vendredi 25 octobre 2013

Miró, um dia um gato


E a vida do Miró vai-se esvaziando

E se vida for uma só. E se a morte do Miró for também a minha morte. E se esses dias, quando a vida dele vai se esvaindo, for também um esvair-se da minha vida. E se esses dezessete anos de vida em comum, dividindo a mesma casa, conversando em idiomas diferentes, mas muitas vezes multiplicando emoções e sentimentos, são parte de um todo que eu vejo como caleidoscópio? Claro, eu sei que você vai dizer que não é nada disso. Que ele é apenas um gato e eu sou apenas um humano, não tão racional neste momento. E outros vão me achar bobo, cheio de sentimentos infantis, piegas, porque estou com emoções em desequilíbrio e triste porque o gato do pastor que, na verdade, é o gato da filha do pastor, está a morrer de velhice aos dezenove anos de vida felina. 

E a vida vai deixando ele devagar. Vai morrendo aos minutos, às horas, mas de forma vagarosa. Não está sofrendo, só deixando de viver. O gerúndio aqui é o jeito mais perfeito de dizer, vai deixando de viver. É como se a vida estivesse nele em camadas, e fossem se desfazendo no ar. Ou quem sabe, se de fato tivesse sete vidas que fossem se desprendendo não uma a uma, mas cada uma delas em primeiro lugar formasse uma bolha de vida ao redor dele e essa bolha fosse se esvaziando aos poucos. E é possível que cada uma dessas bolhas dure dias. Dias sem comer, sem beber, sem miar, mas que permitem a ele olhar para mim com olhos fundos, mas fundos mesmo, olhasse de dois buracos, e me dissesse, chefe você falou com o Eterno sobre mim? A vida que ele me deu, as sete, estão a se esvaziar, cada uma delas, mas quero lá na frente estar contigo, como seu companheiro e matemático. 

Eu sei Miró, nós falamos sobre isso nesses dezessete anos de convívio, quero você lá comigo. Falei com o Eterno que quero você lá. E como você sabe, e como Ele sabe, quero você como meu matemático. Meu gato matemático, que sabe falar a linguagem do meu coração e sabe fazer todos os cálculos que eu preciso, como por exemplo a equação para se conhecer a hipotenusa, ou outras mais complexas como a equação de Hagen-Poiseuille. E querido Miró, inteligente, falante e matemático, você vai me dizer que esta é a equação do físico francês Jean Louis Marie Poiseuille, que relaciona o caudal Q de um tubo cilíndrico transportando um líquido viscoso com o raio R, comprimento l, pressão P e coeficiente de viscosidade n. 

E que a equação de Hagen-Poiseuille é uma lei da física que descreve um fluxo, que não pode ser comprimido, de baixa viscosidade através de um tubo de seção transversal circular constante. E eu vou rir porque sei que é isso mesmo, mas eu quero ter você ao meu lado em minhas viagens por essa eternidade do Eterno.

Mas, por enquanto, estou vendo o seu momento que me parece um momento difícil. As bolhas que se esvaziam devagar, e você quieto conversando com o Eterno. É um momento seu, talvez um momento de sabedoria, de conversa de amigos. E eu só posso olhar e pensar que quero entrar na conversa também. Ontem, como bom protestante, cheio do meu jeito brasil, também conversei com o Eterno. E disse para Ele, que se a minha alienação existencial era a responsável pelo esvair-se de sua vida, que Ele me perdoasse. E Ele disse para eu deixar de ser convencido, pois o esvair-se da vida é o momento mágico do renascimento. E eu calei o meu pensamento, entendendo perfeitamente que você vai continuar comigo, ranzinza, reclamante, mas cheio de matemáticas, ao meu lado, neste cruzar eterno da eternidade sem fim.

Estou saindo agora para minhas lides, e se a última bolha se esvaziar... nos vemos depois. Te amo, Miró. Obrigado pela parceria nesses dezessete anos, que projetam a eternidade no meu coração e em nossas vidas.

Do amigo, Jorge Pinheiro.
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