mercredi 18 janvier 2012

O assassinato como uma bela arte


O errar o alvo está à porta, à sua espera.
Ele quer dominá-lo, mas você precisa vencê-lo
Conversa do Eterno com Caim

Li sobre a Sociedade para a Promoção do Vício e sobre o Clube do Fogo do Inferno, fundados por Sir Francis Dashwood. Li também sobre a Sociedade para a Supressão da Virtude.

Essas associações existiram na Inglaterra do século XIX, mas, sem dúvida, a mais radical delas era a Sociedade para o Encorajamento do Assassinato, formada por aficionados em assassinatos e especialistas em carnificinas.

Os membros desta última sociedade faziam a apologia do assassinato e da destruição. Consideravam o assassinar uma arte e viam muita utilidade nela. Bem, não sei se você já parou para pensar no ato de assassinar. É quase certo que não, mas um escritor inglês, Thomas De Quincey (1785-1859), um sujeito estranho, que morava em lugares imundos, só saia à noite, e durante cinquenta anos foi um “comedor de ópio”, parou para pensar no assunto e escreveu um livro chamado “Do Assassinato como uma das Belas Artes”. Li e reli esse livro muitas vezes e ainda o tenho na minha biblioteca.

De Quincey tinha uma coluna diária na Westmorland Gazette, onde só escrevia sobre crimes terríveis. E justificava sua preferência dizendo que tais artigos levavam os leitores a uma profunda reflexão moral.

Não sei se ele tinha razão, mas hoje vou conversar com você sobre o assassinato. “Portanto – como disse De Quincey -- que nos seja permitido tirar o melhor partido de um mau assunto; que o tratemos esteticamente, e verifiquemos se o podemos aproveitar dessa maneira. Secamos nossas lágrimas e gozamos a sensação de descobrir que uma transação que, considerada moralmente chocante, se for julgada pelos critérios do gosto, revela-se uma obra muito meritória”.

Segundo este princípio, cavalheiros, proponho-me a guiar-vos os estudos desde Caim ... Através desta grande galeria do assassinato, que nos seja permitido vagar de mãos dadas, juntos, em admiração deliciada. O primeiro assassinato é conhecido de todos. Como inventor do assassinato e pai da arte, Caim deve ter sido um gênio de primeira grandeza. Todos os Cains foram homens de gênio...”.

Assassinei um homem porque me feriu,
assassinei um moço porque me machucou.
Se sete pessoas são mortas para pagar pela morte de Caim,
então se alguém me matar serão mortas setenta e sete pessoas da família do assassino Lameque conversa com suas mulheres

Bem, se você não está chocado, vamos seguir. De Quincey faz algumas propostas para a realização de um assassinato. “Quanto à pessoa, suponho evidente que deve tratar-se de um homem bom; porque, se não for esse o caso, ele poderá estar, ao mesmo tempo, contemplando a possibilidade de cometer assassinato”.

Ainda quanto à pessoa, “a vítima escolhida deve também possuir uma família de crianças inteiramente dependentes de seus esforços, de modo a aprofundar o pathos”.

Quanto à oportunidade e ao lugar, “o bom senso do praticante o tem geralmente guiado para a escolha da noite e da intimidade. Contudo, não tem havido falta de casos que esta regra foi abandonada com excelentes efeitos”.

De Quincey, segundo especialistas, escreveu trechos inteiros de seu livro sob o efeito do ópio, mas paradoxalmente ele nos leva a pensar sobre que razões, motivos ou deleites levariam um ser humano a assassinar outro.

Por ser tal ato terrível, nossa vida é protegida por leis e é, por isso, que as guerras são execradas. Mas, muita gente tenta justificar o injustificável. De Quincey se baseia na beleza do ato e na possibilidade do prazer, mas outros argumentam numa possível necessidade de prevenção contra um mal futuro. Mas, cuidado, como canta Lameque, quando não há arrependimento, a alienação -– pessoal ou social -- sempre se multiplica.

Vocês são filhos do Diabo, e querem fazer o que o pai de vocês quer.
Desde a criação do mundo ele foi assassino e nunca esteve do lado da verdade”.
O homem de Nazaré conversa com líderes religiosos

E já no final deste texto, eu me lembrei da “Inscrição para uma lareira” de Mário Quintana, quando o poeta afirma que “a vida é um incêndio: nela/ dançamos salamandras mágicas/ Que importa restarem cinzas/ se a chama foi bela e alta?/ Em meio aos toros que desabam/ cantemos a canção das chamas! Cantemos a canção da vida,/ na própria luz consumida”.

Não, a vida não precisa ser um inferno. Que o poeta me perdoe, mas não necessitamos cantar a vida na própria luz consumida! Por que cantar a destruição se o Eterno se fez pessoa para que tenhamos vida plena?

Por causa da alienação e da cultura da morte, João, o carinha do amor, disse que o mundo está estirado sobre a malignidade. Mas podemos dizer não à apologia do assassinato e da violência. Repousemos sobre o Nazareno, ele é a canção da vida!

Fontes         
Thomas de Quincey, Do Assassinato como uma das Belas Artes, Porto Alegre, L&PM, 1985.
Mário Quintana, Melhores Poemas, seleção de Fausto Cunha, São Paulo, Global, 1983.

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