jeudi 28 août 2014

História e presença trotskista

Democracia e socialismo na construção de um pensamento reformado radical brasileiro e contemporâneo -- Jorge Pinheiro

Desse texto, que será pontual, fazem parte, mesmo que não citados, os marcos da construção do meu pensamento reformado radical. Esses marcos vão de Leon Trotsky, passando pela militância histórica do trotskismo brasileiro, até chegar ao Partido dos Trabalhadores.


1. No Programa de Transição, Trotsky analisa o que chama de “as premissas objetivas para uma revolução socialista”. Para ele, a situação política mundial caracterizava-se pela crise histórica da direção do proletariado, e a premissa econômica da revolução proletária alcançara o ponto mais elevado atingido sob o capitalismo.

As forças produtivas da humanidade deixaram de crescer. As novas invenções e os novos progressos técnicos não conduzem mais a um crescimento da riqueza material. As crises conjunturais, nas condições da crise social de todo o sistema capitalista, sobrecarregam as massas de privações e sofrimentos cada vez maiores. O crescimento do desemprego aprofunda, por sua vez, a crise financeira do Estado e mina os sistemas monetários estremecidos”.




Para o revolucionário russo, as premissas objetivas da revolução proletária não estavam somente maduras: elas começavam a apodrecer. Por isso, sem vitória da revolução socialista no próximo período histórico, toda a civilização humana estaria ameaçada de ser conduzida a uma catástrofe. Tudo dependeria do proletariado, ou seja, antes que nada, de sua vanguarda revolucionária. A crise histórica da humanidade reduzia-se, então, à crise da direção revolucionária.

Em entrevista aos seus camaradas do Socialista Workers Party dos Estados Unidos, realizada no México, Trotsky explicou como via esta questão da crise da direção revolucionária. Disse que a consciência de cada classe social está determinada por condições objetivas, pelas forças produtivas, pelo estado econômico do país, mas que essa determinação não se realizava de forma mecânica.




A consciência, em geral, atrasa-se; atrasa-se em relação ao desenvolvimento econômico e esse atraso pode ser mais ou menos acentuado. Em tempos normais, quando o desenvolvimento é lento, quando as coisas progridem a pouco e pouco, esse atraso não pode ter conseqüências catastróficas. Em larga medida, esse atraso significa que os trabalhadores não estão à altura das tarefas impostas pelas condições objetivas. Numa altura de crise em contrapartida, esse atraso pode ser catastrófico”.[1]

Diante desse dilema, Trotsky se perguntou se deveria adaptar o programa à situação objetiva ou à mentalidade dos operários? E, partindo do que chamou de “as três condições para uma nova sociedade” explicou aos camaradas do SWP a importância de um programa de transição nas mãos na vanguarda revolucionária:


A primeira condição para uma nova sociedade é que as forças produtivas estejam suficientemente desenvolvidas para dar à luz um nível superior. Mas, as forças produtivas estarão suficientemente desenvolvidas? Trotsky considerava que já estavam suficientemente desenvolvidas no século dezenove, não tanto como nos nossos dias, mas suficientemente. Hoje, dizia ele, especialmente nos Estados Unidos seria muito fácil demonstrar que se as forças produtivas norte-americanas fossem libertadas, poderiam ser duplicadas e triplicadas. A segunda condição: tem que haver uma classe progressista que seja numerosa e que tenha influência econômica suficiente para impor a sua vontade à sociedade. Essa classe é o proletariado. Ela deve representar a nação, ou ter a possibilidade de dirigir a maioria. A terceira condição é o fator subjetivo. Essa classe tem que compreender a posição que ocupa na sociedade e possuir as suas próprias organizações. É a condição que falta do ponto de vista histórico. Do ponto de vista social não é somente uma possibilidade, mas uma necessidade absoluta no sentido em que será ou o socialismo ou a barbárie.[2]

Concluiu, então, que esse era um programa científico por estar baseado numa análise objetiva da situação, mas que, possivelmente, não pudesse ser compreendido no seu conjunto pelos operários, por isso “seria muito bom que a vanguarda o compreendesse no próximo período”.[3]


2. É neste contexto de luta política e teórica que Mário Pedrosa e seus camaradas assumem a tarefa de construir a alternativa trotskista no Brasil e posteriormente participam da formação do Partido Socialista Brasileiro. O grupo dirigido por Mário Pedrosa estruturou-se ao redor do jornal Vanguarda Socialista, e teve influência na dimensão sindical do projeto do PSB, que combinou o objetivo da unidade com a liberdade de organização dos trabalhadores. Exemplo disso é que o autogoverno dos trabalhadores fez parte do projeto de cidadania do PSB.[4] Mas, o PSB não sofreu apenas influências do trotskismo. Segundo Vieira[5], no PSB relacionaram-se o socialismo democrático, desvinculado da tradição stalinista, o socialismo inspirado no pensamento de Rosa Luxemburgo e uma concepção liberal do Estado e da sociedade.

As idéias trotskistas, plantadas na política brasileira por Mário Pedrosa e seus companheiros, influenciaram centenas de jovens militantes das gerações seguintes. Assim, o trotskismo esteve presente na resistência à ditadura militar, na composição de partidos clandestinos de esquerda, entre os quais a Liga Operária, o Partido Socialista dos Trabalhadores, a Convergência Socialista e o Partido Operário Comunista, e na própria formação do PT. Fomos amigos de Mário Pedrosa à época de nosso primeiro exílio, no Chile, durante o governo do presidente Salvador Allende. E foi sob a liderança intelectual de Mário Pedrosa que, junto a outros companheiros, formamos o Grupo Ponto de Partida, pequena organização trotskista no exterior, que deu origem à Liga Operária, em dezembro de 1973, em Buenos Aires. Esta, por sua vez, a partir de sua atuação clandestina em fábricas do ABC paulista construiu o Partido Socialista dos Trabalhadores e caminhou para a formação do movimento de Convergência Socialista.


3. Em 1977, a Liga Operária teve parte de sua liderança no ABC paulista presa, e eu, um de seus líderes, que estava na Europa desde o final de 1976, permaneci lá até 1978. Libertados os militantes do ABC, a Liga Operária realizou uma conferência interna para definir a política partidária. Optou por concentrar seus esforços na plantação de células operárias, na militância sindical e numa campanha aberta e pública a favor da democratização do país. Para viabilizar seu principal objetivo naquele momento, a democratização do país, criou o PST e organizou um movimento que ficou conhecido como Convergência Socialista.

Em março de 1979, o regime militar dava mostrar de estar chegando ao fim, semeando prisões, fome e morte. O autoritarismo se realizava como fetiche, já que a ditadura se ergueu como critério de verdade, destruindo vidas humanas e a dignidade de milhões de brasileiros. Militantes, socialistas e sindicalistas levantaram, então, um princípio universal: a construção de alternativas políticas próprias aos excluídos. Princípio este que foi objetiva e subjetivamente negado pelo regime militar e pelo arbítrio. No ABC paulista a abertura lenta e gradual proposta pelo governo militar fazia água. No dia 13 de outubro, cento e trinta sindicalistas e militantes, que representavam seis estados da Federação, lançaram o Movimento pelo Partido dos Trabalhadores, no salão de festas do restaurante São Judas Tadeu, em São Bernardo do Campo. E aprovaram uma Declaração Política e uma Plataforma Política que definiam as reivindicações que o Movimento levantaria de imediato. Aprovaram ainda as Normas transitórias de funcionamento e lançaram uma “Nota contra a reforma partidária proposta pelo governo”. Elegeram também uma Comissão Nacional Provisória, composta por dezessete pessoas, para dirigir o Movimento até a fundação do PT. No correr do ano seguinte, os sindicalistas, socialistas e cristãos de esquerda fundaram o Partido dos Trabalhadores.


Em março de 1979, cento e oitenta mil metalúrgicos entraram em greve quando mal tinha chegado à presidência o general Figueiredo. O governo decretou a intervenção nos sindicatos e destituiu seus dirigentes. Algumas semanas depois, voltou atrás e revogou a intervenção.

No dia 10 de fevereiro de 1980, com a presença de mil e duzentas pessoas, entre os quais Mário Pedrosa, Sérgio Buarque de Holanda e Lélia Abramo, o Partido dos Trabalhadores realizou no Colégio Sion, em São Paulo, seu ato de fundação. Estávamos lá e assinamos o Manifesto do partido, publicado no Diário Oficial da União de 21 de outubro do mesmo ano. Nesse Manifesto de fundação, o PT afirmava que pretendia chegarao governo e à direção do Estado para realizar uma política democrática, do ponto de vista dos trabalhadores, tanto no plano econômico quanto no plano social”. [6]  E que buscaria conquistar a liberdade para que o povo pudesse construir uma sociedade igualitária, onde não existissem explorados e nem exploradores. E em discurso na 1a. Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, em Brasília, Lula disse que o socialismo desejado pelo PT seria definido por todo o povo, como exigência das lutas populares, como resposta política e econômica a todas as aspirações concretas, pois seria muito fácil, “aqui sentados comodamente, no recinto do Senado da República, nos decidirmos por uma definição ou por outra. Seria muito fácil e muito errado. O socialismo que nós queremos não nascerá de um decreto, nem nosso, nem de ninguém. O socialismo que nós queremos irá se definindo nas lutas do dia-a-dia, do mesmo modo que nós estamos construindo o PT. O socialismo que nós queremos terá que ser a emancipação dos trabalhadores. E a libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”.[7]


4. Foi a partir desse momento, que cresceu no PT a idéia de um socialismo construído a partir das bases, à maneira das lutas sindicais. Na verdade essa definição de socialismo não definia que socialismo era esse, mas deixava para o futuro qualquer definição. Nesse sentido, sem negar a possibilidade da existência de um pensamento socialista no PT, entendemos esse sonho socialista enquanto fenômeno que traduzia realidades plasmadas na sociedade brasileira e que afloraram enquanto mitos de origem da política petista.

Esse socialismo, enquanto espectro, se aninhou no partido em formação, indo desde aqueles intelectuais que atuavam no Movimento Democrático Brasileiro aos agrupamentos da nova esquerda como Ação Popular, Convergência Socialista, Liberdade e Luta, Movimento pela Emancipação do Proletariado, Política Operária. Dessa maneira, a partir da luta entre as diversas correntes, Democracia Radical, Articulação, Democracia Socialista, A Hora da Verdade, Vertente Socialista, Força Socialista, Brasil Socialista, O Trabalho, Movimento Tendência Marxista e independentes, criou-se uma situação de impasse que possibilitou ao grupo liderado pelos sindicalistas arbitrar e colocar-se acima dos debates sobre a opção socialista a ser seguida. Ou seja, os sindicalistas colocaram-se como aqueles que desejavam projetos políticos concretos. É dentro desse contexto que devemos entender a liberdade de posturas socialistas presentes na formação do Partido dos Trabalhadores, embora alguns intelectuais, como Paul Singer,[8] já procurassem fazer uma releitura do socialismo.


Em 1980, Singer afirmou que “o socialismo que decorre das lutas atuais dos trabalhadores dos setores economicamente mais avançados constitui uma reformulação profunda do que se concebia como socialismo há apenas algumas décadas. A reformulação mais drástica é provavelmente a rejeição da idéia de que o socialismo deve ser implementado a partir da conquista do poder político, o que implicava a noção de que o socialismo seria, em essência, realizado por um poder político que a tanto se propusesse. A lógica do raciocínio se baseava no pressuposto de que o socialismo resultaria da socialização dos meios de produção, entendida como abolição da propriedade privada dos mesmos”.[9] Com essa afirmação que constituiu uma reformulação do que se concebia como socialismo, Singer procurou abrir novas discussões sobre o que poderia ser o socialismo e, logicamente, pensar o futuro do PT. Ou seja, a revolução armada sempre esteve descartada para setores da direção petista. Ou, como afirma Berbel:

Naquele momento (1978-1980), o PT não assumia a perspectiva do socialismo e jamais viria a assumir a perspectiva da revolução. No entanto, ele conservava a separação entre democracia e socialismo, encarada como duas etapas distintas: primeiro, uma plataforma de lutas imediatas, de caráter democrático e, posteriormente, a discussão sobre o socialismo. Tal dissociação não levou à concretização de uma frente mais ampla que o próprio partido, mas possibilitou a realização de uma frente menor em seu interior. Adotar a perspectiva do socialismo exigiria olhar de frente a heterogeneidade do corpo partidário e enfrentar a concentração de polêmicas que ocorreram nas últimas décadas. Pelo menos desde os anos 60, as discussões sobre as políticas de alianças dos agrupamentos comunistas implicavam uma definição sobre o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, o lugar ocupado pela burguesia nacional e a tática a se desenvolver a partir desta avaliação. O programa adotado pelo PT deixava margem para diferentes conclusões sobre estas questões e, como um todo, não respondia a nenhuma delas. Decidir por uma estratégia significaria excluir outras tantas e o partido optava por abrigar todas elas”. [10]


Singer, ao descartar a possibilidade da revolução, dizia que após diferentes tentativas de chegar ao socialismo desta maneira, socializar deve significar submeter os meios de produção ao controle coletivo dos trabalhadores. Mas, como a natureza das forças produtivas fez com que o controle imediato da produção social seja exercida por técnicos e administradores, a essência da socialização não consiste em subordinar estas camadas a um poder socialista, mas em submetê-las à hegemonia da classe trabalhadora. Isso significa que os socialistas deveriam possibilitar que as decisões finais fossem tomadas, direta ou indiretamente, pela classe trabalhadora. Em outras palavras, “a burguesia dividiu o poder político em executivo, legislativo e judiciário para impor sua hegemonia, o proletariado não pode reunificá-lo a pretexto de conquista, sem acabar por ser dominado pelos que de fato o exercem”.[11] E afirmava que o âmbito da luta pelo socialismo é muito maior que o plano político convencional, e que não é só o poder do Estado que tem de ser transformado, mas todo poder exercido autoritariamente: o do patrão na empresa, do professor na escola, do oficial no Exército, do padre na igreja, do dirigente no sindicato ou no partido e, por fim mas não por último, do pai na família.

De todos estes, provavelmente a soberania do Estado e a autocracia patronal ou gerencial na empresa são as formas fundamentais do poder, cuja transformação condiciona as demais. Mas nem por isso há qualquer razão para restringir a prática de libertação a estas duas instituições. A luta pelo socialismo requer a mobilização de toda a população e, portanto, as lutas anti-autoritárias têm de ser suscitadas em todas as instituições no pressuposto, confirmado pela experiência, que as práticas de libertação tendem, em geral, a se reforçar mutuamente, na medida em que a legitimidade de todas é reconhecida, ao passo que a tentativa de se considerar uma luta específica como prioritária e contendo em si a solução das demais – “uma vez conquistado o poder e eliminada a propriedade privada dos meios de produção, tudo o mais se resolver sem atrito nem demora” -- só tende a dividir os movimentos de libertação e sectarizá-los.[12]


Concluía dizendo que o socialismo só seria alcançado após uma extensa e vitoriosa prática de libertação, que abrisse caminho, ao mesmo tempo, ao desenvolvimento de novas forças produtivas e à socialização completa do trabalho intelectual.[13] E Aluísio Mercadante, ao analisar as aceleradas transformações e as recorrentes crises do mundo capitalista, dizia, em 1989, que, mesmo neste contexto, a travessia para um novo século pode significar “a despedida do velho movimento operário, como querem muitos, mas não necessariamente de seus valores fundamentais. Os princípios de classe, a solidariedade, o internacionalismo, a autonomia operária e o socialismo seguem sendo valores decisivos para uma nova relação entre a ética, a economia e a política na construção da nova sociedade”.[14]

Assim, apesar dos esforços particulares de teóricos militantes e da perspectiva socialista das forças integrantes do PT, prevaleceu a indefinição partidária, calcada, conforme afirma Berbel, na idéia de que o PT não era socialista porque as bases não se definiram pelo socialismo, e que seria necessário amadurecer essa perspectiva junto às bases ou, quando a direção já houvesse se definido, convencer e educar os militantes.[15] Dessa maneira, as dificuldades de formulação de uma teoria do socialismo por parte do PT, levaram o partido a ver o socialismo como utopia descolada da realidade, que se por um lado podia facilitar a resistência às pressões liberais, alargar a imaginação dos movimentos sociais e iluminar o horizonte histórico,[16] por outro lado deixava de ter um sentido prático imediato em relação às questões sociais e econômicas do país. Nesta leitura do socialismo, programa e utopia foram distanciados. E a utopia passou a ser olhada como entrave à prática política, às lutas imediatas e eleitorais. Aparentemente, o caminho a ser seguido equilibrava-se entre o socialismo real, apesar de todas as críticas que até aquele momento tinham sido feitas ao stalinismo e suas variantes, e a sensibilidade empírica da liderança do partido. Em meio a essa dificuldade de definições é necessário entender o papel da presença do cristianismo social no Partido dos Trabalhadores.


A importância do cristianismo para a práxis petista residiu no fato de que procurou criar paradigmas que reafirmavam os valores da democracia e da liberdade em busca de caminhos que alinhavam as conquistas sociais com a criação de uma ordem fundada na expansão do espaço público e da desmercantilização da vida social.

Essa foi uma tentativa possível, porque a relação entre o cristianismo e a práxis do PT era profunda. Mas o fundamento de origem do cristianismo na formação da consciência brasileira e da práxis petista apresentava aproximações e estranhamentos, que não se traduziam em tendência à cisão, mas juízos reveladores da força de origem de suas utopias. Isto porque, a realidade social das religiões no Brasil traduzia, e hoje ainda traduz a existência do significado subjetivo do cristianismo[17] para 89,2% dos brasileiros.[18] Representada num Deus de amor, a fé cristã levanta exigências éticas de justiça social e solidariedade, realidade já analisada por Weber.[19]


Essas exigências, mesmo quando culturalmente reinterpretadas, levam os brasileiros, quer se digam espíritas, umbandistas ou mesmo sem religião, a serem cristãos em alguma medida. Além da consideração de certa feição cristã, um quadro da religiosidade brasileira mostra os cristãos e não-cristãos divididos em centenas de igrejas e comunidades. E mesmo a igreja católica, sociologicamente, não pode ser analisada como una, pois abriga diferentes manifestações de religiosidade: desde a tradicionalista e heterodoxa, como o catolicismo popular rural, às manifestações do ritualismo urbano, como o catolicismo das obrigações, ou ainda às manifestações religiosas internalizadas, ou seja, a religiosidade escolhida pelo fiel, seja na forma de engajamento social, assistência social, organização política dos excluídos, ou nas formas extáticas, como a devoção a Maria e aos santos.[20] Mais além dessas igrejas católicas há centenas de igrejas evangélicas que incluem as históricas emigradas e de missão, as pentecostais, neopentecostais e as importações mais recentes, produtos da mundialização. Os dados estatísticos, como o censo de 2000, apresentavam a seguinte configuração da realidade social das religiões no Brasil: 73,8% dos brasileiros se declararam católicos, 15,4% se declararam evangélicos, 7,3% se disseram sem religião e os restantes 3,5% professaram uma gama de confissões religiosas, com predominância de espíritas e umbandistas. Podemos dizer quena população brasileira uma presença de maioria cristã e uma quantidade atomizada de religiosidades.[21]

Este quadro, num sentido sociológico durkheimiano[22] de sagrado, revela algumas dimensões da realidade brasileira, como o fato de que a religião está presente em lugares que não são aqueles da religião. Assim, não está descartada a existência de uma religiosidade cristã invisível ou uma consciência religiosa[23] que se fez presente no processo de construção do ideário socialista do Partido dos Trabalhadores. Por isso, o cristianismo, enquanto visão utópica e normativa do mundo, agiu para expandir o sentido transformador da experiência cristã na práxis petista, e foi exatamente esse movimento que levou tanto às aproximações quanto aos estranhamentos. Em sua própria forma de ser, o cristianismo trabalha com mediações de valores e daquilo que deve ser. Colocou-se assim na antípoda do realismo político, de suas expressões pragmáticas e de suas afinidades com os valores liberais de mercado. O cristianismo brasileiro, a partir de sua experiência comunitária, distanciou-se do poder de Estado e firmou uma autonomia de origem social e de identidade cultural. E se no período republicano foi escassa sua presença junto ao poder, a partir dos anos 1960 fez opção preferencial pelos excluídos.


Creio que apesar do distanciamento de um projeto socialista cristão, o Partido dos Trabalhadores é um partido de operários e camponeses, não um partido revolucionário ou socialista, onde nós cristãos temos o espaço democrático necessário para expandir o sentido transformador da experiência cristã na práxis petista.

Agosto, 2006. Jorge Pinheiro.




[1] León Trotski, “A Agonia do capitalismo, entrevista com membros dos Socialist Workers Party, SWP, México, 1938. Site: www.pco.org.br /biblioteca/partido/programa.htm (Acesso em 14.10.2004).
[2] León Trotski, “A Agonia do capitalismo”, entrevista citada.
[3] León Trotski,  “A Agonia do capitalismo,  entrevista citada.
[4] Cláudio Nascimento, “Autogestão e economia solidária”, in Rede Brasileira de Socioeconomia Solidária, Instituto de Filosofia da Libertação, Milênio. Site: www.milenio.com.br/ifil/rcs/biblioteca/nascimento.htm (Acesso em 20.12.2005).
[5] Margarida Luiza de Matos Vieira in História do Marxismo no Brasil, Marcelo Ridenti e Daniel Aarão Reis Filho (orgs.), vol. V, capítulo 4, Campinas, Ed. da Unicamp, 1991,  pp. 181-182.
[6] “Manifesto de Lançamento” in Resoluções de Encontros e Congressos, 1979-1998, Partido dos Trabalhadores, São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 1999, p. 67.
[7] Discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na 1a. Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada no dia 27.09.1981, no Senado da República, in Resoluções de Encontros e Congressos, 1979-1998, Partido dos Trabalhadores, São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 1999, p. 114.
[8] Paul Singer, economista, professor universitário, pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro e Análise e Planejamento), foi militante socialista desde os anos 1950. Em 1980 filiou-se ao PT. Durante a administração petista da cidade de São Paulo (prefeita Luíza Erundina), foi secretário de Planejamento.
[9] Paul Singer, “O que é o socialismo hoje?”, in O Marxismo na América Latina, Uma antologia de 1909 aos dias atuais, org. Michael Löwy, São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, pp.390-392.
[10] Márcia Regina Berbel, Partido dos Trabalhadores: tradição e ruptura na esquerda brasileira (1978-1980), dissertação de Mestrado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1991, p. 137.
[11] Paul Singer, “O que é o socialismo hoje?”, op. cit., pp.390-392.
[12] Paul Singer, “O que é o socialismo hoje?”, op. cit., pp.390-392.
[13] Paul Singer, “O que é o socialismo hoje?”, op. cit., pp.390-392.
[14] Aloizio Mercadante Oliva, “O vento e a vela”, São Paulo, Teoria e Debate, jul/ago/set. de 1989, p. 20.
[15] Márcia Regina Berbel, Partido dos Trabalhadores: tradição e ruptura na esquerda brasileira (1978-1980), dissertação de Mestrado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1991, p. 136.
[16] Juarez Guimarães, A sólida necessidade da utopia, São Paulo, Periscópio, edição no. 42, dez 2004/jan 2005, Fundação Perseu Abramo. Site:  www.fpa.org.br/periscopio (Acesso em 13.05.2005).
[17] Alexandre A. Cardoso, Cláudio Antônio C. Leite e Rita de Fátima A. Nogueira, “Pesquisa quantitativa no campo religioso: reflexões ulteriores sobre a experiência de participação de um grupo acadêmico de estudos da religião em duas pesquisas quantitativas”, São Paulo, Revista de Estudos da Religião, vol. 3, 2002, Pós-graduação em Ciências da Religião, PUC-SP. Site: www.pucsp.br/rever/rv3_2002. (Acesso em 12.12.2003).
[18] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE, censo de 2000.
[19] Max Weber, Economia e Sociedade, 3a. edição, Brasília, Editora UnB., 1994, vol. I, capítulo V.
[20] Cândido Procópio Camargo, Católicos, protestantes, espíritas, Petrópolis, Vozes, 1973.
[21] F. Rolim, “A propósito do trânsito religioso”, in Comunicações do ISER 45, Rio de Janeiro, ISER, 1994.
[22] Émile Durkheim, As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália, São Paulo, Editora Martins Fontes, 1996 (“Introdução: Objeto de pesquisa”, “Definição do fenômeno religioso e da religião” e “Conclusão”, pp. I-XXVII; pp. 3-250; pp. 457-498).
[23] Peter Berger, “A secularização e o problema da plausibilidade” in O dossel sagrado, Elementos para uma teoria sociológica da religião, São Paulo, Paulus, 1985, pp. 139-164.
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