dimanche 9 septembre 2012

De cárabos e velas latinas


É com Camões que a gente se entende 

no princípio era a palavra... 

Jorge Pinheiro, de Lisboa -- No cabo da Roca venta. É o ponto mais ocidental da Europa. À frente, o mar besta-fera guarda leviatãs para tragar os que avançam pelas águas. Meter-se por elas era coisa de louco, por isso admiro a coragem daqueles lusos dos Quinhentos, que assim o fizeram. O cabo forma o extremo da serra de Sintra, que se precipita sobre o oceano, não muito longe da casa onde morava o físico AC Rodrigues, padrinho da união de Di Giuseppe & Pinheiro. 

Camões, mestre dos que pensamos em português, disse que aqui é “onde a terra se acaba e o mar começa”, e um padrão em pedra lembra tal particularidade. Mas fico a pensar na ciência dos lusos, quando recriaram o cárabo, o barco ligeiro usado no Mediterrâneo. Assim, com tecnologia árabe e o velame latino surgiram as caravelas, que Darcy Ribeiro disse terem sido tão importantes quanto as naves espaciais. 

O uso documentado data de 1255, mas sabe-se que foram aperfeiçoadas nos séculos XV e XVI. Recebiam poucos tripulantes, cerca de vinte, e eram rápidas e boas de manobra, e as velas latinas, triangulares, permitiam bolinar, quer dizer, navegar em ziguezague contra o vento. Tinham cerca de vinte e cinco metros de comprimento, sete de boca e três de calado -- dois ou três mastros, convés único e popa sobrelevada. Deslocavam cinquenta toneladas, 

No alto dos mastros levavam uma pequena cesta, de onde os vigias prescrutavam o horizonte. Cesta instável, que oscilava junto com o rolamento do barco, transformou-se no lugar de castigo para os marujos infratores. O punido era enviado a cumprir horas ou até dias no caralho, este era o nome dado à cesta, e quando descia vinha verde de mareação. Daí surgiu a expressão tão a gosto dos lusos, mandar “pró caralho”. Mas, ao contrário dos que pensam os brasis, é também expressão de admiração, espanto e surpresa. 

E como estou a escrever de manhã, agora à beira do Mondego, em Coimbra, numa festa das confrarias gastronômicas portuguesas, antes do almoço, lembro-me da caralhota, pão caseiro de Almeirim, que pretendo comer com chanfana e beber com um delicioso espumante, o Quinta das Bágeiras, branco, bruto. Só um detalhe, chanfana é um prato que surgiu quando das guerras napoleônicas os franceses invadiram Portugal. Era feita de carne de cabra velha, que os portugueses abandonavam pelo caminho, já que levavam o melhor do rebanho para os montes. E assim surgiu a chanfana: carne de cabra cozida com vinho e cebola. 


A criatividade e a fé do povo luso contaminam. Quando este país cá de baixo ainda não era, eles diziam que “este Brasil é já outro Portugal”. Sonharam e construíram a utopia. O encontro de lusos e brasis foi além do possível, marcou a todos que pisaram a terra depois dos Quinhentos. Mas, agora, a caminho da terra basca de Hendaye, lembro-me da frase de uma sinhorinha na gare B de Coimbra: “É com Camões que a gente se entende”. Ela disse e eu assino. 

... a palavra fez-se homem e veio habitar no meio de nós.



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