jeudi 5 mai 2011

Vamos pensar Tillich


A essencialização:
   movimento final da ontologia
        in Jorge Pinheiro, Teologia & Política, Paul Tillich, 
       Enrique Dussel e a experiência brasileira,
      São Paulo, Fonte Editorial, 2006, pp. 24-26.

O conceito razão relaciona-se a três outros: essência, existência e essencialização. A essência não é apenas aquilo que uma coisa é, mas também aquilo que faz com que uma coisa possa ser. Nesse sentido, essência é potencialidade, o poder de ser e a fonte de existência: origem do Ser. Mas também é o reino da cognição, do pensamento, impossível de penetrar. Pari passo à essência, Tillich fala do lógos, que correlaciona mente e realidade, tornando possível o conhecimento. Quando alguém compreende e fala sobre a realidade, faz juízos e define padrões, que são comuns aos outros seres humanos, se comunica. E quem possibilita a comunicação é o lógos. Assim, o lógos é a origem da razão e também do Ser. Mas, origem do Ser aqui não significa conhecimento a priori, mas estar colocado à parte do reino da finitude e por isso a origem do Ser só é conhecida por um ato de revelação.

Já a existência refere-se ao que é finito, enquanto parte de seu verdadeiro ser. Quando Tillich fala de finitude apresenta sempre termos que se correlacionam: como heteronomia/ autonomia, formal/emocional e estático/dinâmico. A solução destes aparentes conflitos da existência se dá no reino da essência, fundamento do Ser, dos quais os seres humanos foram arrancados e por isso se encontram dependentes e alienados. Dessa maneira, para Tillich, existência é alienação. 

Ora, a essencialização traduz o movimento final da ontologia, que se traduz no Novo Ser, quando a existência realiza aquilo que devemos Ser, nossa essência. No cristianismo, o Novo Ser é o Cristo. A imagem do Cristo expressa o que Deus quer que sejamos: o que os seres humanos são essencialmente e deveriam ser. Aquilo que todo ser humano é potencialmente foi expresso em Jesus, enquanto Cristo. Assim, a doutrina de salvação para Tillich é regeneração, a participação no Novo Ser, justificação, a aceitação do Novo Ser, e santificação, a transformação pelo Novo Ser. Com seu conceito de essencialização, Tillich subverteu a compreensão da existência e de seus conflitos, ao mostrar que servem para enriquecer o ser essencial. Ao voltar-se para o que é eterno, a existência é derrotada em sua reivindicação de ser positiva, ou seja, o eterno nega à finitude sua reivindicação de infinitude. Assim, Jesus, finito, tornou-se Cristo no seu auto-sacrifício e morte. Recusou a tentação demoníaca inerente à existência finita de reivindicar infinitude. Dessa maneira, a ontologia, através da análise da essência, existência e da essencialização, conduziu a uma releitura da compreensão de Deus na fé cristã.[1] Por isso, Tillich, afirmou que Deus não tem existência, já que ele é além da essência e da existência. Falar de Deus enquanto existência é negá-lo, porque existência é alienação e finitude, mas não enquanto relação mecânica e formal como creram Schelling[2] e Kierkegaard, por ele criticados. Para Tillich há uma finititude essencial e alienação existencial.[3]

Por não entender a afirmação de Tillich, muitos religiosos o acusaram de ateu. Mas o que ele fez foi nos conduzir a uma compreensão de Deus além do deus existencial. Ora, Deus, o fundamento do Ser, está além do reino da finitude, que relaciona ser/não ser, e por isso Deus não pode ser um ser. Deus está além do reino finito. Tudo que se faz existência é corrompido por sua ambigüidade e finitude. Dessa maneira, as afirmações sobre Deus são simbólicas, inclusive a afirmação de que Deus é o fundamento do ser. E embora se reivindique o conhecimento de Deus, o infinito, isso é impossível, pois quando Deus é trazido da essência para a existência, Deus é corrompido pela finitude e pela compreensão limitada. No reino da finitude é impossível conhecer plenamente quem Deus realmente é, pois o infinito não permanece infinito no reino finito.

Nos textos intitulados Christentum und Sozialismus,[4] Tillich nos dá um roteiro teórico para a leitura do socialismo. Como já dissemos, ao analisar o surgimento do socialismo, Tillich leva em conta aspectos históricos, assim como os grandes movimentos ideológicos que se estruturam a partir da Reforma. Tal metodologia é relevante para a compreensão do contexto a partir do qual ele constrói a sua leitura socialista, que tem por base a chamada a um posicionamento transcendente, de resistência ao impacto da catástrofe histórica, que deveria levar os cristãos a elaborar uma mensagem de esperança para o mundo. Nesse contexto, vai definir o ser humano moderno como autônomo, embora inseguro na sua autonomia. Isto levou a Igreja católica à tentativa de emancipá-lo através da submissão à hierarquia e à tradição. Mas na autonomia já foi experimentado algo e esta é uma experiência que une aquele que protesta àqueles com autonomia secular.


NOTAS

[1] Paul Tillich, “La signification de la condition sociale pour la vie de l’esprit in Christianisme et Socialisme, Écrits socialistes allemands (1919-1931), Paris, Genebra, Québec : Les Éditions du Cerf, Éditions Labor et Fides, Les Presses de l’Université Laval, 1992, pp. 300.  “Die Bedeutung der Gesellschaftslage fur das Geistesleben, Christentum und Soziale Gestaltung, Gesammelte Werke II, Evangelisches Verlagswerke Stuttgart, 1962, pp. 133-138. Trad. fr. de Nicole Grondin et Lucien Pelletier.
[2] Friedrich Wilhelm Joseph Schelling, “Sur le dogmatisme et le criticisme” in Premiers écrits (1794-1795), Paris, Presses Universitaires de France, 1987, pp. 199-207; e Jean-François Courtine, “Finitude e Liberté. Le status du Moi fini et la destination de l’homme du Vom Ich aux Brife”, in  F. W. J. Schelling, Premiers écrits (1794-1795), op. cit., pp. 237-256.
[3] Pedro Rubens, Discerner la foi dans des contextes religieux ambigus, enjeux d’une théologie du croire, Paris, Les Editions du Cerf, 2004, p. 184.
[4] Paul Tillich, Christianisme et socialisme (CES), Oeuvres de Paul Tillich, sob a direção de André Gounelle et Jean Richard, Paris-Genève-Québec : Editions du Cerf, Labor et Fides, Presses de l’Université Laval, pp. 21-30 e pp. 39-45. “Christentum und Sozialismus I” (1919), in Gesammelte Werke II, pp. 21-28; e “Christentum und Sozialismus II” (1920), GW II, pp. 29-33. Trad. fr. CES,  N. Grondin e L. Pelletier.
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