samedi 15 février 2014

A helenização da Palestina

O pensamento grego
Jorge Pinheiro, PhD

Os gregos demitologizaram o mundo antigo e o ensinaram a pensar racionalmente. Vulgarizaram a matemática, a lógica e até mesmo o pensamento teológico. Já nos primórdios, a sabedoria grega caracterizou-se pela busca de um princípio impessoal e universal. Para Tales (585 a.C.), esse princípio era a água. Para Anaximandro (570 a.C.), o indeterminado. Para Anaxímenes (550 a.C.), o ar. Pitágoras (500 a.C.) dizia que por um questionamento da inteligência, que está por trás do fluxo da natureza, se chegava a ele: ao número. Parmênides (516 a.C.) declarava que esse princípio era imutável; e Demócrito (460 a.C.), que eram átomos indivisíveis.

O século V a.C. viu surgir um grupo de professores (sofistas) que marcou profundamente a sociedade grega. Desses, o maior foi, sem dúvida, Sócrates (469-399 a.C.), por seu questionamento da sociedade e por sua preocupação em restaurar, contra os sofistas, o primado do bem como o mais alto tipo de autocompreensão humana.

A sabedoria grega pré-helenística culminou com Platão (427-347 a.C.), discípulo de Sócrates, e com Aristóteles (384-332 a.C.), discípulo de Platão.

Fundamentando-se em Pitágoras e em Sócrates, principalmente, Platão desenvolveu uma série de doutrinas: a teoria das idéias ou formas, padrões transcendentes, eternos, que são o objeto do verdadeiro conhecimento racional; a divisão tripartida da alma (passional, espiritual e racional), em que a racional é potencialmente imortal; e a representação de uma sociedade ideal, em que se obtém o equilíbrio harmonioso entre as várias classes, cada qual primando numa virtude diferente.

Mais empírico que Platão, Aristóteles organizou, num sistema metódico, o fundamental da matemática, lógica, física, biologia, política e arte. Definiu as características básicas do ser e da mudança, culminando na concepção de um motor imóvel e eterno, causa das causas, cuja contemplação é o bem final do homem: Deus.

Depois que Alexandre conquistou o Oriente Médio, a ciência, a matemática e a medicina tiveram um enorme desenvolvimento. Das escolas de sabedoria que emergiram no meio helenístico, os estóicos tiveram um papel de destaque. O estoicismo procurava moldar o caráter do homem por uma postura de virtude, visando alcançar uma tranqüila força mental e uma capacidade de superar as paixões. Propunha uma vida em conformidade com as leis da natureza. Monoteísmo panteísta, identificava Deus com a natureza material. Concebia o cosmos como uma incorporação viva da mente divina. Encarava as divindades do panteão grego como manifestações separadas de um logos (razão) divino, imanente nas leis da natureza e na mente do homem. Consideravam a Ilíada e a Odisséia como alegorias, sendo cada elemento a metáfora de uma verdade.

Outra escola que obteve forte desenvolvimento foi a dos epicuristas, que tinha como ênfase a superação da ansiedade e do medo da morte, do destino e da intervenção divina adversa. As antigas doutrinas de Pitágoras, com uma releitura esotérica dos números, também foram bastante difundidas durante o helenismo.

Uma das contribuições mais importantes do pensamento grego foi a busca da verdade. Essa postura filosófica fez deles os campeões da discussão crítica e do questionamento racionalista no mundo antigo. Ensinaram ao mundo a procura quase obsessiva de respostas para as perguntas fundamentais que todo ser humano se faz. No entanto, avaliavam a sabedoria a partir das respostas práticas que ela dava a esses questionamentos. Entendiam a filosofia como libertadora do espírito humano de velhas crenças e preconceitos, mas acabavam criando novas crenças e mitos, apesar do sucesso alcançado em vários aspectos do conhecimento.

Por terem uma postura puramente racional, ou seja, por acreditarem que a atividade intelectual, sem mediação de processos empíricos, pode compreender e explicar o Universo que nos cerca, viam o cosmos como uma realidade circular e fechada. Essa maneira de pensar, se por um lado foi um avanço para a história humana, por outro negava a revelação e a própria história como processo em permanente construção. Nesse sentido, chocava-se com o pensamento israelita, que entendia o sentido de História como dialética entre a vontade de Deus e a ação transformadora do homem. De forma inédita e exclusiva em todo o mundo antigo, o pensamento israelita, conforme exposto pela profecia clássica, entendia a História como construção e obra aberta.

Durante o período dos macabeus, o choque entre essas duas formas de pensar produziu uma síntese, expressa mais claramente na literatura do período, em especial na profecia apocalíptica.

Assim, cada vez mais os judeus e todos aqueles que mergulharam no estudo da sabedoria e cultura helenística viram-se em confronto com desafios intelectuais de caráter bem diferentes daqueles da mitologia de babilônicos, persas e demais povos do antigo Oriente Médio.

É importante notar que a propagação do helenismo, após Alexandre Magno, foi facilitada pela migração de milhares de gregos e macedônios para as áreas conquistadas.

A cultura grega floresceu desde a Itália e a Silícia até Báctria, na Ásia Central. A metrópole de Alexandria, no Egito, e as cidades helenísticas na Ásia Menor, nas costas do mar Egeu e além, aos poucos eclipsaram Atenas e os centros mais antigos da cultura grega clássica.

Os reis selêucidas, por exemplo, foram particularmente assíduos em encorajar o estabelecimento de novas cidades e a transformação de velhos centros urbanos em cidades com instituições típicas, como assembléias de cidadãos, magistrados eleitos, centros atléticos e educacionais (ginásios) e cultos cívicos que honravam deuses olímpicos e divindades locais. Essas cidades helenísticas eram forças-chave na propagação da língua, dos trajes, da cultura material e do modo de pensar dos gregos.

O grego substituiu o aramaico como língua internacional de comércio e diplomacia, e o estilo de vida helênico se impôs em grande parte da Palestina, afetando um importante segmento dos habitantes de Jerusalém.

Ver: Humanas 3 -- Períodos históricos, fessormauro.blogspot.com

Questões para reflexão e debate

Leia o capítulo 4 de 2Macabeus mas dê atenção especial aos versículos 7-14, reproduzidos a seguir.

7 Após a morte de Seleuco e tendo subido ao trono Antíoco Epífanes, Jasão, irmão de Onias, usurpou fraudulentamente o cargo de sumo sacerdote. 8 Numa entrevista com o rei, ele lhe prometeu trezentos e sessenta talentos de prata e oitenta talentos excedentes. 9 Prometia-lhe, além disso, pagar outros cento e cinqüenta talentos, se lhe fosse dado o poder de fundar um ginásio e uma efebia e de receber as inscrições dos antioquenos de Jerusalém. 10 O rei consentiu. Logo que subiu ao poder, Jasão arrastou seus concidadãos para o helenismo. 11 Apesar dos privilégios obtidos do poder real por João, o pai de Eupolemo, que foi enviado aos romanos para concluir um pacto de aliança e de amizade, ele introduziu ímpios costumes, desdenhando as leis nacionais. 12 Foi com alegria que fundou um ginásio ao pé da própria acrópole, alistou os mais nobres jovens e os educou ao pétaso. 13 Por causa da perversidade inaudita do ímpio Jasão, que não era de modo algum pontífice, obteve o helenismo tal êxito e os costumes pagãos uma atualidade tão crescente, 14 que os sacerdotes descuidavam o serviço do altar, menosprezavam o templo, negligenciavam os sacrifícios, corriam, fascinados pelo disco, a tomar parte na palestra e nos jogos proibidos.

Faça uma pesquisa, utilizando dentre outros textos o segundo livro de Macabeus, e apresente os prós e os contras da presença helênica na Palestina.

O texto aqui reproduzido de 2Macabeus fala da fundação de um ginásio olímpico, da participação de jovens nos jogos e de sacerdotes nas discussões filosóficas. O que significou para o judaísmo a transformação de Jerusalém em pólis helênica?

Que interesses comerciais e políticos estavam por trás da helenização da Judéia? 

Leituras complementares

Aranha, Maria Lúcia de Arruda & Martins, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 2000.
Clements, R. E. (org.). O mundo do antigo Israel: perspectivas sociológicas, antropológicas e políticas. São Paulo: Paulus, 1995.
Finley, M. I. Los Griegos de la Antiguedad. Barcelona: Editorial Labor, 1970.
Marcondes, Danilo. Textos básicos de filosofia, dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.




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