vendredi 13 avril 2012

A sociedade do espetáculo

Guy Debord
A sociedade do espetáculo, 1a. edição francesa, Editions Gallimard, Paris, 1967
A separação acabada

Unidade e divisão na aparência
O proletariado como sujeito e como representação

I. A Separação Acabada

Mas com certeza, para a época presente, que prefere o signo à coisa significada, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência à essência... só a ilusão é sagrada, a verdade profana. Mais, a sacralidade é considerada reforçada na proporção em que a verdade diminui e a ilusão aumenta, de tal modo que o mais alto grau de ilusão passa a ser o mais alto grau de sacralidade.

Feuerbach, Prefácio à segunda edição de A Essência do Cristianismo.

1 Nas sociedades em que prevalecem as modernas condições de produção, toda a vida apresenta-se como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido afastou-se em uma representação.

2 As imagens, desligadas de todos os aspectos da vida, fundem-se em uma corrente comum em que a unidade da vida não pode mais ser reestabelecida. A realidade considerada parcialmente desdobra-se, em sua própria unidade geral, como um pseudo-mundo à parte, objeto de mera contemplação. A especialização das imagens do mundo é completada no mundo da imagem autônoma, onde o mentiroso mente para si mesmo. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não vivente.

3 O espetáculo apresenta-se ao mesmo tempo como toda a sociedade, parte da sociedade e instrumento de unificação. Como parte da sociedade, é especificamente o setor que concentra todos os olhares e toda a consciência. Devido ao próprio fato de ser separado, esse setor é o terreno comum do olhar enganado e da falsa consciência, e a unificação que ele realiza não passa da língua oficial da separação generalizada.

4 O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre as pessoas, mediada por imagens.

5 O espetáculo não deve ser entendido como um abuso do mundo da vsião, como produto das técnicas de difusão em massa de imagens. É, antes, uma Weltanschaaung que se tornou real, foi materialmente traduzida. É uma visão do mundo que se objetivou. 
6 Apreendido em sua totalidade, o espetáculo é ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente. Não é um suplemento ao mundo real, uma decoração adicional. É o coração da irrealidade da sociedade real. Em todas as suas formas específicas, o espetáculo é o modelo presente da vida socialmente dominante. É a afirmação onipresente da escolha já feita na produção e em seu corolário no consumo. A forma e o conteúdo do espetáculo são identicamente a justificação total das condições e metas do sistema existente. O espetáculo é também a presença permanente dessa justificação, pois ocupa a parte principal do tempo vivido fora da produção moderna. 

7 A própria separação faz parte da unidade do mundo, da praxis social global dividida em realidade e imagem. A prática social que se coloca diante do espetáculo autônomo é também a totalidade real que o contém. Mas a divisão no seio dessa totalidade mutila-a a ponto de fazer com que o espetáculo seja visto como sua própria meta. A linguagem do espetáculo é feita dos sinais da produção dominante, que são ao mesmo tempo a meta suprema dessa produção.
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