jeudi 29 janvier 2015

O mundo novo

Construir o novo mundo. Quem?
Jorge Pinheiro

O planeta jaz na barbárie. Quem poderá construir o novo mundo? Esta discussão sobre a construção de um mundo novo nos leva à discussão de questões imbricadas à teologia, como alienação e ética. Hoje, o mundo se pergunta: quem deve dirigir o processo de construção? Obama crê que devem ser os Estados Unidos. A Europa, os países ricos. E a esquerda institucional, no Brasil, o conjunto das nações reunidas em assembléia geral. Quem tem razão? Quais os critérios?

Vamos analisar tal questão a partir do conceito de estranhamento em Marx e da proposta de uma ética crítica de defesa da vida. Para tal partiremos de dois trabalhos acadêmicos, um de Maria Norma Alcântara Brandão de Holanda e outro de Tarcyane Cajueiro Santos, citados na bibliografia.

Então eu me arrependi de ter trabalhado
tanto e fiquei desesperado por causa disso.”
Eclesiastes 2.20

Karl Marx em Teorias sobre a mais valia, conforme expõe Maria Norma Alcântara Brandão de Holanda, afirma que o desenvolvimento das forças produtivas enquanto "desenvolvimento da riqueza da natureza humana como fim em si" se efetiva mediante "um processo no qual os indivíduos são sacrificados".

O que está em questão aqui não é o desenvolvimento das forças produtivas, mas o reconhecimento de seus limites ontológicos, que se expressam no âmbito do desenvolvimento econômico-social.

O desenvolvimento das forças produtivas é também o desenvolvimento da capacidade humana, mas este não produz obrigatoriamente desenvolvimento da pessoalidade humana. Ao contrário, muitas vezes, potencializando capacidades singulares, pode desfigurar tal pessoalidade.

Estamos aí diante de um processo de alienação antropológica e existencial. Estamos diante de um paradoxo, desenvolvimento das forças produtivas e desenvolvimento da pessoalidade humana. E, pelo que vemos hoje, mais desenvolvidas as forças produtivas mais evidentes tais contradições.

As exigências colocadas pelo desenvolvimento da economia globalizada, ao mesmo tempo em que apresenta possibilidades para o desenvolvimento humano, tem produzido um impressionante nível de desumanidade.

Marx, nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 escreve: "quanto mais produz o operário com seu trabalho, mais o mundo objetivo, estranho que ele cria em torno de si, torna-se poderoso, mais ele empobrece, mais pobre torna-se seu mundo interior e menos ele possui de seu".

Ao partir de sua preocupação central, o estudo da economia política de seu tempo, Marx diz que "a miséria do operário está em razão inversa do poder e da grandeza de sua produção". Mais produz, maior é a sua miséria.

Assim, a produção não faz apenas do homem mercadoria, a mercadoria humana, o homem sob forma de mercadoria, mas o faz também ser espiritual e fisicamente desumanizado....

Se o desenvolvimento das forças produtivas ao mesmo tempo em que desenvolve as possibilidades humanas cria a reprodução da desumanidade, evidenciam-se os limites antropológicos e existenciais de tal desenvolvimento, já que toda relação social não se dará apenas através de uma elevação espiritual, mas de movimentos de deixam em aberto as possibilidades para a própria destruição do humano.

Como a justiça encaminha para a vida,
quem insiste no mal caminha para a morte”.
Provérbios 11.19

Se olharmos sob a perspectiva da ética, tal processo leva ao esgotamento da moral que deve ser, presente na história ocidental cristã, e na emergência da amoralidade globalizada, que se transformou em instância de definição da legitimidade de comportamento imperial hegemônico em detrimento das singularidades nacionais e culturais.

O choque entre projeto imperial hegemônico e diferenças culturais deve nos levar a uma consciência crítica de defesa das barreiras éticas contra a destruição do humano, fruto, como vimos, tanto do desenvolvimento das forças produtivas, como do estranhamento humano presentes nesse mesmo desenvolvimento.

É nessa fronteira entre elevação espiritual e degradação, que globalidade e culturas devem negociar as margens do caos.

Aqui a ética nascerá da delimitação da violência capitaneada pelo império hegemônico, já que a globalização se tornou personagem principal do processo de desenvolvimento das forças produtivas mundializadas.

Assim, a ética crítica, como meio e não como fim, “está baseada no livre exercício do corpo e da alma, no desejo e na afirmação da vida”, como afirma Tarcyane Cajueiro Santos.

Porém, a virtude esbarra na heteronomia, na contradição do estranhamento, conforme detectou Marx. Somos parte da natureza, vivemos circundados por número ilimitado de efeitos externos e poderosos. Somos seres passivos ou cheios de paixão, enquanto  causa parcial, dominados e conduzidos por forças externas ao nosso corpo e à nossa alma.

E as paixões, como afirma Spinoza, não são em si nem boas nem más, pois fazem parte da natureza: a alegria, a tristeza e o desejo vibram em nosso ser. A alegria aumenta a capacidade de existir, enquanto o estranhamento degrada a existência.

Sem conselhos os planos fracassam,
mas com muitos conselheiros há sucesso”.
Provérbios 15.22

O movimento da paixão à ação, da heteronomia à autonomia, ocorre na imanência do próprio desejo, a partir do instante que temos condições de controlar e submeter o estranhamento que degrada. Nesse momento, a liberdade torna-se “atividade que transcende o presente pela possibilidade do futuro como abertura no tempo”, conforme diz Marilena Chauí.

No caminhar da globalização, a ética deixa de ser dever moral, imperativo categórico a priori, e passa a ser compreendida como balizadora daquilo que é humano.

Para construir tal ética crítica é necessária a existência ao nível mundial de um sujeito ético moral, nas palavras de Chauí, “que sabe o que faz, que conhece as causas e os fins de sua ação, o significado de suas intenções e de suas atitudes e a essência dos valores morais”.

Hoje no planeta, com todas as dificuldades reais, tal sujeito só pode ser traduzido na existência de um organismo internacional democrático. Assim, a construção do novo mundo deve ser obra dos humanos, na diversidade de credos, gêneros e raças, apoiados por uma assembléia global, que traduza as realidades e os sonhos da espécie humana.


Fontes
Karl Marx, Manuscritos Econômico-Filosóficos, Coleção Os Pensadores, São Paulo, Editora Abril, 1997.
Maria Norma Alcântara Brandão de Holanda, Lukács e o estranhamento em Marx, Unicamp, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Centro de Estudos Marxistas: www.unicamp.br/cemarx
Marilena Chauí, Convite à filosofia,  São Paulo, Ática, 1999.
Tarcyane Cajueiro Santos, O eticismo da sociedade tecnólogica e a ética em Espinosa, ECA-USP, Núcleo de Estudos Filosóficos da Comunicação: www.eca.usp.br/nucleos/filocom


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