samedi 29 mars 2014

Jesus, reformador marginal

Elementos para uma pesquisa sobre a política social de Jesus
Prof. Dr. Jorge Pinheiro

Nesta pesquisa em busca das bases bíblicas da política social de Jesus trabalhamos com o texto de Lucas 4.14-30 e tomamos como referenciais a Ben Witherington III[2] e John Howard Yoder[3].

Witherington III analisa a marginalidade social de Jesus a partir das realidades expressas pela hierarquia sacerdotal da época em relação a ele. Ao não ter pai conhecido e reconhecido não tinha direito a um nome. Por isso, era visto como alguém de genealogia desconhecida. E o fato de ser nomeado homem de Nazaré, oriundo de uma vila de camponeses e artesãos, pouco conhecida e afastada das rotas comerciais, fazia com que sua identidade geográfica também o desclassificasse como possível figura messiânica.

Assim, genealogia e geografia faziam dele um judeu socialmente à margem, que, por suas origens, não merecia crédito. Mas, esse homem-sem-nome, esse homem-sem-terra santa iniciou suas atividades de maneira no mínimo inusitada na sinagoga de Nazaré, conforme descreve Lucas.

Segundo Yoder, na época, não havia nas sinagogas uma leitura dos profetas regularmente prescrita. E o fato de essa passagem não estar presente nos lecionários conhecidos posteriormente, tende a indicar que Jesus a escolheu de propósito. Morris, afirma que essa hipótese corrobora a afirmação de Lucas: “abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito”.[4] Aqui dois detalhes merecem ser realçados: primeiro, é a única referência clara nos Evangelhos de que Jesus sabia ler. E, segundo, por que, ao ler Isaías 61.1-2, ele omitiu uma frase, curar os contritos de coração e acrescentou outra, libertar os oprimidos, que está em Isaías 58.6? Na verdade, utilizou os textos que considerou mais úteis à exposição de sua plataforma político social.

O uso que fez de termos políticos, como reino e evangelho, mostram que tal seletividade tinha uma finalidade: falar de uma promessa política de intervenção social alternativa àquelas dos poderes presentes na época. Assim, se lermos o texto apresentado por Jesus, numa perspectiva rabínica, estamos diante de uma recorrência às promessas do jubileu, quando as injustiças acumuladas durante anos deveriam ser sanadas. A fala daquele homem de identidade questionada não afirmava que a Palestina seria resgatada na escala temporal, mas que deveria entrar na vida palestina o impacto solidário do ano sabático.

Da mesma maneira, o Reino vindouro surgia enquanto compreensão profética do ano sabático. Nesse sentido, o sábado da semana ampliava-se no sábado dos anos, onde o sétimo deveria ser de descanso e reforma, já que restaurava o que tinha sido exaurido, natureza e pessoas. Essa coleção de regulamentos presente em Levítico 25.1-26.2 concernia ao direito de propriedade da posse da terra e de pessoas, que constituíam a base da riqueza. O propósito era fixar limites ao direito de posse, já que toda propriedade, natureza e pessoas, pertenceria a Deus. Assim, ninguém poderia possuir a natureza e as pessoas de forma permanente, pois tal direito pertencia a Deus. E o ciclo de sete anos sabáticos desaguava no qüinquagésimo ano, o jubileu messiânico (Lv 25.8-24), que só vai aparecer de novo em todo o Antigo Testamento apenas em Números 36.4. Mas, Jeremias, no capítulo 34.8-17 falou de uma reforma social na Jerusalém sitiada, quando Zedequias proclamou a liberdade dos escravos hebreus. Da mesma maneira, em Isaías 58.6-12 encontramos a reforma como parte da visão profética. Nesse sentido, a reforma do jubileu apontava para a reestruturação econômica e sócio-política das relações entre os povos da Palestina.

É interessante que Flávio Josefo tenha afirmado anos depois da presença de Jesus em Nazaré, que “não existe um único hebreu que, mesmo hoje em dia, não obedeça à legislação referente ao ano sabático como se Moisés estivesse presente para puni-lo por infrações, e isso mesmo em casos que uma violação passaria despercebida”.[5]

Apesar da afirmação de Josefo, sabemos que um enquadramento econômico e social a partir das disposições de Levítico 25, o que incluía inclusive a redistribuição da propriedade, nunca foi literalmente vivido entre os judeus. Por isso, coube a um “sem-terra prometida” levantar o discurso do ano da libertação.

A proposta de reforma do Jesus marginal era a anunciação profética da entrada em vigor de uma era nova, caso os ouvintes aceitassem a notícia. Não estava a se referir a um evento histórico, mas reafirmava uma esperança conhecida de seus ouvintes: a da reforma econômica e sócio-política que deveria mudar as relações entre os povos palestinos.

E aquele homem de genealogia desconhecida e geografia marginal colocou a centralidade da reforma sobre ele próprio ao afirmar que naquele momento, na sinagoga de Nazaré, a promessa profética se cumpria. E é isso que Lucas vai mostrar na seqüência de seu Evangelho: o reformador marginal era o messias prometido.

Bibliografia

ASH, A. L. O Evangelho Segundo Lucas. São Paulo: Vida Cristã, 1980.
BRATCHER, R. A Translator’s Guide to The Gospel of Luke. London: UBS, 1982.
BOFF, Leonardo, Jesus Cristo, Libertador, 16ª edição Petrópolis, Vozes.
CROSSAN, John Dominic, O Jesus Histórico, a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo, São Paulo, Imago, 1994.
ECHEGARAY, Hugo, A Prática de Jesus, Petrópolis, Vozes, 1982.
FITZMYER, J. A. The Gospel According to Luke I-IX. New York: Doubleday, 1981.
GODET, F. A Commentary on The Gospel of St. Luke. Edinburgh: T. & T. Clark, s. d.
JONES, E. Stanley, Christ alternative to communism, New York, 1953.
MORRIS, L. Lucas – Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1990.
NORTH, Robert S. J., Sociology of Biblical Jubilee, Roma, Instituto Bíblico Pontifício, 1954.
PIKAZA, Xabier, A Figura de Jesus: Profeta, Taumaturgo, Rabino, Messias, Petrópolis, Vozes, 1995.
PLUMMER, A. Gospel According to St. Luke. ICC. New York: Charles Scribner’s Sons,  s. d.
REILING, J. & SWELLENGREBEL. A Translator’s Handbook on The Gospel of Luke. Leiden: UBS, 1971.
SCHMID, J. El Evangelio Según San Lucas. Barcelona: Herder, 1968.
TROCMÉ, Etienne, Jésus-Christ et la révolution non-violente (vv.aa.), cap. III, Genebra, Labor et fides, 1961.
VERMÉS, G., Jesus, O Judeu, São Paulo, Loyola, 1990.
Witherington III, Ben, The Christology of Jesus, Minneapolis, Fortress, 1990.
Yoder, John Howard, A política de Jesus, São Leopoldo, sinodal, 1988.


Notas

[1] Jorge Pinheiro é Professor Pós-Doutor em Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Doutor e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, Teólogo pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo e  Jornalista pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade do Chile. Na área bíblica publicou “História e Religião de Israel, origens e crise do pensamento judaico”, São Paulo, Editora Vida, 2007. 
[2]  Ben Witherington III, The Christology of Jesus, Minneapolis, Fortress, 1990.
[3]  John Howard Yoder, A política de Jesus, São Leopoldo, Sinodal, 1988.
[4]  Leon L. Morris, Lucas, introdução e comentário, São Paulo, 1990, p. 101.
[5]  Flávio Josefo, Antiquitates III, 15, 3.
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