lundi 16 janvier 2012

As irmãs de Madalena

Cena do filme "Em nome de Deus"


Em 2002, o filme de Peter Mullan, “The Magdalene Sisters” (Em nome de Deus), que fala da crueldade dentro de um convento na Irlanda, ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza.

Para introduzir o artigo vamos ver como o apóstolo Paulo (Gálatas 5.13) apresentou a relação entre cristãos e a liberdade. “Porque vocês, irmãos, foram chamados à liberdade. Não usem então a liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor”. 

A justiça é uma virtude judaico-cristã, que conquistou universalidade, e hoje, socialmente, consiste em reconhecer o que cada pessoa tem por direito. Por isso, a análise das violações de gênero e seu impacto no funciomento das igrejas cristãs fazem parte da ética crítica de transformação social. 

O filme de Peter Mullan se situa na Irlanda dos anos 1960 e conta histórias de violência de gênero. Margaret foi estuprada num casamento por seu primo. Bernardette por ser bonita é considerada um perigo para os homens da vizinhança. Rose e Crispina são mães solteiras. Por causa disso, as quatro moças são mandadas para um convento, por seus familiares, para pagarem por seus crimes. Ali as mulheres sob castigo são conhecidas como “as irmãs de Madalena”. 


Assim foram levadas a uma vida de trabalhos forçados na lavanderia do convento. Humilhadas pelas madres, sofrem castigos físicos e abusos. Diante disso, decidem desafiar a violência à qual são submetidas.

É patente que igrejas cristãs e muitas religiões, como o islamismo, por exemplo, ainda não foram capazes reconhecer às mulheres direitos e garantias de pessoalidade. Os obstáculos são, na maioria das vezes, institucionais e repousam sobre leituras dogmatizadas e instrumentalizadas dos textos sagrados e das tradições religiosas. E são esses obstáculos que funcionam como impedimentos para a universalização da cidadania e do respeito aos direitos fundamentais da pessoa.

Apesar do filme contar histórias verídicas, foi criticado pelo jornal do Vaticano, o L’Osservatore Romano, como uma “provocação irada e rancorosa”.

O filme não é somente sobre a igreja católica e sobre como ela reprimiu jovens mulheres na Irlanda, disse o diretor escocês, é sobre todas as fés que pensam que têm o direito de pressionar mulheres”, disse Mullan.

Diante das afirmações contrárias à universalização da cidadania cabe aos próprios fiéis, tanto das igrejas cristãs, como de outras religiões, analisar e criticar as violações de gênero no contexto de suas instituições. É importante, também, analisar e propor soluções para o desigual acesso aos direitos.

Quando a violência de gênero é favorecida pela deficiência de acesso aos direitos, as violações ocorrem por superposição de carências, que fortalecem tendências como depreciação das pessoas, falsa informação e perseguição. Mas sempre haverá uma relação entre espaços e violações.

Dizer que meu filme é um escândalo é um absurdo, não criei o convento de Madalena, eles criaram. Só queria expor uma das maiores injustiças da segunda metade do século XX”.

E o apóstolo Pedro na sua primeira carta (2.9-10) explicou porque os cristãos devem se pautar pela misericórdia, reconhecimento do sofrimento do outro como se doesse no próprio coração: “Vocês são geração escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo que pertence a Deus para proclamar as admiráveis obras daquele que chamou vocês das trevas para a sua luz maravilhosa Antes, nem eram um povo, mas agora são povo de Deus. Antes, não conheciam a misericórdia de Deus, mas agora alcançaram essa misericórdia”. 

Infelizmente, nem sempre é assim.

Não há cidadania sem liberdade e justiça. Por isso, as pessoas, religiosas ou não, devem fazer uso da ação participativa em direção ao fim da violência de gênero.




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