samedi 13 juin 2015

Às vezes elas explodem

Às vezes elas explodem é um texto do meu amigo Silvio Fernando Rodrigues, psicólogo clínico, roteirista e escritor. E tenho o prazer de pública-lo aqui. Boa leitura a tod@s que gostam de cinema. JP


Se você está na casa dos 20 e poucos anos, já viu esse filme, se não, ouviu muito acerca dele. Desgraçadamente o roteiro do filme, assim como suas personagens continuam atuais.

1976: ano do lançamento de Táxi Driver, ano em que os soldados americanos voltavam do Vietnam. Derrotados. Numa guerra que não era a deles. Misturando orgulho ferido com o dissabor coletivo, resultado de vários anos focalizando no outro, o inimigo interno, a nação recolhia seus homens do campo de batalha.


Vemos Travis Bickle (Robert de Niro), ex-combatente, de volta a Pátria. Fosse uma história de Frank Capra teríamos todas as situações de praxe: muitos amigos, a família reunida, medalhas ... Não é o caso. É Scorcese quem manda, sendo assim Travis não tem amigos, a família está longe e ao invés de ganhar uma medalha como recompensa, recebe um táxi velho onde toda noite tem que limpar o banco traseiro de fluídos, no mínimo, estranhos.

Em suas corridas noturnas depara-se com o lixo da cidade; prostitutas, drogados, travestis. Por trás dos vidros de seu carro ele faz o que qualquer cidadão politicamente correto faria, sonha com o final de tudo aquilo, mesmo que envolva algum tipo de punição. A tal ponto de ansiar por uma chuva purificadora que limpe “todo esse esgoto”.

Nesta ilha de degradação que se converte o seu mundo, descobre um colírio na figura de uma jovem politizada Betsy (Cybill Shepard). A cena em que ela, toda de branco cruza a rua, é um exemplo disto, já que para o taxista representa o ideal máximo de pureza, mesmo trabalhando para um político liberal, Charles Palantine, com pinta de escroque.

Visando ganhar a moça, Bickle vai até o comitê, toma conhecimento dos projetos do candidato e a convida para sair. Mas a ida a um cinema pornô estraga tudo. Com o fracasso de Betsy, rui também a confiança (consciente?) em Palantine e quaisquer outros meios de “purificação”. É sem espanto que vemos Bickle se armar e começar, obsessivamente a prática de tiro ao alvo.

Procurando uma substituta para Betsy, o olhar do protagonista se detém em outro tipo de pureza, desta vez ultrajada: Íris, a prostituta mirim de 12 anos, vivida por Jodie Foster.

Vivenciando uma relação de pseudotransferência com a menina, indaga sobre seus pais, escola, etc. Tenta até, com sua moral deturpada, entender o porque de tudo aquilo. Entende errado. Para ele, a razão de tudo é Sport, seu gigolô, e num raciocínio mais amplo o dono do motel onde Íris “faz a vida”.

Achando-se no direito de libertar Íris, e prenhe de boas intenções, de Niro armado até os dentes, penetra no muquifo de Jodie e metralha todo mundo (teria rezado ao deus sanguinário da trinca Bush, Osama, Saddam?). O desfecho é previsível; deitado sobre a própria poça de sangue à espera dos policiais. Encerraria uma certa moral de filme americano se acabasse aí. Mas não acaba. Meses depois Bickle é elevado ao status de herói da comunidade e dos pais da garota. O que não elimina seu teor perigoso. Travis Bickle é uma bomba-relógio, só está esperando outro ciclo para explodir.


Os detratores do filme afirmam que a história é ingênua e inverossímil (mentira, uma leitura atenta nos jornais revela que uma vez por semana, no mínimo, uma bomba dessas explode), alegando que o personagem combate a si mesmo sem ter a consciência disso. Seria muito esperar que tivesse. Travis, assim como Suzane Richthofen e outros loucos da vida real são produtos destas cidades, onde a exploração é a ordem do dia.

A Associação Nacional de Psiquiatria Americana anunciou que entre uma rosquinha e outra, um americano médio, urbano, se neurotiza 10 vezes ao dia. Mas seria leviano supor que casos como o de Suzane estariam circunscritos unicamente a esfera de fracasso e stress de nosso sistema sócio-econômico e não à uma falha de nossa censura interna, chamada por Freud de superego. 

A mistura indigesta de tudo isso é que deflagra momentos (exemplos individuais de catarses mal-sucedidas) de horror como este. Ou a ânsia da população sempre anônima em formar ainda que na marra, seus ídolos, seja um maníaco armado ou o último panaca do Big Brother. No final das contas dá tudo no mesmo.

Por Silvio Fernando Rodrigues
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