jeudi 3 novembre 2011


A lembrar a Reforma
A Teologia da Cruz versus a Teologia da Glória

É interessante notar como a teologia da cruz de Martim Lutero atravessou todo o seu pensamento e sem ela conceitos fundamentais da teologia luterana não podem ser compreendidos perfeitamente. Com a teologia da cruz, Lutero se opôs à teologia da glória, que tem por base, entre outros textos, o Salmo 19.2-7:

O céu proclama a glória de Deus, o firmamento anuncia a obra da sua criação. Cada dia o transmite ao dia seguinte e cada noite o repete à outra noite. Não pronunciam discursos, nem palavras, nem fazem ouvir a sua voz. Contudo, a sua proclamação chega até ao fim do mundo e a sua mensagem é ouvida nos confins da terra Deus fez no céu uma morada para o Sol, que aparece de manhã, como um noivo feliz, saindo da sua cama, como um atleta que anseia começar a corrida. Ele sai duma extremidade do céu e alcança, no seu percurso, a outra extremidade. Não há nada que se furte ao seu calor”.

A teologia da glória fundamentou a Escolástica e foi central no pensamento de Tomás de Aquino. Considerava que a revelação do Eterno estava prioritariamente na natureza e que através da razão, corretamente dirigida, poderíamos conhecer o Criador.

Já para o reformador, o Eterno é “Deus abs­con­di­tus”, conforme encontramos em Isaías 45.15: “Na verdade, tu, és um Deus escondido, o Deus de Israel, o Salvador”.

Este Deus abs­con­di­tus Deus Israhel sal­va­tor se revelou na cruz. Lutero dizia que o Evangelho é para o ouvido. Só o coração contrito ouve o Evangelho. As coisas do mundo, crimes, desastres, guerras, não convencem do amor do Eterno. Temos medo do amor do Eterno é só confiamos nEle quando fechamos os olhos e abrimos os ouvidos.

A teologia da cruz de Lutero faz um versus com a teologia de glória. Isto porque a teologia da glória confunde o Eterno que se entregou à cruz e ao sofrimento com o Deus da filosofia grega, Deus de glória e poder, mas indiferente e impassível. O Deus da filosofia é diferente do Eterno na cruz, que se esvaziou de atributos divinos por amor.

Para entender a teologia da glória é importante compreender como se via a justificação na Idade Média. O conceito de justificação que prevaleceu na Patrística e na Escolástica partia da filosofia da divinização do ser. Agostinho defendia a idéia da infusão da justiça de Cristo no humano através do sistema sacramental da igreja ocidental romana. Para ele, a justificação era um processo que tinha início com a regeneração batismal.

Embora Lutero e sua teologia da cruz tenham sido influenciados por Agostinho, mais tarde, revendo a doutrina da justificação  disse que Agostinho havia chegado bem perto da compreensão paulina, mas que não alcançara Paulo. Por isso, se no começo de seus estudos devorava Agostinho, quando descobriu Paulo e entendeu o que era a justificação pela fé, descartou Agostinho.

Lutero se separou da teologia agostiniana ao ler a epístola de Paulo aos Romanos, em especial, 1.17: “Nele se revela a justiça de Deus por meio da fé. Como está escrito: aquele que é justo pela fé viverá”. Convenceu-se de que a justificação não era progressiva, e afirmou que “sola fide justificate”, isto é, só a fé justifica. Deixou de lado a justificação infundida, e passou a defender a justificação imputada pela fé. (1)

Para Agostinho e a tradição escolástica o sentido era “tornar justo”, por isso infusão. Para Lutero, o que Paulo dizia é “declarar justo”, ou seja, imputação, pois a justiça não é humana, não é inerente, mas colocada na conta. Dessa maneira, abandonou a doutrina da igreja ocidental romana da infusão da justiça, pois se a justiça de Cristo fosse infundida e não imputada, deveríamos crer que os pecados não foram imputados em Cristo, mas infundidos. Ou seja, são inerentes a Cristo, e Ele não foi feito à semelhança da carne pecaminosa, mas o pecado foi infundido nEle. Temos, então, um problema teológico: Cristo está desqualificado para ser a oferta aceitável pelo pecado, pois como o Eterno aceitaria um pecador para morrer pelos pecadores? Isso levaria o Eterno a afastar-se de sua justiça, a salvar de forma imoral.

Lutero descreveu a economia da salvação como uma “doce troca” entre Cristo e o humano, ao fazer uma paráfrase de trecho da Epístola de Mathetes a Diogneto: “Oh! doce troca! Oh! operação inescrutável! Oh! benefícios que ultrapassam todas as expectativas! Que a impiedade de muitos fosse oculta em apenas um justo, e que a justiça de um justificasse a muitos transgressores”, e então ele conclama: “aprenda Cristo e o aprenda crucificado, aprenda a orar a Ele, perdendo toda esperança em si mesmo e diga: Tu Senhor Jesus, és a minha justiça, e eu sou o teu pecado; tomaste em Ti mesmo o que não eras e deste-me o que não sou”.

A teologia da glória levou a igreja ocidental romana a erros em sua eclesiologia e teologia prática, entre elas à venda de indulgências. Mesclou sua ação com poder econômico e político. Ignorou o testemunho do Eterno de que o Cristo é o Filho, a Palavra, a revelação especial e perfeita, e procurou Deus na face da natureza. Não viu o Eterno agindo na história, não entendeu o clamor da Reforma.

A teologia da cruz (2) proclamou que toda ação do Eterno é amor e que sua obra é a redenção do mundo, que tem seu centro na cruz (3), quando, sob olhos humanos, o Filho do Eterno parecia abandonado. Por isso, como Lutero devemos ouvir.

Sugiro, como exercício de teologia prática, que você trabalhe a teologia da cruz neste sermão, que procura exemplificar a relação culpa versus graça, e que você pode usar na sua comunidade:

Ofensa e Culpa nos relacionamentos
· Mascaramento
· Transferência
· Fuga e manipulação

1. Traição e culpa
O exemplo de Judas, o Iscariotes.
Mateus 27.3-5
Quando Judas, que o havia traído, viu que Jesus fora condenado, foi tomado de remorso e devolveu aos chefes dos sacerdotes e aos líderes religiosos as trinta moedas de prata. E disse: "Pequei, pois traí sangue inocente". E eles retrucaram: "Que nos importa? A responsabilidade é sua". Então Judas jogou o dinheiro dentro do templo e, saindo, foi e enforcou-se”.

Para você desenvolver: Judas traiu sangue inocente. Pecou. Foi-se enforcar (5). Segundo At 1.18 ele se enforcou e a corda rompeu-se e Judas caiu no abismo rasgando o peito e o abdômen e tendo suas entranhas derramadas no solo. Estamos diante da culpa sem arrependimento, que leva à morte.

2. Traição e arrependimento
O exemplo de Pedro, o pescador.
João 21.15-17
(Jesus restaura Pedro) “Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, você me ama mais do que estes? Disse ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse Jesus: Cuide dos meus cordeiros. Novamente Jesus disse: Simão, filho de João, você me ama? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse Jesus: Pastoreie as minhas ovelhas. Pela terceira vez, ele lhe disse: Simão, filho de João, você me ama? Pedro ficou magoado por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez Você me ama? e lhe disse: Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Cuide das minhas ovelhas”.

Para você desenvolver: você é meu amigo, fileo? Você me ama, agapao, amar sem segundas intenções?

3. Arrependimento e perdão
1João 1.8-9
Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça”.

Para você desenvolver: quando há arrependimento e confissão pecado, o Eterno é fiel e justo para nos perdoar de todos nossos pecados.


Notas
(1) Ronaldo Cavalcante, A doutrina da justificação pela fé – um exercício de diálogo teológico bilateral, Fides Reformata et semper reformanda est, v. 7, no. 1, p. 62-63.
(2) Carl E. Braaten e Robert W. Janson, Dogmática Cristã, Vol. 2, Sinodal, 1984, pp. 61-62.
(3) Joaquim J M Neto, A ótica da cruz, uma inversão da teologia. Londrina. Unifil. 
Site: eReformatio, No. 1, Março 2005, p. 4. web.unifil.br/docs/revista_eletronica/teologia/2005/a_otica_da_cruz_joaquim.pdf



Bibliografia recomendada
Carl E. Braaten e Robert W. Janson, Dogmática Cristã, São Leopoldo, Sinodal. 1984.
Gustav Aulén, Christus Victor: An Historical Study of the Three Main Types of the Idea of Atonement, trad. para o inglês por A. G. Hebert SSM, Londres, SPCK, 2010.
Helmar Junghans, Temas da Teologia de Lutero, São Leopoldo, Sinodal, 2001.
Oswald Bayer, A Teologia de Martim Lutero, São Leopoldo, Sinodal, 2007.
Ricardo Willy Rieth, Martim Lutero, Discípulo, Testemunha, Reformador, São Leopoldo, Sinodal, 2007.
Wilhelm Wachholz, História e Teologia da Reforma, “Introdução”, São Leopoldo, Sinodal, 2010.

Textos na internet
Christus Victor, in Wikipedia (04.11.2011).
Gilson Santos, Martinho Lutero: A Teologia da Cruz em Contraste com a Teologia da Glória. WEB: http://pt.gospeltranslations.org/wiki/Martinho_Lutero:_A_Teologia_da_Cruz_em_Contraste_com_a_Teologia_da_Gl%C3%B3ria (04.11.2011).
Mark Shaw, Uma Lição Sobre a Verdade: A Teologia da Cruz de Martinho Lutero. Site: Monergismo. WEB: www.monergismo.com/textos/cruz/teologia_cruz_lutero_shaw.pdf (04.11.2011).

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