mardi 28 janvier 2014

Agostinho e Pelágio: afinal, onde mora o pecado?



Agostinho e Pelágio: afinal, onde mora o pecado?


Jorge Pinheiro

Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu o sei; se desejo explicar a quem o pergunta, não o sei, afirmou Agostinho, um ser humano entre um tempo romano que desmoronava e o tempo medieval em formação. O jeito romano de olhar o mundo dava lugar a um novo olhar. E para olhar o mundo e entendê-lo era necessário saber de onde vinha o mal e a existência do pecado.

De Pelágio (c. 360-420) sabemos pouco. Saiu da Grã-Bretanha, onde tinha jogado um papel importante na formação do cristianismo céltico. Como Agostinho também era monge, e muito respeitado na Grã-Bretanha tanto entre o clero como entre os líderes celtas não religiosos. Nunca foi visto como herege ou alguém que não merecesse a confiança de seus colegas. Foi um precursor do humanismo, pois acreditava nas possibilidades da pessoa e via o mal como um produto social.



O pecado mora ao lado

O ser humano destrói uma civilização, mas constrói outra usando os tijolos da anterior, afirmou o cineasta polonês Andrew Wajda. Dos escombros de Roma os cristãos construiriam uma nova sociedade.

Em 410, Roma, fragilizada, foi saqueada pelos godos. Os pagãos, nome com que a Igreja designava os não-cristãos, atribuíram a invasão ao fato de os romanos terem abandonado os deuses antigos. De acordo com eles, enquanto fora adorado, Júpiter protegera a cidade; ao ser trocado pelo cristianismo, deixara de fazê-lo.

Assim entre 412 e 427, Agostinho escreveu A Cidade de Deus, um livro cuja base era o pensamento neoplatônico e que exerceria forte influência nos tempos medievais. Nele respondeu a tais acusações, argumentando que coisas piores haviam ocorrido em tempos pré-cristãos. Que os deuses pagãos eram perversos. Ele não negava a existência de entidades como Baco, Netuno e Júpiter, mas os considerava demônios.

Demônios que ordenavam aos homens, por exemplo, que criassem peças teatrais, definidas por Santo Agostinho como “espetáculos da imundície”. Em razão desses deuses, Roma sempre fora perversa e pecaminosa.

Com o cristianismo, Roma se salvaria. E, se a cidade dos homens fora invadida, pouco importava, já que o objetivo maior era a salvação por meio do amor para atingir a cidade de Deus, a sociedade dos eleitos. A busca central não era a cidadania na sociedade dos homens, mas a salvação no reino de Deus.

E assim questões do dia-a-dia, políticas, levarão Agostinho a discutir a questão do mal. Nas suas Confissões conta a história de sua descoberta de Deus, ainda na infância. Para ele, o mal habitava a natureza de todos os seres humanos. Fazia parte da essência do ser, depois do pecado de Adão. E, se os bebês são inocentes, não é porque lhes falte o desejo de fazerem o mal, mas por carecerem de força.

Agostinho, como sua geração, estava preocupado com o problema do mal. E vai procurar a solução para esta questão na construção de uma teologia que combinaria os textos da revelação bíblica com uma leitura hermenêutica neoplatônica. Assim, a partir da questão da essência em Platão, rompe com o pensamento cristão oriental, que norteava entre outros o monge britânico Pelágio e a igreja cristã celta.



O que produz a santidade?

As idéias de Pelágio e da igreja oriental não combinavam com o determinismo essencialista da nascente igreja romana. Nessa época, Roma combatia teologicamente os donatistas da África do Norte. Para os donatistas a eficácia dos sacramentos dependia do estado espiritual dos sacerdotes que os ministravam. Essa idéia trouxe um problema para a Igreja. Se ela concordasse com tal visão, poria abaixo o edifício cerimonial e litúrgico da Igreja, pois se o edifício cerimonial da Igreja dependesse do caráter moral dos clérigos, ninguém poderia ter certeza se as ordenanças e os rituais teriam ou não eficácia espiritual.

Mas, se a declaração dos donatistas fosse declarada falsa, então os sacramentos poderiam ser administrados eficazmente mesmo por um pecador. A acusação de heresia conservou, desta forma, a estrutura da Igreja. Naquela época, muitos homens da Igreja, inclusive Agostinho, defendiam que a igreja era uma instituição cuja santidade vinha dos sacramentos e não da fé das pessoas. Para Agostinho e para a Igreja de Roma os sacramentos produziam santificação e não era a vida pia que produzia homens santos.

Tal discussão levou Agostinho a negar a realidade metafísica do mal. O mal não é um ser, uma pessoa, mas privação de ser, como a escuridão é a ausência de luz. Tal falta estaria presente em todo ser que não seja Deus, enquanto criado e limitado.

Quanto ao mal físico, que atinge os seres humanos, Agostinho justificou-o através de um argumento estético: o contraste dos seres contribui para a harmonia do conjunto.

E em relação ao mal moral, Agostinho disse que existe a vontade má que livremente faz o mal. Ela, porém, não é causa eficiente, mas deficiente, sendo o mal não-ser. Este não-ser pode unicamente provir do ser humano, livre e limitado, e não de Deus, que é puro ser e produz unicamente o ser.

Assim Agostinho, através do neoplatonismo, explica que o mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original. Por isso, a humanidade foi punida com o sofrimento, físico e moral, além perder dons que Deus havia dado a Adão.

Como se vê, para Agostinho, o mal físico teria origem na culpa do próprio ser humano Mas este mal foi remediado pela redenção em Cristo, que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral. Mas deixou o sofrimento, conseqüência do pecado, como meio de purificação e expiação.

E a explicação última de tudo isso estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal, do que não permitir o mal. Assim, a teologia agostiniana considera que o mal é a privação do bem e não o contrário. E que essa privação do bem não tem origem no mal metafísico ou no mal moral e físico. O bem nunca é consequência, porque se fosse consequência nasceria do mal. Então, para Agostinho, a solução do problema para o mal -- físico e moral (pecado original versus redenção) -- é estético: o contraste entre os seres leva a harmonia do conjunto. Por isso, para ele, na Igreja está a salvação.



O pecado está no mundo

A Igreja celta, porém, não viu a discussão dessa maneira. Para Pelágio e seu discípulo Caelestius, a questão girava ao redor da teologia do livre arbítrio. Não concordava, com a idéia essencialista defendida por Agostinho, que até aquele momento não era majoritária, de um pecado original que degenerou a natureza da humanidade. Numa leitura existencial-fenomenológica do problema do mal, simplesmente revolucionária para sua época, defendeu que eram as ações e os atos que levavam o ser humano a herdar a danação. E discordou de Agostinho, quando este afirmou que o ser humano só poderia ganhar a salvação através da igreja.

Considerou a doutrina do pecado original sem base neotestamentária e afirmou que todos são concebidos sem o mal moral e que diante dos delitos e pecados são salvos pela graça de Deus, que não merecemos, que nos é entregue através de Jesus Cristo.

Até aquele momento, a visão de Pelágio e seus seguidores traduziam a doutrina histórica do livre arbítrio humano e a da maldade socialmente presente no mundo. Tal visão levou Pelágio a entrar em choque com seu maior opositor, Agostinho de Tagasta.

Mas, as posições de Pelágio não eram a única fonte de seus problemas com a igreja. Quando ele visitou Roma, em torno de 380, o que viu e ouviu estava em oposição com o rigoroso asceticismo praticado por ele e pelos monges britânicos. Ficou chocado com a pompa e o luxo da hierarquia da igreja romana. Responsabilizou a lassidão moral do Papado, mas obteve como resposta a partir de citação das Confissões de Agostinho, que Deus em sua vontade determina uns para o luxo e outros para a abstinência. Pelágio atacou este ensino, afirmando que a lei moral impera sobre toda a terra.

Pelágio manteve sua vida de asceta. Pregou a natureza moral boa do ser humano e sua responsabilidade para escolher o asceticismo cristão como forma de avançar espiritualmente. Apesar de viver na Irlanda, ganhou inimigos e ficou sob os ataques de Agostinho.

Ao redor de 412, Pelágio foi para a Palestina, onde em 415 compareceu diante do Sínodo de Jerusalém acusado de heresia. Para defender-se dos ataques de Agostinho e de Jerônimo, escreveu Arbitrio de libero (Na vontade livre), em 416, que ao invés de melhorar a situação, levou-o a ser condenado em dois conselhos africanos.

Ele e Caelestius foram propostos à condenação e excomunhão pelo papa Inocente. Mas o sucessor de Inocente, Zosimus declarou Pelágio inocente em sua Fidei de libellus (Indicação breve da fé), mas depois reconsiderou, quando nova investigação foi proposta pelo concílio de Cartago (397-419). Zosimus confirmou as acusações e Pelágio foi condenado. A partir dessa data, mas nada se sabe dele.

No entanto, Pelágio é lembrado como aquele que teologicamente tentou livrar a humanidade da culpa de Adão. Seus seguidores fazem questão de mostrar que ele foi um dos primeiros dissidentes da igreja católica romana em construção.

O individualismo áspero do monge celta, sua convicção de que cada pessoa está livre para escolher entre o bem e o mal, e sua insistência de que a fé deve ser prática (ora et labora), marcaram a imaginação teológica do final do século 20. E não somente a imaginação da Teologia, mas também da Pedagogia e da Psicologia.

Mas, afinal, que mal?

Epicuro foi quem levantou a questão da teodicéia: se existe um Deus bom, e Ele criou o mundo, como é possível o mal no mundo? Platão defendeu uma despotenciação ontológica do mal. Ou seja: o mal, a rigor, não existe. O mal nada mais é do que a não existência de algo, a ausência do ser. É uma teoria que teve muita influência posterior. Na Antiguidade, o maniqueísmo e a gnose defenderam que o mal é um princípio tão poderoso e eterno quanto o bem.

O mal, fruto da alienação humana, é uma das questões clássicas da teologia. Deve ser visto como momento anterior ao pecado e diferente do pecado. E, por isso, teologicamente podemos ver, a partir da alienação, diferentes formas da presença do mal no mundo.

O malum physicum, a dor, a tristeza e o sofrimento; o malum morale, que leva a errar os alvos existenciais; e o malum metaphysicum, que traduz a finitude humana, tanto temporal, como a mortalidade, quanto cognitiva, por exemplo, a ignorância. Porém, a ignorância, que também podemos chamar de mal epistemológico, não é hoje, teologicamente, tratada como mal, assim como a finitude também não é.

Leibniz disse que o mal é necessário por causa do princípio da possibilidade lógica. Este é o melhor mundo possível, mas mesmo no melhor mundo possível é necessário que algumas partes sejam imperfeitas. Num mundo perfeito não poderia haver mudanças, porque significaria acabar com a perfeição. Por isso, é melhor um mundo não tão perfeito, mas que nos dê a possibilidade de trabalhar no seu aperfeiçoamento.

E o pecado está à porta

Segundo Agostinho, o peccatu, no seu sentido original, o caminho errado, é ato, desejo ou palavra contrários à lei de Deus, que ofende a Ele e seu amor. A lei de Deus está expressa na lei natural, nos mandamentos do amor e da lei. O peccatu é abuso da liberdade e um mal ato, que fere a natureza humana. E Cristo, através da cruz, revelou a gravidade do pecado e o venceu com a sua misericórdia. Para Agostinho e os católicos, há diferentes tipos de caminhos errados, conforme seus objetos, quando ferem diferentes mandamentos e virtudes. Podem ser contra Deus, contra o próximo e contra a própria pessoa. Podem ser gerados por ações, omissões, palavras ou pensamentos.

A repetição de pecados gera hábitos que pervertem a consciência e transformam o mal em opressão. Tais vícios podem estar ligados aos pecados capitais: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, preguiça e soberba. A Igreja católica ensina que o ser humano tem responsabilidade pelos pecados cometidos por outros, quando cooperam com a sua realização. A doutrina católica trabalha com três categorias de pecados:

O caminho errado, original, está para Agostinho presente em todos, sem culpa própria, devido à unidade de origem em Adão e Eva. Eles desobedeceram no início, originando este pecado, que é perdoado pelo sacramento do batismo. Este pecado de origem torna a natureza humana submissa à ignorância, ao sofrimento, ao poder da morte, e inclinada a toda diversidade de pecados.

O pecado mortal, cometido com plena consciência e deliberado consentimento, mata o amor, priva o ser humano da graça e conduz à morte eterna, caso não haja arrependimento.

O pecado venial difere do pecado mortal porque se trata de matéria leve, ou mesmo grave, mas sem conhecimento ou sem consentimento. Não quebra a aliança com Deus, mas debilita o amor. Traduz um afeto por bens criados, impede o crescimento espiritual no exercício das virtudes e na prática do bem moral. Merece penas purificatórias temporais.

Ao contrário de Agostinho e do catolicismo, o judaísmo considera a violação de um mandamento, lehatati, um tiro errado. Diz que lehatati é uma ação do coração e não um estado do ser. A humanidade encontra-se num estado de alienação, de distanciamento do Eterno, e por isso se inclina para o mal (Gn 8.21). No uso da liberdade tem dificuldade de realizar o bem (Sl 37.27). Assim, lehatati é a violação lei, o que não necessariamente é uma falta moral. O ser humano nasce sem tiros errados, embora alienado, e a culpa de Adão não recai sobre o conjunto da humanidade, mas todo ser humano é responsável por seu lehatati porque foi dotado de vontade livre. E, por ter uma natureza fragilizada pela alienação, tende para o mal. Ou conforme diz o livro das Origens, a imaginação do coração humano é má desde a sua meninice (Gn 8.21), ou seja, desde quando tem consciência para discernir bem e mal. Por isso, o Eterno na sua misericórdia entregou ao ser humano a provisão do arrependimento e do perdão.

A partir da tradição judaica, não classificamos os pecados como venial, mortal ou capital, mas entendemos que hamartia é a violação da vontade de Deus, expressa em seus mandamentos. Ou conforme I Jo 3.4, todo aquele que erra o lvo existencial também transgride a lei, porque a hamartia é a transgressão da lei. Errar o alvo existencial é um ato, pois cada pessoa é tentada quando atraída e enganada pelo seu próprio desejo. Depois, gestando o desejo, dá à luz o pecado, e vivendo alvos errados caminha para a morte. (Tg 1.14-15). Há na descrição de Tiago um processo que gera alvos errados. Ou seja, é sempre uma ação humana, e não uma herança maldita da qual não podemos nos livrar (Gn 4.7). E assim, a partir da alienação, que é estado da existência, inclinadas ao mal, as pessoas pecam (Rm 3.23). Para vencer alvos errados e suas consequências, há uma provisão: Ef 2.8, I Jo 1.9.

Leia: Jorge Pinheiro, Teologia biblica e sistemática, o ultimato de praxis protestante, São Paulo, Fonte editorial, 2012, pp. 249-289.
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