mercredi 17 octobre 2012

Eu sou o meu desafio

Lá atrás, em era antiga, onde a memória se perde nas brumas, o Eterno disse a um sujeito de maus bofes:
"— Por que você está com raiva? Por que anda carrancudo? Se tivesse feito o que é certo, você estaria sorrindo. Mas você agiu mal e, por isso, lehatati está na porta, à sua espera. Ele quer dominá-lo, mas você precisa vencê-lo". (Gênesis 4:6, 7).
As funções e disfunções existenciais do humano, ou seja, a alienação, fazem com que as ações humanas, a partir dos desejos – emoções e sentimentos – levem o ser humano à possibilidade de errar o alvo, lehatati em hebraico, hamartia em grego, e peccatu em latim. Dentro da tradição das escrituras hebraico-judaicas, lehatati é a violação da lei. Mas lehatati é sempre uma ação do coração e não um estado do ser. Já a alienação, esta sim, é um estado da existência e toda a humanidade se encontra nesse estado de disfunção, ou inclinação para fazer o mal, conforme vemos em Gênesis 8.21:

"Eu sei que desde a juventude as pessoas só pensam em coisas más". (Gênesis 8:21).

Assim, lehatati traduz não somente falta moral, mas todas as violações da lei, quer conscientes ou não. E, segundo a tradição judaica, todo ser humano nasce sem lehatati, e a culpa de Hadam recaiu sobre ele e sua família, mas não se estendeu à espécie humana. Apesar disso, todo ser humano é responsável pelo lehatati porque todos temos vontade livre, mas natureza alienada e, por isso, tendemos também para o mal. Por isso, o texto acima citado de Gênesis diz que o coração humano é mau desde a sua juventude. Mas o Eterno, através de sua misericórdia, possibilita ao ser humano a metanóia e o perdão.

O tempo rolou, as estórias antigas foram cantadas, escritas e interpretadas. E um outro sujeito, meio pro rabino, meio pro pensador grego, que pelejava com seu erro trágico, resmungou:

"Eu sei que aquilo que é bom não vive em mim, isto é, na minha natureza humana. Porque, mesmo tendo dentro de mim a vontade de fazer o bem, eu não consigo fazê-lo. Pois não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero fazer é que eu faço. Mas, se faço o que não quero, já não sou eu quem faz isso, mas a hamartia que vive em mim é que faz. Assim eu sei que o que acontece comigo é isto: quando quero fazer o que é bom, só consigo fazer o que é mau.  Mas vejo uma lei diferente agindo naquilo que faço, uma lei que luta contra aquela que a minha mente aprova. Ela me torna prisioneiro da lei da hamartia que age no meu corpo. Como sou infeliz! Quem me livrará deste corpo que me leva para a morte? Que Deus seja louvado, pois ele fará isso por meio do nosso Senhor Jesus Cristo! Portanto, esta é a minha situação: no meu pensamento eu sirvo à lei de Deus, mas na prática sirvo à lei da hamartia". (Romanos 7:18-21, 23-25).

Hamartía, άμαρτία, é o erro cometido pelo personagem de uma tragédia, que resulta em peripécia, peripéteia. O termo aparece na Poética de Aristóteles e é conhecido como falha aristotélica ou erro trágico. Para Aristóteles, uma tragédia com peripécia, ou tragédia complexa, peplegméne, produz comoção, páthos, e leva o público à catarse, katársis. Na tragédia complexa a peripécia decorre da hamartía, e leva o herói a reconhecer seu erro, anagnórisis. Para Aristóteles, esse erro não decorre da maldade, kakia, nem da perversidade, mokhtería: é erro trágico, o desabar da fortuna na bosta, na desgraça, no infortúnio. Donde, só o herói trágico comete hamartia.
E à maneira grega, o nosso rabino filósofo concluiu:

"Não se amoldem a este século, mas sejam transformados pela renovação da mente, para provarem qual é a boa, perfeita e agradável vontade de Deus". (Romanos 12:2).


Fontes

Filomena Yoshie Hirata, A hamartia aristotélica e a tragédia grega, Universidade de São Paulo. Site: Anais de Filosofia Clássica. WEB: http://www.ifcs.ufrj.br/~afc/2008/FILOMENA.pdf

Jorge Pinheiro, Manual de Teologia Bíblica e Sistemática, São Paulo, Fonte Editorial, 2012, p. 215.
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