lundi 27 juin 2011

O gozo em rosa

Katia Maria Godoy

O gozo em rosa. Enquanto eu leio, me pergunto o que levou o autor a colocar este título em seu texto, da página 21? Será uma referência à plenitude que todos desejamos ardentemente conhecer? (no sentido mais sublime da palavra, onde conhecer denota mais que o saber intelectual, mas também experimentar, absorver, fazer legível à nossa razão e à nossa alma). Será referência ao prazer que poderíamos alcançar no encontro com o transcendende por meio das palavras? Sim, me pergunto isso porque estas palavras me levam a pensar, e estimula meu desejo de poder alcançar a profundidade e intensidade que este titulo possa ter.

A leitura dos pensamentos de Jorge Pinheiro não são como uma leitura de um livro comum. Na maioria dos livros contemporâneos a própria superficialidade das palavras nos dão o sentido de seus textos, e as frases formadas expressam claramente a idéia que o autor deseja passar. Mas nos pensamentos deste autor, cada palavra em si traz uma profundidade única, as quais juntas em uma simples frase nos fazem mergulhar em idéias profundas.

No texto “O gozo em rosa” o autor ressalta de uma maneira digna a cultura hebraica quanto à leitura e interpretação de textos. Dentro da cultura hebraica, um texto não pode ser entendido em sua profundidade e intensidade sem a sua humanidade, e só por meio da humanidade podemos chegar ao transcendente, o qual é possível para o humano, uma vez que em sua criação ele se torna mais que um ser vivente, como vimos na pàgina 210, ‘o homem procede da interioridade do eterno, traduz ação mediadora e conjuntiva da força criadora’.

Tendo ressaltado que o melhor que podemos aprender com a cultura hebraica é que a profundidade de um texto é a sua humanidade, passamos então a um momento prático dessa exegese em “O gozo em rosa”.

Mas antes disso, o autor nos traz o texto de Jacó, que encontramos em Genesis 32.25, um texto muito conhecido e utilizado no meio cristão. Sabemos que na interpretação sistemática que usamos nos dias de hoje, levamos em consideração vários contextos, como história, cultura da época, tradução das línguas, mas quando vamos além, e tentamos nos voltar para a humanidade do texto, de forma hebraica, buscando o transcendente, vemos que o texto tem muito mais a nos falar. Dentro da interpretação que conhecemos, Jacó já conhecido como usurpador, trapaceiro, por seu nome e ações anteriores, luta com um homem, e o homem vendo que não podia vencer Jacó o fere na coxa, logo depois muda o nome de Jacó para Israel dizendo que Jacó havia lutado com Deus e com homens e havia vencido, e na maior parte de exegeses sistematizadas não conseguem passar desta interpretação. Mas se buscarmos a humanidade, poderemos mergulhar no seu real sentido..

Buscando melhores traduções que tragam o texto do hebraico de forma mais literal, temos a tradução SEV (versão de 1569), utilizada pelo autor do livro Teologia Humana, “Na luta, o homem ao ver que não podia vencer, bateu no vazio da coxa e enforcou a força de criar de Jacó”. A tradução, bem literal, parece perder o sentido em nosso idioma, mas veremos que não é isso que acontece. Em primeiro lugar vem a questão do íxi que significa homem e não anjo, e em segundo lugar a parte exata que o homem tocou em Jacó, não foi apenas a “coxa”, que depois veio deixá-lo manco, mas foi além, o homem atinge “kaph” e a “yarek” (palavras a qual vou me apegar agora), onde kaph refere-se a cavidade ou parte do corpo que é dobrável ou curva e yarek se refere a lombo, ou lugar do poder de procriação, este ponto de vista nos dá um sentido muito maior da palavra “força’, onde ela agora nos traz um sentido poderoso. Jacó luta com o homem, e não desiste em nenhum momento, mas também não trapaceia, decorrendo horas de luta, vendo o homem que não podia vencer Jacó, tira a sua “força”, quando alcança suas “terminações nervosas, sensibilidade interno, inchaço dor. O músculo se retrai, nervos e artérias se enroscam e impedem o fluxo de sangue o coice foi bravo, a cápsula se rompe e vaza.” (PINHEIRO, 2010, p22). Ele acerta um ponto certo de Jacó, de forma intencional e certeira, e Jacó pedindo liberdade para prosseguir é achado digno pelo homem para receber sua liberdade, pois Jacó não trapaceou, e este é o momento crucial onde a mudança da vida de Jacó acontece de forma profunda, não mudança da história em si, mas do personagem Jacó, de forma pessoal, que o levou a prosseguir de forma digna não só diante de homens, mas também diante de Deus, chamado agora Israel (príncipe de Deus) e em seu coração Jacó sabia disso. Não era mais o Deus de seus pais, mas o seu Deus. Jacó tem a sua plenitude naquele momento, e a partir de agora tudo muda em sua vida.

Esta mesma intensidade vamos encontrar em toda a Palavra, se apenas quisermos buscar a sua humanidade.

Temos agora o texto de Cantares, literatura que Jorge Pinheiro chama “jóia da literatura oriental” (PINHERO, 2010, p23). Verso 2.4 “Entra na casa do vinho, o seu estandarte é desejo”. Este texto é considerado de difícil tradução por muitos tradutores, alguns confessam que dificilmente alguém encontrará uma tradução adequada que nos dê o real sentido deste verso (RA), alguns arriscam dar um sentido para o texto, mas nos traz o texto literal no rodapé (NTLH), outros ainda arriscam uma tradução que desconsidera o possível significado único do texto, e trabalha com a palavra “estandarte” a partir do sentido no próprio idioma traduzido, comparando o estandarte com uma bandeira, e assim a tradução traria o sentido que o amor entre eles poderia ser visto por todos como uma bandeira (NVI).

Buscando a humanidade do texto, Jorge Pinheiro nos traz uma nova visão, e nos tira do texto superficial, e nos leva a mergulhar nele. Em primeiro lugar o poema é oriental, o que já tira o nosso direito de traduzir o texto e levar as palavras ao pé da letra no sentido que ela nos dá no texto traduzido. A expressão “casa do vinho” não deve ser tomada literalmente, esta expressão é uma metáfora.

Outra questão a ser levada em consideração é diferença do erótico no final do século XIX, no mundo oriental e também o erótico que conhecemos hoje, o qual entendemos que o pornográfico descreve ou evoca a luxúria, bem diferente do contexto de Cantares.

O erotismo está presente nos textos antigos, no Cântico dos cânticos e nas Mil e umas noites, porque é dimensão da sexualidade lida através da ars erótica, presente nas culturas romana antiga, chinesa, hindu, japonesa e árabe, arte que tira sua verdade do próprio prazer, entendido como experiência onde não há lugar para proibições, e o prazer pode ser medido pela tesura do corpo e do espírito. Arte esta que não foi desenvolvida na cultura ocidental, mas é olhado com desconfiança pela moral que repousa sobre a scientia sexualis, que gera regras para definir o bem e o mal do sexo, que a religião sacralizou para produzir a verdade sobre o sexo (PINHEIRO, 2010, p. 25).

Se partimos do ponto de vista ocidental, nunca teremos contato com o real sentido do texto oriental que se expressa através da ars erótica. Uma vez que nossa mente foi estruturada no pensamento ocidental, dificilmente vamos conseguir entender que a verdade do texto não parte necessqriqmente do próprio prazer, e não partindo do próprio prazer, ele nos leva a uma idéia vasta e profunda em seu verdadeiro significado: pensamos o prazer. Apenas senti-lo limita profundamente o pensamento ocidental, mas pensar o prazer nos dá a condição de ter um contato com o texto, alcançar a sua humanidade  e encontrar o transcendente: o gozo em rosa.

BIBLIOGRAFIA

PINHEIRO, Jorge. Teologia Humana, pra lá de humana. São Paulo: Fonte Editorial, 2010.
BÍBLIA de Estudo NVI. São Paulo: Vida, 2003.
Bíblia de Estudo NTLH. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008.
Bíblia de Estudo RA. São Paulo: Hagnos, 2003
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