mardi 7 février 2012

Um sermão necessário

A Realidade da Graça
Ler: Evangelho de Lucas 4.14-30 

Introdução

A graça é algo intocável, que está além de nós, que vem do Eterno. Mas, através da presença de Jesus, que vive em nós, essa graça intangível se transforma em vida, em realidade visível e palpável.

A graça do Eterno vai além de nós, é independente de nós, mas ao ser vivida, nós faz portadores dela. Eu e vocês sabemos que a fé vem pelo ouvir, porque assim nos diz a Palavra do Eterno. Essa Palavra maravilhosa vem do Eterno, para nós. Ao ser vivida por nós continua sendo transcendente, mas também passa a ser imanente, passa a ser realidade divina vivida por nós.

Assim surge a fé, enquanto poder que transforma e leva graça aos homens e mulheres deste mundo. Essa notícia tão especial, esse Evangelho da graça, muda as vidas e as comunidades. É a Palavra que veio do Eterno, que invadiu nossas vidas, que podemos recebê-la, pronunciá-la e deixar que transforme tudo que está ao nosso redor.

A realidade da graça, ao ser vivida e pregada, vai transformando a o mundo e sua história. E é isso que aprendemos com Jesus, que ao inaugurar seu ministério terreno, apresentou àquela pequena comunidade da Galiléia seu programa de ação. O programa do Evangelho de Jesus Cristo.

A primeira parte da missão de Jesus (4.14–9.50) é toda situada na Galiléia (cf. 23.5; At 10.37). Ao contrário de Mateus (15.21; 16.13) e Marcos (7.24-31; 8.27), Lucas abre a comissão de Jesus com a cena da pregação na sinagoga de Nazaré (4.16-30), que descortina toda a seqüência do evangelho: o anúncio da salvação fundamentado nas promessas do Antigo Testamento e inspirado pelo Espírito, a salvação dos não judeus, a rejeição de seus compatriotas e a tentativa de assassinato.

No texto, Lucas descreve duas questões centrais: em primeiro lugar o programa de Jesus e, em segundo lugar, o destinatário da mensagem. Assim, os versículos 18 e 19 apresentam o programa e os versículos 23-27 seu público, os gentios.

O programa

Jesus foi ungido, escolhido pelo Eterno, e sob a ação do Espírito – ação esta que caracteriza o verdadeiro profeta – tem como missão proclamar e libertar. Seu programa é formado por quatro pontos:

[A] anunciar a boa nova aos pobres. 
[B] proclamar a libertação aos cativos.
[C] dar vista aos cegos. 
[D] por em liberdade os oprimidos.

O programa destaca duas idéias a de anunciar/proclamar/pregar e a de libertar/salvar.
  
Anunciar/ proclamar

A idéia de proclamar está presente no Antigo Testamento, já que a missão profética era, sobretudo, proclamatória. De Samuel a Jeremias – incluídos nesse período de ouro homens como Samuel, Natã, Gade, Azarias, Elias, Eliseu, Joel, Miquéias, Micaías, Isaías e Jeremias -- esses anunciadores da vontade de Deus falaram aos reis e ao povo. Advertiam, repreendiam, encorajavam. Falavam de julgamentos e de promessas espetaculares. Traduziam grandeza de caráter e força moral.

E assim também foi o último período da profecia hebraica, de Ezequiel a Malaquias. No período helênico, graças às reuniões nas casas de oração, sinagogas, a proclamação se generalizou. As Escrituras eram lidas e interpretadas.

João, o batista, foi um anunciador da chegada do reino. E Jesus, ali na sinagoga de Nazaré, colocou em seu programa a tarefa da proclamação.

Libertar/ salvar

O conceito de libertação no Antigo Testamento parte da idéia de livramento e de segurança. A pessoa de um libertador no AT traduz sempre a imagem do libertador como alguém que arrebata um povo da destruição (Jz 18.28).  E no Novo Testamento, o libertador era aquele que soltava os israelitas da escravidão (At 7.35), ou que arrancaria a nação da impiedade (Rm 11.26).

Para todo o judeu, na época de Jesus, o ato mais característico de libertação ocorreu sob a liderança de Moisés, quando Deus salvou seu povo da escravidão aos egípcios e o libertou no deserto do Sinai (Ex 12.31—14. 31).

É fundamental entender que a libertação da escravidão egípcia definiu para os judeus do período helênico o paradigma da libertação como um ato de Deus que não visava apenas o alívio de uma situação desastrosa. Mas, e aí está a chave do conceito de aliança, para que livres possam servi-lo. Essa idéia fundamenta o conceito de aliança e da espiritualidade judaica até o primeiro século.

O texto usado por Jesus é a leitura de Isaías 61.1-2. Ao ler o texto e dizer que ele próprio é o cumprimento da profecia, Jesus cria uma nova hermenêutica, que será amplamente utilizada por todos os escritores do Novo Testamento. Ele é o intérprete inspirado, ungido, no cumprimento do que foi anunciado e que está presente nesse kairós para o desenlace dos últimos tempos – proclamar o ano aceitável do Senhor. Partindo dessa hermenêutica, os escritores do NT, e Lucas entre eles, lerão o Antigo Testamento à luz do fato Jesus. [Um jubileu na era da pos-modernidade, Sandra Mansilla, in Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana no 33, p. 150, São Paulo, Vozes, 1999].

Uma questão atual

Em nenhum lugar das Escrituras Sagradas vamos encontrar uma fórmula ou proposta acabada de governo. A busca de um ideal divino de governo é uma herança da filosofia grega. O que encontramos nas Escrituras são exigências normativas quanto à justiça. [Walter Elwell, Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, vol. II pp. 209-210, São Paulo, EVN, 1990].

Um estado moderno é bem diferente dos impérios antigos, embora alguns dos problemas humanos como a fome, a opressão e as guerras aparentemente sigam antigos padrões. Por isso, se por um lado devemos olhar as diferenças, por outro é necessário analisar semelhanças que possibilitam definir respostas éticas para as sociedades. De todas as maneiras, devemos avaliar de modo crítico nossas tradições políticas e ideológicas à luz da compreensão bíblica do conceito de justiça.

Hoje, um quinto da humanidade não têm condições mínimas de sobrevivência e milhares morrem de fome todos os dias. Milhões de pessoas não têm onde morar, não têm roupas, nem água limpa, nem cuidados médicos. Não têm oportunidades na área de educação e emprego e estão condenadas a levar uma existência miserável, sem qualquer possibilidade de promoção pessoal para si próprias e para suas famílias. Essas pessoas são oprimidas pela desigualdade econômica brutal de que são vítimas e pelos diversos sistemas econômicos que provocam e perpetuam essa situação.

Outras sofrem opressão política. São-lhes negados os direitos humanos básicos, através de regimes autoritários, muitas vezes religiosos. Quando protestam são presas sem julgamento, torturadas e mortas.

Uma ilustração: Indonésia, ano 2000. Igrejas e milhares de casas dos cristãos foram incendiadas. Em algumas aldeias houve cristãos assassinados. Os ataques aconteciam aos domingos durante os cultos. No dia 11 de março mais de 30 pessoas foram mortas. As aldeias Buhobuho, Wewemo, Sangowo e Sakita foram "limpas" da presença cristã. O Pr. Marthinus Banyo da aldeia Sakita levou os cristãos às selvas, fugindo durante sete dias.

Outras pessoas, ainda, são vítimas da discriminação por causa de sua raça ou gênero. E aqui transcrevemos uma carta, de uma missionária que estava na Alemanha e trabalhou com refugiados do Kosovo. "Um ano depois de iniciados os 78 dias de bombardeios da Otan em Kosovo, completado neste mês de março, a vida de milhares de fugitivos está longe de voltar ao normal. Dos 900 mil kosovares albaneses que deixaram suas casas, 70 mil continuam longe delas. Sobretudo mulheres sofrem os traumas da guerra e da violência sexual praticada pelos sérvios. Isabela Stock, da organização Medica Mondiale, de Colônia, na Alemanha, conta que pelo menos cem bebês nascidos em Pristina e nas redondezas foram abandonados pelas mães por terem sido gerados em estupros".

Mas também nós, todos nós, somos oprimidos por problemas universais que parecem não ter solução, como a exploração irracional das fontes de energia não renováveis, a destruição do meio ambiente, a violência nos grandes conglomerados urbanos, etc.

Todas essas condições têm suas raízes na alienação humana e exige de nós uma radical resposta de amor. Somente o Evangelho pode revolucionar o coração da pessoa. Nada pode tornar uma pessoa mais humana do que a presença do evangelho. Mas não podemos nos restringir à proclamação verbal. Além da evangelização mundial, o povo de Deus deve se comprometer com a ação social, o auxílio, o desenvolvimento e a busca da justiça social e da paz. [Evangelização e Responsabilidade Social, relatório da Consulta Internacional realizada em Grand Rapids sob a presidência de John Stott, São Paulo, ABU, pp. 15 e 16].

Embora a reconciliação da pessoa com a pessoa, de um povo com outro povo, não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelizadora, nem a libertação política salvação, evangelização e envolvimento sócio-político são parte do dever cristão. Ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e da pessoa, de nosso amor para com o próximo e da nossa obediência a Jesus Cristo.

A mensagem da libertação é também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando alguém recebe a Cristo nasce no reinar do Eterno e, conseqüentemente, deve buscar não somente manifestar como também divulgar a sua justiça em meio a um mundo ímpio. A salvação que alegamos possuir deve transformar a totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. [Responsabilidade Social Cristã in Pacto de Lausanne, parágrafo 5].

Considerações

Movido por seu espírito missionário, o evangelista Lucas destaca no texto que estamos analisando os tempos do Messias e os tempos da comunidade cristã, deixando claro para seus leitores que o ano do Senhor teve início naquele kairós pronunciado na sinagoga de Nazaré.

Para nós, o kairós de Jesus significa o nascimento de um novo estar, um estar que se caracteriza pelo anúncio de uma novidade. Mas como anunciar esta a novidade quando, aparentemente, fazemos parte de uma geração alienada apática?

Quando comparamos o texto acima com dois outros de Lucas (At. 2.42-47 e 4.32-35), que fala da comunidade cristã nascente, vemos que os cristãos de Jerusalém entendiam que a ecclesia devia ser construída sob um estado de convivência que possibilitasse vida plena a todos.

É aqui que as águas se dividem e somos chamados a romper com a indiferença que congela os corações e paralisa as ações. Homens e mulheres em todo o planeta têm a urgência de um recém-nascido, reclamam vida e vida em abundância. Somos chamados a nos deixar despertar pelo choro e pelo clamor dos despossuídos, oprimidos por ordens sociais corruptas, por dependências e por adversários da vida.

É tempo de anunciar a boa notícia a despossuídos de bens e oportunidades. É tempo de  libertar escravos. É tempo de fazer cegos verem. É tempo de salvar oprimidos.

A boa nova de Cristo liberta os pobres (Ef 1.3). A graça de Cristo liberta os cativos (Gl 5.1,13). Cristo, a luz da vida, dá vista aos cegos (Jo 1.9; 8.12). O jugo de Cristo liberta os oprimidos (Mt 11.29-30; 1Pe 5.7).

É tempo de anunciar o hoje do Senhor Jesus.

Naquele sábado, na sinagoga de Nazaré, Jesus expôs o programa de seu ministério, que é o programa da comunidade cristã. A graça do Senhor deve ser noticiada a todos e todas, seu público é o mundo. A ressurreição deu o imprimatur do Eterno a este programa e à igreja cabe, no poder do Espírito, levá-lo até os confins da terra.

Cremos realmente nisso? Façamos um exame de consciência. Depois, então, sejamos coerentes com o que cremos e façamos do Programa de Jesus o nosso programa.


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