vendredi 9 décembre 2011

Judeus estudam Jesus (3)


 David H. Stern


Conheci o rabino David H. Stern nos Estados Unidos, quando lançou uma tradução do B´rit Hadashah, ou seja do Novo Testamento, introduzindo anotações a partir das raízes culturais judaicas presentes nos textos neotestamentários. Esse artigo é parte da Introdução que fez para a edição norte-americana e que foi traduzida para o português por Rogério Portella, quando da publicação do Novo Testamento Judaico pela editora Vida, em 2007.

A tradução de Stern do B´rit Hadashah, que recebeu o título de Novo Testamento Judaico, trabalha com dois conceitos fundantes: “promessa” e “cumprimento”, pois acredita ter Jesus cumprido as promessas do primeiro Testamento. Assim, textos como os de Gênesis 3.15; 12.3; 17.19; 21.12; 28.14; Números 24.17-19 e outros, segundo Stern, remetem a Jesus. O B´rit Hadashah é visto, então, como a nova Torá, e o fim desta Torá é o Massiah. Mas, por que esta versão do B´rit Hadashah é diferente das demais? Porque a tradução teve como um de seus objetivos deixar translúcida a judaicidade do texto. As versões do B´rit Hadashah em português apresentam o texto através de abordagens lingüísticas, culturais e teológicas ocidentais.

É o caso de se perguntar: e o que há de errado com isso? Nada! Ainda que o Evangelho seja de origem judaica, ele não existe só para judeus, mas também para não-judeus. O próprio B´rit Hadashah deixa isso claro, portanto, é sensato que sua mensagem seja comunicada aos não-judeus dentro da compreensão cultural destes. E esta abordagem cumpriu seu objetivo: milhões de não-judeus depositaram sua confiança no D´us de Avraham, Yitz’chak e Ya‘akov e no Massiah judeu, Yeshua.

Mas o B´rit Hadashah é um livro judeu, escrito por judeus, que trata de questões judaicas e que tinha por público-alvo judeus e não-judeus. Por isso a necessidade de restaurar a judaicidade do texto. E se é correto adaptar um livro judeu para a melhor apreciação dos não-judeus, isso não significa que se deva suprimir sua judaicidade inerente. A tradução deste Novo Testamento Judaico evidencia suas características judaicas a partir do título, o que para muitos pode parecer redundante e para outros absurdo. Entretanto, não há separação entre Novo Testamento e pensamento judaico, pois a figura central dos seus escritos é Yeshua, um judeu nascido de judeus em Beit-Lechem, que cresceu entre os judeus em Natzeret, falou aos judeus na Galil, e morreu na capital de Eretz Yisra’el, Yerushalayim.

E se Yeshua ressuscitou, como acredita Stern, ele ainda é judeu, porque está vivo e, afirma, em nenhum lugar a Escritura sugere que tenha cessado de ser judeu. Seus doze seguidores mais íntimos eram judeus. Durante anos todos os seus talmidim eram judeus, alcançando o número de “dezenas de milhares” só em Yerushalayim. O B´rit Hadashah foi escrito por judeus, e Lucas era, ao que tudo indica, um prosélito do judaísmo.

A mensagem de Yeshua foi e é dirigida “especialmente ao judeu, mas também ao não-judeu”. Os judeus levaram o Evangelho aos não-judeus, e não o inverso. Sha’ul, o principal emissário aos não-judeus, foi durante toda a sua vida um judeu praticante, como evidencia o livro de Atos. De fato, a principal questão no início da comunidade não era se um judeu poderia crer em Yeshua, mas se um não-judeu poderia se tornar cristão sem se converter ao judaísmo. E mais: a expiação do Massiah tem sua raiz no sistema sacrificial judaico, a ceia do Senhor origina-se da Páscoa judaica, a imersão batismal é uma prática judaica, e Yeshua disse: “a salvação vem dos judeus”.

A Nova Aliança foi prometida pelo profeta judeu Jeremias. O conceito de Massiah é judeu. A bem da verdade, o Novo Testamento completa o Tanakh, as Escrituras hebraicas outorgadas por D´us ao povo judeu. De forma que o segundo Testamento sem o primeiro é tão impossível quanto o segundo pavimento de uma casa sem o primeiro. E o primeiro sem o segundo é como uma casa sem teto. Além do mais, muito do que está escrito no Novo Testamento é incompreensível à parte do contexto judaico.

Eis aqui um exemplo. Yeshua disse no Sermão do Monte: “Se o seu olho for mau, todo o seu corpo estará em trevas”. O que é um “olho mau”? Alguém que desconheça a cultura judaica da época poderia supor que Yeshua estivesse falando sobre algum tipo de encantamento. Todavia, em hebraico, possuir um ‘ayin ra‘ah, “olho mau”, significa ser sovina; ao passo que ter um ‘ayin tovah, um “olho bom”, equivale a ser generoso. Yeshua está simplesmente incentivando a generosidade e desestimulando a avareza. E esse entendimento combina muito bem com os versículos do contexto: “Onde estiver seu tesouro, aí também estará seu coração (...) você não pode ser escravo de Deus e do dinheiro”.

Segundo Stern, a melhor demonstração do caráter judaico do B´rit Hadashah é também a prova mais convincente de sua veracidade, ou seja, o número de profecias do Tanakh, todas séculos mais velhas que os acontecimentos registrados no B´rit Hadashah, cumpridas na pessoa de Yeshua de Natzeret. A probabilidade de que qualquer pessoa pudesse se encaixar em dezenas de condições proféticas por mero acaso é infinitesimal. Nenhum candidato ao messiado, como Shim‘on Bar-Kokhva ou Shabtai Tzvi, cumpriu mais que umas poucas. Para o rabino, Yeshua cumpriu todas as 52 profecias referentes à sua primeira vinda. As restantes serão cumpridas quando ele retornar em glória. Dessa forma, o Novo Testamento Judaico considera normal pensar no B´rit Hadashah como algo judeu.

Para Stern, há três áreas adicionais nas quais o Novo Testamento Judaico pode ajudar em relação a tikkun-ha‘olam, ao “conserto do mundo” frente ao anti-semitismo cristão, à recusa judaica de aceitar a messianidade de Yeshua e a beligerante separação entre a igreja e o povo judeu.

1. O anti-semitismo cristão. Inicialmente, um círculo vicioso de anti-semitismo cristão se alimenta do B´rit Hadashah. O B´rit Hadashah não contém nenhuma forma de anti-semitismo, mas desde os primeiros dias da igreja, os promotores desse conceito têm distorcido o B´rit Hadashah para justificar a infiltração dessas idéias na teologia cristã. Alguns tradutores do Novo Testamento, ainda que não tenham sido anti-semitas, absorveram a teologia anti-semita e produziram traduções antijudaicas. Os leitores dessas traduções acabaram assumindo posturas anti-semitas e hostis ao judaísmo. Alguns desses leitores se tornaram teólogos que refinaram e desenvolveram o caráter anti-semita da teologia cristã -- eles poderiam até mesmo não ter consciência desse sentimento. Outros se tornaram ativistas em prol do anti-semitismo e perseguiram os judeus, pensando agradar a D´us quando procediam assim. Este círculo vicioso precisa ser quebrado. O Novo Testamento Judaico, acredita Stern, é uma tentativa de remover erros teológicos anti-semitas multisseculares e destacar positivamente sua judaicidade.

2. A desconfiança judaica em relação ao Evangelho. Em segundo lugar, apesar de milhões de judeus habitarem em países ocidentais, tidos como cristãos, a maior parte do povo judeu não aceita Yeshua como Massiah. Ainda que as razões possam incluir a perseguição cristã aos judeus, a verdade é que as cosmovisões ocidentais cedem pouco espaço para D´us ou para o Massiah. E há ainda a recusa ao arrependimento, devido ao modo como o cristianismo representa a si mesmo, e também por causa da alienação induzida pela maior parte das versões do novo Testamento. A ornamentação cultural cristã gentílica e as justificativas teológicas antijudaicas fizeram com que muitos judeus pensassem ser o Novo Testamento um livro não-judeu sobre um deus não-judeu.

O Jesus apresentado nessas traduções diz pouco a respeito da vida judaica. Torna-se difícil para o judeu experimentar Yeshua como ele realmente é, amigo de todo judeu. Ainda que o Novo Testamento Judaico não consiga eliminar todas as barreiras entre os judeus e a desconfiança no Massiah, remove obstáculos culturais, lingüísticos e teológicos. O judeu que ler o Novo Testamento Judaico, acredita Stern, poderá experimentar Yeshua como o Massiah prometido pelo Tanakh ao povo judeu. E poderá perceber que o B´rit Hadashah é tão importante para os judeus quanto para os não-judeus.

3. A separação entre a comunidade cristã e o povo judeu. Séculos de rejeição judaica a Yeshua e de rejeição cristã em relação aos judeus produziram a situação na qual nos encontramos: cristianismo é cristianismo, e judaísmo é judaísmo e os dois jamais se encontrarão. Além disso, muitos judeus e cristãos estão satisfeitos com essa situação. Entretanto, afirma Stern, os cristãos que reconhecem sua união a Yisra’el e não sua substituição, e os judeus identificados com o Massiah judeu devem trabalhar para acabar com este cisma da história, a divisão entre comunidade cristã e povo judeu. Dessa maneira, para Stern, o Novo Testamento Judaico pode ajudar na tarefa do diálogo, mas também na preservação da identidade judaica.

Bibliografia de David H. Stern 

Em inglês
  • Messianic Judaism: A Modern Movement With An Ancient Past, Jewish New Testament Publications, Jerusalem, 2007. 
  • How Jewish Is Christianity? (vv.aa.), ed Louis Goldberg, Zondervan, 2003. 
  • Complete Jewish Bible, Jewish New Testament Publications, Jerusalem, 1998. 
  • The Jewish New Testament Commentary: A Companion Volume to the Jewish New Testament, Jewish New Testament Publishing, Jerusalem, 1992. 
  • Jewish New Testament: A Translation of the New Testament that Expresses its Jewishness, Jewish New Testament Publishing, Jerusalem|Clarksville MD, 1989. 
  • Restoring the Jewishness of the Gospel, Jewish New Testament Publications, Jerusalem, 1988. 
  • Messianic Jewish Manifesto, Jewish New Testament Publications, Jerusalem, 1 Maio 1988. 
Em português
  • Novo Testamento Judaico, São Paulo, Editora Vida, 2007. 
  • Comentário Judaico do Novo Testamento, São Paulo, Editora Atos, 2008. 
  • Bíblia Judaica Completa, São Paulo, Editora Vida, 2011. 


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