vendredi 5 juin 2015

A religião é o ópio do povo

Para entender melhor como se explica o fenômeno religioso mundial da atualidade e as tendências de fé do futuro, Defesa da Fé entrevistou o pastor batista Jorge Pinheiro. Ele é teólogo, cientista da religião, professor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo e doutor em Ciências da Religião pela UMESP — Universidade Metodista de São Paulo. Será que a afirmação de Karl Max, o pai do comunismo: “A religião é o ópio do povo”, procede? Leia a entrevista e conclua. Jamierson Oliveira



Defesa da Fé – A religiosidade é algo inerente ao ser humano?

Jorge Pinheiro – Sim, porque o humano é um ser cheio de espiritualidade, e essa espiritualidade pode se expressar de várias formas, sem precisar de um lugar definido. E a religião ocupa um espaço privilegiado nessa espiritualidade, que nada mais é do que a dimensão da profundidade do espírito humano. Por isso existe a busca humana que nos direciona à própria espiritualidade, à fé e à religião. Ou seja, o humano é um ser potencialmente religioso.

Defesa da Fé – O que isso prova?

Jorge Pinheiro – Que a religião está presente em todas as ações do espírito humano: na ética, na estética, no conhecimento. Por isso, quando alguém rejeita a religião em nome da ética, da estética, ou da busca do conhecimento, está rejeitando a religião em nome da própria religião, porque ela constitui a substância, o fundamento e a profundidade da vida espiritual do ser humano.

Defesa da Fé – Como o senhor distingue a religiosidade da espiritualidade?

Jorge Pinheiro – Podemos dizer que espiritualidade é aquela relação da pessoa com a transcendência. Nesse sentido, a espiritualidade é a totalidade da vida. A religião, por sua vez, traduz uma dimensão dessa espiritualidade. Por exemplo, quando multidões assistem a um filme como “A paixão de Cristo”, de Mel Gibson, e as pessoas são despertadas, cada qual à sua maneira, para a miserabilidade humana, vemos aí uma expressão da espiritualidade. As experiências humanas com o que é sagrado envolvem escolha, disciplina e prática, e levam o ser humano às experiências religiosas, porque a religião traduz o que é sagrado para a vida do crente. Dessa forma, a espiritualidade sempre será traduzida em religiosidade.

Defesa da Fé – A diversidade religiosa brasileira é resultado de que fatores?

Jorge Pinheiro – Em relação à realidade brasileira, percebemos mais diversidade confessional do que religiosa. Oitenta e nove por cento dos brasileiros confessam ser cristãos, cuja fé está presente no desejo de justiça social e solidariedade. Diante dessa religiosidade cristã invisível, podemos dizer que os brasileiros são cristãos em alguma medida. Tomemos, como exemplo, a Igreja Católica, que não pode ser analisada como una, pois abriga diferentes manifestações de religiosidade. Além dessa pluralidade católica, há centenas de igrejas evangélicas que incluem as históricas, as pentecostais, as neopentecostais e as importações mais recentes, produtos da globalização.

Defesa da Fé – A religião é um fator de agregação ou desagregação social?

Jorge Pinheiro – Pode ser as duas coisas. Talvez seja melhor trabalharmos com um exemplo recente: a posição de setores da igreja evangélica durante os anos da ditadura militar no Brasil. Algumas igrejas, e até denominações, apoiaram o governo militar, a repressão, e tivemos até casos de torturadores evangélicos, membros de igrejas importantes. Desagregamos quando nos ligamos à corrupção, ao clientelismo e às benesses. Agregamos quando defendemos a vida humana, seja ela evangélica ou não. Com isso, constatamos que podemos ser uma coisa ou outra.

Defesa da Fé – Essa é uma triste marca em nossa história.

Jorge Pinheiro – Sim. É claro que seria um erro uniformizar a atuação de evangélicos nesse período, até porque muitos crentes também foram torturados. Mas o certo é que muitos irmãos, em nome da agregação, do fanatismo e de conceitos bíblicos errados, foram cúmplices de torturas e mortes.

Defesa da Fé – Em que a fé cristã ajudou a melhorar o mundo?

Jorge Pinheiro – Para entendermos o papel do cristianismo, é necessário, antes, compreendermos que Deus é o Eterno que funda o tempo e possibilita a história. Isso significa, em primeiro lugar, que Ele é o Eterno que atua, junto com o livre arbítrio humano, na história visando uma meta final. Com o cristianismo monoteísta e sua mensagem, o círculo trágico da sucessão dos deuses do politeísmo, com poderes ilimitados e injustos sobre os povos, foi superado. Em Cristo, salva-se o Universo. Vivemos a plenitude da história e a história alcançará, no reino universal do Eterno, o reinado da justiça, da paz e da alegria. Esta é a mensagem cristã para as nações.

Defesa da Fé – Qual será o papel da religião para o futuro que estamos caminhando?

Jorge Pinheiro – A religião sempre teve, e continuará tendo, um papel político: a defesa da justiça. Todas as pessoas compreendem a necessidade de justiça e a política, com base no poder, cumpre uma função legítima quando serve às reivindicações da justiça. Às vezes, infelizmente, as religiões se perdem, caem na espiritualidade negativa, ao negarem a diferença, e se tornam instrumentos da guerra e da morte. Não estamos isentos disso. Ao contrário, vimos isso no recrudescimento do fundamentalismo islâmico e no fundamentalismo evangélico que apoiou o presidente George Bush na invasão do Iraque, por exemplo.

Defesa da Fé – Como o senhor vê a relação dos Estados com a religião?

Jorge Pinheiro – Para entendermos esta questão, vale a pena nos reportarmos a uma entrevista do filósofo Hans Georg Gadamer, concedida em 1999, às vésperas de completar cem anos de idade. Na ocasião, ele disse que “o respeito pelas outras religiões é um bem que pode nos salvar da catástrofe, mas o caminho para a salvação tem inimigos dentro e fora da Igreja...”. Em outras palavras, estava querendo dizer que, devido ao fato de muitos países possuírem tecnologias capazes de destruir a vida sobre o planeta, o diálogo franco entre as religiões é indispensável. Ainda segundo o filósofo luterano, o problema consiste nas confissões religiosas que são muito diferentes, tornando difícil encontrar uma linguagem comum. Até para os diferentes ramos do cristianismo é difícil o entendimento.

Defesa da Fé – Qual seria, então, a alternativa para que os governos possam buscar paz para essas zonas de conflitos?

Jorge Pinheiro – Talvez devessem partir daquilo que todas as culturas e religiões têm em comum. E, segundo Gadamer, esse tema unificador está relacionado aos direitos humanos. Neste sentido, a questão não é tanto a discussão sobre a possibilidade de manutenção de Estados laicos, mas a construção de um diálogo inter-religioso que possibilite a construção da paz mundial. E isso só será possível quando os líderes religiosos de diferentes pontos de vista e credos não impedirem a construção de princípios comuns de defesa da vida humana.




Defesa da Fé – A igreja cristã está preparada para lidar com este quadro de pluralismo?

Jorge Pinheiro – Não é possível falar de pluralismo religioso sem falar de poder, fica uma questão: amor e poder são compatíveis? As igrejas, como qualquer outra ordem social instituída, têm uma existência objetiva que remete à prática do serviço ao próximo. Para isso, não podemos deixar que as igrejas (confissões e denominações), se tornem totalitárias, ou seja, mesmo como Igreja de Cristo não podemos negar os limites de nosso poder. E esse limite é o amor. Dessa forma, poderemos conviver pacificamente com as outras religiões e seguir o caminho da justiça.

Defesa da Fé – Qual é o papel da defesa da fé neste contexto religioso?

Jorge Pinheiro – Karl Barth negava a necessidade da apologética. Dizia que Deus não tem necessidade de que o defendam. Já Paul Tillich entendia a teologia como apologética. Concordo com Tillich, mas defendo uma apologética do amor. Entendo que a apologética só tem sentido se antes houver testemunho. Por isso, quando falo de apologética do amor estou resgatando Karl Barth, que só entendia vida cristã na plenitude do Espírito. Aí está a chave da questão: sem plenitude do Espírito não há vida cristã, nem testemunho, e, logicamente, a apologética que sair daí não terá amor. Antes, será uma arma de guerra: conduzirá à morte.

Fonte:
Defesa da Fé, Ano 9, Número 71.
  
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