lundi 3 décembre 2012

De Pasolini a Sade

Por Jorge Pinheiro



Gostei do artigo de Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar, "Pasolini, para entender e amar Saló" (Via Política, 2007). Mas, como o próprio artigo mostra, falar de Saló nos remete aos Cento e Vinte Dias de Sodoma, do Marquês de Sade. E Sade, por sua vez, nos leva a Georges Bataille. Por isso quero apresentar aos leitores, Sade segundo Bataille (A literatura e o mal, São Paulo, L&PM, 1989. La litterature et le mal, Gallimard, 1957). Tradução de Suely Bastos. Vamos ao texto.


“Em meio a toda esta ruidosa epopéia imperial vê-se a resplandecer esta cabeça aniquilada, este grande peito sulcado de raios, o homem-falo, perfil augusto e cínico, esgar de titã pavoroso e sublime; sente-se circular nessas páginas malditas como que um arrepio de infinito, vibrar sobre estes lábios abrasados como que um sopro de ideal tempestuoso.


Aproximem-se e ouvirão palpitar nesta carcaça suja e sangrenta artérias da alma universal, veias grossas de sangue divino. Esta cloaca está plena de azul; há nessas latrinas alguma coisa de Deus. Fechem os ouvidos ao estalido das baionetas, ao ganido dos canhões; afastem os olhos desta massa movediça das batalhas perdidas ou ganhas; então verão se destacar sobre a sombra um fantasma imenso, resplandecente, inexprimível; verão despontar acima de uma época semeada de astros a figura enorme e sinistra do Marquês de Sade.


Por que o momento de uma revolução produziria o esplendor nas artes e nas letras? A fúria da violência armada não combina com a preocupação de enriquecer um domínio cuja paz só assegura o prazer. Os jornais se encarregam então de representar o destino do homem: a própria cidade, não os heróis das tragédias e dos romances, provocam no espírito este tremor que habitualmente as figuras imaginárias nos causam.


Uma visão imediata da vida é pobre, compará-la àquela que a reflexão e a arte do historiador elaboram. Mas se acontece o mesmo com o amor, que encontra sua verdade inteligível na memória (de sorte que, a maior parte do tempo, os amores dos heróis míticos têm para nós mais verdade que os nossos), diremos que o tempo da conflagração, mesmo quando a pouca atenção de nossa consciência o oculta, não nos absorve inteiramente? Afinal, o momento da sublevação é em princípio desfavorável à eclosão das letras. À primeira vista, a Revolução marca na literatura francesa uma época pobre. Propõe-se uma importante exceção, mas ela diz respeito a um desconhecido (que teve uma reputação durante a vida, mas deplorável). Se bem que o caso excepcional de Sade não infrinja de modo algum uma opinião que ele logo iria confirmar.


É preciso dizer em primeiro lugar que o reconhecimento do gênio, do valor significativo e da beleza literária das obras de Sade é recente: os escritos de Jean Paulhan, de Pierre Klossowski e de Maurice Blanchot o consagraram; é certo que uma manifestação clara, sem insistência, evidente não foi dada antes de uma opinião tão vasta, que suscitou homenagens ruidosas e que se impôs lenta mas seguramente.


É preciso citar os nomes de Swinburne, Baudelaire, Apollinaire, Breton, Eluard. As pesquisas pacientes e a obstinação de Maurice Heine (morreu em maio de 1940) merecem uma atenção particular: este personagem sedutor, estranho e sagaz dedicou sua vida à memória de Sade. É por isso que convém recordar aqui os traços de seu caráter. Este bibliófilo e este erudito (tão escrupuloso que infelizmente quase não publicou nada), ao tomar a palavra no congresso de Tours (em que se consumou, após a guerra de 1914 a cisão entre comunistas e socialistas franceses), pegou um revólver, atirou ao acaso e provocou em sua mulher uma leve ferida no braço. Heine era, no entanto, um dos homens mais doces e distintos que já conheci.


Este apaixonado defensor de Sade, tão intratável quanto seu ídolo, incitava ao pacifismo até suas últimas conseqüências. Tendo tomado o partido de Lênin em 1919, deixou o Partido Comunista em 1921, por causa da repressão de Trotski sobre a revolta anarquista dos marinheiros do Kronstadt. Dissipou sua fortuna fazendo pesquisas sobre Sade e morreu na miséria, comendo pouco para alimentar inumeráveis gatos. Levava a aversão à pena de morte - que ele tinha em comum com Sade - até condenar gravemente as corridas de touros. Em suma, um dos homens que o mais discretamente, mas o mais autenticamente, honraram seu tempo. Tenho orgulho de tê-lo tido como amigo.


Sade e a tomada da Bastilha


O que é preciso dizer em segundo lugar é que a vida e a obra de Sade se relacionam aos acontecimentos, mas singularmente. O sentido da revolução não está dado nas idéias de Sade; em alguma medida, estas idéias não são redutíveis à revolução. Se elas se relacionam, é mais como os elementos disparatados de alguma figura acabada, como a alguma rocha, uma ruína ou ao silêncio à noite. Os traços desta figura permanecem confusos, mas é o momento de esclarecê-los.


Poucos acontecimentos têm mais valor simbólico que a tomada da Bastilha. Por ocasião da festa que a comemora, há muitos franceses que, ao verem avançar na noite as luzes de uma retirada de archotes, sentem o que os une à soberania de seu país. Esta soberania popular, que é inteiramente tumulto, revolta, é irresistível como um grito. Não há sinal mais eloqüente da festa que a demolição total de uma prisão: a festa, que não existe se não é soberana, é, em essência, o arrebatamento de onde procede a soberania inflexível. Mas sem um elemento de acaso, sem capricho, o acontecimento não teria o mesmo alcance (é por isso que ele é símbolo, por isso ele difere das fórmulas abstratas).


Diz-se da tomada da Bastilha que ela na verdade não tinha o sentido que lhe emprestam. É possível. Nesta prisão, no dia 14 de julho de 1789, só existem prisioneiros de pouco interesse. O acontecimento seria, afinal de contas, apenas um mal-entendido. A se crer em Sade, seria efetivamente um mal-entendido: um mal-entendido que ele próprio teria suscitado! Mas poderíamos nos dizer que a parte de mal-entendido dá à história esse elemento cego sem o qual ela seria a simples resposta à lei da necessidade (como na fábrica). Acrescentemos que o capricho não só introduz na figura do 14 de julho o desmentido parcial do interesse, mas um interesse adventício.


No momento em que se decidia, mas obscuramente, no espírito do povo um acontecimento que iria sacudir, assim como em breve libertar, o mundo, um dos infelizes que os muros da Bastilha encerravam era o autor de Justine (este livro cuja introdução de Jean Paulhan afirma que ele punha uma questão tão grave que não era suficiente um século inteiro para respondê-la).


Ele estava então encarcerado há dez anos, na Bastilha desde 1784: um dos homens mais rebeldes e mais irascíveis que alguma vez falaram de rebelião e de raiva; um homem, numa palavra, monstruoso, que possuía a paixão de uma liberdade impossível. O manuscrito de Justine ainda estava na Bastilha em 14 de julho, mas abandonado num cárcere vazio (assim como o dos Cento e Vinte Dias de Sodoma). É certo que Sade, às vésperas da sublevação, discursou para a multidão: ele se armou, parece, a título de porta-voz, de um cano que servia para esvaziar suas águas sujas, gritando entre outras provocações que se "degolavam os prisioneiros". O feito corresponde precisamente ao caráter provocador que a vida inteira e a obra manifestam.


Mas este homem que, por ter sido a própria fúria, estava há dez anos preso e que, após dez anos, esperava o momento da libertação, não foi libertado pela "fúria" da sublevação. É comum que um sonho deixe, na angústia, entrever uma possibilidade perfeita, que ele oculta no último instante: como se a resposta confusa fosse sozinha suficientemente caprichosa para satisfazer o desejo exasperado. A exasperação do prisioneiro retardou nove meses sua libertação: o governador exigiu a transferência de um personagem cujo humor se conciliava tão bem com o acontecimento.


Quando a fechadura cedeu e a sublevação libertadora encheu as cores da praça, o cárcere de Sade estava vazio e a desordem do momento teve este efeito: os manuscritos do marquês, dispersados, se perderam, o manuscrito dos Cento e Vinte Dias de Sodoma (de um livro que em algum sentido domina todos os livros, sendo a verdade do arrebatamento que o homem no fundo é e que ele teve de conter e calar), desapareceu: este livro que em si mesmo significa, pelo menos significou o primeiro, todo o horror da liberdade, a sublevação da Bastilha em vez de libertar-lhe o autor, extraviou-lhe o manuscrito. O 14 de julho foi verdadeiramente libertador, mas à maneira oculta de um sonho.


Mais tarde, o manuscrito foi encontrado (foi publicado na nossa época), mas o próprio marquês continuou despossuído. Ele o acreditou para sempre perdido, o que o oprimia: era "a maior infelicidade", escreve ele, "que o céu pôde lhe reservar";* morreu ignorando que na verdade o que ele imaginava assim perdido devia tomar lugar, pouco mais tarde, entre os "monumentos imperecíveis do passado".


A vontade de destruição de si


Vê-se que um autor e um livro não são infalivelmente os felizes resultados de uma época calma. Tudo se figa, no caso presente, à violência de uma revolução. E a figura do marquês de Sade pertence apenas de uma maneira verdadeiramente distante à história das letras. É verdade que ele quis entrar nela como um outro e desesperou-se com a perda de seus manuscritos.


Mas não é permitido a ninguém querer e esperar claramente o que Sade exigiu obscuramente, e que obteve. É que a essência de suas obras é destruir: não somente os objetos, as vítimas, cenário (que existem apenas para responder ao furor de negar), mas o autor e a própria obra. É possível que, definitivamente, a fatalidade que quis que Sade escrevesse e fosse despossuído de sua obra tenha a mesma verdade que a obra: que traz a má nova de um acordo dos vivos com aquele que os mata, do Bem com o Mal e - se poderia dizer - do grito mais forte com o silêncio.


Não podemos saber a que motivo obedecia um homem tão volúvel quanto ele no momento de dar, num testamento, as instruções relativas a seu túmulo, que ele queria em sua terra, num lugar afastado. Mas estas frases desamparadas, seja qual fosse esta razão do acaso, dominam e concluem sua vida. Sade se exprime assim a esse respeito: "... Meus manuscritos sobre a perda dos quais verto lágrimas de sangue!... eu não descreverei jamais meu desespero por esta perda, ela é irreparável para mim..." (Correspondance, p. 263).


E: "... manuscritos que eu choro todos os dias em lágrimas de sangue... Perdoem-me se me apóio nessa circunstância; ela dilacera meu coração de uma maneira tão cruel, o que tenho de melhor a fazer é tentar esquecer esta infelicidade e não falar mais disso a ninguém. Encontro no entanto alguma coisa nos distritos onde foram jogados os papéis da Bastilha, mas nada de importante... misérias e nem uma única obra, alguma coisa conseqüente... É a maior infelicidade que o céu pôde me reservar..." (Ibid., p. 270).


Sade de fato encontrou a segunda versão, relativamente decente, de Justine, que ele publicou em 1791. A primeira versão, a mais desconhecida, que Maurice Heine publicou pela primeira vez em 1930 e que a Point du jour acaba de reeditar, veio diretamente da Biblioteca Nacional. Aparentemente, foi a perda dos Cento e Vinte Dias que levou Sade a retomar, numa terceira versão escandalosa, a história de Justine e a lhe dar como continuidade a história de Juliette; não dispondo mais do testemunho essencial que ele quisera dar, devia pensar em substituí-lo por alguma obra igualmente completa.


É preciso dizer, entretanto, que mesmo nesta última obra falta o caráter fundamental dos Cento e Vinte Dias. Sabe-se que o estranho manuscrito deste livro (um rolo de doze metros de comprimentos, que teria sido encontrado no cárcere de Sade por um certo Arnoux Saint-Maximin, foi vendido um século mais tarde por um livreiro parisiense a um apreciador alemão. O doutor Dühren o publicou em 1904, em Berlim, mas deu dela só uma versão muito cheia de erros, com tiragem de 180 exemplares. Enfim Maurice Heine, que o trouxe a Paris em 1929, estabeleceu o texto exemplar (Paris, 1931-1935), seguido pelas edições de 1947 e de 1953 (que restabelecem a ortografia e evitam as lacunas do manuscrito, escrupulosamente reproduzidas por Heine)".


A isso, acrescento: essa obra-prima do Marquês de Sade, que ele julgou perdida, foi em nossos dias adaptada por Pasolini e renasceu como nova obra-prima: "Saló ou Os Cento e Vinte de Sodoma". E a justiça se fez!

Via Política, 20/10/2007
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