncias que têm nexo entre si. E caos, palavra que sempre aparece quando de discute a complexidade, é entendido como vazio obscuro e ilimitado que precede e propicia a geração do mundo. Mas, na construção do conceito complexidade para uso hermenêutico, partindo da filologia, vamos mais fundo na construção de uma definição e vemos complexidade e caos como aqueles comportamentos imprevisíveis que aparecem em sistemas regidos por leis deterministas, o que se deve ao fato de as equações não-lineares que regem a evolução desses sistemas serem extremamente sensíveis a variações em suas condições iniciais, ou seja, pequenas alterações no valor de um parâmetro podem gerar mudanças significativas no estado do sistema.

Assim, determinadas questões teológicas são praticamente impossíveis de serem compreendidas numa abordagem tradicional de causa-efeito. Mas as dificuldades sempre eram atribuídas à impossibilidade de se isolar os ruídos externos ao sistema teológico, ruídos esses que levavam às distorções de compreensão. Entretanto, o que deve ser visto é que nos sistemas dinâmicos, a incerteza e o caos são gerados internamente pelo próprio sistema, devido à sua não-linearidade e não exclusivamente por fatores externos. Ou seja,  a complexidade e o caos podem surgir de regras simples aplicadas de forma recursiva. A resposta, então, para questões teológicas não está na procura de mais informações para tentar encontrar uma relação de causa-efeito, mas em entender quais regras básicas regem o comportamento do sistema, que tipo de feedback existe, de que forma este feedback atua no sistema e o tipo e duração dos ciclos de retroalimentação.

A razão de tal abordagem 
Parte do que chamamos de hermenêutica da dinâmica não-linear ou hermenêutica da complexidade para uso na teologia tem por base hermenêuticas provenientes da biologia, física, química, economia e sociologia do final do século vinte, onde o caos refere-se às áreas de instabilidade de fronteira, o que para nós significa, em termos teológicos, que se move entre o equilíbrio de um lado, em especial a revelação, e a complexa situação randômica da vida humana.

Em sistemas caóticos não-lineares, as ligações entre causa e feito desaparecem pela amplificação de feedbacks que podem transformar fracas variações iniciais em severas conseqüências. O futuro de tais sistemas não é passível de ser plenamente conhecido.

Donde, a importância de uma hermenêutica da complexidade para que se possa melhor compreender entre revelação e espiritualidade humana e suas expressões estruturais e organizacionais. Essas estruturas são sistemas complexos constituídos por agentes interativos com uma tendência aparente para a auto-organização, pois as pessoas nos mercados religiosos são adaptativas, de modo que as regras de seu comportamento mudam à medida que elas aprendem.  Pois, na verdade, este mundo não é aquele representado pela metáfora de uma máquina. As coisas são mais do que a soma de suas partes; equilíbrio é morte; causas são efeitos e efeitos são causas; desordem e paradoxo estão em toda parte.

Por isso, dizemos que uma hermenêutica da complexidade deve levar em conta que
  • Na modernidade, a hermenêutica foi entendida como aparato de feedback negativo, que possibilidade a construção de doutrinas e dogmas e encaminha fiéis na direção correta pela correção de seus desvios do plano traçado. À luz da hermenêutica da complexidade o quadro é mais complicado. As hermenêuticas modernas, de origem iluminista, estão corretas para leituras ligadas às rotinas do viver diário, mas no que tange a produção criativa de conhecimento teológico que responda às necessidades humanas no mundo da alta modernidade, elas se encontram em crise. Os resultados não desejados de suas ações não podem ser plotados porque a estrutura do sistema torna o futuro impossível de ser controlado. O corolário é que o dogma viável não é algo que é o resultado de um intento prévio de um líder visionário, em vez disso, emerge das múltiplas possibilidades lançadas por várias dinâmicas em colisão com a vida humana. Assim, os teólogos deveriam se pensar como jardineiros, que em vez de intencionar, deveriam trabalhar possibilidades.
  • Na literatura da teologia moderna, os teólogos controlaram suas produções a partir de estruturas e procedimentos ordenados. Se isso é tudo o que nós podemos fazer em um mundo complexo, a igreja está destinada a seguir o caminho do Tyrannosaurus rex. A tentativa de estabilizar o sistema leva a torná-la incapaz de interagir com o mundo e possibilitar a criação de alternativas futuras.
  • Os teólogos modernos enfatizaram que as culturas e os valores compartilhados são essenciais para conduzir a igreja no futuro. Em condições dinâmicas, onde o futuro é formado por múltiplas e variadas possibilidades, hermenêuticas monolíticas provavelmente falharão na geração da criatividade teológica necessária para dotar a igreja de adequadas opções. Por isso, as diversidades de opiniões e abordagens são importantes. O pensamento único, que não comporta diferentes visões, pode ter sido um dos fatores cruciais para a crise de parte da igreja no mundo moderno e, em especial, nas últimas décadas do século 20.
Teólogos modernos acreditaram que o sucesso da igreja seria o resultado da manutenção de um equilíbrio adaptativo com o mundo moderno. Se isso fosse verdade, a liberdade da religiosidade no século 20 deveria ter sido reduzida à escolha da adaptação certa ou errada. Mas no mundo da complexidade, os riscos são muito maiores. Primeiro porque equilíbrio significa morte, exatamente o contrário do que pensava a velha teologia. Segundo porque em condições não-estáveis, o ambiente humano também se adapta à igreja tanto quanto esta a ele. As implicações disto significam que a igreja não pode culpar o mundo por suas falhas: a igreja deve ser vertiginosamente livre para criar seu próprio futuro.

Fonte
Jorge Pinheiro, Deus é brasileiro, São Paulo, Fonte Editorial, 2008. 
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