dimanche 26 juin 2011

O gozo em rosa

Katia Maria Godoy

O gozo em rosa. Enquanto eu leio, me pergunto o que levou o autor a colocar este título em seu texto, da página 21? Será uma referência à plenitude que todos desejamos ardentemente conhecer? (no sentido mais sublime da palavra, onde conhecer denota mais que o saber intelectual, mas também experimentar, absorver, fazer legível à nossa razão e à nossa alma). Será referência ao prazer que poderíamos alcançar no encontro com o transcendende por meio das palavras? Sim, me pergunto isso porque estas palavras me levam a pensar, e estimula meu desejo de poder alcançar a profundidade e intensidade que este titulo possa ter.

A leitura dos pensamentos de Jorge Pinheiro não são como uma leitura de um livro comum. Na maioria dos livros contemporâneos a própria superficialidade das palavras nos dão o sentido de seus textos, e as frases formadas expressam claramente a idéia que o autor deseja passar. Mas nos pensamentos deste autor, cada palavra em si traz uma profundidade única, as quais juntas em uma simples frase nos fazem mergulhar em idéias profundas.

No texto “O gozo em rosa” o autor ressalta de uma maneira digna a cultura hebraica quanto à leitura e interpretação de textos. Dentro da cultura hebraica, um texto não pode ser entendido em sua profundidade e intensidade sem a sua humanidade, e só por meio da humanidade podemos chegar ao transcendente, o qual é possível para o humano, uma vez que em sua criação ele se torna mais que um ser vivente, como vimos na pàgina 210, ‘o homem procede da interioridade do eterno, traduz ação mediadora e conjuntiva da força criadora’.

Tendo ressaltado que o melhor que podemos aprender com a cultura hebraica é que a profundidade de um texto é a sua humanidade, passamos então a um momento prático dessa exegese em “O gozo em rosa”.

Mas antes disso, o autor nos traz o texto de Jacó, que encontramos em Genesis 32.25, um texto muito conhecido e utilizado no meio cristão. Sabemos que na interpretação sistemática que usamos nos dias de hoje, levamos em consideração vários contextos, como história, cultura da época, tradução das línguas, mas quando vamos além, e tentamos nos voltar para a humanidade do texto, de forma hebraica, buscando o transcendente, vemos que o texto tem muito mais a nos falar. Dentro da interpretação que conhecemos, Jacó já conhecido como usurpador, trapaceiro, por seu nome e ações anteriores, luta com um homem, e o homem vendo que não podia vencer Jacó o fere na coxa, logo depois muda o nome de Jacó para Israel dizendo que Jacó havia lutado com Deus e com homens e havia vencido, e na maior parte de exegeses sistematizadas não conseguem passar desta interpretação. Mas se buscarmos a humanidade, poderemos mergulhar no seu real sentido..

Buscando melhores traduções que tragam o texto do hebraico de forma mais literal, temos a tradução SEV (versão de 1569), utilizada pelo autor do livro Teologia Humana, “Na luta, o homem ao ver que não podia vencer, bateu no vazio da coxa e enforcou a força de criar de Jacó”. A tradução, bem literal, parece perder o sentido em nosso idioma, mas veremos que não é isso que acontece. Em primeiro lugar vem a questão do íxi que significa homem e não anjo, e em segundo lugar a parte exata que o homem tocou em Jacó, não foi apenas a “coxa”, que depois veio deixá-lo manco, mas foi além, o homem atinge “kaph” e a “yarek” (palavras a qual vou me apegar agora), onde kaph refere-se a cavidade ou parte do corpo que é dobrável ou curva e yarek se refere a lombo, ou lugar do poder de procriação, este ponto de vista nos dá um sentido muito maior da palavra “força’, onde ela agora nos traz um sentido poderoso. Jacó luta com o homem, e não desiste em nenhum momento, mas também não trapaceia, decorrendo horas de luta, vendo o homem que não podia vencer Jacó, tira a sua “força”, quando alcança suas “terminações nervosas, sensibilidade interno, inchaço dor. O músculo se retrai, nervos e artérias se enroscam e impedem o fluxo de sangue o coice foi bravo, a cápsula se rompe e vaza.” (PINHEIRO, 2010, p22). Ele acerta um ponto certo de Jacó, de forma intencional e certeira, e Jacó pedindo liberdade para prosseguir é achado digno pelo homem para receber sua liberdade, pois Jacó não trapaceou, e este é o momento crucial onde a mudança da vida de Jacó acontece de forma profunda, não mudança da história em si, mas do personagem Jacó, de forma pessoal, que o levou a prosseguir de forma digna não só diante de homens, mas também diante de Deus, chamado agora Israel (príncipe de Deus) e em seu coração Jacó sabia disso. Não era mais o Deus de seus pais, mas o seu Deus. Jacó tem a sua plenitude naquele momento, e a partir de agora tudo muda em sua vida.

Esta mesma intensidade vamos encontrar em toda a Palavra, se apenas quisermos buscar a sua humanidade.

Temos agora o texto de Cantares, literatura que Jorge Pinheiro chama “jóia da literatura oriental” (PINHERO, 2010, p23). Verso 2.4 “Entra na casa do vinho, o seu estandarte é desejo”. Este texto é considerado de difícil tradução por muitos tradutores, alguns confessam que dificilmente alguém encontrará uma tradução adequada que nos dê o real sentido deste verso (RA), alguns arriscam dar um sentido para o texto, mas nos traz o texto literal no rodapé (NTLH), outros ainda arriscam uma tradução que desconsidera o possível significado único do texto, e trabalha com a palavra “estandarte” a partir do sentido no próprio idioma traduzido, comparando o estandarte com uma bandeira, e assim a tradução traria o sentido que o amor entre eles poderia ser visto por todos como uma bandeira (NVI).

Buscando a humanidade do texto, Jorge Pinheiro nos traz uma nova visão, e nos tira do texto superficial, e nos leva a mergulhar nele. Em primeiro lugar o poema é oriental, o que já tira o nosso direito de traduzir o texto e levar as palavras ao pé da letra no sentido que ela nos dá no texto traduzido. A expressão “casa do vinho” não deve ser tomada literalmente, esta expressão é uma metáfora.

Outra questão a ser levada em consideração é diferença do erótico no final do século XIX, no mundo oriental e também o erótico que conhecemos hoje, o qual entendemos que o pornográfico descreve ou evoca a luxúria, bem diferente do contexto de Cantares.

O erotismo está presente nos textos antigos, no Cântico dos cânticos e nas Mil e umas noites, porque é dimensão da sexualidade lida através da ars erótica, presente nas culturas romana antiga, chinesa, hindu, japonesa e árabe, arte que tira sua verdade do próprio prazer, entendido como experiência onde não há lugar para proibições, e o prazer pode ser medido pela tesura do corpo e do espírito. Arte esta que não foi desenvolvida na cultura ocidental, mas é olhado com desconfiança pela moral que repousa sobre a scientia sexualis, que gera regras para definir o bem e o mal do sexo, que a religião sacralizou para produzir a verdade sobre o sexo (PINHEIRO, 2010, p. 25).

Se partimos do ponto de vista ocidental, nunca teremos contato com o real sentido do texto oriental que se expressa através da ars erótica. Uma vez que nossa mente foi estruturada no pensamento ocidental, dificilmente vamos conseguir entender que a verdade do texto não parte necessqriqmente do próprio prazer, e não partindo do próprio prazer, ele nos leva a uma idéia vasta e profunda em seu verdadeiro significado: pensamos o prazer. Apenas senti-lo limita profundamente o pensamento ocidental, mas pensar o prazer nos dá a condição de ter um contato com o texto, alcançar a sua humanidade  e encontrar o transcendente: o gozo em rosa.

BIBLIOGRAFIA

PINHEIRO, Jorge. Teologia Humana, pra lá de humana. São Paulo: Fonte Editorial, 2010.
BÍBLIA de Estudo NVI. São Paulo: Vida, 2003.
Bíblia de Estudo NTLH. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008.
Bíblia de Estudo RA. São Paulo: Hagnos, 2003

jeudi 16 juin 2011

Bereshit

Wikipédia, a enciclopédia livre.

Bereshit (do hebraico בראשית, Bereshít, "no ínicio", "no princípio", primeira palavra do texto) é o nome da primeira parte da Torá. Bereshit é chamado comumente de Gênesis pela tradição ocidental e trata-se praticamente do mesmo livro apesar de algumas diferenças, principalmente no que lida com interpretações religiosas com outras religiões que aceitam o livro de Gênesis. Este artigo pretende mostrar as origens do livro e suas implicações dentro principalmente do judaísmo.

Origem do nome do livro

O termo Bereshit (No princípio) trata-se da primeira palavra do livro, e é o costume judaico dividir seus livros e citar como nome do capítulo o nome de sua primeira palavra. O livro foi chamado na Septuaginta e por Filo de Alexandria de Γένεσις (κόσμου) = "origem" (do mundo), e o termo Gênesis é uma criação posterior usual entre os não judeus.

Origens do texto

Do ponto de vista judaico, a tradição passada ao largo de milhares de anos ensina que o texto foi entregue por Deus a Moisés no Monte Sinai durante a revelação ao povo hebreu, dias após a saída do Egito, o Êxodo.[1] Esta visão é conhecida como Criticismo Inferior.[2]
Os estudiosos do Criticismo Superior geralmente atribuem a autoria a um período posterior, provavelmente no retorno do Exílio Babilônico onde teria havido uma fusão de diversas lendas mitológicas dos povos do Levante com a cultura judaica. Muitos elementos mitológicos presentes no texto serão base para textos posteriores que seriam considerados apócrifos como o Livro de Enoque. Como exemplo deste caso temos a polêmica sobre os Nefilim.
Os estudiosos do Criticismo Superior crêem que a Torá e subsequentemente Bereshit é resultado de diversas tradições que evoluiram em conjunto através da história do antigo povo de Israel. Neste ponto de vista seria confirmado pelas duplicidades nas diversas histórias narradas:
  • Duas criações do mundo;
  • Duas alianças de D-us com Avraham;
  • Duas histórias do nome de Yitzhak;
  • Duas histórias do nome de Ya'acov;
  • Além das porções que utilizam o nome Elohim (tradição Eloísta) e que parecem desconhecer totalmente o nome de YHWH (tradição Yavista) como no caso da criação do mundo.[3]

Texto

Bereshit tem como princípio descrever as origens deste mundo e da linhagem humana até o pacto do Criador com o povo de Israel, descrevendo principalmente a vida dos Patriarcas bíblicos. Também apresenta as origens dos principais mandamentos da vida judaica como a brit milá, o shabat e mandamentos para toda a humanidade como as Leis de Noé.
O texto é comumente dividido em doze parashot (porções) cuja divisão servem para a leitura semanal do texto nas sinagogas acompanhadas das haftarot. As doze porções, simbolizam as Tribos de Israel. Assim a narrativa de Bereshit está divida em:

Bereshit (בראשית)


Gustave Doré Adão e Eva expulsos do paraíso.
A parashá Bereshit ("No início", "no princípio") é a primeira porção da Torá e busca narrar a criação do mundo por D-us, assim como a origem de todas as coisas—dos animais, do primeiro homem (Adam ou Adão - cujo nome provêm de adama, "terra avermelhada") e sua mulher, assim como de sua descendência através de dez gerações. Mostra a corrupção do gênero humano (incluindo o primeiro assassinato) e o subseqüente castigo de D-us através do Dilúvio, do qual somente se salvaria Noach (Noé) e sua família.
Esta porção apresenta a origem do shabat (que seria o dia de descanso de Deus após a criação) e apresenta—de acordo com Maimônides -- o primeiro mandamento positivo: "Crescei e frutificai".
A haftará que acompanha esta porção é:

Nôach (נח)

Esta parashá toma o nome de Noach (Noé) que ao contrário da restante da humanidade teria permanecido justo diante da maldade do ser humano e graças a isto teria sobrevivido junto com sua família do cataclismo causado pelo Dilúvio juntamente com animais selecionados para garantir a sobrevivência das espécies. Após a cessação do Dilúvio, Noach e sua família teriam repovoado a terra e dado origem à todos os povos da atualidade. A descendência de Noach no entanto seria alvo de um castigo divino ao tentarem mover uma guerra contra Deus ao construir a Torre de Babel. Tendo seus idiomas confundidos, os povos foram dispersos pela face da terra.
A haftará desta porção é :

Lech Lech (לך לך )

De acordo com a tradição judaica, desde o princípio do mundo existiram justos servidores ao Deus único , mas a corrupção do gênero humano levou principalmente à adoção da idolatria pela maior parte dos povos da terra. A parashá Lech Lechá inicia-se com o chamado de Deus a Avraham (Abraão), que teria sido um profeta e defensor do monoteísmo. Chamado para peregrinar nas terras de Canaã, a parashá narra diversas aventuras envolvendo o profeta, sua mulher Sarai (Sara) e seu sobrinho Lot. Entre suas peregrinações Deusbrit milá. Esta aliança eterna é a fundamentação do conceito de Povo Escolhido para os judeus, que seriam os descendentes de Avraham. A parashá também descreve o nascimento do filho de Avraham, Ishmael (Ismael) que posteriormente será considerado o pai dos povos árabes. efetua uma aliança eterna com Avraham e sua descendência simbolizada pelo pacto da
A haftará desta porção é :

Vayerá (וירא)

Esta parashá narra as promessas de Deus a Avraham e a sua descendência, que deveria ser obtida mediante Yitzhak (Isaac), filho gerado milagrosamente por Sara que era velha e estéril. O nascimento de Yitzhak leva a uma crise com Ishmael (Ismael) e sua mãe Hagar, uma escrava que havia sido dada como concumbina a Avraham. Por recomendação de Sara e Deus, Avraham expulsa o filho e sua mãe. Nesta parashá é também narrada a destruição de Sodoma e Gomorra e a salvação de Lot por dois anjos. Inclui também a provação de Deus á fé de Avraham pedindo que este sacrifique seu filho Yitzhak. Avraham segue a determinação mas Deus impede o sacríficio no último momento.
A haftará desta porção é :

Chayê Sharah (חיי שרה)


Gustave Doré - Eliézer e Rebeca.
Esta parashá inicia-se com a morte de Sara aos 127 anos. Avraham decide encontrar uma esposa para seu filho Yitschac e envia seu servo à sua família, que encontra uma moça, Rivka (Rebeca) que se torna esposa de Yitzhak. Avraham acaba falecendo com a idade de 175 anos e a porção encerra-se com a descrição dos descendentes de Avraham.
A haftará desta parashá é :

Toledot (תולדות)

A parashá Toledot narra a história de Yitzhak e Rivka, e de seus filhos gêmeos, Esav (Esaú) e Yaacov (Jacó). Os dois irmãos competem pela atenção do pai, onde Esav é um caçador, enquanto Yaacov é um rapaz caseiro e estudioso da Torá. Essav mostrado como um libertino e frívolo, vende seu direito de primogenitura para Yaacov. Este ainda passa-se pelo irmão e enganando ao pai recebe as bençãos de seu pai, o que despertando a ira de Esav faz com que Yaacov fuja para Charan junto ao seu tio Lavan.
A haftará desta porção é :

Vayetze (ויצא)


Michael Willmann - O sonho de Jacó.
Yaacov foge para as terras de seu tio Lavan (Labão) e no caminho recebe uma visão de Deus e um pacto com a sua descendência. Ao chegar à família de seu tio apaixona-se por sua prima Rachel (Raquel). Para casar com ela é obrigado à trabalhar sete anos. Ao casar-se, é enganado por seu tio e acaba desposando a irmã mais velha de Rachel, Lea. Para se casar com Rachel Yaakov trabalha mais sete anos. Destas duas mulheres mais suas concumbinas, Yaakov gera onze dos doze filhos que serão os patriarcas das Doze tribos de Israel. Após vinte anos trabalhando e sendo enganado por Lavan, Yaakov e sua família fogem de Lavan , que os persegue mas por fim faz um pacto de paz com eles.
A haftará desta porção é :

Vayishlach (וישלח)

A parashá Vayishlach prossegue o relato da história de Yaakov ao retornar com sua família para a terra de Canaã e seu encontro com Esav. Yaacov julga que Esav pretende batalhar contra ele, e prepara-se para a batalha. Antes de encontrar-se com seu irmão luta contra um anjo disfarçado de homem do qual sai vitorioso embora manco. Do anjo Yaakov recebe o nome de Yisrael (Israel) que será o nome pela qual seus descendentes seriam chamados.
Yaakov encontra por fim Esav que o aceita em paz embora ambos se separem. A narrativa prossegue com o rapto da filha de Yaakov, Diná e seu consequente estupro por parte de Sechem, príncipe da cidade de Sechem (Siquém). Os filhos de Yaacov enganam os habitantes da cidade, obrigando-os à circuncidarem-se sob o pretexto da aceitação de casamentos mistos e por fim Shimon e Levi matam os habitantes da cidade resgatando Diná. Rachel morre em seguida ao dar a luz ao décimo-segundo filho de Yaakov e este retorna para a casa de seu pai. Yizhak morre com a idade de 180 anos e a porção prossegue com a descrição da genealogia de Esav que seria o ancestral dos habitantes de Edom.
A haftará desta porção é:

Vayêshev (וישב)


José sendo capturado pelos seus irmãos e vendido aos egípcios (pintura de Konstantin Flavitsky).
A parashá Vayêshev descreve inicialmente a afeição de Yaakov por seu filho Yossef (José) o que leva ao ciúme dos outros irmãos. Este ódio aumenta com os sonhos de Yossef que se vê como senhor de seus irmãos. Seus irmãos preparam uma artimanha e vendem seu irmão como escravo no Egito, e enganam seu pai dizendo que Yossef havia sido destroçado por um animal.
No Egito Yossef torna-se um empregado valoroso na casa de Potifar, mas recebe uma falsa acusação de tentativa de assédio sexual por parte da esposa de Potifar. Yossef é preso onde acaba tornando-se encarregado dos prisioneiros. Após dez anos ao interpretar o sonho de dois serviçais de faraó, os eventos posteriores confirmam a interpretação dada por Yossef.
A haftará desta porção é Amós 2:6–3:8.

Miqetz (מקץ)

Mikêts descreve o sonho do faraó sobre sete vacas magras devorando sete vacas gordas, seguido por sete espigas magras de cereal devorando sete espigas saudáveis. Os conselheiros de faraó não conseguem interpretar o sonho, e Yossef recomendado pelo copeiro do rei é chamado para interpretar o sonho. Yossef descreve então que os sonhos confirmam que após sete anos de abundância o Egito e toda a terra seria assolado por grande escassez. Faraó determina então Yossef como vice-rei do Egito com o objetivo de coletar alimentos no período de fartura e armazaná-los para a época da escassez. Yossef então casa-se e tem dois filhos: Menashê e Efraim, e os eventos ocorrem como Yossef predissera. Em Canaã a escassez atinge a família de Yaacov, que envia seus filhos ao Egito para comprar alimento. Encontram Yossef mas não o reconhecem.
Yossef finge então considerá-los espiões e mantém Shimeon refém enquanto os outros irmãos retornam para Canaã com alimento, e exige que retornem com o irmão mais novo. Yaacov não permite mas a escassez obriga-o à liberar Binyamin (Benjamim). Os irmãos retornam ao Egito onde são bem tratados. No entanto Yossef cria uma artimanha para acusar Binyamin de roubo e torná-lo seu escravo no Egito.
A haftará desta parashá é I Reis 3:15–4:1.

Vayigash (ויגש )

Os irmãos de Yaakov desesperam-se com a situação e Yehudá (Judá) oferece-se para ficar no Egito no lugar de Binyamin já que a perda deste seria fatal para Yaakov. Yossef incapaz de fingir mais tempo revela-se a seus irmãos e os envia de volta para Canaã para buscarem seu pai e ordem para que toda a família de Yaakov venha habitar no Egito.
A haftará desta porção é Ezequiel 37:15–28.

Vayechi (ויחי)


Jacó abençoa os filhos de José (pintado por Jan Victors).
A parashá Vayechi é a última porção de Bereshit e descreve os últimos anos de vida de Yaakov e sua morte. Antes obriga Yossef a jurar que o enterrará na Terra da Promessa e abençoa a cada um dos seus filhos individualmente. Yaakov morre com 147 anos e é enterrado em M'arat HaMachpelá, onde estão enterrados sua esposa Lea, seus pais Yitzhak e Rivka, e os avós Avraham e Sara.
Yossef perdoa seus irmãos das artimanhas que lhe armaram na juventude e por fim Yossef morre, pedindo que seus ossos sejam levados no futuro para a Terra da Promessa.
A haftará desta parashá é I Reis 2:1–12.

Referências

  1. Chabad Torá.
  2. KOLATCH, Alfred J. Porquês da Torá, Os - São Paulo: Editora Sêfer, 2004
  3. As Camadas do Pentateuco.

A comunhão na criação

Os relatos bíblicos descrevem a criação do céu e da terra, obra do Eterno, através da indicação “e o Espírito de Deus se movia por cima da água” (Gn 1.2). Isto quer dizer que o Espírito divino é Pessoa criadora e presença do Eterno, tendo sido a criação uma realidade formatada por Ele. E é o mesmo Espírito quem clama pela liberdade redentora da criação escravizada. 

Um dia o próprio Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo e tomará parte na gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que até agora o Universo todo geme e sofre como uma mulher que está em trabalho de parto” (Rm 8.21-22).

O Espírito é o poder atuante do Criador e a força de vida das criaturas. O Espírito é a fonte da vida. Por isso, tudo o que existe e vive manifesta a presença dele. Ele transforma a comunhão com o Pai e o Filho na comunhão da criação, na qual todas as criaturas, cada qual a seu modo, se comunicam com Deus. A existência, a vida e os relacionamentos estão firmados no Espírito, “pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28).

Assim, a partir da comunhão trinitária, o ser humano faz parte da criação e é dependente dela. Vive dentro de um contexto de interdependência com a criação. Desde o início, nosso futuro está ligado ao solo, à água e ao ar. Deus nos coloca junto e com a natureza para trabalhar essa mesma natureza (Gn 2.15). Não haveria falta (2.8-9) se soubermos administrar. Dependemos do solo e dele recebemos o nosso sustento. Pertencemos a este mundo criado e é ele que fornece a base para nossa existência.  A vida começa e se orienta sob o cuidado de Deus.

Ó Senhor, tu tens feito tantas coisas e foi com sabedoria que as fizeste. A terra está cheia das tuas criaturas” (Sl 104.24).

Todos esses animais dependem de ti, esperando que lhes dês alimento no tempo certo. Tu dás a comida, e eles comem e ficam satisfeitos. Quando escondes o rosto, ficam com medo; se cortas a respiração que lhes dás, eles morrem e voltam ao pó de onde saíram. Porém, quando lhes dás o sopro de vida, eles nascem; e assim dás vida nova à terra” (Sl 104.27-30).

Hoje, pensamos que o mundo é um objeto para nossa exploração, em vez de sujeito para a glorificação de Deus. Em grande parte, ignoramos as necessidades de outras formas de vida. Essa atitude utilitarista de ver e agir é pecado, é uma falta de respeito para com o Espírito de Deus.

O desafio do cuidado amoroso

É Deus quem dá e quem sustenta a vida de todo o universo. Sua preocupação por atender às necessidades básicas (comer, beber e vestir) não se restringe ao ser humano, mas se estende a toda a natureza, refletida nos pássaros e nas flores do campo.

É Deus quem veste a erva do campo, que hoje dá flor e amanhã desaparece, queimada no forno. Então é claro que ele vestirá também vocês, que têm uma fé tão pequena!” (Mt 6.30).

O universo inteiro depende do cuidado amoroso de Deus, que não descuida de nenhuma criatura. Os lírios, por exemplo, caracterizados por sua fragilidade e vida curta, são vestidos de tal modo que nem Salomão usava roupas tão bonitas como essas flores. (Mt 6,29).

Criação significa que tudo é completamente obra de Deus. Deus é o autor de tudo, o Deus pessoal e salvífico, que se revelou como puro amor. Toda a realidade brota da pura iniciativa deste amor divino, puro dom gratuito.

Mas, o ser humano faz parte da criação, depende dela e é seu cuidador. O ser humano, como o restante da criação, foi criado “de acordo com a sua espécie” (Gn 1.24 e 25), só que à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26-27). A imagem de Deus é elaborada em termos do domínio administrativo que o ser humano teria sobre o resto da criação. O ser humano foi criado à imagem de Deus, não somente por sua liberdade e direito à escolha, mas também pela postura que assume diante da criação, uma postura de soberania em amor e comunhão, que deve refletir a soberania de Deus (Gn 1.26-28). O ser humano não foi criado apenas para realizar uma administração espiritual, mas foi criado para ordenar a criação.

No entanto, fizeste o ser humano inferior somente a ti mesmo e lhe deste a glória e a honra de um rei. Tu lhe deste poder sobre tudo o que criaste; tu puseste todas as coisas debaixo do domínio dele: as ovelhas e o gado e os animais selvagens também; os pássaros e os peixes e todos os seres que vivem no mar” (Sl 8.5-6).

Essa administração humana sobre a criação nós chamamos de mandato cultural. Ser criado à imagem de Deus é ser responsável pelo planeta e por todas as formas de vida!

A soberania humana implica responsabilidade para preservar a ordem que Deus criou e promover a existência de todos os seus elementos. Tal soberania não implica em liberdade para roubar, matar e destruir. Os seres humanos são mordomos de Deus, responsáveis diante dele e cuja primeira tarefa é assegurar a permanência e equilíbrio da criação.

Somos todos responsáveis

A preocupação divina com a salvação espiritual não é alheia da sua preocupação pelo bem-estar da sua criação material. A criação é o primeiro dos atos salvadores de Deus.

Mas tu, ó Deus, tens sido o nosso Rei desde o princípio e nos salvaste muitas vezes. Com o teu grande poder, dividiste o Mar e esmagaste as cabeças dos monstros marinhos. Esmagaste as cabeças do monstro Leviatã e deste o seu corpo para os animais do deserto comerem. Fizeste com que corressem fontes e riachos e secaste grandes rios. Criaste o dia e a noite, puseste o sol, a lua e as estrelas nos seus lugares. Marcaste os limites da terra e fizeste o verão e o inverno” (Sl 74.12-17).

Por isso, não devemos conceber a participação do ser humano no mundo como opcional, nem como secundária sua missão na salvação de vidas. Desde o início, a criação fazia parte do plano salvador de Deus. A conversão de seres humanos não é o último dos atos salvadores de Deus, mas o estabelecimento de novos céus e nova terra, ou seja, uma nova criação (Ap 21.1), a libertação da própria criação em si (Rm 8.20-22).

Até o fim, a criação fará parte do plano salvador de Deus. A mesma graça de Deus que se manifestou em Cristo, também se manifestou na criação.

Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras aos nossos antepassados, mas nestes últimos tempos ele nos falou por meio do seu Filho. Foi ele quem Deus escolheu para possuir todas as coisas e foi por meio dele que Deus criou o Universo. O Filho brilha com o brilho da glória de Deus e é a perfeita semelhança do próprio Deus. Ele sustenta o Universo com a sua palavra poderosa. E, depois de ter purificado os seres humanos dos seus pecados, sentou-se no céu, do lado direito de Deus, o Todo-Poderoso” (Hb 1.1-3).

E a graça do Eterno manifesta alcançará o seu propósito de submeter a Cristo todas as coisas.

Por isso Deus deu a Jesus a mais alta honra e pôs nele o nome que é o mais importante de todos os nomes, para que, em homenagem ao nome de Jesus, todas as criaturas no céu, na terra e no mundo dos mortos, caiam de joelhos e declarem abertamente que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus, o Pai”. (Fp 2.9-11).

As Escrituras Sagradas dizem: Deus pôs todas as coisas debaixo do domínio dele. É claro que dentro das palavras “todas as coisas” não está o próprio Deus, que põe tudo debaixo do domínio de Cristo. Mas, quando tudo for dominado por Cristo, então o próprio Cristo, que é o Filho, se colocará debaixo do domínio de Deus, que pôs todas as coisas debaixo do domínio dele. Então Deus reinará completamente sobre tudo” (1Co 15.27-28).

Assim podemos dizer que existe uma eco-teologia bíblica, que envolve o uso responsável e sustentável dos recursos da criação de Deus e a transformação das dimensões culturais, econômicas, morais, intelectuais e políticas da vida. Isto inclui a recuperação de um sentido bíblico de mordomia, que implica em administração e cuidado responsável. Da mesma maneira, o conceito bíblico de descanso semanal recorda que se deve por limites às atividades de produção e ao consumo. Assim, devemos usar a riqueza e o poder no serviço dos demais. É um compromisso de trabalhar para libertar os ricos da escravidão ao dinheiro e ao poder, e possibilitar aos que têm menos obter acesso à dignidade e às oportunidades de desenvolvimento. A esperança de tesouros no céu nos livra da tirania de Mamon. E fazendo assim estaremos compreendendo o sentido maior do cuidado da natureza e da vida criada pelo Eterno.

lundi 13 juin 2011

Os evangélicos e a ditadura militar -- IstoÉ

Documentos inéditos do projeto Brasil: Nunca Mais - até agora guardados no Exterior - chegam ao País e podem jogar luz sobre o comportamento dos evangélicos nos anos de chumbo  

Rodrigo Cardoso 
Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/141566_OS+EVANGELICOS+E+A+DITADURA+MILITAR?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage
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No primeiro dia foram oito horas de torturas patrocinadas por sete militares. Pau de arara, choque elétrico, cadeira do dragão e insultos, na tentativa de lhe quebrar a resistência física e moral. “Eu tinha muito medo do que ia sentir na pele, mas principalmente de não suportar e falar. Queriam que eu desse o nome de todos os meus amigos, endereços... Eu dizia: ‘Não posso fazer isso.’ Como eu poderia trazê-los para passar pelo que eu estava passando?” Foram mais de 20 dias de torturas a partir de 28 de fevereiro de 1970, nos porões do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo. O estudante de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP) Anivaldo Pereira Padilha, da Igreja Metodista do bairro da Luz, tinha 29 anos quando foi preso pelo temido órgão do Exército. Lá chegou a pensar em suicídio, com medo de trair os companheiros de igreja que comungavam de sua sede por justiça social. Mas o mineiro acredita piamente que conseguiu manter o silêncio, apesar das atrocidades que sofreu no corpo franzino, por causa da fé. A mesma crença que o manteve calado e o conduziu, depois de dez meses preso, para um exílio de 13 anos em países como Uruguai, Suíça e Estados Unidos levou vários evangélicos a colaborar com a máquina repressora da ditadura. Delatando irmãos de igreja, promovendo eventos em favor dos militares e até torturando. Os primeiros eram ecumênicos e promoviam ações sociais e os segundos eram herméticos e lutavam contra a ameaça comunista. Padilha foi um entre muitos que tombaram pelas mãos de religiosos protestantes.
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O metodista só descobriu quem foram seus delatores há cinco anos, quando teve acesso a documentos do antigo Sistema Nacional de Informações: os irmãos José Sucasas Jr. e Isaías Fernandes Sucasas, pastor e bispo da Igreja Metodista, já falecidos, aos quais era subordinado em São Paulo. “Eu acreditava ser impossível que alguém que se dedica a ser padre ou pastor, cuja função é proteger suas ovelhas, pudesse dedurar alguém”, diz Padilha, que não chegou a se surpreender com a descoberta. “Seis meses antes de ser preso, achei na mesa do pastor José Sucasas uma carteirinha de informante do Dops”, afirma o altivo senhor de 71 anos, quatro filhos, entre eles Alexandre, atual ministro da Saúde da Presidência de Dilma Rousseff, que ele só conheceu aos 8 anos de idade. Padilha teve de deixar o País quando sua então mulher estava grávida do ministro. Grande parte dessa história será revolvida a partir da terça-feira 14, quando, na Procuradoria Regional da República, em São Paulo, acontecerá a repatriação das cópias do material do projeto Brasil: Nunca Mais. Maior registro histórico sobre a repressão e a tortura na ditadura militar (leia quadro na pág. 79), o material, nos anos 80, foi enviado para o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), organização ecumênica com sede em Genebra, na Suíça, e para o Center for Research Libraries, em Chicago (EUA), como precaução, caso os documentos que serviam de base do trabalho realizado no Brasil caíssem nas mãos dos militares. De Chicago, virá um milhão de páginas microfilmadas referentes a depoimentos de presos nas auditorias militares, nomes de torturadores e tipos de tortura. A cereja do bolo, porém, chegará de Genebra – um material inédito composto por dez mil páginas com troca de correspondências entre o reverendo presbiteriano Jaime Wright (1927 – 1999) e o cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, que estavam à frente do Brasil: Nunca Mais, e as conversas que eles mantinham com o CMI.

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Somente em 1968, quatro anos após a ascensão dos militares ao poder, o catolicismo começou a se distanciar daquele papel que tradicionalmente lhe cabia na legitimação da ordem político-econômica estabelecida. Foi aí, quando no Brasil religiosos dominicanos como Frei Betto passaram a ser perseguidos, que a Igreja assumiu posturas contrárias às ditaduras na maioria dos países latino-americanos. Os protestantes, por sua vez, antes mesmo de 1964, viveram uma espécie de golpe endógeno em suas denominações, perseguindo a juventude que caminhava na contramão da ortodoxia teológica. Em novembro de 1963, quatro meses antes de o marechal Humberto Castelo Branco assumir a Presidência, o líder batista carismático Enéas Tognini convocou milhares de evangélicos para um dia nacional de oração e jejum, para que Deus salvasse o País do perigo comunista. Aos 97 anos, o pastor Tognini segue acreditando que Deus, além de brasileiro, se tornou um anticomunista simpático ao movimento militar golpista. “Não me arrependo (de ter se alinhado ao discurso dos militares). Eles fizeram um bom trabalho, salvaram a Pátria do comunismo”, diz.

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Assim, foi no exercício de sua fé que os evangélicos – que colaboraram ou foram perseguidos pelo regime – entraram na alça de mira dos militares (leia a movimentação histórica dos protestantes à pág. 80). Enquanto líderes conservadores propagavam o discurso da Guerra Fria em torno do medo do comunismo nos templos e recrutavam formadores de opinião, jovens batistas, metodistas e presbiterianos, principalmente, com ideias liberais eram interrogados, presos, torturados e mortos. “Fui expulso, com mais oito colegas, do Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1962, porque o nosso discurso teológico de salvação das almas passava pela ética e a preocupação social”, diz o mineiro Zwinglio Mota Dias, 70 anos, pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, da Penha, no Rio de Janeiro. Antigo membro do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que promovia reuniões para, entre outras ações, trocar informações sobre os companheiros que estavam sendo perseguidos, ele passou quase um mês preso no Doi-Codi carioca, em 1971. “Levei um pescoção, me ameaçavam mostrando gente torturada e davam choques em pessoas na minha frente”, conta o irmão do também presbiteriano Ivan Mota, preso e desaparecido desde 1971. Hoje professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Dias lembra que, enquanto estava no Doi-Codi, militares enviaram observadores para a sua igreja, para analisar o comportamento dos fiéis.

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Segundo Rubem Cesar Fernandes, 68 anos, antropólogo de origem presbiteriana, preso em 1962, antes do golpe, por participar de movimentos estudantis, os evangélicos carregam uma mancha em sua história por convidar a repressão a entrar na Igreja e perseguir os fiéis. “Os católicos não fizeram isso. Não é justificável usar o poder militar para prender irmãos”, diz ele, considerado “elemento perigoso” no templo que frequentava em Niterói (RJ). “Pastores fizeram uma lista com 40 nomes e entregaram aos militares. Um almirante que vivia na igreja achava que tinha o dever de me prender. Não me encontrou porque eu estava escondido e, depois, fui para o exílio”, conta o hoje diretor da ONG Viva Rio.

O protestantismo histórico no Brasil também registra um alto grau de envolvimento de suas lideranças com a repressão. Em sua tese de pós-graduação, defendida na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Daniel Augusto Schmidt teve acesso ao diário do irmão de José, um dos delatores de Anivaldo Padilha, o bispo Isaías. Na folha relativa a 25 de março de 1969, o líder metodista escreveu: “Eu e o reverendo Sucasas fomos até o quartel do Dops. Conseguimos o que queríamos, de maneira que recebemos o documento que nos habilita aos serviços secretos dessa organização nacional da alta polícia do Brasil.” Dono de uma empresa de consultoria em Porto Alegre, Isaías Sucasas Jr., 69 anos, desconhecia a história da prisão de Padilha e não acredita que seu pai fora informante do Dops. “Como o papai iria mentir se o cara fosse comunista? Isso não é delatar, mas uma resposta correta a uma pergunta feita a ele por autoridades”, diz. “Nunca o papai iria dedar um membro da igreja, se soubesse que havia essas coisas (torturas).” Em 28 de agosto de 1969, um exemplar da primeira edição do jornal “Unidade III”, editado pelo pai do ministro da Saúde, foi encaminhado ao Dops. Na primeira página, há uma anotação: “É preciso ‘apertar’ os jovens que respondem por este jornal e exigir a documentação de seu registro porque é de âmbito nacional e subversivo.” Sobrinho do pastor José, o advogado José Sucasas Hubaix, que mora em Além Paraíba (MG), conta que defendeu muitos perseguidos políticos durante a ditadura e não sabia que o tio havia delatado um metodista. “Estou decepcionado. Sabia que alguns evangélicos não faziam oposição aos militares, mas daí a entregar um irmão de fé é uma grande diferença.”

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Nenhum religioso, porém, parece superar a obediência canina ao regime militar do pastor batista Roberto Pontuschka, capelão do Exército que à noite torturava os presos e de dia visitava celas distribuindo o “Novo Testamento”. O teólogo Leonildo Silveira Campos, que era seminarista na Igreja Presbiteriana Independente e ficou dez dias encarcerado nas dependências da Operação Bandeirante (Oban), em São Paulo, em 1969, não esquece o modus operandi de Pontuschka. “Um dia bateram na cela: ‘Quem é o seminarista que está aqui?’”, conta ele, 21 anos à época. “De terno e gravata, ele se apresentou como capelão e disse que trazia uma “Bíblia” para eu ler para os comunistas f.d.p. e tentar converter alguém.” O capelão chegou a ser questionado por um encarcerado se não tinha vergonha de torturar e tentar evangelizar. Como resposta, o pastor batista afirmou, apontando para uma pistola debaixo do paletó: “Para os que desejam se converter, eu tenho a palavra de Deus. Para quem não quiser, há outras alternativas.” Segundo o professor Maurício Nacib Pontuschka, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, seu tio, o pastor-torturador, está vivo, mas os dois não têm contato. O sobrinho também não tinha conhecimento das histórias escabrosas do parente. “É assustador. Abomino tortura, vai contra tudo o que ensino no dia a dia”, afirma. “É triste ficar sabendo que um familiar fez coisas horríveis como essa.”

Professor de sociologia da religião na Umesp, Campos, 64 anos, tem uma marca de queimadura no polegar e no indicador da mão esquerda produzida por descargas elétricas. “Enrolavam fios na nossa mão e descarregavam eletricidade”, conta. Uma carta escrita por ele a um amigo, na qual relata a sua participação em movimentos estudantis, o levou à prisão. “Fui acordado à 1h por uma metralhadora encostada na barriga.” Solto por falta de provas, foi tachado de subversivo e perdeu o emprego em um banco. A assistente social e professora aposentada Tomiko Born, 79 anos, ligada a movimentos estudantis cristãos, também acredita que pode ter sido demitida por conta de sua ideologia. Em meados dos anos 60, Tomiko, que pertencia à Igreja Evangélica Holiness do Brasil, fundada pelo pai dela e outros imigrantes japoneses, participou de algumas reuniões ecumênicas no Exterior. Em 1970, de volta ao Brasil, foi acusada de pertencer a movimentos subversivos internacionais pelo presidente da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, onde trabalhava. Não foi presa, mas conviveu com o fantasma do aparelho repressor. “Meu pesadelo era que o meu nome estivesse no caderninho de endereço de alguma pessoa presa”, conta.

Parte da história desses cristãos aterrissará no Brasil na terça-feira 14, emaranhada no mais de um milhão de páginas do Projeto Brasil: Nunca Mais repatriadas pelo Conselho Mundial de Igrejas. Não que algum deles tenha conseguido esquecer, durante um dia sequer, aqueles anos tão intensos, de picos de utopia e desespero, sustentados pela fé que muitos ainda nutrem. Para seguir em frente, Anivaldo Padilha trilhou o caminho do perdão – tanto dos delatores quanto dos torturadores. Em 1983, ele encontrou um de seus torturadores em um baile de Carnaval. “Você quis me matar, seu f.d.p., mas eu estou vivo aqui”, pensou, antes de virar as costas. Enquanto o mineiro, que colabora com uma entidade ecumênica focada na defesa de direitos, cutuca suas memórias, uma lágrima desce do lado direito de seu rosto e, depois de enxuta, dá vez para outra, no esquerdo. Um choro tão contido e vívido quanto suas lembranças e sua dor.

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Vinde adoremos



O Senhor está voltando
Pr; Jorge Pinheiro
 
Introdução

O poema que está em Cântico dos Cânticos 3.6-11 descreve a majestade de Salomão ao ser coroado por ordem de Davi (1º. Reis 1.28-40), e o seu casamento com a filha do faraó Psusenés II (1º. Reis 3.1 e 2º. Crônicas 8.11).

E Isaías (61.10) se refere ao casamento de Salomão através da adoração: “transbordo de alegria no Senhor, minha alma se regozija no meu Deus, porque me vestiu com vestes de salvação; cobriu-me com o manto da justiça, como o noivo que se adorna com o diadema, como a noiva que se enfeita com jóias”.

O poema

“O que é aquilo que vem subindo do deserto? Parece uma nuvem de fumaça de mirra, e de incenso, e de todo tipo de perfumes vendidos pelos mercadores. É a liteira do rei Salomão; sessenta soldados, os melhores de Israel, formam a sua guarda pessoal. Todos eles sabem usar bem a espada e são treinados para a guerra. Cada um está armado com uma espada, por causa dos perigos da noite. A liteira que o rei Salomão mandou fazer era de madeira da melhor qualidade. As suas colunas eram cobertas de prata, e o seu teto era de tecido bordado a ouro. As suas almofadas, forradas de fino tecido vermelho, foram feitas com carinho pelas mulheres de Jerusalém. Mulheres de Sião, venham ver o rei! O rei Salomão está usando a coroa que recebeu da sua mãe no dia do seu casamento, naquele dia de tanta felicidade”. Cântico dos cânticos 3.6-11.

Mas como fez Isaías ao ir além na leitura do casamento de Salomão, vemos um claro conteúdo messiânico em todo o texto. Ele projeta um rei majestoso, rodeado de amigos guerreiros, e que sobe em direção à Jerusalém. Por isso, queremos aqui, nessas reflexões, dizer que o Rei, o nosso Cristo...

1. Ele venceu no deserto

O atuar de vitórias do Rei começou no deserto. E o evangelista Mateus (4.1) nos diz isso: “Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo”. Foi lá no deserto que Ele, o nosso Rei, enfrentou e venceu o inimigo das nossas almas.

O Rei vem com cheiro suave, de incenso e perfumes preciosos. Da mesma maneira, João no livro do Apocalipse (8.4) vê algo semelhante e descreve assim: “E a fumaça do incenso subiu com as orações dos santos desde a mão do anjo até diante de Deus”. Querido irmão, querida irmã, o cheiro suave que o Rei exala é o perfume da sua oração. Nossas orações, as orações dos santos, são como incenso e mirra, perfumes que estão e permanecem diante do nosso Rei.

2. Cheio de majestade, cercado por seus amigos

O Rei está chegando, cercado de amigos, que são guerreiros, soldados destros no uso da espada. E o apóstolo Paulo explica para seu discípulo Timóteo (2Tm 2.3-4) o que significa ser um guerreiro. Ele diz: “sofre comigo como bom soldado de Cristo Jesus. Nenhum soldado se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra” . E nós por Cristo e em Cristo somos amigos mais chegamos que um irmão. Não esqueça.

Mas esses guerreiros, que formam a guarda pessoal do Rei, manejam bem a espada. E o autor do livro de Hebreus (4.12) nos explica isso ao dizer: “a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”. Essa é uma ordem: os amigos fiéis, a guarda pessoal do Rei, devem manejar bem a Palavra da verdade, mais afiada que espada de dois gumes.

E, por que a guarda pessoal do Rei está armada com a Palavra? O autor do poema nos diz que é para enfrentar os perigos da noite. Diante dos perigos da noite, diante do inimigo que ataca, fazemos como o Rei no deserto, enfrentamos o adversário com a Palavra de Deus. E assim se cumprirá o que o salmista (91.5) diz: “não temerás os terrores da noite”.

3. Vinde, adoremos

Queridos irmãos e irmãs, vinde, adoremos. O Rei vem numa carrugam de prata, ouro e revestida de amor. A prata e o ouro foram trabalhados por artífices e os tecidos finos costurados com amor. A carruagem do Rei é a Igreja do Cristo, construída com os frutos de amor. Frutos de vidas em comunhão.

O Rei tem uma coroa. E João no Apocalipse (14.14) descreve:  “e olhei, e eis uma nuvem branca, e assentado sobre a nuvem um semelhante ao Filho do homem, que tinha sobre a sua cabeça uma coroa de ouro”.

Cristo está coroado. Ele é o Rei. E sua coroa é do que há de mais precioso para o Deus trino: as vidas salvas pelo sacrifício vicário do Rei. A coroa de ouro simboliza cada vida resgatada da morte, é o diadema maior da majestade do nosso Rei, o Senhor Jesus.

Maranata!
Vinde, adoremos! O Rei está voltando!

mercredi 1 juin 2011

A violência da globalização


Por Jean Baudrillard

Seria a globalização uma fatalidade? De alguma forma, todas as outras culturas que não a nossa escapavam à fatalidade da troca indiferente. Onde se situará o limiar crítico da passagem ao universal e, depois, ao mundial? Que vertigem será esta que impulsiona o mundo para a abstração da Idéia, e esta outra vertigem que incita à realização incondicional da Idéia?

Porque o universal era uma Idéia. Quando se realiza no mundial, ela se suicida enquanto Idéia, enquanto fim ideal. Como o humano se tornou a única instância de referência e a humanidade imanente a si mesma passou a ocupar o vazio deixado por Deus morto, o humano agora reina sozinho, mas já não tem motivação final. Não tendo mais inimigo, engendra-o do interior e secreta todos os tipos de metástases inumanas.

Conquistas da modernidade e do progresso

Donde a violência do mundial - violência de um sistema que persegue qualquer forma de negatividade, de singularidade, inclusive a forma última de singularidade que é a própria morte - violência de uma sociedade em que estamos virtualmente proibidos de conflito, proibidos de morte - violência que, de certa maneira, põe fim à própria violência e que trabalha para instalar um mundo livre de qualquer ordem natural, seja a do corpo, a do sexo, a do nascimento ou a da morte.

Mais do que de violência, seria necessário falar de virulência. Trata-se de uma violência que é viral - que atua por contágio, por reação em cadeia, e destrói, pouco a pouco, todas as nossas imunidades e nossa capacidade de resistência.

Entretanto, nada está decidido, e a globalização não ganhou por antecipação. Diante desse poder homogeneizante e dissolvente, se vê, em toda parte, levantarem-se forças heterogêneas - não só diferentes, mas também antagônicas. Por trás das resistências cada vez mais intensas à globalização, sociais e políticas, é preciso ver mais do que uma rejeição arcaica: uma espécie de revisionismo dilacerante quanto às conquistas da modernidade e do “progresso”, de recusa não apenas da tecno-estrutura mundial, como também da estrutura mental de equivalência de todas as culturas.

Este ressurgimento assume aspectos violentos, anômalos, irracionais em relação a nosso pensamento esclarecido - formas coletivas étnicas, religiosas, lingüísticas - mas, igualmente, formas individuais de perturbação do caráter ou neuróticas. Seria um erro condenar esses sobressaltos como populistas, arcaicos ou mesmo terroristas. Tudo o que faz um acontecimento hoje o faz contra essa universalidade abstrata - inclusive o antagonismo do islamismo com os valores ocidentais (pelo fato de ser a mais veemente contestação desses valores, é que, hoje, o Islã é seu inimigo número um).

Vingança de culturas singulares

Quem poderia impedir o sucesso do sistema mundial? Certamente não o movimento antiglobalização, que só tem por objetivo frear a desregulamentação. Seu impacto político pode ser considerável, mas o impacto simbólico é nulo. Essa violência é também uma espécie de peripécia interna que o sistema pode superar sem perder o controle da situação.

O que pode impedir o êxito do sistema não são alternativas positivas, são singularidades. Ora, estas não são positivas nem negativas. Não são uma alternativa; são de outra ordem. Não obedecem mais a um juízo de valor nem a um princípio de realidade política. Podem, pois, ser o melhor ou o pior.

Não é possível, portanto, confederá-las numa ação histórica conjunta. Impedem o sucesso de todo pensamento único e dominante, mas não são um contra-pensamento único - elas inventam seu jogo e suas próprias regras do jogo.

As singularidades não são necessariamente violentas, e algumas são sutis, como as da língua, da arte, do corpo ou da cultura. Mas há algumas violentas - como a do terrorismo. É a que vinga todas as culturas singulares que pagaram com seu desaparecimento a instauração desse único poder mundial.

Despeito feroz entre culturas

Não se trata, portanto, de um “choque de civilizações”, mas de um confronto - quase antropológico - entre uma cultura universal indiferenciada e tudo o que, em qualquer área, conserva algo de uma alteridade irredutível.

Para o poder mundial, tão radical quanto a ortodoxia religiosa, todas as formas diferentes e singulares constituem heresias. Por esta razão, estão condenadas a entrar, querendo ou não, na ordem mundial ou a desaparecer. A missão do Ocidente (ou melhor, do ex-Ocidente, visto que há muito deixou de ter valores próprios) é submeter, por todos os meios, as múltiplas culturas à lei da equivalência.

Uma cultura que perdeu seus valores só pode se vingar nos valores das outras. Inclusive as guerras - como a do Afeganistão - visam primeiro, para além das estratégias políticas ou econômicas, a normalizar a barbárie, a obrigar todos os territórios a se alinharem. O objetivo é dominar toda e qualquer região refratária, colonizar e domesticar todos os espaços selvagens, tanto no espaço geográfico quanto no universo mental.

A instalação do sistema mundial resulta de um despeito feroz: o de uma cultura indiferente e de baixa definição em relação a culturas de alta definição; o dos sistemas desencantados, que perderam a intensidade, em relação a culturas de alta intensidade; o das sociedades dessacralizadas em relação a culturas ou formas sacrificiais.

Humilhação contra humilhação

Para tal sistema, qualquer forma refratária é virtualmente terrorista. É o caso ainda do Afeganistão. Que, num território, todas as permissões e liberdades “democráticas” - a música, a televisão, inclusive o rosto das mulheres - possam ser proibidas, e que um país possa tomar o contrapé total do que chamamos de civilização - qualquer que seja o princípio religioso invocado -, tudo isso é insuportável para o resto do mundo “livre”.

Não se considera que a modernidade possa ser renegada em sua pretensão universal. Que ela não seja vista como a evidência do bem e o ideal natural da espécie, que se conteste a universalidade de nossos costumes e de nossos valores - ainda que por algumas mentes imediatamente caracterizadas como fanáticas -, tudo isso é um crime em relação à visão do pensamento único e do horizonte consensual do Ocidente.

Esse confronto só pode ser compreendido à luz da obrigação simbólica. Para compreender o ódio do resto do mundo em relação ao Ocidente, é preciso inverter todas as perspectivas. Não se trata do ódio daqueles de quem se tirou tudo e aos quais nada se retribuiu mas, sim, do ódio daqueles a quem tudo se deu sem que eles pudessem retribuir. Não é, portanto, o ódio da espoliação e da exploração, é o ódio da humilhação.

E é a este que responde o terrorismo do 11 de setembro: humilhação contra humilhação. O pior para a potência mundial não é ser agredida ou destruída, é ser humilhada. E a potência foi humilhada pelo 11 de setembro, porque os terroristas lhe infligiram, então, alguma coisa que ela não pode retribuir. Todas as represálias são apenas um aparelho de coação física, ao passo que ela foi desfeita simbolicamente.

A guerra responde à agressão, mas não ao desafio. O desafio só pode ser aceito humilhando o outro em resposta (mas, de modo algum, esmagando-o sob bombas, nem trancando-o como cães em Guantânamo).

Saturação da existência

A base de qualquer dominação é a ausência de contrapartida - sempre segundo a regra fundamental. O dom unilateral é um ato de poder. E o “império do bem”, a violência do bem, consiste exatamente em dar - sem contrapartida possível. Consiste em ocupar a posição de Deus. Ou do Senhor, que deixa a vida ao escravo em troca de seu trabalho (mas o trabalho não é uma contrapartida simbólica; portanto, as únicas respostas, afinal, são a revolta e a morte). Deus, pelo menos, dava espaço para o sacrifício.

Na ordem tradicional, sempre existe a possibilidade retribuir - a Deus, à natureza ou a qualquer outra instância, sob a forma do sacrifício. É o que garante o equilíbrio simbólico dos seres e das coisas. Não temos, hoje, mais ninguém a quem retribuir, a quem restituir a dívida simbólica - e é essa a maldição de nossa cultura.

Não que nela seja impossível o dom e, sim, que nela o contra-dom é impossível, visto que todas as vias sacrificiais foram neutralizadas e desmontadas (resta apenas uma paródia de sacrifício, visível em todas as formas atuais da condição de vítima).

Estamos, desse modo, na situação implacável de receber, receber sempre, não mais de Deus ou da natureza, mas através de um dispositivo técnico de troca generalizada e de gratificação geral. Tudo nos é virtualmente dado e, queiramos ou não, temos direito a tudo. Estamos na situação de escravos aos quais se deixou a vida e que estão ligados por uma dívida insolúvel.

Tudo isso pode funcionar durante muito tempo graças à inserção na troca e na ordem econômica mas, num dado momento, a regra fundamental a vence, e a essa transferência positiva corresponde, inevitavelmente, uma contratransferência negativa, uma ab-reação violenta a essa vida cativa, a essa existência protegida, a essa saturação da existência. Tal reversão assume a forma de uma violência aberta (o terrorismo faz parte dela), ou da negação impotente, característica de nossa modernidade, do ódio de si e do remorso - todos paixões negativas que são a forma degradada do contra-dom impossível.

Veredicto e condenação da sociedade

Aquilo que detestamos em nós, o obscuro objeto de nosso ressentimento, é esse excesso de realidade, esse excesso de poder e de conforto, essa disponibilidade universal, essa realização definitiva - o destino que, no fundo, o “grande inquisidor” reserva às massas domesticadas em Dostoievski. Ora, é exatamente isso que os terroristas criticam em nossa cultura - donde a repercussão que o terrorismo encontra e o fascínio que exerce.

Tanto quanto no desespero dos humilhados e dos ofendidos, o terrorismo se baseia, por exemplo, no desespero invisível dos privilegiados da globalização, em nossa própria submissão a uma tecnologia integral, a uma realidade virtual esmagadora, a um domínio das redes e dos programas que traça, talvez, o perfil involutivo da espécie inteira, da espécie humana tornada “mundial” (a supremacia da espécie humana sobre o resto do planeta não seria à imagem da supremacia do Ocidente sobre o resto do mundo?). E esse desespero invisível - o nosso - é irremediável, pois decorre da realização de todos os desejos.

Se o terrorismo decorre, pois, desse excesso de realidade e de seu prazo impossível, dessa profusão sem contrapartida e dessa resolução forçada dos conflitos, então a ilusão de extirpá-lo como um mal objetivo é total, dado que, sendo como é, em seu absurdo e em seu contra-senso, ele é o veredicto e a condenação que esta sociedade emite em relação a si mesma.


Tradução: Iraci D. Poleti
Jean Baudrillard é filósofo, autor, dentre outros livros, de “La Guerre du Golfe n’a pas eu Lieu” (1991), “Le Crime Parfait” (1994) e “L’Esprit du Terrorisme” (2002), todos editados pela Galilée. Este texto foi extraído de seu ensaio, “Power Inferno” (ed. Galilée, Paris, 94 páginas).