mercredi 24 juillet 2013

Só para lembrar: depoimento de Marcos Terena


Cidadania e Exclusão
A Luta das Minorias pela Representação e Participação Política

Marcos Terena - (Fala em idioma indígena) Se eu tivesse falado aqui em inglês ou em espanhol, vocês teriam entendido. O que disse é uma saudação pedindo ao Grande Criador, o nosso Ito Oviti, como nós o chamamos, que abra o nosso coração e a nossa cabeça para nos dar sabedoria. Eu disse: muito obrigado porque eu posso estar aqui com vocês.

Marcos Terena durante audiência pública sobre a implementação da Declaração das Nações Unidas sobre os Povos Indígenas

Eu queria me apresentar para vocês. Sou um índio, me chamam de índio, mas sou um índio da tribo Terena que vive na região do Pantanal, no Mato Grosso do Sul. Nasci numa aldeia chamada Taunay. Talvez seja uma homenagem ao visconde de Taunay. Estou morando em Brasília há mais de quinze anos, o único lugar fora de Mato Grosso em que vivi. Sinto-me bem aqui em Brasília, fazendo essa ponte entre duas civilizações, entre duas culturas que fazem parte de uma mesma terra, que é o nosso Brasil. Sempre tenho procurado mostrar para as pessoas que mais importante do que as palavras e do que os acordos é a possibilidade de conversarmos olhando um para o outro. Tenho duas filhas pequenas. Às vezes as vejo conversando pela Internet sem saber com quem elas estão falando, sem poder olhar para o olho das pessoas, para poder ver se está havendo uma relação realmente humana, o que é uma coisa que pouco a pouco está sendo deteriorada pelos mecanismos do chamado progresso, da chamada modernidade.

Exatamente com essas três palavras, essas três idéias, nós, os índios do Brasil, nos consideramos as grandes vítimas nesses quinhentos anos, inclusive os grandes mudos da história do nosso Brasil. Cheguei aqui mais cedo para poder olhar o lugar, saber dos critérios, porque aqui estamos numa terra, vamos dizer assim, movediça. Quando eu estava olhando a programação, constatei que cada momento dos debates era para um deputado de tal partido, para um deputado do outro partido, e na nossa mesa não havia isso. Aí até falei com um amigo meu: "Puxa vida, nós sempre estamos prontos para falar, para dialogar, e sempre falamos nesses 500 anos, mas ninguém nunca teve tempo para nos ouvir; ninguém nunca teve os ouvidos abertos a nossa voz". Durante esses cinco séculos falamos tantas verdades, as nossas verdades, mas todos pensaram: "Olha, a verdade do índio é uma verdade mentirosa; a verdade do índio está errada". Então chegaram os religiosos, os colonizadores, e pouco a pouco foram tentando anular os nossos valores.

Nesse grande encontro, quando Pedro Álvares Cabral chegou aqui, ele viu um monte de índios que falavam uma língua diferente, tinham costumes diferentes e não usavam roupa, mas nunca vi num livro de História como nós vimos a presença daquelas pessoas barbudas, cabeludas, com suas roupas encharcadas — vou usar essa palavra "encharcadas" — pelo suor, subseqüentemente secas, com um tipo de cheiro que não conhecíamos.

Quando os nossos antepassados deram um mergulho nas águas, começaram a nadar, as crianças a pular, mergulhando aqui e saindo no meio do rio, aqueles homens disseram: "Esses índios são selvagens e precisam ser catequizados, doutrinados; precisam conhecer a nova civilização". Quando viram aqueles homens e mulheres andando sem roupa de um lado para o outro, sorrindo, cantando quando tinha chuva, cantando quando tinha sol, cantando quando viam as estrelas, eles disseram: "Puxa vida, esse pessoal está vivendo em pecado. Vamos ensinar a religiosidade a esse pessoal. Vamos catequizar esse pessoal". Nunca tivemos oportunidade então de dizer: "Olha, o nosso Ito Oviti, o nosso criador, não precisa de grandes igrejas, de grandes forças religiosas; ele precisa do nosso espírito".

A minha tribo foi catequizada pelos evangélicos, e eu aprendi a ler a Bíblia. Eu já li a Bíblia três vezes e conheço a Bíblia bastante, porque eu me interesso pelos códigos do homem branco. O meu papel é decifrar esses códigos para ajudar o meu povo. Eu vi na Bíblia uma série de ensinamentos do homem branco — Moisés, Davi e Jesus Cristo, do nosso ponto de vista, eram homens brancos. O nosso pajé, o nosso líder espiritual, quando canta, está fazendo a sua oração, conversando com o criador para proteger a natureza e para fortalecer o nosso espírito. Nunca tivemos oportunidade de ensinar isso a padres ou pastores. Só agora, nesta década, estamos percebendo que, pouco a pouco, o mundo está buscando o seu próprio caminho.

Nas comemorações dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro, no dia 22 de abril, vai ter um monte de gente querendo se manifestar. O governo brasileiro vai inaugurar salas de aula, um museu e até um shopping para os índios. Os religiosos vão também fazer suas orações, seus cultos. Disseram que eles querem pedir perdão para os índios. Eu disse que nós não podemos perdoar a história, porque foi feito um holocausto contra a nossa verdade, contra a nossa cultura e contra a presença física dos índios. Tiraram pedaços dos índios. Eu olho para vocês aqui e posso ver pedaços de índios no meio de muitos de vocês. Talvez o nome de vocês seja Maíra ou Tainá; talvez o bairro de vocês se chame Tibiriçá. O Joel Rufino já foi embora, mas perto da casa dele, por exemplo, tem um lugar chamado Anhangüera e outro chamado Anhangabaú. As pessoas falam esses nomes e não percebem que são pedaços dos povos indígenas. Meu papel é falar disso a vocês para que percebam que fazem parte da civilização indígena e sintam orgulho disso, não desprezo, vergonha.

Na minha formação de homem branco, quando fui treinado para ser homem branco, comecei a sentir vergonha da minha origem, da minha tradição, da minha língua. O chip que colocaram na minha cabeça foi nesse sentido. Um dia eu percebi que estava com o chip trocado. E aquele pajé falou comigo: "O que você está fazendo? Você nunca vai ser branco. Olha para a sua cara". Eu tinha percebido isso quando era guri, quando a minha professora de História me pôs de castigo e eu usava um calção de saco de trigo, costurado à mão. Descobri que o índio nunca vai ter lugar nesta sociedade.

Ouvi aqui a doutora Solange, que é mato-grossense, da minha terra, dizendo em sua palestra que o Mato Grosso tem poucos representantes na Câmara. Mas eu pergunto: e nós, que não temos nenhum? Não temos a solidariedade, pelo menos nesta reunião, de nenhum deputado ou senador. Nós nunca tivemos, a não ser o Mário Juruna, uma representação política nesta Casa. Por quê? Porque índio não dá voto. Para que os senhores tenham uma idéia, tomei conhecimento do projeto de um deputado sobre esse assunto, e ele me disse que o projeto mudaria essa situação, porque nos daria direito a indicar um deputado, ou seja, uma cadeira da Câmara seria destinada a nós. Então eu disse: "Nós somos 225 povos, deputado!". Essa figura do índio não existe para nós. Eu sou Terena; o Juruna é xavante; o Raoni é caiapó; o Ailton é krenak e assim sucessivamente. Nenhum povo representa o outro, não pode. Essa multiplicidade de etnias é que embeleza o nosso país.

Nas nossas terras estão a biodiversidade, os códigos da natureza, os recursos naturais etc. Essa água aqui, que está sendo agora industrializada, na nossa terra você pode tomar no mato. Um dia, se vocês não fizerem aliança conosco, aquilo lá vai se perder. A nossa água vai virar parte da chamada globalização: nós temos de repartir tudo, mas eles não repartem nada conosco. Nós lamentamos isso, porque os nossos antepassados protegeram esse patrimônio para o bem-estar das gerações futuras. A nossa filosofia de vida e o nosso compromisso é com a geração que ainda não nasceu. O que vamos deixar para ela?

Quando falamos de representação política, temos de pensar que durante esses 500 anos os índios foram tratados de diversas maneiras. A única constante nessa relação entre índios e brancos foi a mudança: ora o índio era selvagem, ora pecador, ora preguiçoso, ora inocente. Para cada momento desses nós fomos enquadrados. Até hoje, segundo a lei brasileira, somos considerados relativamente incapazes.

Eu sou piloto profissional de avião e não ganhei esse brevê de graça. Fiz um concurso na Força Aérea e fui treinado por aquela força. Conheço a linguagem militar e não sou um índio bobo nem turrão. Eu me considero, muitas vezes, bem preparado em relação ao meu povo, mas na minha aldeia, o meu chefe, o meu cacique é o meu comandante. Ele pode falar errado, pode não entender português, mas ele é o nosso chefe e tem de ser respeitado, porque ele é um chefe que cuida do nosso povo. Aqui na cidade, o homem branco não respeita o seu chefe. Por quê? Porque quando o chefe chega lá em cima, a pessoa descobre que ele não era um bom chefe, mas vendeu a idéia de que era um bom chefe. Ele usou a mídia, a informação. Na cidade, nesta Casa, por exemplo, há um artifício muito usado por políticos, a meia verdade. Você pega a verdade e corta ao meio.

Um dia, um pesquisador chegou à aldeia com seus apetrechos. O índio ficou olhando ele tomar banho no rio e gostou do seu sabonete — eu sempre conto essa história —, porque era cheiroso, e então disse: "Me dá esse sabonete?" Aí o pesquisador olhou para ele e disse: "Espera um pouco". Então ele saiu, cortou o sabonete ao meio e deu um pedaço ao guerreiro. O guerreiro foi embora e, passados alguns meses, quando o pesquisador terminou seu trabalho, a sua tese, e já ia embora, decidiu ir visitar o pessoal para agradecer. Quando chegou à casa desse guerreiro, ele viu uma flecha, então disse: "Guerreiro, eu estou indo embora. Eu podia levar uma lembrança de você? Me dá aquela flecha". E o guerreiro disse: "Ah, você quer a flecha?" E ele disse: "Sim, ela é bonita". Então o guerreiro disse: "Está bom. Espere um pouco". Aí o guerreiro quebrou a flecha ao meio e deu ao pesquisador. É claro que a flecha não teria valor nenhum, porque ele cortou ao meio, mas para aquele índio a verdade era aquela. O pesquisador não tinha dado um pedaço do sabonete? Ele deu um pedaço da flecha.

Aqui, além da meia verdade, os economistas usam outro argumento: os números, para dizer que não podem dar dinheiro à Funai porque os índios vão desperdiçar esse dinheiro; ele não tem retorno do ponto de vista econômico, numérico. Mas o investimento que se faz na Funai é para civilizações indígenas, para índios que sempre foram ricos. Nós sempre fomos ricos. E o que significa riqueza para nós? Significa capacidade de viver bem, de administrar os recursos naturais. Depois disseram: "Não, você vai ganhar um espelho, depois vou te dar uma lanterna e depois vou dar a sua terra". A terra era nossa, mas alguém disse: "Não, vocês vão ganhar a sua terra". Mas a terra era nossa! O Brasil era nosso! Hoje temos direito a apenas 11% do território nacional e, desses 11%, apenas 40% estão sendo demarcados.

Não conseguimos saber que compromisso o governo brasileiro vai assumir nessas comemorações dos 500 anos. Às 18 horas do dia 22 de abril, todo mundo vai sair de Porto Seguro satisfeito, contente por ter participado das comemorações dos 500 anos do Brasil. Fico admirado porque, nesses últimos dois anos, o único símbolo dos 500 anos do Brasil que o país conseguiu produzir foi um relógio. Toda noite: "Faltam tantos dias para os 500 anos do Brasil". E depois, pessoal, sabe o que eu descobri? Esse símbolo foi feito por um austríaco.

Então, faço a vocês, como brasileiros, as seguintes perguntas: qual o pedaço de índio que há em você? O que você está fazendo pelas terras brasileiras? Qual o compromisso que você tem assumido para legar aos seus filhos? Qual o compromisso que você tem com seus filhos, com seus netos, com o futuro das novas gerações? Porque nós, os índios, nos preocupamos com isso. Daqui a cinqüenta anos não vou estar mais aqui, mas o meu corpo vai adubar esta terra.

Cinco milhões de índios adubaram esta terra para gerar 160 milhões de brasileiros. Negros, árabes, japoneses, mas os índios serviram só para adubar? Queremos, daqui para frente, restabelecer uma aliança com a sociedade brasileira, em que o ponto principal não seja a pena de vocês pelos índios nem a nossa raiva do branco, mas uma relação de respeito mútuo: nós vamos respeitar vocês pela forma de vida que vocês têm, mas queremos também ser respeitados como somos.

Temos 350 mil índios no Brasil: alguns deles falam português; os do Oiapoque falam francês; os da fronteira com a Guiana Inglesa falam inglês; os da minha terra falam um pouco de espanhol, mas essa linguagem, esses costumes, esses códigos ficaram escondidos durante muito tempo. Quando trazemos isso para dentro, na representação política, qual o tipo de representação política que nós teremos? Nós não temos voto! Não temos dinheiro para fazer campanha, para dar sacolão para enganar o povo. Nós não queremos enganar o povo, enganar os eleitores. Queremos que até mesmo na hora do voto haja dignidade e respeito.

A Constituinte de 1988 estava capenga, porque tinha representante dos empresários, das mulheres, dos negros, dos deficientes, mas não tinha representantes dos índios. Nós não tivemos deputados constituintes índios, porque não tínhamos condições de eleger um.

Eu fui candidato pelo PDT, em 1986, em Brasília, por orientação do Darcy Ribeiro, que me disse que eu ganharia fácil em Brasília. A projeção feita pela UnB dizia que, sem fazer campanha, eu tinha a possibilidade de obter 14 mil votos. Eu não conheço essa técnica e fui com o coração aberto. E me lembro de que fizemos muita força para eleger em Brasília o Maurício Corrêa. Lembram-se dele? Fizemos força para ele ser eleito, e ele disse: "Quero ser aliado de vocês. Vamos ajudar vocês". Eu nunca tive dinheiro do fundo partidário nem de empresários. Eu tive em torno de 5 mil votos e fiquei feliz com isso. Foram 5 mil pessoas que tinham consciência de que estavam votando. Votando bem ou mal, elas tinham consciência, porque muita gente votou por conveniência. Nós, os índios, nunca vamos poder ter representação política no Congresso se a eleição for assim.

Viemos aqui conversar com Ulysses Guimarães sobre o capítulo dos índios. Então, pegamos um índio filiado ao PMDB, outro filiado ao PT, outro filiado ao PDT, enfim, viemos em sete. E para entrar aqui pusemos gravata e paletó. O deputado Ulysses Guimarães era o presidente da Câmara, então ficamos aguardando. Quando a secretária disse a ele que os índios haviam chegado, ele abriu a porta imediatamente e nos atendeu, mas ele levou um susto, porque não estávamos vestidos como índios, digamos assim; nós estávamos vestidos como eles. Ele pensou que poderia sair na primeira página dos jornais, de repente, abraçado com os índios, mas nós queríamos conversar com ele com seriedade, porque sabíamos o que queríamos. Dissemos a ele que queríamos isso, isso e isso. Então ele disse: "Eu assumo esse compromisso". Algum tempo depois, quando percebemos que íamos perder muita coisa nos direitos indígenas, porque muitos deputados estavam contra nós, fomos falar novamente com ele. Dessa vez esperamos umas duas horas, só que não estávamos mais de gravata e paletó, estávamos pintados como índios, e ele não sabia disso. Ficamos na ante-sala esperando. Toda hora entravam deputados e senadores para falar com ele, e a gente esperando. Aí os guerreiros disseram: "Marcos, o que a gente faz?". Então eu disse: "Vamos cantar". O canto do índio não é "Chega de Saudade"; é canto de guerra. E nós não temos instrumentos, somente o pé. Ao bater o pé ali o gabinete dele tremeu, porque são divisórias, então ele veio correndo atender a gente. Então ele viu que poderia — como realmente aconteceu no dia seguinte — sair na primeira página dos jornais.

Nós, os índios, somos inteligentes, somos muito felizes. Sofremos um grande massacre, mas não temos ódio do homem branco. A civilização do homem branco está totalmente errada. O homem branco não respeita o velho, não respeita as mulheres — nós ouvimos aqui —, não respeita o deficiente, não respeita as crianças. Que sociedade é essa que vamos construir? Na nossa aldeia, quando eu era criança, corria quando chovia chutando a grama com a água, descalço, mas na cidade não podemos deixar nossos filhos na rua. Se ele for andar de bicicleta, ele vai ser agredido. Vejo aqui os velhos nas esquinas pedindo dinheiro. Lá na aldeia, os nossos velhos dizem que não têm mais a força física, mas têm a força do espírito da sabedoria.

Por isso, pessoal, vim aqui com muita alegria, com muita felicidade. Aceitei o convite no primeiro momento e me preparei. Eu tinha preparado um texto, mas quando olhei para vocês desisti de ler o texto e resolvi conversar. O texto vocês podem ler depois. Eu queria falar essas coisas para vocês, falar que precisamos construir um Poder Legislativo forte, representativo. Nós, os índios, não temos poder dentro da Funai. A Funai é a única representação federal de defesa dos direitos indígenas, e nós sempre brigamos com ela, para ela andar direito. A Funai já teve como presidente de general a cabo. Estou vendo dois militares e eles sabem do que eu estou falando, o que significa isso na hierarquia. Começamos com general e até cabo tivemos como presidente da Funai, além dos grandes mitos do indigenismo, como os irmãos Villas Bôas e Apoena Meireles; grandes antropólogos já foram presidentes da Funai; a CNBB e gente ligada a ONGs já apoiaram presidentes da Funai, mas nós nunca fomos consultados, nem por uma questão de diplomacia, de elegância da parte do governo. Nunca nos perguntaram o que achávamos. Nunca!

Estão discutindo no Palácio do Planalto o Estatuto do Índio. Nós queríamos discuti-lo aqui, mas há quase nove anos o Estatuto do Índio está engavetado na Câmara. Está difícil tirá-lo da gaveta. Pensávamos que nessas comemorações dos 500 anos o Congresso Nacional aprovaria a lei indígena. Mas disseram que não, porque há um grupo de pensadores de elite debatendo como vão ficar os direitos indígenas. Eles estão discutindo isso do outro lado da rua, fechados em quatro paredes, e nós nunca fomos chamados, pelo menos para opinar. Como vamos ter representação política?

É por isso que estamos estudando, aprendendo essas regras. Quando nós dominarmos essas regras e tivermos credibilidade no meio do povo branco, vamos poder eleger vereadores, deputados estaduais, deputados federais. Vou falar mais uma vez: o voto do índio não consegue eleger esses representantes; precisamos ter aliados no meio do homem branco. O homem branco pode acreditar que, por mais errado que o Juruna tenha sido, ele foi a única voz que questionou aquilo que o poeta chama de podres poderes — foi o único, com seu gravador. E nós temos coragem para isso. Nós temos coragem para isso, não temos medo, porque estamos em cima da verdade.

Vim aqui para dizer a vocês que vamos caminhar em direção a esse futuro, que não é só do índio, mas do negro e do branco também. Estamos colocando índios no PMDB, no PFL do ACM, no PT, no PSDB. Os índios estão furando pouco a pouco a resistência. Acreditamos que, se errarmos, vamos aprender a errar e a nos recuperar.

Vamos trabalhar para que a Funai seja realmente autêntica, porque vocês têm o ministério do Esporte, o esporte brasileiro tem um ministério; a onça e o jacaré têm um ministério; o chamado sem-terra tem um ministério; nós não temos. O primeiro povo do Brasil não tem ministério, não tem uma secretaria especial, uma pequena fundação com orçamento para cuidar de 200 povos com 180 línguas. Muito mais importante do que o padrão Itamaraty, a Funai recebeu 40 milhões de reais para cuidar de tudo isso neste ano. O ministério da Saúde, para cuidar da saúde indígena, recebeu mais 60 milhões.

Essa relação precisa mudar. Nós vamos fazer força, mas se vocês não estiverem com a gente não teremos condições e vamos continuar como os grandes mudos da História. Espero que vocês saibam também construir a sua representação, o mínimo que seja, como mulheres, como adolescentes. Temos de construir um novo Brasil. Os nossos líderes espirituais estão orando pelo Brasil. Estamos vendo que o Brasil é o grande patrimônio mundial, mas o brasileiro não sabe disso, ele não é informado sobre isso. Por isso muita gente quer ir embora do Brasil. Eu não quero ir embora do Brasil. Vou morrer aqui. Quero fazer parte da construção de um novo Brasil.

Por último, espero que os partidos políticos que tenham índios em seus quadros saibam se relacionar com eles. Não queremos tomar o lugar do branco; não queremos tomar o lugar dos filhos dos políticos brancos. Queremos fazer justiça; queremos ter o nosso lugar assegurado, queremos conquistar esse lugar com dignidade e respeito. Assim, quando alguém falar: "Isso é programa de índio", vocês vão saber o verdadeiro sentido do "programa de índio". Espero que possamos realmente construir isso aqui dentro, lá fora, onde a gente estiver. O que está em jogo é o futuro do nosso país, da nossa terra e dos nossos filhos. Obrigado.

Faculdade Teológica Batista de São Paulo
Introdução ao Estudo da Realidade Brasileira
Prof. Dr. Jorge Pinheiro

Texto 1

CÂMARA NOS 500 ANOS
Parlamento Brasileiro – História e Perspectivas



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