dimanche 18 mars 2012

Os batistas na Europa latina, resumo


Colóquio de Ciências Sociais e Religião: Conhecimento, poder e carreiras intelectuais no campo religioso/ Prof. Dr. Leonildo Silveira Campos


Resumo de “Os batistas na Europa Latina: entre tradição e emoção, quais recomposições?”, FATH, Sébastien, In: Jean-Pierre Bastian (org.) La recomposition des protestantismes en Europe Latine: entre émotion et tradition, Genebra, Labor et Fides, 2004, pp. 121-138. (Tradução e apresentação por Naira C D G Pinheiro dos Santos)


O presente artigo de Sébastien FATH trata de analisar as recomposições identitárias que se apresentam ao e por meio do universo batista na França, diante do crescimento da influência carismática/pentecostal.

Segundo Campos, os pentecostalismos constituem-se “no principal fator de desestabilização do campo religioso protestante no Brasil” (p.12). Na Europa pode não ser o único e talvez nem o principal, mas, a partir da análise da FATH é possível depreender de que se trata de um importante fator de desestabilização. Apesar disso e embora esteja na moda, seria o “protestantismo emocional” conveniente a todas as correntes do protestantismo evangélico na Europa? 

O autor parte do exemplo batista (notadamente no contexto francês) para responder a essas perguntas, uma vez que estes “constituem hoje, depois do pentecostalismo, a ramificação mais numerosa do protestantismo evangélico em seu sentido amplo, compreendido como um cristianismo militante, conversionista e biblicista”. Identifica nestes “três traços distintivos: uma teologia de inspiração calvinista, uma eclesiologia congregacionalista e de proclamação (autonomia da assembléia local, composta de militantes ‘engajados’) e a prática do batismo por imersão do convertido, o coração da especificidade batista”. Ainda segundo avaliação do autor, o congregacionalismo exacerbado lhes confere uma plasticidade que os leva a acolher influências as mais diversas, dentre as quais, o carismatismo e o pentecostalismo, “fundados numa espiritualidade da eficácia, em que a emoção prevalece sobre a doutrina”. Como resultado, estabelece-se uma tensão entre um “pólo confessional e pietista/ortodoxo” e um “pólo interconfessional e mais emocional”.

Na primeira parte de seu artigo o autor aborda a situação dos batistas nos países latinos da Europa, na segunda parte analisa de modo geral a influência carismática junto aos batistas, e finalmente, na terceira parte, foca sua análise sobre os batistas na França.
Uma foto para a posteridade: membros da Igreja Batista de Nice

1.Situação dos batistas
De modo geral os batistas europeus constituem, segundo o autor, uma pequena minoria protestante e ainda menor nos países latinos, onde eles são ultra-minoritários. No entanto, os dados quantitativos em si não revelam a real situação dos batistas, cujo poder de influência varia em cada contexto. Primeiramente em função da sua participação relativa. Em alguns contextos do leste europeu e no norte europeu, a presença batista é significativa. Na Espanha, na Itália e em Portugal, embora estejam em número bastante reduzido, “os batistas jogam um papel de relevância no seio do protestantismo, na medida em que este último é ele mesmo extremamente minoritário”. Não é tanto esse o caso da Bélgica, da Suíça, e mesmo da França, na qual “os batistas aparecem em último lugar em relação ao conjunto lutero-reformado”.

Mas, segundo o autor, “se nos restringimos ao protestantismo evangélico nos damos conta de que os batistas ocupam, freqüentemente, uma posição chave”. Isto porque, ainda na perspectiva do autor o poder de influência dos batistas não está relacionado apenas à sua participação numérica, mas também à sua eficácia em, a partir de organismos supra-locais de tipo denominacional, estabelecer redes transnacionais, de modo que os batistas acham-se freqüentemente à cabeça de redes evangélicas, na Europa latina, assim como em outros lugares.

Ademais, devido à sua “flexibilidade congregacionalista”, os batistas “se abriram mais rapidamente que as outras confissões à influência de um protestantismo emocional de tipo carismático-pentecostal”. Assim, estes “parecem jogar, na Europa latina como em outras partes, um papel de interface essencial entre o universo pentecostal carismático e o universo lútero-reformado”, de modo que constituem, sob muitos aspectos, “uma ‘denominação teste’ no que se refere à tensão entre uma certa tradição ‘pietista ortodoxa’ e uma influência ‘emocional-experiencial’. Se eles pendem em direção ao pólo carismático, é toda a vertente evangélica que tende então a balançar para esse lado”. (Meu comentário para entender esse processo: Observe-se de um lado o congregacionalismo, no qual o poder pastoral é, em grande medida contido e a autonomia dos crentes é, aparentemente afirmada; do outro a atividade política para fora ou além dos muros da igreja local e mesmo do contexto denominacional, para o universo interdenominacional ou interconfessional, através da qual o líder pastoral constitui e/ou afirma sua capacidade de influenciar um grupo, uma corrente doutrinária ou mesmo carismática, e a partir do qual a autonomia da assembléia local e particularmente dos crentes é relativizada. A interpretação legítima sai dos seminários, como diria Israel Belo, mas também do circuito de poder denominacional e pode se expandir para além dele).

2. A influência carismática no meio batista
Para FATH os batistas possuem uma especificidade que não permite enquadrá-los nem como seita (não praticam a retirada do mundo nem a sua crítica sistemática, embora adotem uma atitude militante e proselitista), nem como igreja (não possuem uma forte estrutura institucional supra-local, embora mantenham um relacionamento articulado com o meio circundante e uma  “base doutrinária firme”), considerando que o que melhor lhe cabe é o tipo ‘denominacional’ (próximo do de ‘igreja livre’ descrito por Ernst Troeltsch).

O autor encontra dificuldade em enquadrar os batistas também na tipologia proposta por Willaime, (nenhum do modelos- ‘institucional-ideológico’, ‘institucional-ritual’ ou ‘associativo-carismático’ lhes corresponderia) preferindo completá-la com aquele que julga ser o mais adequado aos batistas, qual seja, o modelo associativo-ideológico. Associativo face ao tipo de organização, ideológico face à construção social de uma linha doutrinária precisa, normativa, defendida por um certo número de mediações. Enfim, para FATH, “o elemento chave nesse dispositivo foi a manutenção da doutrina e do biblicismo. As confissões de fé, as ‘alianças’ batistas, a imprensa denominacional, as convenções e encontros periódicos, os centros de formação para pastores, todos contribuíram, em graus variados, para manter o elemento ideológico como chave principal do sistema, relegando o elemento carismático a um papel subalterno”.

Essa dimensão associativa-ideológica dos batistas constitui, a despeito das aparências, um meio relativamente difícil para a penetração do carismatismo-pentecostal, uma vez que é a Bíblia o lugar privilegiado, e indispensável, para a experiência, estando esta submetida à norma bíblica. “A experiência, ou o carisma, não jogam nenhum papel direto nesse assunto”. Assim, o autor conclui que “mesmo se a sua estrutura associativa flexível, o seu conversionismo, seu individualismo e o seu militantismo parecem estar, a priori, em afinidade com o que se conhece do movimento carismático-pentecostal, o acento batista sobre a regulação ideológica parece se constituir” em freio à validação experiencial/emocional, e parte então para verificar se é possível encontrar validação empírica através do exemplo francês.
 Igreja Batista de Marseille

3. Entre resistência e aculturação: o exemplo francês
A análise do contexto  francês, em que os batistas encontram-se divididos em três facções principais[1] revelou que, “quanto ao eixo da tensão entre o pólo pietista/ortodoxo e o pólo emocional/experiencial, pode-se observar três cenários”.

O primeiro cenário é o dos batistas como rótulo, marca, ‘concha vazia’ para o carismatismo evangélico, bem marginal na Europa Latina (menos de 10%). Na França, embora seja possível encontrá-lo também muito marginalmente no seio da Fédération Baptiste, principal união das igrejas batistas na França (ligada à Federação Prostestante da França), está representado principalmente pela Fédération des Eglises et Communautés Baptistes Charismatiques (FECBC). “Com uma estrutura muito leve, o essencial da identidade da FECBC não se funda no batismo”. Embora se pratique o batismo por imersão do convertido esteja e haja uma orientação congregacionalista, aqui “a identidade carismática/pentecostal se impôs em todos os sentidos, inclusive na concepção de igreja e dos ministérios. [...] o discurso não é regulado pelos teólogos, nem pelas ‘confissões de fé’, o que conduz à multiplicação dos ‘empreendedores independentes’ do carisma, e ao deslocamento dos fiéis de grupo em grupo em busca de maior eficácia na solução dos problemas que os preocupam, concernentes ao amor, ao dinheiro e à saúde, três invariáveis que tendencialmente subjazem a toda busca religiosa”. Ademais, “as referências, os modelos são extraídos menos da história ou da atualidade batista principal que do universo globalizado do carismatismo”.

Um segundo cenário, “muito mais freqüente que o da concha vazia, é o do campo batista servindo de campo de aculturação ao carismatismo/ pentecostalismo. Esse fenômeno é, certamente, recíproco: os elementos de início radicalmente pentecostalizantes são pouco a pouco aculturados ao tipo de regulação própria dos batistas, enquanto que estes integram (ou levam em conta) diversos elementos da cultura carismática. Esse processo de aculturação diz respeito a cerca de 40% das igrejas batistas francesas, mas em graus muito variados: é possível encontrar desde igrejas batistas de um carismatismo muito militante e exacerbado, outras moderadamente carismáticas, atéapossível encontrar tambémca,  igrejas não carismáticas, mas que acolhem de bom grado membros dessa tendência em seu meio, adotando uma liturgia de estilo mais ou menos ‘carismática’. O principal campo de aculturação é a Fédération Baptiste, que tem sido confrontada, já de há muito, por uma orientação de tipo pentecostal”. Constata-se que, “mesmo antes da irrupção da ‘onda’ carismática propriamente dita, uma orientação emocional, terapêutica e profética operava ativamente sobre uma parte das igrejas da FEEBF”. Face ao ímpeto dos “batistas pentecostalizantes” ao final dos anos 1940, em 1952 a FEEBF publica uma “resolução sobre a orientação das nossas igrejas” que preconizava “uma posição intermediária, aceitável para os batistas pentecostalizantes e para os outros”. Esse texto “marca a diferença entre as experiências vividas e a confissão formulada [...] visa acolher a orientação emocional/ profética recusando, no entanto, que a experiência, o ‘dom espiritual’, a cura, pudessem substituir a normatividade da Bíblia. Pode-se perceber portanto que, aqui, os batistas permanecem mais próximos do ‘modelo associativo ideológico’ que do modelo ‘associativo carismático’”. Permite  evitar uma divisão no seio da FEEBF sem contudo resolver todas as dificuldades. “Ao final das contas, contudo, a linha de síntese levou a melhor e, até o início do século XXI, a FEEBF permaneceu um lugar de interface e de aculturação privilegiado entre um pólo pietista/ortodoxo e um pólo experiencial/emocional. Para manter essa linha, esforços multidirecionais foram empreendidos. Podemos ter uma idéia ao examinar as publicações da FEEBF, que trata regularmente da questão dos carismas reenquadrando-os numa perspectiva evangélica e batista. A escola de pastores de Massy [...] cumpre igualmente uma função essencial de submeter todos os pastores, carismáticos ou não, às necessidades de uma formação teórica, teológica [... e,] mesmo que não o diga, A FEEBF privilegia a legitimidade do pastor doutor em detrimento da do pastor profeta, na linha de sua orientação ‘associativa ideológica’”.

“O resultado dessa aculturação pode ser observado em diversos níveis. Primeiramente constata-se que a tendência à retirada do mundo observada entre os batistas pentecostalizantes nos anos 1950-1960 foi progressivamente atenuada. Após ter rompido brutalmente com o batismo social de um Robert Farelly, a maior parte dos batistas pentecostalizantes reintegraram pouco a pouco a dimensão do engajamento social. [...]Em segundo lugar observa-se que os carismáticos da FEEBF manifestam, na sua maioria, mais interesse pela doutrina, pela teologia, do que os seus colegas carismáticos de outros horizontes. Enfim, as estruturas denominacionais colocadas em ação progressivamente pela FEEBF constituíram, de fato, um importante fator de controle da autoridade carismática dentro da igreja (no sentido weberiano do termo). Pela obrigação de formação, pela participação nas pastorais regionais, nacionais, os pastores carismáticos da FEEBF não possuem uma liberdade de ação tal qual encontram em outros meios. Esse elemento de aculturação jogou, por vezes, como um fator de atração para carismáticos cansados de uma aventura solitária. Assim, após o desaparecimento dos fundadores, numerosas igrejas carismáticas bateram à porta da FEEBF desde os anos 1980, desejosas de um enquadramento confessional que lhes fizera falta até então”.

O autor conclui que o texto de síntese da FEEBF conferiu-lhe uma coesão interna inegável até o momento e que as tensões decorrem mais “de necessidades de aculturação recíproca do que de uma maciça crise de identidade”, constituindo-se este cenário em “recomposição por aculturação mais do que por expulsão ou invasão”.

Enfim, o último cenário apontado pelo autor é o do campo batista como lugar de resistência à influência carismática/pentecostal ou emocional/experiencial e que corresponde a cerca de 50% dos batistas franceses, dentre os “quais uma minoria de igrejas da FEEBF, a quase totalidade das igrejas da Association Baptiste (AEEBF) e de igrejas batistas independentes”. Ele destaca, no entanto, que essa “linha de rejeição é atualmente muito mais matizada do que ela pôde ser nos anos 1930 a 1960, nos quais o pentecostalismo era facilmente apresentado como sendo influenciado por Satanás”. Conclui que observa-se, neste cenário “uma tradição evangélica, da qual o fundamentalismo (mas não somente este) faz parte, que visa “colocar arreios” (harnessing) sobre a tendência ao êxtase e à emoção desenfreada que pôde marcar os fenômenos revivalistas, em nome de uma “domesticação” da experiência espiritual”.

O autor conclui sua análise acerca das recomposições identitárias dos batistas frente à influência carismática, afirmando que: “se o campo batista se mostra parcialmente ‘poroso’ à influência carismática ele está bem longe de se submeter em sua totalidade. Ao pólo profético/experiencial replica um pólo pietista/ortodoxo que nos lembra, a partir do campo batista, que as recomposições identitárias do protestantismo evangélico não saberiam se deixar reduzir a uma capa para o carisma e a emoção: se o carismatismo transforma as culturas eclesiais, estas últimas também o canalizam (ou o rejeitam)”.
 a norvel, a norma interpretaçtiviza)


[1] Dos atualmente 40 000 fiéis batistas na França, cerca da metade integram a Fédération des Eglises Baptistes de France (FEEBF), a qual está vinculada à Féderation Protestante de France (FPF) desde 1916. A outra metade se divide entre as igrejas da Association Evangélique d’Eglises Baptistes de Langue Française (AEEBF) e as igrejas batistas independentes, das quais um bom número estão agrupadas dentro da Communion Evangélique de Baptistes Indépendants (CEBI). Esses dois últimos grupos não estão ligados à FPF  em virtude de posições mais restritas quanto ao ecumenismo.

Os batistas na Europa latina

“Os batistas na Europa Latina: entre tradição e emoção, quais recomposições?” Por FATH, Sébastien In: Jean-Pierre Bastian (org.), La recomposition des protestantismes en Europe Latine: entre émotion et tradition
Genebra: Labor et Fides, 2004, pp.121-138[1].

 O ‘protestantismo emocional’ está na moda. Se essa qualificação parece corresponder muito bem ao pentecostalismo[2], ela poderia, no entanto ser conveniente a todas as correntes do protestantismo evangélico? O estudo do caso batista pode contribuir para esclarecer essa questão. Os batistas constituem hoje, depois do pentecostalismo, a ramificação mais numerosa do protestantismo evangélico em seu sentido amplo, compreendido como um cristianismo militante, conversionista e biblicista. Ela constitui hoje em dia a principal confissão protestante americana, mas obteve um crescimento relativamente significativo também em outros lugares, notadamente na Europa. Foi aí que ela nasceu, no começo do século XVII, na intersecção entre o anabatismo e o puritanismo separatista[3]. Tendo ficado por longo tempo confinada ao Reino Unido, ela se desenvolveu, a partir do começo do século XIX, em todos os países europeus, propagando uma ‘nova maneira cristã de ser’, em torno de três traços distintivos: uma teologia de inspiração calvinista, uma eclesiologia congregacionalista e de proclamação (autonomia da assembléia local, composta de militantes ‘engajados’) e a prática do batismo por imersão do convertido, o coração da especificidade batista. Essa implantação evangélica européia se caracteriza ao mesmo tempo por uma referência à tradição confessional e por uma certa plasticidade.

A tradição confessional batista é vigorosa, tal qual outras correntes evangélicas. A identidade batista, construída sobre quatro séculos de história[4], mostra-se, sob muitos aspectos, tão marcante, tão sedimentada quanto a identidade reformada ou a identidade luterana. Ela está apoiada em uma teologia, em confissões de fé, onde a noção de aliança, para os batistas, joga um pouco do papel da justificação pela fé junto aos luteranos: Deus estabeleceu um contrato com as suas criaturas, com base em uma ação universal e cabe à Igreja zelar pela sua manutenção para a maior glória do Criador (Soli Deo Gloria), a síntese entre ortodoxia e ortopraxia.

Ao mesmo tempo, o congregacionalismo exacerbado dos batistas sempre lhes conferiu uma considerável plasticidade que os leva, hoje em dia, a acolher as influências as mais diversas, a começar pelo impacto do pentecostalismo e do carismatismo[5], fundados numa espiritualidade da eficácia em que a emoção prevalece sobre a doutrina. Essa influência, que extravasa o campo batista para atingir o cristianismo em sua globalidade, se manifesta não somente na periferia, mas no interior mesmo daquilo que é o fundamento batista. Resulta daí uma tensão, uma negociação entre um pólo que, esquematicamente, pode ser qualificado de confessional e pietista/ortodoxo (principalmente do grupo vinculado a uma certa ‘tradição’) e um pólo interconfessional e mais emocional. A Europa Latina e, notadamente a França, constitui um bom terreno para o estudo dessa recomposição identitária.

Após uma breve abordagem da situação dos batistas nos países latinos, o que faremos no item 1, partiremos para analisar de modo geral a influência carismática junto aos batistas (item 2) e finalmente focaremos a análise mais especificamente na França, onde os batistas parecem estar divididos entre resistência e aculturação (item 3).

1. Situação dos batistas na Europa Latina

Os batistas europeus constituem uma pequena minoria protestante e ainda menor nos países latinos. No leste europeu os contingentes batistas são, por vezes, substanciais, e suas redes muito ativas: é o caso particularmente da Romênia, da Ucrânia e da Rússia; no primeiro país, os batistas ligados à Baptist World Alliance totalizam mais de 110 000 membros batizados por imersão[6], ou seja, um grupo de mais de 300 000 pessoas[7], aos quais se somam os batistas separatistas (não contabilizados nessas estatísticas) e numerosos batistas ‘viajantes’, sobre os quais não há nenhuma estatística consistente até o momento[8]. Quanto à Ucrânia os batistas, instalados nesse país desde 1859, totalizam mais de 160 000 membros batizados por imersão, ou seja, mais de 450 000 fiéis. Eles contam com dois seminários, em Kiev e Odessa, e numerosas escolas bíblicas[9]. Enfim, os batistas constituem na Rússia a segunda confissão cristã por ordem de importância, depois dos ortodoxos e antes dos católicos, contando com 100 000 membros batizados por imersão e uma implantação antiga de cerca de 150 anos[10].

1.1 Uma situação ultra-minoritária

Por outro lado, o norte europeu possui um presença batista relativamente significativa, sobretudo na Suécia (70 000 fiéis), enquanto que na Alemanha e no Reino Unido, terra nativa dos batistas, estes somam centenas de milhares. Esse não é o caso da Europa latina. Os batistas espanhóis, franceses, italianos, suíssos, belgas, portugueses são ultra-minoritários. Os seus efetivos são raquíticos e suas redes não possuem grande influência. Para fornecer um breve panorama estatístico, baseado na última obra de síntese publicada sobre os batistas no mundo, contam-se 40 000 batistas na França e na Espanha (entre 12000 e 14000 membros batizados por imersão), cerca de 20000 na Itália, tal qual em Portugal, um pouco mais de 3000 na Bélgica, menos de 2000 na Suíça romanda[11]. Por trás dessas cifras esconde-se uma realidade muito contrastante. Na Espanha, na Itália e em Portugal, os batistas jogam um papel de relevância no seio do protestantismo, na medida em que este último é ele mesmo extremamente minoritário. Não é tanto esse o caso da Bélgica e da França. Na França os batistas aparecem nos últimos lugares em relação ao conjunto lutero-reformado, mesmo se algumas personalidades, como André Thobois, durante muito tempo presidente da FPF[12], ou Louis Scweitzer, por algum tempo secretário geral da mesma FPF, souberam se impor. Enfim, na Suíça romanda pode-se considerar como muito fraca a participação dos batistas na vida protestante local, a qual é dominada pela Igreja reformada.

1.2. Redes ativas

Esses dados revelam que, no seio do cristianismo europeu do Sul, os batistas estão em número desprezível, à semelhança, aliás, do protestantismo como um todo. Em contrapartida, se nos restringimos ao protestantismo evangélico nos damos conta de que os batistas ocupam, freqüentemente, uma posição chave. A despeito de seu caráter congregacional, seus organismos supra-locais, de tipo denominacional, se mostram eficazes para estabelecer uma rede transnacional, segundo essa lógica “matizada entre dimensão internacional e dimensão local” evocada por Christopher Sinclair[13] na apresentação sugestiva que ele propõe da construção histórica da identidade evangélica: os batistas da Europa latina realizaram assim, precocemente, encontros tais como a Conferência Regional Batista dos  Países Latinos, que ocorreu em Paris, de 11 a 14 de julho de 1937. Representantes belgas (os pastores O. Valet e A. Wémers), espanhóis (o catalão A. Celma, de Barcelona), português (Manuel Cerqueira), italiano (G.B.Scrajber), encontraram-se com tantos outros franceses, e também com muitos batistas anglo-saxãos de renome que estavam presentes[14], dentre os quais um pastor um pastor Pope, “acompanhado de muitos batistas australianos”, detalha o cronista francês que acompanhou o evento[15]. Um alemão, o Dr. Johannes Mundhenk estava também presente. Sem chegar ao ponto de assumestava tambanos"ptist Foreign Mission Societys para estabelecer uma rede transancional Suitzer, durante certom se impor.ecret (t na medida em que este ttante. Na Espanhantegraçeparatistas (ndade siportanteir a afirmação um tanto otimista do Dr. Lewis, que se regozijava de que entre “esses batistas de diversos países não há diferenças senão de fisionomia e idioma”[16], essa Conferência, que tratou de temas da juventude, de  evangelismo, da obra das mulheres, de missões, é um exemplo dessa ação em rede dos batistas dos países latinos, que pode ser observada também através de uma certa circulação muito precoce de textos ‘denominacionais’ de uma país para o outro[17]. A atividade das redes batistas prosseguiu desde então, encontrando na Fédération Baptiste Européenne[18], criada em 1949, um lugar privilegiado[19].

1.3. Um papel de interface

A eficácia das redes denominacionais batistas explica em parte porque muitos de seus líderes acham-se na direção de organizações evangélicas interconfessionais. Os batistas acham-se freqüentemente à cabeça de redes evangélicas, na Europa latina, assim como em outros lugares.Na França, durante quase quarenta anos, dois batistas, Jacques Blocher e André Thobois, é que são, e de longe, os recordistas na presidência de obras evangélicas, quer seja da Aliança Evangélica, dos Grupos Bíblicos Universitários, ou da Associação das Igrejas de Proclamadores.

Ademais, os batistas parecem jogar, na Europa latina como em outras partes, um papel de interface essencial entre o universo pentecostal carismático e o universo lútero-reformado. Pela sua teologia, pela sua herança confessional, os batistas estão, com efeito, ancorados em uma certa tradição protestante. Ao mesmo tempo, pela sua flexibilidade congregacionalista, eles se abriram mais rapidamente que as outras confissões à influência de um protestantismo emocional de tipo carismático-pentecostal[20]. É por isso que eles constituem, sob muitos aspectos, uma ‘denominação teste’ no que se refere à tensão entre uma certa tradição ‘pietista ortodoxa’ e uma influência ‘emocional-experiencial’[21]. Se eles pendem em direção ao pólo carismático, é toda a vertente evangélica que tende então a balançar para esse lado. Em contrapartida, se eles se mantêm sobretudo no pólo pietista ortodoxo, a influência ‘emocional-experiencial’ se manterá relativamente confinada, e não somente nas fileiras batistas. Posto, de forma breve, o quadro da paisagem batista na Europa latina, é preciso agora examinar mais de perto os elementos dessa tensão ente pólo pietista/ortodoxo e emocional-experiencial.

2. Os termos da influência carismática no meio batista

Não é possível compreender a influência carismática no meio batista exatamente da mesma maneira que no meio católico ou no reformado. Com efeito, o tipo de organização religiosa dos batistas é específico e isso se reflete sobre a maneira pela qual se dá a tensão entre pólo emocional/experiencial e pólo pietista ortodoxo. Esse tipo de socialização religiosa batista não se enquadra no dualismo clássico da ‘igreja’ e da ‘seita’. Após um exame cuidadoso, os batistas não podem ser colocados nem numa nem noutra categoria. Da igreja, os batistas possuem um relacionamento articulado, denso com o meio circundante, assim como uma base doutrinária muito firme, mas ele não possuem traços de ‘grupo de massa’ nem um forte acento institucional supra-local. Da seita, os batistas adotam a lógica do grupo militante, célula de ‘convertidos’ voltados ao proselitismo, mas nem por isso praticam a retirada do mundo (ou a sua crítica sistemática).

2.1. Um tipo ‘associativo-ideológico’

De fato, o tipo que melhor corresponde às igrejas batistas é o tipo ‘denominacional’, próximo daquele da ‘igreja livre’ descrito no começo do século XX por Ernst Troeltsch[22]. O recurso a um modelo de análise elaborado por Jean Paul Willaime é oportuno para esclarecer, sob um outro ângulo, essa especificidade organizacional dos batistas[23]. Nem modelo ‘institucional-ideológico’ (do tipo igreja reformada), nem modelo ‘institucional-ritual’ (do tipo católico), as igrejas batistas não correspondem também ao modelo ‘associativo-carismático’(do tipo ‘seita de guru’). Verifica-se que o seu modelo é o ‘associativo-ideológico’, categoria que nos parece útil forjar, completando a tipologia de Jean-Paul Willaime, para dar conta da especificidade social dos batistas[24]. A igreja vivida pelos batistas é ‘associativa’ e não ‘institucional’(nestas o papel mais importante cabe às estruturas supra-locais). Sob outro aspecto ela deve sua coerência não ao ‘carisma’ pessoal do pastor, eventual detentor de profecias particulares ou de tal ou tal poder de cura indispensável à coesão de sua assembléia, mas sobretudo à ‘ideológica’, isto é,  à construção social de uma linha  doutrinária precisa, normativa, defendida por um certo número de mediações[25].

2.2 O primado da validação doutrinária

Essa especificidade a uma só vez associativa e ideológica não é facilmente pensável no contexto da Europa latina. Com efeito, a dimensão ideológica historicamente foi sustentada, no Velho Continente, por igrejas-instituições. A associação autônoma evoca facilmente a seita carismática, à margem de regulação institucional e que se supõe poder assegurar uma coerência ideológica apenas a longo prazo. Forçoso é, no entanto, constatar que no meio batista é o misto de associativo-ideológico que jogou, por várias vezes ao longo dos séculos, uma identidade específica sempre bem perceptível no campo teológico e eclesiológico protestante. O elemento chave nesse dispositivo foi a manutenção da doutrina e do biblicismo. As confissões de fé, as ‘alianças’ batistas, a imprensa denominacional, as convenções e encontros periódicos, os centros de formação para pastores, todos contribuíram, em graus variados, para manter o elemento ideológico como chave principal do sistema, relegando o elemento carismático a um papel subalterno. No meio batista, jamais a legitimidade do pastor deve-se, em princípio, em primeiro lugar ao seu carisma pessoal, suas atitudes de profeta-curandeiro, por exemplo. Ela repousa sobretudo sobre o seu papel de intérprete autorizado das Escrituras[26]. “Sejam convicbor et Fidessn du clerc Jean-Paul WILLAIME, Profession:padade do pastor deve-se, em princ de tal ou tal poder de cura indispenstos das verdades bíblicas, sejam homens do Livro!” aconselhava Ruben Saillens aos jovens pregadores[27]. Em última instância é a referência a uma certa leitura da Bíblia que prima e que distingue[28].

2.3. Um freio à validação experiencial/emocional?

Essa leitura, freqüentemente de inspiração calvinista, valoriza geralmente uma certa ‘ortodoxia’ protestante, a conversão e a experiência cotidiana da fé. Na visão batista majoritária essa ‘experiência’ não é compreendida sob a forma prioritária do milagre e dos sinais extraordinários do Espírito: ela é compreendida basicamente, dentro da tradição pietista, como uma impregnação crescente das verdades bíblicas apreendidas cotidianamente. A leitura cotidiana da Bíblia se coloca, sob esse ponto de vista, como o lugar privilegiado, e indispensável, de uma experiência que permanece dentro do ‘quadro’ ideológico pretendido[29]. É somente a Bíblia que valida, que faz a norma. A experiência, ou o carisma, não jogam nenhum papel direto nesse assunto. Não é de surpreender, portanto, que todo pastor batista esteja ele próprio submisso a essa regulação. Os membros podem muito bem contestá-lo se ele parece se ‘desviar’ da compreensão bíblica coletivamente escolhida. É por essa medida, igualmente, que a qualidade de membro pode ser obtida (na condição de uma certa ortopraxia complementar) ou recusada.

Essa dimensão associativa-ideológica dos batistas constitui, a despeito das aparências, um meio relativamente difícil para a penetração do carismatismo-pentecostal, ao menos se definimos este último por uma certa prioridade atribuída ao carisma e à experiência[30].  doxia, longe disso.laracterísiers. os aspectos, como uma 'tal carismartesMesmo se a sua estrutura associativa flexível, o seu conversionismo, seu individualismo e o seu militantismo parecem estar, a priori, em afinidade com o que se conhece do movimento carismático-pentecostal, o acento batista sobre a regulação ideológica parece se constituir em obstáculo a uma visão ‘de todo carismática’. Mas é possível verificar empiricamente essa análise tão geral e teórica? É isso que convém examinar no próximo item.
Igreja Batista em Nice

3. Entre resistência e aculturação: o exemplo francês

A influência carismática no meio batista, um dentre outros campos nos quais se observa um movimento de “‘pentecostalização’ do cristianismo”[31] não é de fácil análise. As monografias consagradas à história e à sociologia dos batistas europeus são ainda muito raras, e os dados publicados pelas uniões batistas, notadamente através de sites na Internet, não distinguem os carismáticos como tal, se bem que eles parecem ser quase invisíveis. Deve-se por isso renunciar a qualquer apreciação empírica da influência carismática? Não, pois há um campo que é exceção no seio da historiografia quase virgem dos batistas na Europa latina. Trata-se dos batistas franceses. Divididos em três facções principais[32] ele foi abordado, ao mesmo tempo, sob o ângulo da síntese sócio-histórica em seu conjunto[33] e como um campo de penetração dentre outros do movimento carismático. A tese defendida por Evert Veldhuizen sobre o carismatismo protestante na França é, nesse sentido, indispensável[34]. Ela inclui numerosas páginas sobre os batistas, fornecendo elementos valiosos. Revisada e complementada pontualmente por uma perspectiva histórica e um exame da imprensa batista francesa contemporânea, ela permite uma avaliação precisa das recomposições internas induzidas pela influência carismática/pentecostal no meio batista. Quanto ao eixo da tensão entre o pólo pietista/ortodoxo e o pólo emocional/experiencial, pode-se observar três cenários.

3.1. Os batistas, ‘concha vazia’ para o carismatismo evangélico

O primeiro cenário é o da ‘concha vazia’. Nessa perspectiva os batistas, enquanto grupo de identidade protestante específica, não é mais do que uma marca, um envelope, uma etiqueta. Mas o conteúdo, este não tem nada de especificamente batista: a identidade carismática/pentecostal se impôs em todos os sentidos, inclusive na concepção de igreja e dos ministérios. Como podemos encontrar, principalmente nos pentecostalismos lusofones, estudados por Jean-Pierre Bastian, o discurso não é regulado pelos teólogos, nem pelas ‘confissões de fé’, o que conduz à multiplicação dos ‘empreendedores independentes’ do carisma, e ao deslocamento dos fiéis de grupo em grupo em busca de maior eficácia na solução dos problemas que os preocupam, concernentes ao amor, ao dinheiro e à saúde, três invariáveis que tendencialmente subjazem a toda busca religiosa[35]. Esse cenário da ‘concha vazia’ é, na verdade, muito marginal no campo batista francês. Ele compreende menos de 10% dos protestantes que possuem a etiqueta de batistas. Contudo é possível encontrá-lo também, muito marginalmente, no seio da Fédération Baptiste, principal união das igrejas batistas na França (ligada à FPF). Ele pode ser encontrado também, e de forma muito mais evidente, no interior da Fédération des Eglises et Communautés Baptistes Charismatiques (FECBC), fundada por Charles Schinkel[36]. Este era, de início, pastor da Église Réformée de France. Mas na primavera de 1977 ele é deposto de seu cargo em Nuneray (norte da Normandia) pelo conselho regional da ERF, principalmente devido às suas fortes convicções carismáticas, mas também pela sua recusa em praticar pedobatismo[37]. O interessado se considera, então, “vítima de suas convicções evangélicas”, estimando notadamente que seus batismos não são “rebatismos”[38].  Na realidade, havia muitos outros motivos para a sua exclusão, em particular a recusa de Schinkel em seguir um curso de licenciatura em teologia: sua opção decididamente carismática o levaria, com efeito, a considerar que a licenciatura “não valoriza em nada o seu ministério pastoral”; é possível observar aqui a clivagem típica entre o pastor como doutor (legitimidade ideológica) e o pastor como profeta (legitimidade carismática). Em seguida à sua exclusão da ERF, Schinkel não tarda em mobilizar uma pequena rede carismática que havia se consolidado em torno dele e de sua assembléia, a Communauté chétienne le Buisson Ardent (Comunidade cristã a Sarça Ardente). A partir de pastorais carismáticas organizadas em Louvetot, esse processo desemboca na criação, em 1986, de uma “Fédération des Eglises et Communautés Baptistes Charismatiques”. Sua sede situa-se em Louvetot, na comuna de Caudebec-en-Caux, de onde é difundida uma revista trimestral[39]. Em 1988, a FECBC reunia 13 igrejas e cerca de 1100 membros[40]. Esses números evoluíram pouco na entrada do século XXI.

Com uma estrutura muito leve[41], o essencial da identidade da FECBC se funda não no batismo, mesmo se o termo foi escolhido por ser julgado cômodo, mas no carismatismo, com uma larga margem de iniciativa deixada aos diferentes pastores[42]. Com exceção da prática do batismo por imersão do convertido e de uma orientação congregacionalista, a concepção dos ministérios, dos dons espirituais, e o estatuto da doutrina diferem consideravelmente da corrente batista histórica implantada na França. As referências, os modelos são extraídos menos da história ou da atualidade batista principal que do universo globalizado do carismatismo[43]. Isso explica, como destaca Evert Veldhuizen, porque a “adoção do adjetivo ‘batista’ incomoda a FEEBF”[44]. O ‘batista’ aqui não está muito distante de uma concha vazia que veste um conteúdo evangélico carismático próximo do que se poderia chamar de “comunidades emocionais”, muito mais reguladas pelos carismas do que pela doutrina ou pela ortopraxia.

3.2. O campo batista[45], lugar de aculturação do carismatismo/pentecostalismo

Um cenário muito mais freqüente que o da concha vazia é o do campo batista servindo de campo de aculturação ao carismatismo/pentecostalismo. Esse fenômeno é, certamente, recíproco: os elementos de início radicalmente pentecostalizantes são pouco a pouco aculturados ao tipo de regulação própria dos batistas, enquanto que estes integram (ou levam em conta) diversos elementos da cultura carismática. Esse processo de aculturação diz respeito a cerca de 40% das igrejas batistas francesas, mas em graus muito variados. O principal campo de aculturação é a Fédération Baptiste, que tem sido confrontada, já de há muito, por uma orientação de tipo pentecostal. No século XIX, antes da criação da Federação, a oferta religiosa de um grupo tido como próximo dos pentecostais fez assim muito sucesso entre as primeiras fileiras batistas do norte e da bacia ‘stéphanois’(vale do Loire), nos anos 1830 a 1850. O reavivamento do país de Galles, em 1905-1906, seduziu também muitas igrejas do norte pela sua ênfase nos “dons espirituais”[46]. Em seguida os contatos com o pentecostalismo a partir do começo dos anos 1930, conduziram a um pequeno fenômeno revivalista no norte (Denain) e na Picardia, de caráter claramente pentecostalizante do fim dos anos 1940 ao fim dos anos 1960. Jules Thobois[47], que havia tido a experiência do ‘batismo do Espírito Santo’ em 1947 é, então, a sua figura de proa. Constata-se, portanto, que mesmo antes da irrupção da ‘onda’ carismática propriamente dita, uma orientação emocional, terapêutica e profética operava ativamente sobre uma parte das igrejas da FEEBF.

Em vista dessa herança, não é surpreendente se hoje uma maioria das igrejas da Fédération Baptiste estão engajadas num processo de aculturação do carismatismo/pentecostalismo. Essa aculturação encontra diversos níveis. Há igrejas batistas de um carismatismo muito militante e exacerbado, como a Communauté Chrétienne du Point du Jour, em Paris[48], igrejas batistas moderadamente carismáticas, como as de Soissons e Saint-Quentin, na Picardia, que amenizaram ao longo dos anos traços como o ‘falar em línguas’[49]. É possível encontrar também igrejas não carismáticas, mas que acolhem de bom grado membros dessa tendência em seu meio, adotando uma liturgia de estilo mais ou menos ‘carismática’. Em todos esses cenários é impressionante constatar o esforço de adequação operado, em particular pelas estruturas da FEEBF, a fim de aculturar o carismatismo no seio do circuito identitário batista. Face ao ímpeto dos “batistas pentecostalizantes”[50] ao final dos anos 1940, em 1952 a FEEBF publica uma “resolução sobre a orientação das nossas igrejas” que preconizava, segundo E. Veldhuizen, “uma posição intermediária, aceitável para os batistas pentecostalizantes e para os outros”.

Esse documento, que se constitui em praxe na FEEBF[51],. Esse texto permite evitar uma divisão no seio da FEEBF sem contudo resolver todas as dificuldades. marca a diferença entre as experiências vividas e a confissão formulada. Ele chama a atenção para a autonomia da igreja local e destaca o fato de que o Santo Espírito opera a conversão, a santificação, a comunhão cristã, a perseverança e a capacitação dos crentes. A manifestação dos dons não é considerada obrigatória, ao contrário da orientação adotada pelos pentecostais. Quanto à cura, ela é um testemunho e não deve ser um instrumento de ‘propaganda’. Apelando para a ‘comunhão fraterna’ esse texto visava, evidentemente, acolher a orientação emocional/profética recusando, no entanto, que a experiência, o ‘dom espiritual’, a cura, pudessem substituir a normatividade da Bíblia. Pode-se perceber portanto que, aqui, os batistas permanecem mais próximos do ‘modelo associativo ideológico’ que do modelo ‘associativo carismático’Enquanto alguns pastores torciam o nariz ao que consideravam ser indiferença dos batistas frente ao carisma, outros fechavam a porta, sem deixar qualquer brecha, à ‘nova onda’ pentecostalizante. Ao final das contas, contudo, a linha de síntese levou a melhor e, até o início do século XXI, a FEEBF permaneceu um lugar de interface e de aculturação privilegiado entre um pólo pietista/ortodoxo e um pólo experiencial/emocional. Para manter essa linha, esforços multidirecionais foram empreendidos. Podemos ter uma idéia ao examinar as publicações da FEEBF, que trata regularmente da questão dos carismas reenquadrando-os numa perspectiva evangélica e batista[52]. A escola de pastores de Massy, cujo rol não para de crescer, cumpre igualmente uma função essencial de submeter todos os pastores, carismáticos ou não, às necessidades de uma formação teórica, teológica[53]. Evidentemente, mesmo que não o diga, A FEEBF privilegia a legitimidade do pastor doutor em detrimento da do pastor profeta, na linha de sua orientação ‘associativa ideológica’. Todo pastor carismático (ou não) da FEEBF está hoje obrigado a passar sob as forças caudinas dessa formação, considerada como uma barreira necessária[54].

O resultado dessa aculturação pode ser observado em diversos níveis. Primeiramente constata-se que a tendência à retirada do mundo observada entre os batistas pentecostalizantes nos anos 1950-1960[55] foi progressivamente atenuada. Após ter rompido brutalmente com o batismo social de um Robert Farelly, a maior parte dos batistas pentecostalizantes reintegraram pouco a pouco a dimensão do engajamento social. O exemplo dos “carismáticos sociais”[56] da comunidade cristã de Lille, abordado por Evert Veldhuizen, é significativo. Fundada em 1975 pelo jovem pastor batista David Berly, essa comunidade inaugurou, desde 1980, duas fraternidades. Abrindo-se à dimensão inter-religiosa, ela criou um ponto de encontro para os sem teto partir de 1985, tornando-se uma “voz do evangelismo social”[57].

Em segundo lugar observa-se que os carismáticos da FEEBF manifestam, na sua maioria, mais interesse pela doutrina, pela teologia, do que os seus colegas carismáticos de outros horizontes. As confissões de fé dos batistas carismáticos da FEEBF têm, certamente, menor importância normativa do que no interior de outras igrejas não carismáticas (o que seria necessário verificar caso a caso), mas elas existem e integram todos os elementos doutrinários próprios aos batistas[58].

Enfim, as estruturas denominacionais colocadas em ação progressivamente pela FEEBF constituíram, de fato, um importante fator de controle da autoridade carismática dentro da igreja (no sentido weberiano do termo). Pela obrigação de formação, pela participação nas pastorais regionais, nacionais, os pastores carismáticos da FEEBF não possuem uma liberdade de ação tal qual encontram em outros meios. Esse elemento de aculturação jogou, por vezes, como um fator de atração para carismáticos cansados de uma aventura solitária. Assim, após o desaparecimento dos fundadores, numerosas igrejas carismáticas bateram à porta da FEEBF desde os anos 1980, desejosas de um enquadramento confessional que lhes fizera falta até então[59].  O caso de Boulogne-sur-Mer descrito por Evert Veldhuizen é um bom exemplo desse processo de integração: como resultado de um trabalho missionário batista realizado pela Mission Intérieure Baptiste (MIB) a partir de 1984, uma pequena “comunidade cristã” foi fundada nesse local. Uma igreja carismática mais radical, e mais isolada, já estava instalada naquela localidade: a igreja cristã carismática de Boulogne-sur-Mer, então ligada à FECBC de Charles Schinkel. Mas, logo após a aposentadoria do pastor-fundador, essa igreja não tarda em se fundir com a igreja carismática recentemente criada pela FEEBF. O acompanhamento por parte da comunidade cristã de Lille (FEEBF) de 1977 a 1984, a intervenção de Daniel Lhermenault, presidente regional da FEEBF, e o impulso dado por um leigo, Maurice Devos[60], a conduziram a essa fusão para a qual as estruturas denominacionais da Fédération Baptiste jogaram um papel mobilizador, e atrativo. Essa aculturação não deixa de se realizar com dificuldades. Existem tensões no interior da FEEBF quanto a isso. De acordo com uma pesquisa de 1988 havia então 2828 carismáticos na FEEBF[61], ou seja, cerca da metade dos membros professos da Fédération Baptiste. Essa proporção aumentou ligeiramente desde então. A tendência carismática seria daí em diante (em 2002) ligeiramente majoritária no seio da Fédération Baptiste, mesmo se o quadro denominacional permanece controlado, na maioria, por não carismáticos, como o comprova este fato significativo: até o presente não houve nenhum presidente da FEEBF que pertencesse abertamente à tendência carismática!

Resta, portanto, que as tensões que podemos intuir decorrem mais de necessidades de aculturação recíproca do que de uma maciça crise de identidade. Desde o texto de síntese de 1952, a coesão interna da FEEBF é, até o momento, inegável. Se para o futuro não se pode eliminar a possibilidade de uma ruptura do equilíbrio atual, o que se verifica na entrada do século XXI é uma recomposição por aculturação mais do que por expulsão ou invasão.

3.3. O campo batista, lugar de resistência ao carismatismo

Enfim, um último cenário ocorre de forma maciça no campo batista: o da resistência à influência carismática/pentecostal. Cerca de 50% dos batistas franceses, dos quais uma minoria de igrejas da FEEBF, a quase totalidade das igrejas da Association Baptiste (AEEBF) e de igrejas batistas independentes, se situam hoje numa linha de resistência em relação à influência emocional/experiencial. É preciso destacar que, à semelhança do restante do protestantismo, essa linha de rejeição é atualmente muito mais matizada do que ela pôde ser nos anos 1930 a 1960, nos quais o pentecostalismo era facilmente apresentado como sendo influenciado por Satanás[62]. Mas ela continua ainda claramente presente. Ela se traduz, no plano teológico, por uma recusa de atualização do “falar em línguas”, por uma grande desconfiança frente à taumaturgia, por um estilo litúrgico e cultual geralmente distanciados de manifestações familiares aos carismáticos, e por uma ênfase muito forte sobre a regulação doutrinária, numa linha semelhante àquela do fundamentalismo histórico, ao qual, aliás, muitas dessas igrejas batistas se reportam. A experiência espiritual é aqui estritamente canalizada, e subordinada à validação pela Bíblia e pela leitura autorizada que esses batistas fazem dela.

Mantendo suas reservas em relação ao carismatismo, a imprensa batista da Associação apresenta atualmente diversos sinais de uma nova, e relativa, benevolência. Mas nenhuma igreja da AEEBF pode, hoje, ser descrita como carismática, ou integrada de perto ou de longe às redes especificamente carismáticas que atuam no país. Em contrapartida, os batistas independentes, surgidos na França principalmente após 1945, permanecem muito hostis, e não é possível observar, junto a estes, essa relativa flexibilização da AEEBF. Basta observar, por exemplo, os sites da Internet das igrejas batistas independentes. Não é raro ver explicitada aí uma maciça rejeição ao carismatismo. É o caso da igreja batista do Centro, em Paris. Fundada pelo missionário americano Arthur Sommerville e atualmente dirigida pelo pastor francês Emannuel Bozzi, ela destaca, em seu site que ela “se posiciona contra a apostasia, o movimento carismático e o movimento ecumênico”, a Eglise biblique baptiste de Montpellier destaca que “nosso estilo de adoração visa honrar a Cristo, e nós nos esquivamos do novo estilo de adoração que invadiu tantas igrejas em nossa região. Nós acolhemos todos aqueles que desejem ouvir um sermão expositivo”. Em termos menos duros que aqueles da igreja batista do centro, verifica-se expressa aqui uma rejeição ao estilo carismático, em proveito de uma liturgia que canaliza de modo muito estrito a emoção e que valoriza a transmissão da mensagem bíblica[63]. Observa-se aqui uma tradição evangélica, da qual o fundamentalismo (mas não somente este) faz parte, que visa “colocar arreios” (harnessing) sobre a tendência ao êxtase e à emoção desenfreada que pôde marcar os fenômenos revivalistas, em nome de uma “domesticação” da experiência espiritual[64].

Conclusão

Finalizando a análise das recomposições internas induzidas pela influência carismática/pentecostal, podemos considerar, à luz do caso batista francês, que o protestantismo evangélico parece longe de estar submerso por aquilo que é qualificado, por vezes um tanto apressadamente, de “onda carismática”[65]. Os batistas que permanecem herméticos ao carismatismo são bem mais numerosos (40%) do que os carismáticos que se utilizam da denominação batista como uma ‘concha vazia’. Quanto aos batistas que se aculturam em graus muito variados à influência carismática (40%), apenas a metade deles a adotaram abertamente, enquanto que os outros estão mais propensos às ações de aculturação do carismatismo a um protestantismo evangélico de tipo pietista/ortodoxo[66]. No total, pode-se estimar hoje em menos de um terço a proporção de igrejas batistas francesas de tipo claramente carismática, as demais permanecendo ou hostis ou em negociação com esse pólo. Em outras palavras: se o campo batista se mostra parcialmente ‘poroso’ à influência carismática ele está bem longe de se submeter em sua totalidade. Ao pólo profético/experiencial replica um pólo pietista/ortodoxo que nos lembra, a partir do campo batista, que as recomposições identitárias do protestantismo evangélico não saberiam se deixar reduzir a uma capa para o carisma e a emoção: se o carismatismo transforma as culturas eclesiais, estas últimas também o canalizam (ou o rejeitam).


[1] Traduzido por Naira Carla Di Giuseppe Pinheiro dos Santos para uso no contexto dos Colóquios de Ciências Sociais e Religião, do programa de doutorado em Ciências da Religião da UMESP.
[2] Sobre esse assunto ver o artigo de Jean-Paul Willaime, “Le pentecôtisme:contours et paradoxes d’un protestantisme émotionnel” In: Archives des Sciences Sociales des RêligionsSociales des adoxes d'lostalismoides, 2004, pp.121-138.eligions, jan-mar 1999:5-28.
[3] Sobre o surgimento dos batistas em torno da figura de John Smyth, ver John E. STAUF-FACHER, La vie et l’oeuvre de John Smyth, 1570?-1612, tese de doutorado, Université des Sciences Humaines de Strasbourg, 1987.
[4] A única ‘soma’ geral atualmente disponível sobre a história batista global é a de H-Leon MAC BETH, The Baptist heritage, Four Centuries of Baptist Witness, Nashville, Broadman Press, 1987.
[5] As diferenças entre meios carismáticos e pentecostais não são sempre claramente percebidas. Podemos enumerar seis: o carismatismo é bem mais transconfessional que o pentecostalismo, ele insiste menos na ascese intramundana e mais sobre o crescimento pessoal. Seu recrutamento socioprofissional se dá em média junto a classes sociais mais elevadas do que aquelas recrutadas pelo pentecostalismo. Além disso, o carismatismo não faz da glossolalia uma condição indispensável para a obtenção do ‘batismo pelo Espírito’. Ele gera também práticas cultuais mais variadas e mais inovadoras do que o pentecostalismo ( no que se refere à música, à participação das mulheres). Enfim, o pentecostalismo (tipo ADD) defende uma concepção de carismas muito biblicamente fundamentada (com base em 1 Coríntios 12: 29-30). Em contrapartida certas correntes carismáticas (em particular as das últimas ‘ondas’) se abrem com mais facilidade a novos carismas, desde que a Bíblia não pareça  interditá-los explicitamente.
[6] Cf. Albert W. Wardin (org.), Baptists Around the World, Nashville, Broadman & Holman Publisher, 1995:264. A Union Baptiste de Roumanie, criada em 1919 contava, em 1995, com 100 000 membros, e a Union des Eglises Baptistes Hongroises de Roumanie, com um pouco mais de 9000. As estatísticas fornecidas em 2002 pelo site internet da Baptist World Alliance (http://bwanet.org/fellowship/member-bodies/member-stats.htm#EUROPE) são similares.
[7] Comumente multiplica-se por três o número de membros batizados por imersão (os únicos ‘batistas’ contabilizados enquanto tal pela igrejas dessa orientação) para ter uma idéia do conjunto de fiéis (que contempla crianças, adolescentes, praticantes não batizados por imersão). 
[8] Acerca da implantação batista na Romênia, há que se destacar um DEA recente em francês, realizado em 1999 por Ovidiou GARDOS em Paris, na Ecole Pratique des Hautes Etudes, seção de Ciências da Religião (dir. Jean-Paul Willaime).
[9] A.W. Wardin (org.), Baptists Around the World, op.cit.:232.
[10] A.W. Wardin, op.cit.:228.
[11] Ibid.:271 a 285.Essas estatísticas devem ser tomadas por ordem de grandeza. Elas subestimam, com efeito, os batistas separatistas, de tipo fundamentalista, que rejeitam qualquer integração a estruturas ecumênicas, mesmo dentro de sua própria confissão- eles não pertencem, por exemplo, à Aliança Batista Mundial.
[12] N.da tradutora: FPF é a sigla para Federação Protestante da França.
[13] Christopher SINCLAIR, “Introduction:définition et historique”, In: C. SINCLAIR (org.), Actualité des protestantismes évangéliques, Strasbourg, Presses Universitaires de Strasbourg, 2002:24.
[14] O americano Dr. Truett, presidente da Aliança Batista Mundial, o britânico Dr. Rushbrooke, secretário da mesma Aliança, o Dr. Everett Gill, representante dos batistas americanos do sul dos Estados Unidos, e o Dr. Lewis, representatne na Europa da American Baptist Foreign Mission Society, antiga provedora de fundos da FEEBF (Federação batista).
[15] Cf. o relatório da Conferência Regional Batista dos  Países Latinos, In: Le Témoin de la Vérité, jul-ago 1937, nº 7:110.
[16] Dr. Lewis, citado no relatório da Conferência Regional, Le Témoin de la Vérité, op. cit.:118.
[17] Muitos textos escritos por batistas franceses foram, por exemplo, traduzidos para uso de outros batistas latinos. Exemplo: Jean-Baptiste CRETIN, Coleccion de textes queestablecen las doctrinas critianas y condenam las tradiciones de la Iglesia Romana. Traducico del Frances de D. Juan Bautista Cretin, pastor em Lyon, Madrid, Imprenta de Jose Cruzado, 1871. Ruben SAILLENS: Consejos Para um nuevo miembro de la Iglesia (trad. Por AMDL Deberes Cristianos pr. Cantaclaro), El Paso, Texas, Reimpresos por “La Vos Bautista”. Aimé CADOT: Lettera amichevole ai membri del clero catholico (s.d., por volta de 1890, publicado na Itália).
[18] Uma Mission Baptiste Européenne foi criada, um pouco mais tarde, em 1954, em Zurique. Ela teve o francês Henri Vincent como primeiro presidente de seu comitê executivo (até 1967).
[19] Por ocasião do 50 anos da Fédération Baptiste Européenne, uma obra foi publicada: Bernard GREEN, Crossing the Boundaries: a History of the European Baptist Federation, Oxford, Baptist Historical Society, 1999.
[20] “O congregacionalismo dos batistas dá uma liberdade quase total às paróquias para adotar um ‘estilo carismático’ sem o risco de interferência de organismos hierárquicos” Evert VELDHUIZEN, Le renouveau charismatic protestant en France(1968-1988), Lille, ANRT, tese de doutorado em história das religiões, Université de Paris IV Sorbonne, 1995:402-403.
[21] Os pólos dessa tensão funcionam aqui como tipos ideais. Em outras palavras, não se trata nem de uma média empírica, nem da essência de uma realidade, nem de um modelo ideal. Trata-se de uma reconstrução estilizada que isola certas características específicas, típicas, do fenômeno estudado. Como toda imagem mental, pode-se contestá-la e relativizá-la; assim, a emoção não se opõe necessariamente à razão crítica ou à ortodoxia, longe disso.
[22] Cf. Ernst TROELTSCH, Die Soziallehren der christilichen Kirchen und Gruppen, 1912, Scienta Verlag, 1961:733-737.
[23] Cf. Jean-Paul WILLAIME, La precarité protestante. Sociologie du protestantisme contemporain, Paris/Genebra, Labor et Fides, 1992:22.
[24] Especificidade partilhada por outros grupos de tipo ‘igreja de proclamadores’.
[25] Para mais detalhes sobre essa tipologia, ver Sébastien FATH, “um modèle associatif idéologique”, In: Une autre manière d’être chrétien en France. Socio-histoire de l’implantation baptiste (1810-1950), Genebra, Labor et fides, 2001:515-530.
[26] Sobre a figura do clérigo protestante (e suas figuras concorrentes), ver Jean-Paul WILLAIME, Profession: pasteur. Sociologie de la condition du clerc à la fin du XXe. Siècle, Genebra, Labor et Fides, 1986.
[27] Ruben SAILLENS, prefácio em Samuel LORTSCH, Félix Neff, l’apôtre des Hautes Alpes, biographie extraite de ses lettres, Nouvelle Société d’éditions de Toulouse, 1941:13.
[28] Ver Sébastien FATH, ítens IV.1.1. e IV.1.2 In: Une autre manière d’être chrétien..., op. cit.:576-605.
[29] Cf. André THOBOIS (presidente da Federação Batista de 1963 a 1987): “Nossa piedade tem suas raízes na Bíblia. É a ela que nós nos voltamos sem cessar e à qual nós nos conformamos. É por isso que nós não buscamos em nenhum outro lugar a fonte, a foram e o sentido de nossa piedade”, In: Pour que notre pieté soit vraie, Paris, Carnets de Croire et servir, 2002:17.
[30] Isto mereceria em si uma análise bem mais acurada mas que não é possível no contexto desta exposição. Para uma reflexão sobre o estatuto da doutrina e do carisma no meio pentecostal, ver Sébastien FATH, “l’autorité charismatique au coeur de l’Eglise: pentecôtisme et débat sectaire”, Etudes Théologiques et Religieuses, tomo 76, 2001/3:371-390. Parece-nos que o pentecostalismo se situa em tensão entre os tipos ‘associativo ideológico’ e ‘associativo carismático’.
[31] Jean-Pierre BASTIAN, “Les protestantismes latino-américains. Un détour pertinent pour la sociologie des protestantismes”, In: Y. LAMBERT et alii, Le religieux des sociologues, Paris l’Harmattan, 1997:145.
[32] Dos atualmente 40 000 fiéis batistas na França, cerca da metade integram a Fédération des Eglises Baptistes de France (FEEBF), a qual está vinculada à Féderation Protestante de France (FPF) desde 1916. A outra metade se divide entre as igrejas da Association Evangélique d’Eglises Baptistes de Langue Française (AEEBF) e as igrejas batistas independentes, das quais um bom número estão agrupadas dentro da  Communion Evangélique de Baptistes Indépendants (CEBI). Esses dois últimos grupos não estão ligados à FPF  em virtude de posições mais restritas quanto ao ecumenismo.
[33] Cf. Sébstien FATH, Une autre manière d’être chrétien, op. cit., e Id., Les baptistes en France (1810-1950), Faits, dates et documents, Cléon d’Andran, Excelsis, 2002.
[34] VELDHUIZEN, op. cit., 1995.
[35]Jean-Pierre BASTIAN, “De l’objet protestantisme à la marge des espaces lusophones” In: Des protestantismes en lusophonie catholique. Lusotopie, Enjeux contemporaines dans les espaces lusophones, Paris, Karthala, 1998:221-234.
[36] Cf. “Le parcours de Charles Schinkel” In: VELDHUIZEN, op.cit.:186-189.
[37] VELDHUIZEN avalia, embora talvez muito apressadamente, que Charles Schinkel “adere à teologia batista, para a qual o batismo de crianças não é a mesma coisa que o batismo de crentes que as igrejas praticam” (VELDHUIZEN op.cit.:187). Ele foi batizado por imersão e batiza os outros da mesma maneira desde 1973.
[38] VELDHUIZEN, op.cit.:193.
[39] Intitulada “Ressurection Magazine”, ela é dirigida por Charles Schinkel. Dentre os seus patrocinadores figuram (em 2001) Jacky Chlepko, Lucien Clerc, André Habersetzer, Daniel Lhermeneault, Daniel Mochamps, Jules Thobois.
[40] E. VELDHUIZEN, op.cit.:404.
[41] Cf. Charles Schinkel, Une Fédération nouvelle sans être une dénomination de plus, revista Actes 2, nº 64:3.
[42] De onde a escolha de Evert Veldhuizen, em sua tese, de não repertoriar os membros da FECBC entre os batistas, mas sim entre as “Igrejas independentes”.
[43]Cf. por exemplo essa citação de Charles Schinkel a propósito de um televangelista carismático argentino: “O irmão Carlos Anacondia trabalha num meio sul-americano latino próximo de uma situação à francesa(...). E, no entanto, lá isso funciona! O Evengelho atravessa a Argentina. Por que ele morre ente nós?”, editorial do Réssurection magazine, nº97, mai-jun 2001:3.
[44] E. VELDHUIZEN, op.cit.:423.
[45] N.da T.: Na verdade, a tradução mais próxima do termo usado pelo autor especificamente aqui seria “os batistas”. A opção pelo uso da palavra campo pela tradutora reflete, por julgá-la cabível, uma aproximação da idéia do termo em Bourdieu  (ver A economia das trocas simbólicas, São Paulo, Perspectiva, 1974). Ademais, o próprio autor vai usar em outras ocasiões e logo a seguir o termo “terrain”, ou seja, terreno, campo.
[46] Para um estudo detalhado desses vínculos precoces entre batistas e movimentos de tipo pentecostal, ver Sébastien FATH, “Baptistes et pentecôtistes en France, une histoire paralléle?”, Bulletin de la Société de l’Histoire du Protestantisme Français, t.146, jul-set.2000:523-567.
[47] Jules Thobois (nascido em 1922) é o irmão mais velho de André Thobois.
[48] Fundada em 1927, como sucursal da Igreja reformada de Passy, separada da igreja-mãe em 1923, essa assembléia tinha como pastor Thomas Roberts desde 1936. Quando Jules Thobois deixa o norte por Paris em 1963, ele sucede Roberts na então Igreja independente da rua Musset. Essa igreja uniu-se à FEEBF em 1966.  Contando com muitas centenas de membros professos (e numerosas sucursais), essa igreja torna-se um dos principais centros do carismatismo protestante. Ver principalmente VELDHUIZEN, op.cit.: 236-273.
[49] Conforme relatado por muitos fiéis dessas igrejas, em outubro de 2002.
[50] VELDHUIZEN, op.cit.:14-15.
[51] Georges BRABANT (et alii), Résolution sur l’orientation de nos Eglises, Paris, FEEBF, 1952.
[52] Ver, por exemplo, o sugestivo dossier consagrado ao ministério pastoral (e à questão da autoridade), no Construire Ensemble,nº11 março 1999.
[53] Essa escola de pastores, que funciona em paralelo a uma escola de idiomas (Les Cèdres) lançada em 1976, não assegura nenhuma formação completa de pastores (que freqüentemente passa pelo Institut biblique de Nogent ou pela faculdade evangélica de Vaux-sur-Seine).O que ela proporciona está mais para uma formação complementar, colocando a ênfase sobre certas especificidades batistas.
[54] Essa formação obrigatória para todo novo pastor compreende seis sessões de dois ou três dias. Os novos pastores devem segui-la por ao menos dois anos. Uma publicação trimestral, Les Cahiers de l’école pastorale, difunde e estimula a reflexão desenvolvida no contexto dessa formação.
[55] Para um estudo desse movimento em direção a uma certa retirada do mundo sob a influência pentecostal, ver Sébastien FATH, “Les Baptistes dans le Bassin houiller du Nord”, In: Bruno DURIEZ et alii, Chrétiens et monde ouvrier, 1937-1970, Paris, l’Atelier, 2001:47-61.
[56] E. VELDHUIZEN, op.cit.:315-325.
[57] Ibid.:324.
[58] Quanto a esse assunto, comparar Jules THOBOIS, Charte charismatique, In: Le Point du Jour, nº 18, 1982:1-2 (ela retoma a da FEEBF, com algumas pequenas adições), e Charles SCHINKEL, “Ce que nous croyons”, Actes 2 (cada número).
[59] Essa motivação não é a única: a preocupação de integrar um corpo denominacional ligado à Fédération Protestante de France (um bom ‘guarda-chuva’) também cumpriu, por vezes, o seu papel!
[60] VELDHUIZEN, op.cit.:317
[61] VELDHUIZEN, op.cit.:402.
[62] Conforme documento da AEEBF, “Les voies habituelles du Saint Esprit”, que pode ser consultado em Robert DUBARRY, Pour faire conaissance avec um ideal d’Eglise, Valence, Imprimeries reunis, 1953:146-152. O “batismo no Espírito” é aí entendido como procedente “do inimigo” (Satanás) e não trazendo proveito algum “senão a ele”.
[64] James Davison HUNTER, American Evangelism. Conservative Religion and the Quandary of Modernity, Rutgers University Press, New Brunswick, 1983:100.
[65] Em sua tese Evert Veldhuizen estimou em somente 12000 o número de carismáticos no interior do protestantismo francês. Nos dez anos que se seguiram esse número sem dúvida aumentou.
[66] Não nos esqueçamos que, nesse processo, uma verdadeira ‘tradição’ batista da emoção se constitui o que, aliás, torna bastante problemática a clivagem tradição/emoção: é bem possível haver aí “tradições emocionais”, socialmente construídas, como o demonstram muitos estudos antropológicos. Ver, por exemplo, Laurent AMIOTTE-SUCHET, “Des pèlerins et des convertis. Les frontières de l’irruption du sacré comparaison  entre un milieu pentecôtiste et un milieu de pèlerins à Lourdes” In: Sébastien FATH (org.), La diversité évangélique, Col. D’Etudes sur le Protestantisme Evangélique, Cléon d’Andran, 2003:29-50.