vendredi 18 mai 2012

A Trindade e o argumento quântico

A construção dessa analogia, que trabalhou com a teoria paradoxal das partículas de onda, contou com a participação do professor Dr. Mário Olímpio de Menezes, físico do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, IPEN-CNEN/SP. A analogia e suas projeções teológicas, porém, são minhas. 


A controvérsia sobre o Filioque introduziu um conceito grego no Credo e o Deus dos filósofos ontológicos tomou o lugar do Deus Eterno hebraico-cristão. A essência do Pai, do Filho e do Espírito Santo recebeu qualificações positivas, tornou-se objeto de uma teologia natural, relativa a Deus em geral, que reapareceu em Descartes, Leibniz e com os deístas do século XVIII, mas não é o Eterno triúno que os pais da igreja proclamaram.[1]


Ao concentrar esforços na análise da pessoa e ação do Espírito, o pensamento cristão oriental viu uma debilidade e um enfraquecimento da Trindade na teologia ocidental, já que tendemos a realçar a unidade do Eterno, tanto na teologia, quanto na realidade de nossa fé. Segundo o pensamento teológico oriental, perdemos com isso a percepção do lado trágico na existência e na história. Para a teologia cristã oriental, o Espírito significa o Eterno no homem e o Eterno presente no mundo e exatamente por isso liberdade. Dessa maneira, a teologia cristã oriental vê o Espírito como aquele que cumpre o que o Eterno diz, que distingue, une e personifica, aquele que é a atividade criadora do ser, revelador e, ao mesmo tempo, ouvinte e intérprete, em nós, do Cristo. 

Tal postura leva a uma teologia que vê uma complementaridade entre pessoa e comunidade, religião e fé, pensar e agir. Fé e cristianismo não devem ser pensadas como relações de oposição, mas como correlação e encarnação. Da mesma maneira, por ser o Espírito a liberdade na pessoa e na comunidade, ficam de fora do compromisso cristão o individualismo e o coletivismo, substituídos pela busca da justiça social.

Ao privilegiar teologicamente a questão da liberdade da vida da pessoa -- a existência -- e da coletividade -- a historicidade humana --, o pensamento oriental trouxe novas perspectivas para a teologia ocidental. Por isso, o teólogo deve subordinar suas reflexões da unidade/diversidade trinitária aos dados revelados na Palavra de Deus, de forma semelhante ao físico ao formular a teoria paradoxal das partículas de ondas.

A teologia paradoxal das partículas de onda

Na física, como o todo, intensidade (I) é a razão entre potência, dado em watts (W), ou joules por segundo (j/s) -- o joule é medida de energia -- e área, dado em metros quadrados (m2), ou seja, watts por metro quadrado (w/m2). Então a fórmula da intensidade sonora é: I = E / Δt.A.


As partículas apresentam características que as fazem serem diferentes umas das outras. Essas características são as propriedades delas que servem para diferenciá-las e assim formar as famílias.

A primeira diferença notada entre as partículas foi à carga elétrica. A carga elétrica possui características muito interessantes, como possuir sinais contrários (+ e -), poder ser somada (uma carga positiva neutraliza a ação de uma carga negativa, ou seja, + com -, dá zero), é sempre conservada -- não se pode criar carga negativa sem criar uma positiva, ou seja, a quantidade de cargas de um sistema fechado é sempre a mesma. Partículas que possuem carga elétrica estão sujeitas a interação eletromagnética, formando assim uma família de partículas que sofrem essa interação. Esse é o caso dos prótons e dos elétrons.

Mas, não as únicas partículas que possuem carga, existem outras como o Múon, o Tau, o Sigma mais, o Delta mais e o Delta dois mais. A carga elétrica é uma propriedade muito importante neste estudo. É ela que vai indicar se a partícula sofre interação eletromagnética ou não.
Partículas com carga elétrica líquida nula, como o caso do nêutron, não são influenciadas pela interação elétrica (Coulumbiana, ou seja, atração e repulsão elétricas), dando indícios que existem outro tipo de interação para denunciar a presença dessas partículas. A carga elétrica é dada em função da carga elétrica do elétron, que é a menor carga detectada isolada atualmente e, por isso, recebe o status de elementar. Assim, o elétron e o próton têm cargas iguais a 1, porém de sinais contrários. O próton é positivo e o elétron negativo. Por esse motivo, falamos que a carga elétrica é quantizada.

Uma propriedade quântica é o emaranhamento. Duas partículas emaranhadas possuem uma relação especial tal que, se medirmos uma delas, a outra será colapsada imediatamente! Não importa o quão distante elas estejam entre si. Por exemplo, vamos supor que duas moedas estejam emaranhadas, uma aqui na Terra e outra na Lua. Ambas estão girando sob uma mesa. Em determinado momento, uma pessoa bate na moeda e obtém ´cara´ como resultado. A moeda na lua, instantaneamente, colapsa em seu estado complementar, isto é, em ´coroa´. No nível quântico uma partícula pode estar lendo o ´0´, como o ´1´ ao mesmo tempo. Essa superposição de estados é uma propriedade quântica. Um ponto importante é que, para que duas partículas se emaranhem, é preciso que elas tenham tido um contato físico prévio. 

Pirâmide triagonal, 
quando o átomo central possui par de elétrons emparelhados disponíveis 


Os físicos quânticos concordam entre si que as entidades subatômicas são uma mistura de propriedades de ondas (W), de propriedades de partículas (P), e de propriedades quânticas (h). Os elétrons de alta velocidade, ao serem atirados através de um filme metálico, ou de cristal de níquel. como raios catódicos rápidos ou até mesmo como raios-B, difratam como raios-X. Em princípio, o raio-B é igual à luz solar empregada numa experiência de dupla ranhura ou biprísmica. A difração é um critério de comportamento semelhante a raios nas substâncias: toda a teoria clássica das ondas baseia-se nisso. Além desse comportamento, porém, há muito tempo que os elétrons vêm sendo considerados partículas com carga elétrica. Um campo magnético transversal defletirá um feixe de elétrons e seu padrão de difração. Somente as partículas comportam-se dessa maneira: toda a teoria eletromagnética depende disso. Para explicar todas as evidências, os elétrons devem ser tanto partículas quanto ondulatórios. Um elétron é um Pwh.

Assim, a partir da teologia paradoxal das partículas de onda, tomando em conta o argumento quântico, podemos dizer, numa construção analógica, que o Eterno trino é Pfe.

Donde, a questão da pessoa e de sua comunhão com a irredutibilidade do Eterno tem expressão na teologia paradoxal das partículas de onda onde emaranhamento é comunhão trinitária e adoção humana, conforme a oração de Efésios 1.3-14, onde é dito que o Pai determinou que seremos para Ele, “filhos de adoção por Jesus Cristo" (Ef 1.5). E que, aqueles que são justificados por Cristo, libertos da escravidão do pecado, não receberam "um espírito de servidão”, “para permanecerem ainda no temor”, mas receberam um "espírito de adoção" (Rom.8:15). Esta adoção por Deus, esta filiação, realiza-se na unidade com o Filho, já que "o mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; se é certo que com Ele padecemos, também com Ele seremos glorificados”. (Rm 8.16-17).

Tal compreensão é referendada por Irineu, Atanásio e outros pais da igreja, ao afirmarem que Cristo, imagem do Pai, é Filho pela Sua natureza divina e pela Sua filiação, ao passo que pessoas são filhos de Deus, à imagem de Cristo, por adoção.

Ainda na carta aos Efésios, Paulo retoma o tema num contexto eclesiológico (Ef 2.19-22) e diz que enquanto membros da igreja e filhos adotivos de Deus, os fiéis não são mais "estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e da família de Deus" (Ef 2.19). Na mesma carta, Paulo dobra os joelhos na presença "do Pai... do qual toda família nos Céus e na Terra toma o Seu nome" (Ef. 3:14-15).

A idéia de adoção/emaranhamento dá conteúdo ao conceito de pessoa em seu encontro com a irredutibilidade do Eterno e está presente na teologia de João, que retoma e amplia o tema da filiação. Assim, na oração de Cristo antes da paixão, no evangelho de João lemos:.."Como Tu, ó Pai estás em Mim e Eu em Ti, que também eles sejam um em Nós.." (Jo 17.21; cf. 17.11).

Assim, sintetiza Lossky a relação entre pessoa e a obra do Espírito.

A obra do Espírito Santo refere-se às pessoas, dirigindo-se a cada uma delas. O Espírito Santo comunica na Igreja às hipóstases humanas, a plenitude da divindade segundo um modo único, ‘pessoal’, apropriado para cada homem enquanto pessoa criada à imagem de Deus... Cristo torna-se a imagem única apropriada à natureza comum da humanidade.; o Espírito Santo confere a cada pessoa criada à imagem de Deus a possibilidade de efetivar a semelhança na natureza comum. Um empresta sua hipóstase à natureza, a outra dá sua divindade às pessoas. Assim, a obra de Cristo unifica, a obra do Espírito Santo, diversifica: a unidade de natureza se realiza nas pessoas; quanto às pessoas, elas não podem alcançar sua perfeição, tornar-se plenamente pessoas, senão na unidade de natureza, deixando de ser ‘indivíduos’ que vivem para si mesmos, que têm natureza e vontade próprias, ‘individuais’. A obra de Cristo e do Espírito Santo, portanto, são inseparáveis: Cristo cria a unidade do seu corpo místico através do Espírito Santo e o Espírito Santo se comunica às pessoas humanas através de Cristo”.[2]

O Espírito no seu advento manifesta a natureza comum da Trindade, mas cancela-se enquanto pessoa, já que nele a vontade do Eterno não é mais externa. O Espírito está escondido pelo dom, para que o dom que ele comunica seja plenamente nosso. Ele nos dá a graça desde o interior, manifestando-se em nossa própria pessoa, até que a nossa vontade humana permaneça de acordo coma vontade divina e coopere com ela na obtenção da graça, fazendo-a nossa.

Assim, para Lossky, o Espírito é a unção que repousa sobre Cristo e sobre todos os cristãos que reinarão com ele no século futuro. Então essa pessoa desconhecida, que não tem sua imagem numa outra hipóstase, se manifestará nas pessoas plenas de Cristo: a imagem do Espírito será a multidão dos santos. 

Citações
[1] Vladimir Lossky, Théologie Négative et Connaissance de Dieu chez Maître Eckhart, Paris, Vrin, 1973.
[2] Vladimir Losski, Teologia Mistica della Chiesa d’Oriente, Il Mulino, Bolonha, 1967, p. 159.
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