vendredi 19 juin 2015

Laudate si'

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CARTA ENCÍCLICA
LAUDATO SI’
DO SANTO PADRE
FRANCISCO
SOBRE O CUIDADO DA CASA COMUM
1. «Laudato si’, mi’ Signore – Louvado se- jas, meu Senhor», cantava São Francisco de As- sis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços: «Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras ».1
2. Esta irmã clama contra o mal que lhe provo- camos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e domina- dores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vis- lumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que « geme e sofre as dores do parto » (Rm 8, 22). Es- quecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respi- rar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.
1 Cantico delle creature: Fonti Francescane, 263.
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Nada deste mundo nos é indiferente
3. Mais de cinquenta anos atrás, quando o mundo estava oscilando sobre o fio duma cri- se nuclear, o Santo Papa João XXIII escreveu uma encíclica na qual não se limitava a rejeitar a guerra, mas quis transmitir uma proposta de paz. Dirigiu a sua mensagem Pacem in terris a todo o mundo católico, mas acrescentava: e a todas as pessoas de boa vontade. Agora, à vista da dete- rioração global do ambiente, quero dirigir-me a cada pessoa que habita neste planeta. Na minha exortação Evangelii gaudium, escrevi aos membros da Igreja, a fim de os mobilizar para um proces- so de reforma missionária ainda pendente. Nesta encíclica, pretendo especialmente entrar em diá- logo com todos acerca da nossa casa comum.
4. Oito anos depois da Pacem in terris, em 1971, o Beato Papa Paulo VI referiu-se à problemática ecológica, apresentando-a como uma crise que é « consequência dramática » da actividade descon- trolada do ser humano: « Por motivo de uma ex- ploração inconsiderada da natureza, [o ser huma- no] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação ».2 E, dirigindo-se à FAO, falou da possibilidade duma « catástrofe ecológica sob o efeito da explosão da civilização industrial », sublinhando a « necessida- de urgente duma mudança radical no comporta-
2 Carta ap. Octogesima adveniens (14 de Maio de 1971), 21: AAS 63 (1971), 416-417.
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mento da humanidade», porque «os progressos científicos mais extraordinários, as invenções téc- nicas mais assombrosas, o desenvolvimento eco- nómico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se neces- sariamente contra o homem ».3
5. São João Paulo II debruçou-se, com interes- se sempre maior, sobre este tema. Na sua primei- ra encíclica, advertiu que o ser humano parece «não dar-se conta de outros significados do seu ambiente natural, para além daqueles que servem somente para os fins de um uso ou consumo imediatos ».4 Mais tarde, convidou a uma conversão ecológica global.5 Entretanto fazia notar o pouco empenho que se põe em «salvaguardar as con- dições morais de uma autêntica ecologia huma- na».6 A destruição do ambiente humano é um facto muito grave, porque, por um lado, Deus confiou o mundo ao ser humano e, por outro, a própria vida humana é um dom que deve ser protegido de várias formas de degradação. Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo re- quer mudanças profundas «nos estilos de vida,
3 Discurso à FAO, no seu XXV aniversário (16 de Novembro de 1970), 4: AAS 62 (1970), 833; L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 22/XI/1970), 6.
4 Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 15: AAS 71 (1979), 287.
5 Cf. Catequese (17 de Janeiro de 2001), 4: Insegnamenti 24/1 (2001), 179; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 20/I/2001), 8.
6 Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 38: AAS 83 (1991), 841.
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nos modelos de produção e de consumo, nas es- truturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades».7 O progresso humano autêntico possui um carácter moral e pressupõe o pleno respeito pela pessoa humana, mas deve prestar atenção também ao mundo natural e «ter em conta a natureza de cada ser e as ligações mútuas entre todos, num sistema ordenado».8 Assim, a capacidade do ser humano transformar a reali- dade deve desenvolver-se com base na doação originária das coisas por parte de Deus.9
6. O meu predecessor, Bento XVI, renovou o convite a « eliminar as causas estruturais das dis- funções da economia mundial e corrigir os mo- delos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente».10 Lem- brou que o mundo não pode ser analisado con- centrando-se apenas sobre um dos seus aspectos, porque « o livro da natureza é uno e indivisível », incluindo, entre outras coisas, o ambiente, a vida, a sexualidade, a família, as relações sociais. É que «a degradação da natureza está estreitamente li- gada à cultura que molda a convivência huma- na».11 O Papa Bento XVI propôs-nos reconhe-
7 Ibid., 58: o. c., 863.
8 João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 34: AAS 80 (1988), 559.
9 Cf. idem, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 37: AAS 83 (1991), 840.
10 Discurso ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé (8 de Janeiro de 2007): AAS 99 (2007), 73.
11 Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 51: AAS 101 (2009), 687.
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cer que o ambiente natural está cheio de chagas causadas pelo nosso comportamento irresponsá- vel; o próprio ambiente social tem as suas cha- gas. Mas, fundamentalmente, todas elas se ficam a dever ao mesmo mal, isto é, à ideia de que não existem verdades indiscutíveis a guiar a nossa vida, pelo que a liberdade humana não tem limi- tes. Esquece-se que « o homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza ».12 Com paterna solicitude, convidou-nos a reconhecer que a criação resulta comprometida «onde nós mesmos somos a úl- tima instância, onde o conjunto é simplesmente nossa propriedade e onde o consumimos somente para nós mesmos. E o desperdício da criação co- meça onde já não reconhecemos qualquer instân- cia acima de nós, mas vemo-nos unicamente a nós mesmos ».13
Unidos por uma preocupação comum
7. Estas contribuições dos Papas recolhem a reflexão de inúmeros cientistas, filósofos, teólo- gos e organizações sociais que enriqueceram o pensamento da Igreja sobre estas questões. Mas não podemos ignorar que, também fora da Igreja
12 Discurso ao Bundestag, Berlim (22 de Setembro de 2011): AAS 103 (2011), 664; L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 24/IX/2011), 5.
13 Bento XVI, Discurso ao clero da diocese de Bolzano-Bressa- none (6 de Agosto de 2008): AAS 100 (2008), 634; L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 16/VIII/2008), 5.
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Católica, noutras Igrejas e Comunidades cristãs – bem como noutras religiões – se tem desenvol- vido uma profunda preocupação e uma reflexão valiosa sobre estes temas que a todos nos estão a peito. Apenas para dar um exemplo particular- mente significativo, quero retomar brevemente parte da contribuição do amado Patriarca Ecu- ménico Bartolomeu, com quem partilhamos a esperança da plena comunhão eclesial.
8. O Patriarca Bartolomeu tem-se referido par- ticularmente à necessidade de cada um se arre- pender do próprio modo de maltratar o plane- ta, porque «todos, na medida em que causamos pequenos danos ecológicos», somos chamados a reconhecer «a nossa contribuição – pequena ou grande – para a desfiguração e destruição do ambiente ».14 Sobre este ponto, ele pronunciou-se repetidamente, de maneira firme e encorajadora, convidando-nos a reconhecer os pecados contra a criação: « Quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para a mudança climática, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas húmidas; quando os se- res humanos contaminam as águas, o solo, o ar... tudo isso é pecado ».15 Porque « um crime contra
14 Mensagem para o Dia de Oração pela salvaguarda da criação (1 de Setembro de 2012).
15 Discurso em Santa Bárbara, Califórnia (8 de Novembro de 1997); cf. John Chryssavgis, On Earth as in Heaven: Ecological
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a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus ».16
9. Ao mesmo tempo Bartolomeu chamou a atenção para as raízes éticas e espirituais dos problemas ambientais, que nos convidam a en- contrar soluções não só na técnica mas também numa mudança do ser humano; caso contrário, estaríamos a enfrentar apenas os sintomas. Pro- pôs-nos passar do consumo ao sacrifício, da avi- dez à generosidade, do desperdício à capacidade de partilha, numa ascese que « significa aprender a dar, e não simplesmente renunciar. É um modo de amar, de passar pouco a pouco do que eu quero àquilo de que o mundo de Deus precisa. É libertação do medo, da avidez, da dependên- cia ».17 Além disso nós, cristãos, somos chamados a « aceitar o mundo como sacramento de comu- nhão, como forma de partilhar com Deus e com o próximo numa escala global. É nossa humilde convicção que o divino e o humano se encon- tram no menor detalhe da túnica inconsútil da criação de Deus, mesmo no último grão de poei- ra do nosso planeta ».18
Vision and Initiatives of Ecumenical Patriarch Bartholomew (Bronx/ Nova Iorque 2012).
16 Ibidem.
17 Conferência no Mosteiro de Utstein, Noruega (23 de Junho de 2003).
18 Bartolomeu, Discurso Global Responsibility and Ecological Sustainability: Closing Remarks, I Cimeira de Halki, Istambul (20 de Junho de 2012).
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São Francisco de Assis
10. Não quero prosseguir esta encíclica sem in- vocar um modelo belo e motivador. Tomei o seu nome por guia e inspiração, no momento da mi- nha eleição para Bispo de Roma. Acho que Fran- cisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e aban- donados. Amava e era amado pela sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são insepa- ráveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior.
11. O seu testemunho mostra-nos também que uma ecologia integral requer abertura para cate- gorias que transcendem a linguagem das ciências exactas ou da biologia e nos põem em contacto com a essência do ser humano. Tal como acon- tece a uma pessoa quando se enamora por ou- tra, a reacção de Francisco, sempre que olhava o sol, a lua ou os minúsculos animais, era cantar, envolvendo no seu louvor todas as outras cria- turas. Entrava em comunicação com toda a cria- ção, chegando mesmo a pregar às flores « convi-
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dando-as a louvar o Senhor, como se gozassem do dom da razão».19 A sua reacção ultrapassava de longe uma mera avaliação intelectual ou um cálculo económico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho. Por isso, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe. São Boaventura, seu discípulo, contava que ele, «enchendo-se da maior ternura ao considerar a origem comum de todas as coi- sas, dava a todas as criaturas – por mais desprezí- veis que parecessem – o doce nome de irmãos e irmãs ».20 Esta convicção não pode ser desvalori- zada como romantismo irracional, pois influi nas opções que determinam o nosso comportamen- to. Se nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da frater- nidade e da beleza na nossa relação com o mun- do, então as nossas atitudes serão as do domina- dor, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos. Pelo contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a so- briedade e a solicitude. A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um as- cetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objecto de uso e domínio.
19 tomás de Celano, Vita prima di San Francesco, XXIX, 81: Fonti Francescane, 460.
20 Legenda Maior, VIII, 6: Fonti Francescane, 1145.
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12. Por outro lado, São Francisco, fiel à Sagra- da Escritura, propõe-nos reconhecer a natureza como um livro esplêndido onde Deus nos fala e transmite algo da sua beleza e bondade: «Na grandeza e na beleza das criaturas, contempla-se, por analogia, o seu Criador » (Sab 13, 5) e « o que é invisível n’Ele – o seu eterno poder e divindade – tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras » (Rm 1, 20). Por isso, Francisco pedia que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto por cultivar para aí crescerem as ervas silvestres, a fim de que, quem as admirasse, pudesse elevar o seu pensamento a Deus, autor de tanta beleza.21 O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mis- tério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor.
O meu apelo
13. O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a fa- mília humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coi- sas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projecto de amor, nem Se ar- repende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. Desejo agradecer, encorajar e manifestar apreço a quantos, nos mais variados
21 Cf. tomás de Celano, Vita seconda di San Francesco, CXXIV, 165: Fonti Francescane, 750.
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sectores da actividade humana, estão a trabalhar para garantir a protecção da casa que partilha- mos. Uma especial gratidão é devida àqueles que lutam, com vigor, por resolver as dramáticas consequências da degradação ambiental na vida dos mais pobres do mundo. Os jovens exigem de nós uma mudança; interrogam-se como se pode pretender construir um futuro melhor, sem pen- sar na crise do meio ambiente e nos sofrimentos dos excluídos.
14. Lanço um convite urgente a renovar o diá- logo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós. O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na busca de solu- ções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os cami- nhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções téc- nicas. Precisamos de nova solidariedade univer- sal. Como disseram os bispos da África do Sul, « são necessários os talentos e o envolvimento de todos para reparar o dano causado pelos humanos
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sobre a criação de Deus ».22 Todos podemos co- laborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, expe- riência, iniciativas e capacidades.
15. Espero que esta carta encíclica, que se inse- re no magistério social da Igreja, nos ajude a re- conhecer a grandeza, a urgência e a beleza do de- safio que temos pela frente. Em primeiro lugar, farei uma breve resenha dos vários aspectos da actual crise ecológica, com o objectivo de assu- mir os melhores frutos da pesquisa científica ac- tualmente disponível, deixar-se tocar por ela em profundidade e dar uma base concreta ao per- curso ético e espiritual seguido. A partir desta pa- norâmica, retomarei algumas argumentações que derivam da tradição judaico-cristã, a fim de dar maior coerência ao nosso compromisso com o meio ambiente. Depois procurarei chegar às raí- zes da situação actual, de modo a individuar não apenas os seus sintomas, mas também as causas mais profundas. Poderemos assim propor uma ecologia que, nas suas várias dimensões, integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o rodeia. À luz desta reflexão, quereria dar mais um passo, verificando algumas das grandes linhas de diálogo e de acção que envolvem seja cada um de nós seja a política internacional. Finalmente, con-
22 ConferênCia dos BisPos CatóliCos da áfriCa do sul, Pastoral Statement on the Environmental Crisis (5 de Setembro de 1999).
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vencido – como estou – de que toda a mudança tem necessidade de motivações e dum caminho educativo, proporei algumas linhas de maturação humana inspiradas no tesouro da experiência es- piritual cristã.
16. Embora cada capítulo tenha a sua temáti- ca própria e uma metodologia específica, o su- cessivo retoma por sua vez, a partir duma nova perspectiva, questões importantes abordadas nos capítulos anteriores. Isto diz respeito especial- mente a alguns eixos que atravessam a encíclica inteira. Por exemplo: a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mun- do, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a econo- mia e o progresso, o valor próprio de cada criatu- ra, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsa- bilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida. Estes temas nunca se dão por encerrados nem se abandonam, mas são constantemente retomados e enriquecidos.
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CAPÍTULO I
O QUE ESTÁ A ACONTECER À NOSSA CASA
17. As reflexões teológicas ou filosóficas sobre a situação da humanidade e do mundo podem soar como uma mensagem repetida e vazia, se não forem apresentadas novamente a partir dum confronto com o contexto actual no que este tem de inédito para a história da humanidade. Por isso, antes de reconhecer como a fé traz novas motivações e exigências face ao mundo de que fazemos parte, proponho que nos detenhamos brevemente a considerar o que está a acontecer à nossa casa comum.
18. A contínua aceleração das mudanças na hu- manidade e no planeta junta-se, hoje, à intensifica- ção dos ritmos de vida e trabalho, que alguns, em espanhol, designam por «rapidación». Embora a mudança faça parte da dinâmica dos sistemas complexos, a velocidade que hoje lhe impõem as acções humanas contrasta com a lentidão natu- ral da evolução biológica. A isto vem juntar-se o problema de que os objectivos desta mudan- ça rápida e constante não estão necessariamen- te orientados para o bem comum e para um de- senvolvimento humano sustentável e integral. A mudança é algo desejável, mas torna-se preocu-
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pante quando se transforma em deterioração do mundo e da qualidade de vida de grande parte da humanidade.
19. Depois dum tempo de confiança irracional no progresso e nas capacidades humanas, uma parte da sociedade está a entrar numa etapa de maior consciencialização. Nota-se uma crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupação pelo que está a acontecer ao nosso planeta. Façamos uma resenha, certamen- te incompleta, das questões que hoje nos causam inquietação e já não se podem esconder debaixo do tapete. O objectivo não é recolher informa- ções ou satisfazer a nossa curiosidade, mas tomar dolorosa consciência, ousar transformar em so- frimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar.
1. Poluição e mudanças ClimátiCas
Poluição, resíduos e cultura do descarte
20. Existem formas de poluição que afectam diariamente as pessoas. A exposição aos po- luentes atmosféricos produz uma vasta gama de efeitos sobre a saúde, particularmente dos mais pobres, e provocam milhões de mortes prematu- ras. Adoecem, por exemplo, por causa da inala- ção de elevadas quantidades de fumo produzido pelos combustíveis utilizados para cozinhar ou
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aquecer-se. A isto vem juntar-se a poluição que afecta a todos, causada pelo transporte, pelos fu- mos da indústria, pelas descargas de substâncias que contribuem para a acidificação do solo e da água, pelos fertilizantes, insecticidas, fungicidas, pesticidas e agro-tóxicos em geral. Na realidade a tecnologia, que, ligada à finança, pretende ser a única solução dos problemas, é incapaz de ver o mistério das múltiplas relações que existem entre as coisas e, por isso, às vezes resolve um proble- ma criando outros.
21. Devemos considerar também a poluição produzida pelos resíduos, incluindo os perigosos presentes em variados ambientes. Produzem-se anualmente centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis: re- síduos domésticos e comerciais, detritos de de- molições, resíduos clínicos, electrónicos e indus- triais, resíduos altamente tóxicos e radioactivos. A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo. Em mui- tos lugares do planeta, os idosos recordam com saudade as paisagens de outrora, que agora vêem submersas de lixo. Tanto os resíduos industriais como os produtos químicos utilizados nas cida- des e nos campos podem produzir um efeito de bioacumulação nos organismos dos moradores nas áreas limítrofes, que se verifica mesmo quan- do é baixo o nível de presença dum elemento tóxico num lugar. Muitas vezes só se adoptam medidas quando já se produziram efeitos irrever- síveis na saúde das pessoas.
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22. Estes problemas estão intimamente ligados à cultura do descarte, que afecta tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se con- vertem rapidamente em lixo. Note-se, por exem- plo, como a maior parte do papel produzido se desperdiça sem ser reciclado. Custa-nos a reco- nhecer que o funcionamento dos ecossistemas naturais é exemplar: as plantas sintetizam subs- tâncias nutritivas que alimentam os herbívoros; estes, por sua vez, alimentam os carnívoros que fornecem significativas quantidades de resíduos orgânicos, que dão origem a uma nova geração de vegetais. Ao contrário, o sistema industrial, no final do ciclo de produção e consumo, não desen- volveu a capacidade de absorver e reutilizar resí- duos e escórias. Ainda não se conseguiu adoptar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras e que exige limitar, o mais possível, o uso dos re- cursos não-renováveis, moderando o seu consu- mo, maximizando a eficiência no seu aproveita- mento, reutilizando e reciclando-os. A resolução desta questão seria uma maneira de contrastar a cultura do descarte que acaba por danificar o pla- neta inteiro, mas nota-se que os progressos neste sentido são ainda muito escassos.
O clima como bem comum
23. O clima é um bem comum, um bem de to- dos e para todos. A nível global, é um sistema complexo, que tem a ver com muitas condições
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essenciais para a vida humana. Há um consen- so científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático. Nas últimas décadas, este aquecimento foi acompanhado por uma elevação constante do nível do mar, sendo difícil não o re- lacionar ainda com o aumento de acontecimentos meteorológicos extremos, embora não se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a cada fenómeno particular. A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam. É verdade que há outros factores (tais como o vulcanismo, as variações da órbita e do eixo terrestre, o ciclo solar), mas numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases com efeito de estufa (anidrido carbónico, metano, óxido de azoto, e outros) emitidos sobretudo por causa da activi- dade humana. A sua concentração na atmosfera impede que o calor dos raios solares reflectidos pela terra se dilua no espaço. Isto é particular- mente agravado pelo modelo de desenvolvimen- to baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, que está no centro do sistema energético mundial. E incidiu também a prática crescente de mudar a utilização do solo, principalmente o des- florestamento para finalidade agrícola.
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24. Por sua vez, o aquecimento influi sobre o ciclo do carbono. Cria um ciclo vicioso que agra- va ainda mais a situação e que incidirá sobre a disponibilidade de recursos essenciais como a água potável, a energia e a produção agrícola das áreas mais quentes e provocará a extinção de par- te da biodiversidade do planeta. O derretimento das calotas polares e dos glaciares a grande alti- tude ameaça com uma libertação, de alto risco, de gás metano, e a decomposição da matéria or- gânica congelada poderia acentuar ainda mais a emissão de anidrido carbónico. Entretanto a per- da das florestas tropicais piora a situação, pois estas ajudam a mitigar a mudança climática. A poluição produzida pelo anidrido carbónico au- menta a acidez dos oceanos e compromete a ca- deia alimentar marinha. Se a tendência actual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e duma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós. Por exemplo, a su- bida do nível do mar pode criar situações de ex- trema gravidade, se se considera que um quarto da população mundial vive à beira-mar ou muito perto dele, e a maior parte das megacidades estão situadas em áreas costeiras.
25. As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, so- ciais, económicas, distributivas e políticas, cons- tituindo actualmente um dos principais desafios para a humanidade. Provavelmente os impactos
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mais sérios recairão, nas próximas décadas, so- bre os países em vias de desenvolvimento. Mui- tos pobres vivem em lugares particularmente afectados por fenómenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência de- pendem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema como a agri- cultura, a pesca e os recursos florestais. Não pos- suem outras disponibilidades económicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catas- tróficas, e gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de protecção. Por exemplo, as mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre conseguem adaptar-se; e isto, por sua vez, afecta os recursos produti- vos dos mais pobres, que são forçados também a emigrar com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhe- cidos como refugiados nas convenções interna- cionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, ve- rifica-se uma indiferença geral perante estas tra- gédias, que estão acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reacções diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.
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26. Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder económico ou político parecem con- centrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas muitos sintomas indicam que tais efeitos poderão ser cada vez piores, se continuar- mos com os modelos actuais de produção e con- sumo. Por isso, tornou-se urgente e imperioso o desenvolvimento de políticas capazes de fazer com que, nos próximos anos, a emissão de ani- drido carbónico e outros gases altamente poluen- tes se reduza drasticamente, por exemplo, substi- tuindo os combustíveis fósseis e desenvolvendo fontes de energia renovável. No mundo, é exíguo o nível de acesso a energias limpas e renováveis. Mas ainda é necessário desenvolver adequadas tecnologias de acumulação. Entretanto, nalguns países, registaram-se avanços que começam a ser significativos, embora estejam longe de atingir uma proporção importante. Houve também al- guns investimentos em modalidades de produ- ção e transporte que consomem menos energia exigindo menor quantidade de matérias-primas, bem como em modalidades de construção ou restruturação de edifícios para se melhorar a sua eficiência energética. Mas estas práticas promis- soras estão longe de se tornar omnipresentes.
2. a questão da água
27. Outros indicadores da situação actual têm a ver com o esgotamento dos recursos naturais. É
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bem conhecida a impossibilidade de sustentar o nível actual de consumo dos países mais desen- volvidos e dos sectores mais ricos da sociedade, onde o hábito de desperdiçar e jogar fora atinge níveis inauditos. Já se ultrapassaram certos limi- tes máximos de exploração do planeta, sem ter- mos resolvido o problema da pobreza.
28. A água potável e limpa constitui uma ques- tão de primordial importância, porque é indis- pensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos. As fontes de água doce fornecem os sectores sanitários, agro- -pecuários e industriais. A disponibilidade de água manteve-se relativamente constante duran- te muito tempo, mas agora, em muitos lugares, a procura excede a oferta sustentável, com graves consequências a curto e longo prazo. Grandes cidades, que dependem de importantes reservas hídricas, sofrem períodos de carência do recurso, que, nos momentos críticos, nem sempre se ad- ministra com uma gestão adequada e com impar- cialidade. A pobreza da água pública verifica-se especialmente na África, onde grandes sectores da população não têm acesso a água potável se- gura, ou sofrem secas que tornam difícil a produ- ção de alimento. Nalguns países, há regiões com abundância de água, enquanto outras sofrem de grave escassez.
29. Um problema particularmente sério é o da qualidade da água disponível para os pobres, que diariamente ceifa muitas vidas. Entre os pobres,
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são frequentes as doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por microorganis- mos e substâncias químicas. A diarreia e a cólera, devidas a serviços de higiene e reservas de água inadequados, constituem um factor significativo de sofrimento e mortalidade infantil. Em mui- tos lugares, os lençóis freáticos estão ameaçados pela poluição produzida por algumas actividades extractivas, agrícolas e industriais, sobretudo em países desprovidos de regulamentação e contro- les suficientes. Não pensamos apenas nas descar- gas provenientes das fábricas; os detergentes e produtos químicos que a população utiliza em muitas partes do mundo continuam a ser derra- mados em rios, lagos e mares.
30. Enquanto a qualidade da água disponível piora constantemente, em alguns lugares cresce a tendência para se privatizar este recurso escas- so, tornando-se uma mercadoria sujeita às leis do mercado. Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direi- tos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável. Esta dívida é parcialmente saldada com maiores contribuições económicas para prover de água limpa e sanea- mento as populações mais pobres. Entretanto nota-se um desperdício de água não só nos países
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desenvolvidos, mas também naqueles em vias de desenvolvimento que possuem grandes reservas. Isto mostra que o problema da água é, em parte, uma questão educativa e cultural, porque não há consciência da gravidade destes comportamen- tos num contexto de grande desigualdade.
31. Uma maior escassez de água provocará o aumento do custo dos alimentos e de vários pro- dutos que dependem do seu uso. Alguns estudos assinalaram o risco de sofrer uma aguda escassez de água dentro de poucas décadas, se não forem tomadas medidas urgentes. Os impactos ambien- tais poderiam afectar milhares de milhões de pes- soas, sendo previsível que o controle da água por grandes empresas mundiais se transforme numa das principais fontes de conflitos deste século.23
3. Perda de Biodiversidade
32. Os recursos da terra estão a ser depreda- dos também por causa de formas imediatistas de entender a economia e a actividade comercial e produtiva. A perda de florestas e bosques implica simultaneamente a perda de espécies que pode- riam constituir, no futuro, recursos extremamen- te importantes não só para a alimentação mas também para a cura de doenças e vários serviços. As diferentes espécies contêm genes que podem
23 Cf. franCisCo, Saudação aos funcionários da FAO (20 de Novembro de 2014): AAS 106 (2014), 985; L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 27/XI/2014), 3.
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ser recursos-chave para resolver, no futuro, algu- ma necessidade humana ou regular algum pro- blema ambiental.
33. Entretanto não basta pensar nas diferentes espécies apenas como eventuais «recursos» ex- ploráveis, esquecendo que possuem um valor em si mesmas. Anualmente, desaparecem milhares de espécies vegetais e animais, que já não pode- remos conhecer, que os nossos filhos não pode- rão ver, perdidas para sempre. A grande maioria delas extingue-se por razões que têm a ver com alguma actividade humana. Por nossa causa, mi- lhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem. Não temos direito de o fazer.
34. Possivelmente perturba-nos saber da extin- ção dum mamífero ou duma ave, pela sua maior visibilidade; mas, para o bom funcionamento dos ecossistemas, também são necessários os fun- gos, as algas, os vermes, os pequenos insectos, os répteis e a variedade inumerável de microor- ganismos. Algumas espécies pouco numerosas, que habitualmente nos passam despercebidas, desempenham uma função censória fundamen- tal para estabelecer o equilíbrio dum lugar. É verdade que o ser humano deve intervir quando um geosistema cai em estado crítico, mas hoje o nível de intervenção humana numa realidade tão complexa como a natureza é tal, que os desas- tres constantes causados pelo ser humano pro-
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vocam uma nova intervenção dele de modo que a actividade humana torna-se omnipresente, com todos os riscos que isto implica. Normalmente cria-se um círculo vicioso, no qual a intervenção humana, para resolver uma dificuldade, muitas vezes ainda agrava mais a situação. Por exemplo, muitos pássaros e insectos, que desaparecem por causa dos agro-tóxicos criados pela tecnologia, são úteis para a própria agricultura, e o seu de- saparecimento deverá ser compensado por outra intervenção tecnológica que possivelmente trará novos efeitos nocivos. São louváveis e, às vezes, admiráveis os esforços de cientistas e técnicos que procuram dar solução aos problemas criados pelo ser humano. Mas, contemplando o mundo, damo-nos conta de que este nível de interven- ção humana, muitas vezes ao serviço da finança e do consumismo, faz com que esta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta, enquanto ao mesmo tempo o desenvolvimento da tecnologia e das ofertas de consumo continua a avançar sem limites. Assim, parece que nos iludimos de poder substituir uma beleza insuprível e irrecuperável por outra criada por nós.
35. Quando se analisa o impacto ambiental de qualquer iniciativa económica, costuma-se olhar para os seus efeitos no solo, na água e no ar, mas nem sempre se inclui um estudo cuidadoso do impacto na biodiversidade, como se a perda de al- gumas espécies ou de grupos animais ou vegetais
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fosse algo de pouca relevância. As estradas, os novos cultivos, as reservas, as barragens e outras construções vão tomando posse dos habitats e, por vezes, fragmentam-nos de tal maneira que as populações de animais já não podem migrar nem mover-se livremente, pelo que algumas espécies correm o risco de extinção. Existem alternati- vas que, pelo menos, mitigam o impacto destas obras, como a criação de corredores biológicos, mas são poucos os países em que se adverte este cuidado e prevenção. Quando se explora comer- cialmente algumas espécies, nem sempre se estu- da a sua modalidade de crescimento para evitar a sua diminuição excessiva e consequente desequi- líbrio do ecossistema.
36. O cuidado dos ecossistemas requer uma perspectiva que se estenda para além do imedia- to, porque, quando se busca apenas um ganho económico rápido e fácil, já ninguém se importa realmente com a sua preservação. Mas o custo dos danos provocados pela negligência egoísta é muitíssimo maior do que o benefício económico que se possa obter. No caso da perda ou dano grave dalgumas espécies, fala-se de valores que excedem todo e qualquer cálculo. Por isso, pode- mos ser testemunhas mudas de gravíssimas desi- gualdades, quando se pretende obter benefícios significativos, fazendo pagar ao resto da huma- nidade, presente e futura, os altíssimos custos da degradação ambiental.
37. Alguns países fizeram progressos na con- servação eficaz de certos lugares e áreas – na terra
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e nos oceanos –, proibindo aí toda a intervenção humana que possa modificar a sua fisionomia ou alterar a sua constituição original. No cuida- do da biodiversidade, os especialistas insistem na necessidade de prestar uma especial atenção às áreas mais ricas em variedade de espécies, em es- pécies endémicas, raras ou com menor grau de efectiva protecção. Há lugares que requerem um cuidado particular pela sua enorme importância para o ecossistema mundial, ou que constituem significativas reservas de água assegurando assim outras formas de vida.
38. Mencionemos, por exemplo, os pulmões do planeta repletos de biodiversidade que são a Amazónia e a bacia fluvial do Congo, ou os gran- des lençóis freáticos e os glaciares. A importância destes lugares para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar. Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade, quase impossível de conhecer completamente, mas quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos. Todavia, ao falar sobre estes lugares, impõe-se um delicado equilíbrio, porque não é possível ignorar também os enormes interesses económicos internacio- nais que, a pretexto de cuidar deles, podem aten- tar contra as soberanias nacionais. Com efeito, há « propostas de internacionalização da Amazó- nia que só servem aos interesses económicos das
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corporações internacionais ».24 É louvável a tare- fa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegá- vel de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais.
39. Habitualmente também não se faz objecto de adequada análise a substituição da flora silves- tre por áreas florestais com árvores, que geral- mente são monoculturas. É que pode afectar gra- vemente uma biodiversidade que não é albergada pelas novas espécies que se implantam. Também as zonas húmidas, que são transformadas em ter- renos agrícolas, perdem a enorme biodiversidade que abrigavam. É preocupante, nalgumas áreas costeiras, o desaparecimento dos ecossistemas constituídos por manguezais.
40. Os oceanos contêm não só a maior parte da água do planeta, mas também a maior parte da vasta variedade dos seres vivos, muitos de- les ainda desconhecidos para nós e ameaçados por diversas causas. Além disso, a vida nos rios, lagos, mares e oceanos, que nutre grande parte da população mundial, é afectada pela extracção
24 v ConferênCia geral do ePisCoPado latino-Ame- riCano e do CariBe, Documento de Aparecida (29 de Junho de 2007), 86.
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descontrolada dos recursos ictíicos, que provo- ca drásticas diminuições dalgumas espécies. E no entanto continuam a desenvolver-se modali- dades selectivas de pesca, que descartam grande parte das espécies apanhadas. Particularmente ameaçados estão organismos marinhos que não temos em consideração, como certas formas de plâncton que constituem um componente muito importante da cadeia alimentar marinha e de que dependem, em última instância, espécies que se utilizam para a alimentação humana.
41. Passando aos mares tropicais e subtropi- cais, encontramos os recifes de coral, que equi- valem às grandes florestas da terra firme, porque abrigam cerca de um milhão de espécies, incluin- do peixes, caranguejos, moluscos, esponjas, algas e outras. Hoje, muitos dos recifes de coral no mundo já são estéreis ou encontram-se num esta- do contínuo de declínio: «Quem transformou o maravilhoso mundo marinho em cemitérios su- baquáticos despojados de vida e de cor? »25 Este fenómeno deve-se, em grande parte, à poluição que chega ao mar resultante do desflorestamen- to, das monoculturas agrícolas, das descargas industriais e de métodos de pesca destrutivos, nomeadamente os que utilizam cianeto e dina- mite. É agravado pelo aumento da temperatura dos oceanos. Tudo isso nos ajuda a compreen-
25 ConferênCia dos BisPos CatóliCos das filiPinas, Carta pastoral What is Happening to our Beautiful Land? (29 de Janeiro de 1988).
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der como qualquer acção sobre a natureza pode ter consequências que não advertimos à primeira vista e como certas formas de exploração de re- cursos se obtêm à custa duma degradação que acaba por chegar até ao fundo dos oceanos.
42. É preciso investir muito mais na pesquisa para se entender melhor o comportamento dos ecossistemas e analisar adequadamente as dife- rentes variáveis de impacto de qualquer modifi- cação importante do meio ambiente. Visto que todas as criaturas estão interligadas, deve ser re- conhecido com carinho e admiração o valor de cada uma, e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros. Cada território detém uma par- te de responsabilidade no cuidado desta família, pelo que deve fazer um inventário cuidadoso das espécies que alberga a fim de desenvolver pro- gramas e estratégias de protecção, cuidando com particular solicitude das espécies em vias de ex- tinção.
4. deterioração da qualidade de vida humana e degradação soCial
43. Tendo em conta que o ser humano tam- bém é uma criatura deste mundo, que tem direito a viver e ser feliz e, além disso, possui uma digni- dade especial, não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo actual de desenvolvimento e da cultura do des- carte sobre a vida das pessoas.
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44. Nota-se hoje, por exemplo, o crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que se tornaram pouco saudáveis para viver, de- vido não só à poluição proveniente de emissões tóxicas mas também ao caos urbano, aos proble- mas de transporte e à poluição visiva e acústica. Muitas cidades são grandes estruturas que não funcionam, gastando energia e água em excesso. Há bairros que, embora construídos recente- mente, apresentam-se congestionados e desor- denados, sem espaços verdes suficientes. Não é conveniente para os habitantes deste planeta vi- ver cada vez mais submersos de cimento, asfalto, vidro e metais, privados do contacto físico com a natureza.
45. Nalguns lugares, rurais e urbanos, a privati- zação dos espaços tornou difícil o acesso dos cida- dãos a áreas de especial beleza; noutros, criaram-se áreas residenciais « ecológicas » postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar que outros entrem a perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes encontra-se uma cidade bela e cheia de espaços verdes e bem cuidados nalgumas áreas « seguras », mas não em áreas menos visíveis, onde vivem os descartados da sociedade.
46. Entre os componentes sociais da mudança global, incluem-se os efeitos laborais dalgumas inovações tecnológicas, a exclusão social, a desi- gualdade no fornecimento e consumo da energia e doutros serviços, a fragmentação social, o au- mento da violência e o aparecimento de novas
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formas de agressividade social, o narcotráfico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens, a perda de identidade. São alguns sinais, entre outros, que mostram como o crescimen- to nos últimos dois séculos não significou, em todos os seus aspectos, um verdadeiro progres- so integral e uma melhoria da qualidade de vida. Alguns destes sinais são ao mesmo tempo sin- tomas duma verdadeira degradação social, duma silenciosa ruptura dos vínculos de integração e comunhão social.
47. A isto vêm juntar-se as dinâmicas dos mas- s-media e do mundo digital, que, quando se tor- nam omnipresentes, não favorecem o desenvolvi- mento duma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosida- de. Neste contexto, os grandes sábios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ruído dispersivo da informação. Isto exige de nós um esforço para que esses meios se traduzam num novo desenvolvimento cultural da humanidade, e não numa deterioração da sua riqueza mais profunda. A verdadeira sabedoria, fruto da reflexão, do diálogo e do encontro ge- neroso entre as pessoas, não se adquire com uma mera acumulação de dados, que, numa espécie de poluição mental, acabam por saturar e con- fundir. Ao mesmo tempo tendem a substituir as relações reais com os outros, com todos os desa- fios que implicam, por um tipo de comunicação mediada pela internet. Isto permite seleccionar
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ou eliminar a nosso arbítrio as relações e, deste modo, frequentemente gera-se um novo tipo de emoções artificiais, que têm a ver mais com dis- positivos e monitores do que com as pessoas e a natureza. Os meios actuais permitem-nos comu- nicar e partilhar conhecimentos e afectos. Mas, às vezes, também nos impedem de tomar contacto directo com a angústia, a trepidação, a alegria do outro e com a complexidade da sua experiência pessoal. Por isso, não deveria surpreender-nos o facto de, a par da oferta sufocante destes pro- dutos, ir crescendo uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou um no- civo isolamento.
5. desigualdade Planetária
48. O ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e não podemos en- frentar adequadamente a degradação ambiental, se não prestarmos atenção às causas que têm a ver com a degradação humana e social. De facto, a deterioração do meio ambiente e a da socie- dade afectam de modo especial os mais frágeis do planeta: « Tanto a experiência comum da vida quotidiana como a investigação científica de- monstram que os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres ».26 Por exemplo, o esgotamento das reservas ictíicas prejudica especialmente as pes-
26 ConferênCia ePisCoPal da Bolívia, Carta pastoral El universo, don de Dios para la vida (2012), 17.
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soas que vivem da pesca artesanal e não possuem qualquer maneira de a substituir, a poluição da água afecta particularmente os mais pobres que não têm possibilidades de comprar água engar- rafada, e a elevação do nível do mar afecta prin- cipalmente as populações costeiras mais pobres que não têm para onde se transferir. O impacto dos desequilíbrios actuais manifesta-se também na morte prematura de muitos pobres, nos con- flitos gerados pela falta de recursos e em muitos outros problemas que não têm espaço suficiente nas agendas mundiais.27
49. Gostaria de assinalar que muitas vezes falta uma consciência clara dos problemas que afectam particularmente os excluídos. Estes são a maioria do planeta, milhares de milhões de pessoas. Hoje são mencionados nos debates políticos e econó- micos internacionais, mas com frequência parece que os seus problemas se coloquem como um apêndice, como uma questão que se acrescenta quase por obrigação ou perifericamente, quan- do não são considerados meros danos colaterais. Com efeito, na hora da implementação concreta, permanecem frequentemente no último lugar. Isto deve-se, em parte, ao facto de que muitos profissionais, formadores de opinião, meios de comunicação e centros de poder estão localiza- dos longe deles, em áreas urbanas isoladas, sem ter contacto directo com os seus problemas. Vi-
27 Cf.ConferênCiaePisCoPalalemã–ComissãoParaa Pastoral soCial, Der Klimawandel: Brennpunkt globaler, intergenera- tioneller und ökologischer Gerechtigkeit (Setembro de 2006), 28-30.
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vem e reflectem a partir da comodidade dum de- senvolvimento e duma qualidade de vida que não está ao alcance da maioria da população mun- dial. Esta falta de contacto físico e de encontro, às vezes favorecida pela fragmentação das nossas cidades, ajuda a cauterizar a consciência e a igno- rar parte da realidade em análises tendenciosas. Isto, às vezes, coexiste com um discurso « verde ». Mas, hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.
50. Em vez de resolver os problemas dos po- bres e pensar num mundo diferente, alguns limi- tam-se a propor uma redução da natalidade. Não faltam pressões internacionais sobre os países em vias de desenvolvimento, que condicionam as ajudas económicas a determinadas políticas de «saúde reprodutiva». Mas, «se é verdade que a desigual distribuição da população e dos recursos disponíveis cria obstáculos ao desenvolvimento e ao uso sustentável do ambiente, deve-se reco- nhecer que o crescimento demográfico é ple- namente compatível com um desenvolvimento integral e solidário».28 Culpar o incremento de- mográfico em vez do consumismo exacerbado e selectivo de alguns é uma forma de não enfren- tar os problemas. Pretende-se, assim, legitimar o
28 PontifíCio Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 483.
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modelo distributivo actual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa pro- porção que seria impossível generalizar, porque o planeta não poderia sequer conter os resíduos de tal consumo. Além disso, sabemos que se des- perdiça aproximadamente um terço dos alimen- tos produzidos, e « a comida que se desperdiça é como se fosse roubada da mesa do pobre ».29 Em todo o caso, é verdade que devemos prestar aten- ção ao desequilíbrio na distribuição da população pelo território, tanto a nível nacional como a nível mundial, porque o aumento do consumo levaria a situações regionais complexas pelas combina- ções de problemas ligados à poluição ambiental, ao transporte, ao tratamento de resíduos, à perda de recursos, à qualidade de vida.
51. A desigualdade não afecta apenas os indiví- duos mas países inteiros, e obriga a pensar numa ética das relações internacionais. Com efeito, há uma verdadeira «dívida ecológica», particular- mente entre o Norte e o Sul, ligada a desequilí- brios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso desproporcionado dos recursos naturais efectuado historicamente por alguns países. As exportações de algumas maté- rias-primas para satisfazer os mercados no Norte industrializado produziram danos locais, como, por exemplo, a contaminação com mercúrio na extracção minerária do ouro ou com o dióxido
29 franCisCo, Catequese (5 de Junho de 2013): Insegnamenti 1/1 (2013), 280; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 9/ VI/2013), 16.
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de enxofre na do cobre. De modo especial é pre- ciso calcular o espaço ambiental de todo o pla- neta usado para depositar resíduos gasosos que se foram acumulando ao longo de dois séculos e criaram uma situação que agora afecta todos os países do mundo. O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra, especialmente na África, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efei- tos desastrosos no rendimento das cultivações. A isto acrescentam-se os danos causados pela exportação de resíduos sólidos e líquidos tóxi- cos para os países em vias de desenvolvimento e pela actividade poluente de empresas que fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital: «Constatamos frequentemente que as empresas que assim procedem são multinacionais, que fa- zem aqui o que não lhes é permitido em países desenvolvidos ou do chamado primeiro mundo. Geralmente, quando cessam as suas actividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento dalgumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultu- ra e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode sustentar ».30
30 BisPos da região da Patagónia-Comahue (argenti- na), Mensaje de Navidad (Dezembro de 2009), 2.
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52. A dívida externa dos países pobres trans- formou-se num instrumento de controle, mas não se dá o mesmo com a dívida ecológica. De várias maneiras os povos em vias de desenvolvi- mento, onde se encontram as reservas mais im- portantes da biosfera, continuam a alimentar o progresso dos países mais ricos à custa do seu presente e do seu futuro. A terra dos pobres do Sul é rica e pouco contaminada, mas o acesso à propriedade de bens e recursos para satisfazerem as suas carências vitais é-lhes vedado por um sis- tema de relações comerciais e de propriedade es- truturalmente perverso. É necessário que os paí- ses desenvolvidos contribuam para resolver esta dívida, limitando significativamente o consumo de energia não renovável e fornecendo recursos aos países mais necessitados para promover po- líticas e programas de desenvolvimento sustentá- vel. As regiões e os países mais pobres têm me- nos possibilidade de adoptar novos modelos de redução do impacto ambiental, porque não têm a preparação para desenvolver os processos ne- cessários nem podem cobrir os seus custos. Por isso, deve-se manter claramente a consciência de que a mudança climática tem responsabilidades di- versificadas e, como disseram os bispos dos Esta- dos Unidos, é oportuno concentrar-se « especial- mente sobre as necessidades dos pobres, fracos e vulneráveis, num debate muitas vezes dominado pelos interesses mais poderosos ».31 É preciso re-
31 ConferênCia dos BisPos CatóliCos dos estados unidos da amériCa, Global Climate Change: A Plea for Dialogue, Prudence and the Common Good (15 de Junho de 2001).
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vigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença.
6. a fraqueza das reaCções
53. Estas situações provocam os gemidos da irmã terra, que se unem aos gemidos dos aban- donados do mundo, com um lamento que re- clama de nós outro rumo. Nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos. Mas somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corres- ponda ao seu projecto de paz, beleza e plenitude. O problema é que não dispomos ainda da cultura necessária para enfrentar esta crise e há necessida- de de construir lideranças que tracem caminhos, procurando dar resposta às necessidades das ge- rações actuais, todos incluídos, sem prejudicar as gerações futuras. Torna-se indispensável criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a protecção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradig- ma tecno-económico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a liberdade e a justiça.
54. Preocupa a fraqueza da reacção política in- ternacional. A submissão da política à tecnologia e à finança demonstra-se na falência das cimeiras
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mundiais sobre o meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse económico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afectados os seus projectos. Nesta linha, o Documento de Aparecida pede que, «nas interven- ções sobre os recursos naturais, não predomi- nem os interesses de grupos económicos que arrasam irracionalmente as fontes da vida».32 A aliança entre economia e tecnologia acaba por deixar de fora tudo o que não faz parte dos seus interesses imediatos. Deste modo, poder-se-á es- perar apenas algumas proclamações superficiais, acções filantrópicas isoladas e ainda esforços por mostrar sensibilidade para com o meio ambiente, enquanto, na realidade, qualquer tentativa das or- ganizações sociais para alterar as coisas será vista como um distúrbio provocado por sonhadores românticos ou como um obstáculo a superar.
55. Pouco a pouco alguns países podem mos- trar progressos significativos, o desenvolvimento de controles mais eficientes e uma luta mais sin- cera contra a corrupção. Cresceu a sensibilidade ecológica das populações, mas é ainda insuficien- te para mudar os hábitos nocivos de consumo, que não parecem diminuir; antes, expandem-se e desenvolvem-se. É o que acontece – só para dar um exemplo simples – com o crescente aumen- to do uso e intensidade dos condicionadores de
32 v ConferênCia geral do ePisCoPado latino-ame- riCano e do CariBe, Documento de Aparecida (29 de Junho de 2007), 471.
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ar: os mercados, apostando num ganho imediato, estimulam ainda mais a procura. Se alguém ob- servasse de fora a sociedade planetária, maravi- lhar-se-ia com tal comportamento que às vezes parece suicida.
56. Entretanto os poderes económicos conti- nuam a justificar o sistema mundial actual, onde predomina uma especulação e uma busca de re- ceitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade huma- na e sobre o meio ambiente. Assim se manifesta como estão intimamente ligadas a degradação ambiental e a degradação humana e ética. Muitos dirão que não têm consciência de realizar acções imorais, porque a constante distracção nos tira a coragem de advertir a realidade dum mundo limitado e finito. Por isso, hoje, «qualquer reali- dade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado diviniza- do, transformados em regra absoluta ».33
57. É previsível que, perante o esgotamento de alguns recursos, se vá criando um cenário favo- rável para novas guerras, disfarçadas sob nobres reivindicações. A guerra causa sempre danos graves ao meio ambiente e à riqueza cultural dos povos, e os riscos avolumam-se quando se pensa nas armas nucleares e nas armas biológicas. Com efeito, «não obstante haver acordos internacio-
33 franCisCo, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novem- bro de 2013), 56: AAS 105 (2013), 1043.
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nais que proíbem a guerra química, bacteriológica e biológica, subsiste o facto de continuarem nos laboratórios as pesquisas para o desenvolvimen- to de novas armas ofensivas, capazes de alterar os equilíbrios naturais ».34 Exige-se da política uma maior atenção para prevenir e resolver as causas que podem dar origem a novos conflitos. Entre- tanto o poder, ligado com a finança, é o que maior resistência põe a tal esforço, e os projectos políti- cos carecem muitas vezes de amplitude de hori- zonte. Para que se quer preservar hoje um poder que será recordado pela sua incapacidade de inter- vir quando era urgente e necessário fazê-lo?
58. Nalguns países, há exemplos positivos de resultados na melhoria do ambiente, tais como o saneamento de alguns rios que foram poluí- dos durante muitas décadas, a recuperação de florestas nativas, o embelezamento de paisagens com obras de saneamento ambiental, projectos de edifícios de grande valor estético, progressos na produção de energia limpa, na melhoria dos transportes públicos. Estas acções não resolvem os problemas globais, mas confirmam que o ser humano ainda é capaz de intervir de forma po- sitiva. Como foi criado para amar, no meio dos seus limites germinam inevitavelmente gestos de generosidade, solidariedade e desvelo.
59. Ao mesmo tempo cresce uma ecologia superficial ou aparente que consolida um certo
34 João Paulo ii, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 12: AAS 82 (1990), 154.
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torpor e uma alegre irresponsabilidade. Como frequentemente acontece em épocas de cri- ses profundas, que exigem decisões corajosas, somos tentados a pensar que aquilo que está a acontecer não é verdade. Se nos detivermos na superfície, para além de alguns sinais visíveis de poluição e degradação, parece que as coisas não estejam assim tão graves e que o planeta poderia subsistir ainda por muito tempo nas condições actuais. Este comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produção e consumo. É a forma como o ser hu- mano se organiza para alimentar todos os vícios autodestrutivos: tenta não os ver, luta para não os reconhecer, adia as decisões importantes, age como se nada tivesse acontecido.
7. diversidade de oPiniões
60. Finalmente reconhecemos, a propósito da situação e das possíveis soluções, que se desen- volveram diferentes perspectivas e linhas de pen- samento. Num dos extremos, alguns defendem a todo o custo o mito do progresso, afirmando que os problemas ecológicos resolver-se-ão simples- mente com novas aplicações técnicas, sem con- siderações éticas nem mudanças de fundo. No extremo oposto, outros pensam que o ser hu- mano, com qualquer uma das suas intervenções, só pode ameaçar e comprometer o ecossistema mundial, pelo que convém reduzir a sua presença no planeta e impedir-lhe todo o tipo de inter- venção. Entre estes extremos, a reflexão deveria identificar possíveis cenários futuros, porque não
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existe só um caminho de solução. Isto deixaria espaço para uma variedade de contribuições que poderiam entrar em diálogo a fim de se chegar a respostas abrangentes.
61. Sobre muitas questões concretas, a Igreja não tem motivo para propor uma palavra defi- nitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opiniões. Basta, porém, olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum. A es- perança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resol- ver os problemas. Todavia parece notar-se sin- tomas dum ponto de ruptura, por causa da alta velocidade das mudanças e da degradação, que se manifestam tanto em catástrofes naturais regio- nais como em crises sociais ou mesmo financei- ras, uma vez que os problemas do mundo não se podem analisar nem explicar de forma isolada. Há regiões que já se encontram particularmente em risco e, prescindindo de qualquer previsão ca- tastrófica, o certo é que o actual sistema mundial é insustentável a partir de vários pontos de vista, porque deixamos de pensar nas finalidades da ac- ção humana: «Se o olhar percorre as regiões do nosso planeta, apercebemo-nos depressa de que a humanidade frustrou a expectativa divina ».35
35 Idem, Catequese (17 de Janeiro de 2001), 3: Insegnamen- ti 24/1 (2001), 178; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 20/I/2001), 8.
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CAPÍTULO II
O EVANGELHO DA CRIAÇÃO
62. Por que motivo incluir, neste documento dirigido a todas as pessoas de boa vontade, um capítulo referido às convicções de fé? Não igno- ro que alguns, no campo da política e do pen- samento, rejeitam decididamente a ideia de um Criador ou consideram-na irrelevante, chegando ao ponto de relegar para o reino do irracional a riqueza que as religiões possam oferecer para uma ecologia integral e o pleno desenvolvimento do género humano; outras vezes, supõe-se que elas constituam uma subcultura, que se deve sim- plesmente tolerar. Todavia a ciência e a religião, que fornecem diferentes abordagens da realida- de, podem entrar num diálogo intenso e frutuoso para ambas.
1. a luz que a fé ofereCe
63. Se tivermos presente a complexidade da crise ecológica e as suas múltiplas causas, deve- remos reconhecer que as soluções não podem vir duma única maneira de interpretar e transfor- mar a realidade. É necessário recorrer também às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade. Se qui-
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sermos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruí- do, então nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada, nem sequer a sabedoria religiosa com a sua linguagem própria. Além disso, a Igreja Católica está aberta ao diálogo com o pensamento filosófico, o que lhe permite produzir várias sínteses entre fé e ra- zão. No que diz respeito às questões sociais, po- de-se constatar isto mesmo no desenvolvimento da doutrina social da Igreja, chamada a enrique- cer-se cada vez mais a partir dos novos desafios.
64. Por outro lado, embora esta encíclica se abra a um diálogo com todos para, juntos, bus- carmos caminhos de libertação, quero mostrar desde o início como as convicções da fé ofere- cem aos cristãos – e, em parte, também a outros crentes – motivações altas para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis. Se pelo simples facto de ser humanas, as pessoas se sentem mo- vidas a cuidar do ambiente de que fazem parte, «os cristãos, em particular, advertem que a sua tarefa no seio da criação e os seus deveres em re- lação à natureza e ao Criador fazem parte da sua fé ».36 Por isso é bom, para a humanidade e para o mundo, que nós, crentes, conheçamos melhor os compromissos ecológicos que brotam das nossas convicções.
36 João Paulo ii, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 15: AAS 82 (1990), 156.
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2. a saBedoria das narrações BíBliCas
65. Sem repropor aqui toda a teologia da Cria- ção, queremos saber o que nos dizem as gran- des narrações bíblicas sobre a relação do ser hu- mano com o mundo. Na primeira narração da obra criadora, no livro do Génesis, o plano de Deus inclui a criação da humanidade. Depois da criação do homem e da mulher, diz-se que « Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa » (Gn 1, 31). A Bíblia ensina que cada ser humano é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26). Esta afirmação mostra- -nos a imensa dignidade de cada pessoa humana, que «não é somente alguma coisa, mas alguém. É capaz de se conhecer, de se possuir e de livre- mente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas».37 São João Paulo II recordou que o amor muito especial que o Criador tem por cada ser humano «confere-lhe uma dignidade infini- ta».38 Todos aqueles que estão empenhados na defesa da dignidade das pessoas podem encon- trar, na fé cristã, as razões mais profundas para tal compromisso. Como é maravilhosa a certeza de que a vida de cada pessoa não se perde num caos desesperador, num mundo regido pelo puro acaso ou por ciclos que se repetem sem sentido! O Criador pode dizer a cada um de nós: « Antes
  1. 37  Catecismo da Igreja Católica, 357.
  2. 38  Angelus com os inválidos, Osnabrük / Alemanha (16 de
Novembro de 1980): Insegnamenti 3/2 (1980), 1232; L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 23/XI/1980), 20.
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de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia » (Jr 1, 5). Fomos concebidos no co- ração de Deus e, por isso, «cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário ».39
66. As narrações da criação no livro do Génesis contêm, na sua linguagem simbólica e narrativa, ensinamentos profundos sobre a existência hu- mana e a sua realidade histórica. Estas narrações sugerem que a existência humana se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas tam- bém dentro de nós. Esta ruptura é o pecado. A harmonia entre o Criador, a humanidade e toda a criação foi destruída por termos pretendido ocu- par o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas. Este facto distorceu também a natureza do mandato de «dominar» a terra (cf. Gn 1, 28) e de a «cultivar e guardar» (cf. Gn 2, 15). Como resultado, a relação origi- nariamente harmoniosa entre o ser humano e a natureza transformou-se num conflito (cf. Gn 3, 17-19). Por isso, é significativo que a harmonia vivida por São Francisco de Assis com todas as criaturas tenha sido interpretada como uma sana-
39 Bento Xvi, Homilia no início solene do Ministério Petrino (24 de Abril de 2005): AAS 97 (2005), 711; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 30/IV/2015), 5.
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ção daquela ruptura. Dizia São Boaventura que, através da reconciliação universal com todas as criaturas, Francisco voltara de alguma forma ao estado de inocência original.40 Longe deste mo- delo, o pecado manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição, nas guerras, nas várias for- mas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza.
67. Não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada. Isto permite responder a uma acusação lançada contra o pensamento ju- daico-cristão: foi dito que a narração do Génesis, que convida a «dominar» a terra (cf. Gn 1, 28), favoreceria a exploração selvagem da natureza, apresentando uma imagem do ser humano como dominador e devastador. Mas esta não é uma in- terpretação correcta da Bíblia, como a entende a Igreja. Se é verdade que nós, cristãos, algumas ve- zes interpretámos de forma incorrecta as Escritu- ras, hoje devemos decididamente rejeitar que, do facto de ser criados à imagem de Deus e do man- dato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre as outras criaturas. É importante ler os textos bíblicos no seu contexto, com uma justa hermenêutica, e lembrar que nos convidam a «cultivar e guardar» o jardim do mundo (cf. Gn 2, 15). Enquanto «cultivar» quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, « guardar » significa pro- teger, cuidar, preservar, velar. Isto implica uma
40 Cf. Legenda Maior, VIII, 1: Fonti Francescane, 1134.
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relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. Cada comunidade pode to- mar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o de- ver de a proteger e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras. Em última análise, «ao Senhor pertence a terra» (Sl 24/23, 1), a Ele pertence « a terra e tudo o que nela exis- te» (Dt 10, 14). Por isso, Deus proíbe-nos toda a pretensão de posse absoluta: «Nenhuma terra será vendida definitivamente, porque a terra per- tence-Me, e vós sois apenas estrangeiros e meus hóspedes » (Lv 25, 23).
68. Esta responsabilidade perante uma terra que é de Deus implica que o ser humano, dotado de inteligência, respeite as leis da natureza e os delicados equilíbrios entre os seres deste mundo, porque «Ele deu uma ordem e tudo foi criado; Ele fixou tudo pelos séculos sem fim e estabele- ceu leis a que não se pode fugir! » (Sl 148, 5b-6). Consequentemente, a legislação bíblica detém-se a propor ao ser humano várias normas relativas não só às outras pessoas, mas também aos res- tantes seres vivos: «Se vires o jumento do teu irmão ou o seu boi caídos no caminho, não te desvies deles, mas ajuda-os a levantarem-se. (...) Se encontrares no caminho, em cima de uma ár- vore ou no chão, um ninho de pássaros com fi- lhotes, ou ovos cobertos pela mãe, não apanharás a mãe com a ninhada » (Dt 22, 4.6). Nesta linha, o descanso do sétimo dia não é proposto só para o
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ser humano, mas « para que descansem o teu boi e o teu jumento » (Ex 23, 12). Assim nos damos conta de que a Bíblia não dá lugar a um antro- pocentrismo despótico, que se desinteressa das outras criaturas.
69. Ao mesmo tempo que podemos fazer um uso responsável das coisas, somos chamados a reconhecer que os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus e, «pelo simples facto de existirem, eles O bendizem e Lhe dão glória»41, porque «o Senhor Se alegra em suas obras» (Sl 104/103, 31). Precisamente pela sua dignidade única e por ser dotado de inteligência, o ser humano é chamado a respeitar a criação com as suas leis internas, já que «o Senhor fun- dou a terra com sabedoria» (Pr 3, 19). Hoje, a Igreja não diz, de forma simplicista, que as ou- tras criaturas estão totalmente subordinadas ao bem do ser humano, como se não tivessem um valor em si mesmas e fosse possível dispor delas à nossa vontade; mas ensina – como fizeram os bispos da Alemanha – que, nas outras criaturas, « se poderia falar da prioridade do ser sobre o ser úteis».42 O Catecismo põe em questão, de forma muito directa e insistente, um antropocentrismo desordenado: «Cada criatura possui a sua bon- dade e perfeição próprias. (...) As diferentes cria-
  1. 41  Catecismo da Igreja Católica, 2416.
  2. 42  ConferênCia ePisCoPal alemã, Zukunft der Schöpfung –
Zukunft der Menschheit. Erklärung der Deutschen Bischofskonferenz zu Fragen der Umwelt und der Energieversorgung (1980), II, 2.
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turas, queridas pelo seu próprio ser, reflectem, cada qual a seu modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus. É por isso que o homem deve respeitar a bondade própria de cada criatura, para evitar o uso desordenado das coisas ».43
70. Na narração de Caim e Abel, vemos que a inveja levou Caim a cometer a injustiça extrema contra o seu irmão. Isto, por sua vez, provocou uma ruptura da relação entre Caim e Deus e en- tre Caim e a terra, da qual foi exilado. Esta pas- sagem aparece sintetizada no dramático colóquio de Deus com Caim. Deus pergunta: « Onde está o teu irmão Abel? » Caim responde que não sabe, e Deus insiste com ele: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim. De futuro, serás amaldiçoado pela terra (...). Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra » (Gn 4, 9-12). O descuido no compromisso de cultivar e man- ter um correcto relacionamento com o próximo, relativamente a quem sou devedor da minha so- licitude e custódia, destrói o relacionamento in- terior comigo mesmo, com os outros, com Deus e com a terra. Quando todas estas relações são negligenciadas, quando a justiça deixa de habitar na terra, a Bíblia diz-nos que toda a vida está em perigo. Assim no-lo ensina a narração de Noé, quando Deus ameaça acabar com a humanidade pela sua persistente incapacidade de viver à altura
43 Catecismo da Igreja Católica, 339. 56
das exigências da justiça e da paz: « O fim de toda a humanidade chegou diante de Mim, pois ela encheu a terra de violência» (Gn 6, 13). Nestas narrações tão antigas, ricas de profundo simbo- lismo, já estava contida a convicção actual de que tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros.
71. Embora Deus reconhecesse que « a malda- de dos homens era grande na terra» (Gn 6, 5), « arrependendo-Se de ter criado o homem sobre a terra » (Gn 6, 6), Ele decidiu abrir um caminho de salvação através de Noé, que ainda se man- tinha íntegro e justo. Assim deu à humanidade a possibilidade de um novo início. Basta um ho- mem bom para haver esperança! A tradição bí- blica estabelece claramente que esta reabilitação implica a redescoberta e o respeito dos ritmos inscritos na natureza pela mão do Criador. Isto está patente, por exemplo, na lei do Shabbath. No sétimo dia, Deus descansou de todas as suas obras. Deus ordenou a Israel que cada sétimo dia devia ser celebrado como um dia de descanso, um Shabbath (cf. Gn 2, 2-3; Ex 16, 23; 20, 10). Além disso, de sete em sete anos, instaurou-se também um ano sabático para Israel e a sua terra (cf. Lv 25,1-4), durante o qual se dava descanso completo à terra, não se semeava e só se colhia o indispensável para sobreviver e oferecer hos- pitalidade (cf. Lv 25, 4-6). Por fim, passadas sete semanas de anos, ou seja quarenta e nove anos, ce-
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lebrava-se o jubileu, um ano de perdão universal, « proclamando na vossa terra a liberdade de todos os que a habitam » (Lv 25, 10). O desenvolvimento desta legislação procurou assegurar o equilíbrio e a equidade nas relações do ser humano com os outros e com a terra onde vivia e trabalhava. Mas, ao mesmo tempo, era um reconhecimento de que a dádiva da terra com os seus frutos pertence a todo o povo. Aqueles que cultivavam e guardavam o território deviam partilhar os seus frutos, espe- cialmente com os pobres, as viúvas, os órfãos e os estrangeiros: « Quando procederes à ceifa das vos- sas terras, não ceifarás as espigas até à extremidade do campo, e não apanharás as espigas caídas. Não rebuscarás também a tua vinha, e não apanharás os bagos caídos. Deixá-los-ás para o pobre e para o estrangeiro » (Lv 19, 9-10).
72. Os Salmos convidam, frequentemente, o ser humano a louvar a Deus criador: « Estendeu a terra sobre as águas, porque o seu amor é eterno » (Sl 136/135, 6). E convidam também as outras criaturas a louvá-Lo: «Louvai-O, sol e lua; lou- vai-O, estrelas luminosas! Louvai-O, alturas dos céus e águas que estais acima dos céus! Louvem todos o nome do Senhor, porque Ele deu uma ordem e tudo foi criado » (Sl 148, 3-5). Existimos não só pelo poder de Deus, mas também na sua presença e companhia. Por isso O adoramos.
73. Os escritos dos profetas convidam a re- cuperar forças, nos momentos difíceis, contem- plando a Deus poderoso que criou o universo. O poder infinito de Deus não nos leva a escapar da
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sua ternura paterna, porque n’Ele se conjugam o carinho e a força. Na verdade, toda a sã espiritua- lidade implica simultaneamente acolher o amor divino e adorar, com confiança, o Senhor pelo seu poder infinito. Na Bíblia, o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo, e estes dois mo- dos de agir divino estão íntima e inseparavelmente ligados: « Ah! Senhor Deus, foste Tu que fizeste o céu e a terra com o teu grande poder e o teu braço estendido! Para Ti, nada é impossível! (...) Tu fizes- te sair do Egipto o teu povo, Israel, com prodígios e milagres» (Jr 32, 17.21). «O Senhor é um Deus eterno, que criou os confins da terra. Não se cansa nem perde as forças. É insondável a sua sabedoria. Ele dá forças ao cansado e enche de vigor o fraco » (Is 40, 28b-29).
74. A experiência do cativeiro em Babilónia ge- rou uma crise espiritual que levou a um aprofun- damento da fé em Deus, explicitando a sua omni- potência criadora, para animar o povo a recuperar a esperança no meio da sua situação infeliz. Sécu- los mais tarde, noutro momento de prova e per- seguição, quando o Império Romano procurou impor um domínio absoluto, os fiéis voltaram a encontrar consolação e esperança aumentando a sua confiança em Deus omnipotente, e cantavam: «Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus todo-poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos!» (Ap 15, 3). Se Deus pôde criar o universo a partir do nada, também pode intervir neste mundo e vencer qualquer forma de mal. Por isso, a injustiça não é invencível.
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75. Não podemos defender uma espiritualida- de que esqueça Deus todo-poderoso e criador. Neste caso, acabaríamos por adorar outros po- deres do mundo, ou colocar-nos-íamos no lugar do Senhor chegando à pretensão de espezinhar sem limites a realidade criada por Ele. A melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador ab- soluto da terra, é voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo; caso contrá- rio, o ser humano tenderá sempre a querer impor à realidade as suas próprias leis e interesses.
3. o mistério do universo
76. Na tradição judaico-cristã, dizer «criação» é mais do que dizer natureza, porque tem a ver com um projecto do amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e um significado. A natu- reza entende-se habitualmente como um sistema que se analisa, compreende e gere, mas a criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma reali- dade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal.
77. « A palavra do Senhor criou os céus » (Sl 33/32, 6). Deste modo indica-se que o mundo procede, não do caos nem do acaso, mas duma decisão, o que o exalta ainda mais. Há uma opção livre, ex- pressa na palavra criadora. O universo não apare- ceu como resultado duma omnipotência arbitrá- ria, duma demonstração de força ou dum desejo
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de auto-afirmação. A criação pertence à ordem do amor. O amor de Deus é a razão fundamental de toda a criação: « Tu amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste; pois, se odiasses alguma coisa, não a terias criado» (Sab 11, 24). Então cada criatura é objecto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo. Até a vida efémera do ser mais insignificante é objecto do seu amor e, naqueles poucos segundos de exis- tência, Ele envolve-o com o seu carinho. Dizia São Basílio Magno que o Criador é também «a bondade sem cálculos »,44 e Dante Alighieri falava do « amor que move o sol e as outras estrelas ».45 Por isso, das obras criadas pode-se subir «à sua amorosa misericórdia ».46
78. Ao mesmo tempo, o pensamento judaico- -cristão desmitificou a natureza. Sem deixar de a admirar pelo seu esplendor e imensidão, já não lhe atribui um carácter divino. Deste modo, res- salta ainda mais o nosso compromisso para com ela. Um regresso à natureza não pode ser feito à custa da liberdade e da responsabilidade do ser humano, que é parte do mundo com o dever de cultivar as próprias capacidades para o proteger e desenvolver as suas potencialidades. Se reconhe- cermos o valor e a fragilidade da natureza e, ao
  1. 44  Hom. in Hexaemeron, 1, 2, 10: PG 29, 9.
  2. 45  Divina Commedia. Paradiso, Canto XXXIII, 145.
46 Bento Xvi, Catequese (9 de Novembro de 2005), 3:
Insegnamenti 1 (2005), 768; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 12/XI/2005), 24.
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mesmo tempo, as capacidades que o Criador nos deu, isto permite-nos acabar hoje com o mito moderno do progresso material ilimitado. Um mundo frágil, com um ser humano a quem Deus confia o cuidado do mesmo, interpela a nossa inteligência para reconhecer como deveremos orientar, cultivar e limitar o nosso poder.
79. Neste universo, composto por sistemas abertos que entram em comunicação uns com os outros, podemos descobrir inumeráveis formas de relação e participação. Isto leva-nos também a pensar o todo como aberto à transcendência de Deus, dentro da qual se desenvolve. A fé permi- te-nos interpretar o significado e a beleza miste- riosa do que acontece. A liberdade humana pode prestar a sua contribuição inteligente para uma evolução positiva, como pode também acrescen- tar novos males, novas causas de sofrimento e verdadeiros atrasos. Isto dá lugar à apaixonante e dramática história humana, capaz de transfor- mar-se num desabrochamento de libertação, en- grandecimento, salvação e amor, ou, pelo contrá- rio, num percurso de declínio e mútua destruição. Por isso a Igreja, com a sua acção, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza, mas também e « sobretudo proteger o homem da des- truição de si mesmo ».47
80. Apesar disso, Deus, que deseja actuar con- nosco e contar com a nossa cooperação, é capaz
47 idem, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 51: AAS 101 (2009), 687.
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também de tirar algo de bom dos males que pra- ticamos, porque «o Espírito Santo possui uma inventiva infinita, própria da mente divina, que sabe prover a desfazer os nós das vicissitudes humanas mais complexas e impenetráveis ».48 De certa maneira, quis limitar-Se a Si mesmo, crian- do um mundo necessitado de desenvolvimento, onde muitas coisas que consideramos males, pe- rigos ou fontes de sofrimento, na realidade fa- zem parte das dores de parto que nos estimulam a colaborar com o Criador.49 Ele está presente no mais íntimo de cada coisa sem condicionar a au- tonomia da sua criatura, e isto dá lugar também à legítima autonomia das realidades terrenas.50 Esta presença divina, que garante a permanência e o desenvolvimento de cada ser, «é a continuação da acção criadora ».51 O Espírito de Deus encheu o universo de potencialidades que permitem que, do próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo de novo: « A natureza nada mais é do que a razão de certa arte – concretamente a arte divina – inscrita nas coisas, pela qual as próprias coisas se movem para um fim determinado. Como se o mestre construtor de navios pudesse conceder à
48 João Paulo II, Catequese (24 de Abril de 1991), 6: Inseg- namenti 14/1 (1991), 856; L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 28/IV/1991), 12.
49 O Catecismo ensina que Deus quis criar um mundo em caminho para a perfeição última, o que implica a presença da imperfeição e do mal físico: ver Catecismo da Igreja Católica, 310.
50 Cf. ConC. eCum. vat. ii, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 36.
51 tomás de Aquino, Summa theologiae I, q. 104, art. 1, ad 4. 63
madeira a possibilidade de se mover a si mesma para tomar a forma da nave ».52
81. Embora suponha também processos evo- lutivos, o ser humano implica uma novidade que não se explica cabalmente pela evolução doutros sistemas abertos. Cada um de nós tem em si uma identidade pessoal, capaz de entrar em diálogo com os outros e com o próprio Deus. A capa- cidade de reflexão, o raciocínio, a criatividade, a interpretação, a elaboração artística e outras ca- pacidades originais manifestam uma singularida- de que transcende o âmbito físico e biológico. A novidade qualitativa, implicada no aparecimento dum ser pessoal dentro do universo material, pressupõe uma acção directa de Deus, uma cha- mada peculiar à vida e à relação de um Tu com outro tu. A partir dos textos bíblicos, considera- mos o ser humano como sujeito, que nunca pode ser reduzido à categoria de objecto.
82. Mas seria errado também pensar que os outros seres vivos devam ser considerados como meros objectos submetidos ao domínio arbitrá- rio do ser humano. Quando se propõe uma visão da natureza unicamente como objecto de lucro e interesse, isso comporta graves consequências também para a sociedade. A visão que consolida o arbítrio do mais forte favoreceu imensas de- sigualdades, injustiças e violências para a maior
52 idem, In octo libros Physicorum Aristotelis expositio, lib. II, lectio 14.
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parte da humanidade, porque os recursos tor- nam-se propriedade do primeiro que chega ou de quem tem mais poder: o vencedor leva tudo. O ideal de harmonia, justiça, fraternidade e paz que Jesus propõe situa-se nos antípodas de tal modelo, como Ele mesmo Se expressou ao com- pará-lo com os poderes do seu tempo: «Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrá- rio, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo » (Mt 20, 25-26).
83. A meta do caminho do universo situa-se na plenitude de Deus, que já foi alcançada por Cristo ressuscitado, fulcro da maturação uni- versal.53 E assim juntamos mais um argumento para rejeitar todo e qualquer domínio despótico e irresponsável do ser humano sobre as outras criaturas. O fim último das restantes criaturas não somos nós. Mas todas avançam, juntamente connosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus, numa plenitude transcendente onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina. Com efeito, o ser humano, dotado de inteligência e amor e atraído pela plenitude de Cristo, é chama- do a reconduzir todas as criaturas ao seu Criador.
53 Coloca-se, nesta perspectiva, a contribuição do P. Tei- lhard de Chardin; veja-se Paulo vi, Discurso numa fábrica quími- co-farmacêutico (24 de Fevereiro de 1966): Insegnamenti 4 (1966), 992-993; João Paulo ii, Carta ao reverendo P. George V. Coyne (1 de Junho de 1988): Insegnamenti 11/2 (1988), 1715; Bento Xvi, Homilia na Celebração das Vésperas, em Aosta (24 de Julho de 2009): Insegnamenti 5/2 (2009), 60.
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4. a mensagem de Cada Criatura na harmonia de toda a Criação
84. O facto de insistir na afirmação de que o ser humano é imagem de Deus não deveria fa- zer-nos esquecer que cada criatura tem uma função e nenhuma é supérflua. Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus. A histó- ria da própria amizade com Deus desenrola-se sempre num espaço geográfico que se torna um sinal muito pessoal, e cada um de nós guarda na memória lugares cuja lembrança nos faz muito bem. Quem cresceu no meio de montes, quem na infância se sentava junto do riacho a beber, ou quem jogava numa praça do seu bairro, quando volta a esses lugares sente-se chamado a recupe- rar a sua própria identidade.
85. Deus escreveu um livro estupendo, «cujas letras são representadas pela multidão de criaturas presentes no universo».54 E justamente afirma- ram os bispos do Canadá que nenhuma criatura fica fora desta manifestação de Deus: « Desde os panoramas mais amplos às formas de vida mais frágeis, a natureza é um manancial incessante de encanto e reverência. Trata-se duma contínua revelação do divino».55 Os bispos do Japão, por
54 João Paulo ii, Catequese (30 de Janeiro de 2002), 6: Insegnamenti 25/1 (2002), 140; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 2/II/2002), 12.
55 ConferênCia ePisCoPal do Canadá - Comissão Para a Pastoral soCial, You love all that exists... All things are yours, God, Lover of Life (4 de Outubro de 2003), 1.
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sua vez, disseram algo muito sugestivo: «Sentir cada criatura que canta o hino da sua existência é viver jubilosamente no amor de Deus e na espe- rança ».56 Esta contemplação da criação permite- -nos descobrir qualquer ensinamento que Deus nos quer transmitir através de cada coisa, porque, «para o crente, contemplar a criação significa também escutar uma mensagem, ouvir uma voz paradoxal e silenciosa».57 Podemos afirmar que, «ao lado da revelação propriamente dita, conti- da nas Sagradas Escrituras, há uma manifestação divina no despontar do sol e no cair da noite ».58 Prestando atenção a esta manifestação, o ser hu- mano aprende a reconhecer-se a si mesmo na re- lação com as outras criaturas: «Eu expresso-me exprimindo o mundo; exploro a minha sacralida- de decifrando a do mundo ».59
86. O conjunto do universo, com as suas múl- tiplas relações, mostra melhor a riqueza inesgo- tável de Deus. São Tomás de Aquino sublinhava, sabiamente, que a multiplicidade e a varieda- de «provêm da intenção do primeiro agente»,
56 ConferênCia dos BisPos CatóliCos do JaPão, Reverence for Life. A Message for the Twenty-First Century (1 de Janeiro de 2001), 89.
57 João Paulo ii, Catequese (26 de Janeiro de 2000), 5: Insegnamenti 23/1 (2000), 123; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 29/I/2000), 8.
58 idem, Catequese (2 de Agosto de 2000), 3: Insegnamenti 23/2 (2000), 112; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 5/ VIII/2000), 8.
59 Paul riCoeur, Philosophie de la volonté. 2a parte: Finitude et culpabilité (Paris 2009), 216.
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o Qual quis que «o que falta a cada coisa, para representar a bondade divina, seja suprido pe- las outras»,60 pois a sua bondade «não pode ser convenientemente representada por uma só cria- tura».61 Por isso, precisamos de individuar a va- riedade das coisas nas suas múltiplas relações.62 Assim, compreende-se melhor a importância e o significado de qualquer criatura, se a contem- plarmos no conjunto do plano de Deus. Tal é o ensinamento do Catecismo: «A interdependência das criaturas é querida por Deus. O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal: o espectá- culo das suas incontáveis diversidades e desigual- dades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras ».63
87. Quando nos damos conta do reflexo de Deus em tudo o que existe, o coração experi- menta o desejo de adorar o Senhor por todas as suas criaturas e juntamente com elas, como se vê neste gracioso cântico de São Francisco de Assis:
« Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as tuas criaturas,
especialmente o meu senhor irmão sol,
o qual faz o dia e por ele nos alumia.
E ele é belo e radiante com grande esplendor:

  1. 60  Summa theologiae I, q. 47, art. 1.
  2. 61  Ibidem.
  3. 62  Cf. ibid., art. 2, ad. 1; art. 3.
  4. 63  Catecismo da Igreja Católica, 340.
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de Ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã lua e pelas estrelas,
que no céu formaste claras, preciosas e belas. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento pelo ar, pela nuvem, pelo sereno, e todo o tempo, com o qual, às tuas criaturas, dás o sustento. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,

que é tão útil e humilde, e preciosa e casta. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo qual iluminas a noite:
ele é belo e alegre, vigoroso e forte ».
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88. Os bispos do Brasil sublinharam que toda a natureza, além de manifestar Deus, é lugar da sua presença. Em cada criatura, habita o seu Espírito vivificante, que nos chama a um relacionamento com Ele.65 A descoberta desta presença estimula em nós o desenvolvimento das «virtudes ecoló- gicas ».66 Mas, quando dizemos isto, não esqueça- mos que há também uma distância infinita, pois as coisas deste mundo não possuem a plenitu- de de Deus. Esquecê-lo, aliás, também não faria bem às criaturas, porque não reconheceríamos o seu lugar verdadeiro e próprio, acabando por lhes exigir indevidamente aquilo que, na sua pe- quenez, não nos podem dar.
64 Cantico delle creature: Fonti Francescane, 263.
65 Cf. ConferênCia naCional dos BisPos do Brasil, A Igreja e a questão ecológica (1992), 53-54.
66 Ibid., 61.
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5. uma Comunhão universal
89. As criaturas deste mundo não podem ser consideradas um bem sem dono: «Todas são tuas, ó Senhor, que amas a vida» (Sab 11, 26). Isto gera a convicção de que nós e todos os se- res do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde. Quero lembrar que «Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a ex- tinção de uma espécie como se fosse uma muti- lação ».67
90. Isto não significa igualar todos os seres vi- vos e tirar ao ser humano aquele seu valor pecu- liar que, simultaneamente, implica uma tremen- da responsabilidade. Também não requer uma divinização da terra, que nos privaria da nossa vocação de colaborar com ela e proteger a sua fragilidade. Estas concepções acabariam por criar novos desequilíbrios, na tentativa de fugir da realidade que nos interpela.68 Às vezes nota- -se a obsessão de negar qualquer preeminência à pessoa humana, conduzindo-se uma luta em prol das outras espécies que não se vê na hora
67 franCisCo, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novem- bro de 2013), 215: AAS 105 (2013), 1109.
68 Cf. Bento Xvi, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Ju- nho de 2009), 14: AAS 101 (2009), 650.
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de defender igual dignidade entre os seres huma- nos. Devemos, certamente, ter a preocupação de que os outros seres vivos não sejam tratados de forma irresponsável, mas deveriam indignar-nos sobretudo as enormes desigualdades que existem entre nós, porque continuamos a tolerar que al- guns se considerem mais dignos do que outros. Deixamos de notar que alguns se arrastam numa miséria degradante, sem possibilidades reais de melhoria, enquanto outros não sabem sequer que fazer ao que têm, ostentam vaidosamente uma suposta superioridade e deixam atrás de si um nível de desperdício tal que seria impossível generalizar sem destruir o planeta. Na prática, continuamos a admitir que alguns se sintam mais humanos que outros, como se tivessem nascido com maiores direitos.
91. Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos. É evidente a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano de que não gosta. Isto compromete o sentido da luta pelo meio ambien- te. Não é por acaso que São Francisco, no cân- tico onde louva a Deus pelas criaturas, acrescen- ta o seguinte: «Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor». Tudo está interligado. Por isso, exige-se uma preocupação
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pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um compromisso constante com os problemas da sociedade.
92. Além disso, quando o coração está verdadei- ramente aberto a uma comunhão universal, nada e ninguém fica excluído desta fraternidade. Por- tanto, é verdade também que a indiferença ou a crueldade com as outras criaturas deste mundo sempre acabam de alguma forma por repercu- tir-se no tratamento que reservamos aos outros seres humanos. O coração é um só, e a própria miséria que leva a maltratar um animal não tarda a manifestar-se na relação com as outras pessoas. Todo o encarniçamento contra qualquer criatura « é contrário à dignidade humana ».69 Não pode- mos considerar-nos grandes amantes da realidade, se excluímos dos nossos interesses alguma parte dela: «Paz, justiça e conservação da criação são três questões absolutamente ligadas, que não se poderão separar, tratando-as individualmente sob pena de cair novamente no reducionismo ».70 Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, ca- minhamos juntos como irmãos e irmãs numa pe- regrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra.
  1. 69  Catecismo da Igreja Católica, 2418.
  2. 70  ConferênCia do ePisCoPado dominiCano, Carta pas-
toral Sobre la relación del hombre con la naturaleza (21 de Janeiro de 1987).
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6. o destino Comum dos Bens
93. Hoje, crentes e não-crentes estão de acor- do que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. Para os crentes, isto torna-se uma questão de fi- delidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos. Por conseguinte, toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos. O princípio da subordina- ção da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito univer- sal ao seu uso é uma « regra de ouro » do compor- tamento social e o «primeiro princípio de toda a ordem ético-social».71 A tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada, e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada. São João Paulo II lembrou esta doutrina, com grande ênfase, dizendo que «Deus deu a terra a todo o género humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém ».72 São palavras densas e fortes. Insistiu que «não seria verdadeiramente digno do homem, um tipo de desenvolvimento que não respeitasse e pro- movesse os direitos humanos, pessoais e sociais, económicos e políticos, incluindo os direitos
71 João Paulo ii, Carta enc. Laborem exercens (14 de Se- tembro de 1981), 19: AAS 73 (1981), 626.
72 Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 31: AAS 83 (1991), 831.
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das nações e dos povos».73 Com grande clareza, explicou que «a Igreja defende, sim, o legítimo direito à propriedade privada, mas ensina, com não menor clareza, que sobre toda a propriedade particular pesa sempre uma hipoteca social, para que os bens sirvam ao destino geral que Deus lhes deu».74 Por isso, afirma que «não é segun- do o desígnio de Deus gerir este dom de modo tal que os seus benefícios aproveitem só a alguns poucos».75 Isto põe seriamente em discussão os hábitos injustos duma parte da humanidade.76
94. O rico e o pobre têm igual dignidade, por- que «quem os fez a ambos foi o Senhor» (Pr 22, 2); «Ele criou o pequeno e o grande» (Sab 6, 7) e «faz com que o sol se levante sobre os bons e os maus » (Mt 5, 45). Isto tem consequências prá- ticas, como explicitaram os bispos do Paraguai: «Cada camponês tem direito natural de possuir um lote razoável de terra, onde possa estabele- cer o seu lar, trabalhar para a subsistência da sua família e gozar de segurança existencial. Este di- reito deve ser de tal forma garantido, que o seu exercício não seja ilusório mas real. Isto significa
73 Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 33: AAS 80 (1988), 557.
74 Discurso aos indígenas e agricultores do México, em Cuilapán (29 de Janeiro de 1979), 6: AAS 71 (1979), 209; L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 11/II/1979), 4.
75 Homilia na Missa celebrada para os agricultores, em Recife/ Brasil (7 de Julho de 1980), 4: AAS 72 (1980), 926; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 20/VII/1980), 13.
76 Cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 8: AAS 82 (1990), 152.
74
que, além do título de propriedade, o camponês deve contar com meios de formação técnica, em- préstimos, seguros e acesso ao mercado ».77
95. O meio ambiente é um bem colectivo, pa- trimónio de toda a humanidade e responsabili- dade de todos. Quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos. Se não o fizermos, carregamos na consciência o peso de negar a existência aos outros. Por isso, os bispos da Nova Zelândia perguntavam-se que signifi- cado possa ter o mandamento «não matarás», quando « uns vinte por cento da população mun- dial consomem recursos numa medida tal que roubam às nações pobres, e às gerações futuras, aquilo de que necessitam para sobreviver ».78
7. o olhar de Jesus
96. Jesus retoma a fé bíblica no Deus criador e destaca um dado fundamental: Deus é Pai (cf. Mt 11, 25). Em colóquio com os seus discípulos, Jesus convidava-os a reconhecer a relação paterna que Deus tem com todas as criaturas e recorda- va-lhes, com comovente ternura, como cada uma delas era importante aos olhos d’Ele: «Não se vendem cinco pássaros por duas pequeninas moe- das? Contudo, nenhum deles passa despercebido diante de Deus» (Lc 12, 6). «Olhai as aves do céu:
77 ConferênCia ePisCoPal do Paraguai, Carta pastoral El campesino paraguayo y la tierra (12 de Junho de 1983), 2, 4, d.
78 ConferênCia ePisCoPal da nova zelândia, Statement on Environmental Issues (1 de Setembro de 2006).
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não semeiam nem ceifam nem recolhem em celei- ros; e o vosso Pai celeste alimenta-as » (Mt 6, 26).
97. O Senhor podia convidar os outros a es- tar atentos à beleza que existe no mundo, porque Ele próprio vivia em contacto permanente com a natureza e prestava-lhe uma atenção cheia de carinho e admiração. Quando percorria os qua- tro cantos da sua terra, detinha-Se a contemplar a beleza semeada por seu Pai e convidava os discí- pulos a individuarem, nas coisas, uma mensagem divina: « Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa » (Jo 4, 35). « O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a menor de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e trans- forma-se numa árvore » (Mt 13, 31-32).
98. Jesus vivia em plena harmonia com a cria- ção, com grande maravilha dos outros: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?» (Mt 8, 27). Não Se apresentava como um asceta se- parado do mundo ou inimigo das coisas aprazíveis da vida. Falando de Si mesmo, declarou: «Veio o Filho do Homem que come e bebe, e dizem: “Aí está um glutão e bebedor de vinho” » (Mt 11, 19). Encontrava-Se longe das filosofias que despreza- vam o corpo, a matéria e as realidades deste mun- do. Todavia, ao longo da história, estes dualismos combalidos tiveram notável influência nalguns pensadores cristãos e desfiguraram o Evangelho. Jesus trabalhava com suas mãos, entrando diaria-
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mente em contacto com matéria criada por Deus para a moldar com a sua capacidade de artesão. É digno de nota que a maior parte da sua exis- tência terrena tenha sido consagrada a esta tarefa, levando uma vida simples que não despertava ma- ravilha alguma: «Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria? » (Mc 6, 3). Assim santificou o trabalho, atribuindo-lhe um valor peculiar para o nosso amadurecimento. São João Paulo II ensinava que, «suportando o que há de penoso no trabalho em união com Cristo crucificado por nós, o homem colabora, de alguma forma, com o Filho de Deus na redenção da humanidade ».79
99. Segundo a compreensão cristã da realidade, o destino da criação inteira passa pelo mistério de Cristo, que nela está presente desde a origem: «Todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele» (Cl 1, 16).80 O prólogo do Evangelho de João (1, 1-18) mostra a actividade criadora de Cristo como Palavra divina (Logos). Mas o mes- mo prólogo surpreende ao afirmar que esta Pala- vra « Se fez carne » (Jo 1, 14). Uma Pessoa da San- tíssima Trindade inseriu-Se no universo criado, partilhando a própria sorte com ele até à cruz. Desde o início do mundo, mas de modo peculiar a partir da encarnação, o mistério de Cristo ope-
79 Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 27: AAS 73 (1981), 645.
80 Por isso, São Justino podia falar de «sementes do Verbo » no mundo. Cf. II Apologia 8, 1-2; 13, 3-6: PG 6, 457-458; 467.
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ra veladamente no conjunto da realidade natural, sem com isso afectar a sua autonomia.
100. O Novo Testamento não nos fala só de Je- sus terreno e da sua relação tão concreta e amo- rosa com o mundo; mostra-no-Lo também como ressuscitado e glorioso, presente em toda a cria- ção com o seu domínio universal. «Foi n’Ele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas (...), tanto as que estão na terra como as que estão no céu» (Cl 1, 19-20). Isto lança-nos para o fim dos tempos, quando o Filho entregar ao Pai todas as coisas «a fim de que Deus seja tudo em todos» (1 Cor 15, 28). Assim, as criaturas deste mundo já não nos aparecem como uma realidade meramen- te natural, porque o Ressuscitado as envolve mis- teriosamente e guia para um destino de plenitude. As próprias flores do campo e as aves que Ele, admirado, contemplou com os seus olhos huma- nos, agora estão cheias da sua presença luminosa.
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CAPÍTULO III
A RAIZ HUMANA DA CRISE ECOLÓGICA
101. Para nada serviria descrever os sintomas, se não reconhecêssemos a raiz humana da crise ecológica. Há um modo desordenado de conce- ber a vida e a acção do ser humano, que contradiz a realidade até ao ponto de a arruinar. Não pode- remos deter-nos a pensar nisto mesmo? Propo- nho, pois, que nos concentremos no paradigma tecnocrático dominante e no lugar que ocupa nele o ser humano e a sua acção no mundo.
1. a teCnologia: Criatividade e Poder
102. A humanidade entrou numa nova era, em que o poder da tecnologia nos põe diante duma encruzilhada. Somos herdeiros de dois sécu- los de ondas enormes de mudanças: a máquina a vapor, a ferrovia, o telégrafo, a electricidade, o automóvel, o avião, as indústrias químicas, a medicina moderna, a informática e, mais recen- temente, a revolução digital, a robótica, as bio- tecnologias e as nanotecnologias. É justo que nos alegremos com estes progressos e nos entusias- memos à vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes, porque «a ciência e a tecnologia são um produto estupendo
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da criatividade humana que Deus nos deu».81 A transformação da natureza para fins úteis é uma característica do género humano, desde os seus primórdios; e assim a técnica « exprime a tensão do ânimo humano para uma gradual superação de certos condicionamentos materiais».82 A tec- nologia deu remédio a inúmeros males, que afli- giam e limitavam o ser humano. Não podemos deixar de apreciar e agradecer os progressos al- cançados especialmente na medicina, engenha- ria e comunicações. Como não havemos de re- conhecer todos os esforços de tantos cientistas e técnicos que elaboraram alternativas para um desenvolvimento sustentável?
103. A tecnociência, bem orientada, pode pro- duzir coisas realmente valiosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano, desde os ob- jectos de uso doméstico até aos grandes meios de transporte, pontes, edifícios, espaços públicos. É capaz também de produzir coisas belas e fazer o ser humano, imerso no mundo material, dar o «salto» para o âmbito da beleza. Poder-se-á ne- gar a beleza de um avião ou de alguns arranha- -céus? Há obras pictóricas e musicais de valor, obtidas com o recurso aos novos instrumentos técnicos. Assim, no desejo de beleza do artífice e em quem contempla esta beleza dá-se o salto para uma certa plenitude propriamente humana.
81 João Paulo ii, Discurso aos representantes da ciência, da cultura e dos estudos superiores na Universidade das Nações Unidas, em Hiroxima (25 de Fevereiro de 1981), 3: AAS 73 (1981), 422.
82 Bento Xvi, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 69: AAS 101 (2009), 702.
80
104. Não podemos, porém, ignorar que a ener- gia nuclear, a biotecnologia, a informática, o co- nhecimento do nosso próprio DNA e outras po- tencialidades que adquirimos, nos dão um poder tremendo. Ou melhor: dão, àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar, um domínio impressionante so- bre o conjunto do género humano e do mundo inteiro. Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem, sobretudo se se considera a maneira como o está a fazer. Basta lembrar as bombas atómi- cas lançadas em pleno século XX, bem como a grande exibição de tecnologia ostentada pelo nazismo, o comunismo e outros regimes totalitá- rios e que serviu para o extermínio de milhões de pessoas, sem esquecer que hoje a guerra dispõe de instrumentos cada vez mais mortíferos. Nas mãos de quem está e pode chegar a estar tanto poder? É tremendamente arriscado que resida numa pequena parte da humanidade.
105. Tende-se a crer que «toda a aquisição de poder seja simplesmente progresso, aumento de segurança, de utilidade, de bem-estar, de força vital, de plenitude de valores »,83 como se a reali- dade, o bem e a verdade desabrochassem espon- taneamente do próprio poder da tecnologia e da economia. A verdade é que « o homem moderno não foi educado para o recto uso do poder»,84
83 romano guardini, Das Ende der Neuzeit (Würzburg 91965), 87.
84 Ibidem.
81
porque o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência. Cada época tende a desenvolver uma reduzida autoconsciência dos próprios limi- tes. Por isso, é possível que hoje a humanidade não se dê conta da seriedade dos desafios que se lhe apresentam, e « cresce continuamente a pos- sibilidade de o homem fazer mau uso do seu po- der » quando « não existem normas de liberdade, mas apenas pretensas necessidades de utilidade e segurança».85 O ser humano não é plenamen- te autónomo. A sua liberdade adoece, quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal. Neste sentido, ele está nu e exposto fren- te ao seu próprio poder que continua a crescer, sem ter os instrumentos para o controlar. Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas pode- mos afirmar que carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro dum lúcido domínio de si.
2. a gloBalização do Paradigma teCnoCrátiCo
106. Mas o problema fundamental é outro e ainda mais profundo: o modo como realmente a humanidade assumiu a tecnologia e o seu desen- volvimento juntamente com um paradigma homogéneo e unidimensional. Neste paradigma, sobressai uma concepção do sujeito que progressivamente, no
85 Ibid., 87-88. 82
processo lógico-racional, compreende e assim se apropria do objecto que se encontra fora. Um tal sujeito desenvolve-se ao estabelecer o méto- do científico com a sua experimentação, que já é explicitamente uma técnica de posse, domínio e transformação. É como se o sujeito tivesse à sua frente a realidade informe totalmente dis- ponível para a manipulação. Sempre se verificou a intervenção do ser humano sobre a natureza, mas durante muito tempo teve a característica de acompanhar, secundar as possibilidades ofereci- das pelas próprias coisas; tratava-se de receber o que a realidade natural por si permitia, como que estendendo a mão. Mas, agora, o que interessa é extrair o máximo possível das coisas por im- posição da mão humana, que tende a ignorar ou esquecer a realidade própria do que tem à sua frente. Por isso, o ser humano e as coisas dei- xaram de se dar amigavelmente a mão, tornan- do-se contendentes. Daqui passa-se facilmente à ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a « espremê-lo » até ao limite e para além do mesmo. Trata-se do falso pressuposto de que « existe uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regenera- ção é possível de imediato e que os efeitos nega- tivos das manipulações da ordem natural podem ser facilmente absorvidos ».86
86 PontifíCio Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 462.
83
107. Assim podemos afirmar que, na origem de muitas dificuldades do mundo actual, está principalmente a tendência, nem sempre cons- ciente, de elaborar a metodologia e os objecti- vos da tecnociência segundo um paradigma de compreensão que condiciona a vida das pessoas e o funcionamento da sociedade. Os efeitos da aplicação deste modelo a toda a realidade, hu- mana e social, constatam-se na degradação do meio ambiente, mas isto é apenas um sinal do reducionismo que afecta a vida humana e a so- ciedade em todas as suas dimensões. É preciso reconhecer que os produtos da técnica não são neutros, porque criam uma trama que acaba por condicionar os estilos de vida e orientam as pos- sibilidades sociais na linha dos interesses de de- terminados grupos de poder. Certas opções, que parecem puramente instrumentais, na realidade são opções sobre o tipo de vida social que se pre- tende desenvolver.
108. Não se consegue pensar que seja possível sustentar outro paradigma cultural e servir-se da técnica como mero instrumento, porque hoje o paradigma tecnocrático tornou-se tão dominan- te que é muito difícil prescindir dos seus recur- sos, e mais difícil ainda é utilizar os seus recursos sem ser dominados pela sua lógica. Tornou-se anticultural a escolha dum estilo de vida, cujos objectivos possam ser, pelo menos em parte, in- dependentes da técnica, dos seus custos e do seu poder globalizante e massificador. Com efeito, a
84
técnica tem tendência a fazer com que nada fique fora da sua lógica férrea, e «o homem que é o seu protagonista sabe que, em última análise, não se trata de utilidade nem de bem-estar, mas de domínio; domínio no sentido extremo da pala- vra ».87 Por isso, « procura controlar os elementos da natureza e, conjuntamente, os da existência humana».88 Reduzem-se assim a capacidade de decisão, a liberdade mais genuína e o espaço para a criatividade alternativa dos indivíduos.
109. O paradigma tecnocrático tende a exer- cer o seu domínio também sobre a economia e a política. A economia assume todo o desenvolvi- mento tecnológico em função do lucro, sem pres- tar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial e, muito lentamente, se aprende a lição do deterioramento ambiental. Nalguns círculos, defende-se que a economia actual e a tecnolo- gia resolverão todos os problemas ambientais, do mesmo modo que se afirma, com linguagens não académicas, que os problemas da fome e da miséria no mundo serão resolvidos simples- mente com o crescimento do mercado. Não é uma questão de teorias económicas, que hoje talvez já ninguém se atreva a defender, mas da sua instalação no desenvolvimento concreto da
87 romano guardini, Das Ende der Neuzeit (Würzburg 91965), 63-64.
88 Ibid., 64.
85
economia. Aqueles que não o afirmam em pala- vras defendem-no com os factos, quando parece não preocupar-se com o justo nível da produção, uma melhor distribuição da riqueza, um cuidado responsável do meio ambiente ou os direitos das gerações futuras. Com os seus comportamentos, afirmam que é suficiente o objectivo da maximi- zação dos ganhos. Mas o mercado, por si mesmo, não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social.89 Entretanto temos um «superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmissível, com per- duráveis situações de miséria desumanizadora »,90 mas não se criam, de forma suficientemente rápi- da, instituições económicas e programas sociais que permitam aos mais pobres terem regular- mente acesso aos recursos básicos. Não temos suficiente consciência de quais sejam as raízes mais profundas dos desequilíbrios actuais: estes têm a ver com a orientação, os fins, o sentido e o contexto social do crescimento tecnológico e económico.
110. A especialização própria da tecnologia comporta grande dificuldade para se conseguir um olhar de conjunto. A fragmentação do saber realiza a sua função no momento de se obter aplicações concretas, mas frequentemente leva a perder o sentido da totalidade, das relações que
89 Cf. Bento Xvi, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 35: AAS 101 (2009), 671.
90 Ibid., 22: o. c., 657. 86
existem entre as coisas, do horizonte alargado: um sentido, que se torna irrelevante. Isto impede de individuar caminhos adequados para resolver os problemas mais complexos do mundo actual, sobretudo os do meio ambiente e dos pobres, que não se podem enfrentar a partir duma úni- ca perspectiva nem dum único tipo de interesses. Uma ciência, que pretenda oferecer soluções para os grandes problemas, deveria necessariamente ter em conta tudo o que o conhecimento gerou nas outras áreas do saber, incluindo a filosofia e a ética social. Mas este é actualmente um proce- dimento difícil de seguir. Por isso também não se consegue reconhecer verdadeiros horizontes éticos de referência. A vida passa a ser uma ren- dição às circunstâncias condicionadas pela téc- nica, entendida como o recurso principal para interpretar a existência. Na realidade concreta que nos interpela, aparecem vários sintomas que mostram o erro, tais como a degradação ambien- tal, a ansiedade, a perda do sentido da vida e da convivência social. Assim se demonstra uma vez mais que « a realidade é superior à ideia ».91
111. A cultura ecológica não se pode reduzir a uma série de respostas urgentes e parciais para os problemas que vão surgindo à volta da degrada- ção ambiental, do esgotamento das reservas na- turais e da poluição. Deveria ser um olhar diferen- te, um pensamento, uma política, um programa
91 franCisCo, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novem- bro de 2013), 231: AAS 105 (2013), 1114.
87
educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradig- ma tecnocrático. Caso contrário, até as melhores iniciativas ecologistas podem acabar bloqueadas na mesma lógica globalizada. Buscar apenas um remédio técnico para cada problema ambiental que aparece, é isolar coisas que, na realidade, es- tão interligadas e esconder os problemas verda- deiros e mais profundos do sistema mundial.
112. Todavia é possível voltar a ampliar o olhar, e a liberdade humana é capaz de limitar a técni- ca, orientá-la e colocá-la ao serviço doutro tipo de progresso, mais saudável, mais humano, mais social, mais integral. De facto verifica-se a liberta- ção do paradigma tecnocrático nalgumas ocasiões. Por exemplo, quando comunidades de pequenos produtores optam por sistemas de produção me- nos poluentes, defendendo um modelo não-con- sumista de vida, alegria e convivência. Ou quando a técnica tem em vista prioritariamente resolver os problemas concretos dos outros, com o compro- misso de os ajudar a viver com mais dignidade e menor sofrimento. E ainda quando a busca cria- dora do belo e a sua contemplação conseguem superar o poder objectivador numa espécie de sal- vação que acontece na beleza e na pessoa que a contempla. A humanidade autêntica, que convida a uma nova síntese, parece habitar no meio da civi- lização tecnológica de forma quase imperceptível, como a neblina que filtra por baixo da porta fecha- da. Será uma promessa permanente que, apesar de tudo, desbrocha como uma obstinada resistência daquilo que é autêntico?
88
113. Além disso, as pessoas parecem já não acreditar num futuro feliz nem confiam cega- mente num amanhã melhor a partir das condi- ções actuais do mundo e das capacidades técni- cas. Tomam consciência de que o progresso da ciência e da técnica não equivale ao progresso da humanidade e da história, e vislumbram que os caminhos fundamentais para um futuro feliz são outros. Apesar disso, também não se imagi- nam renunciando às possibilidades que oferece a tecnologia. A humanidade mudou profunda- mente, e o avolumar-se de constantes novida- des consagra uma fugacidade que nos arrasta à superfície numa única direcção. Torna-se difícil parar para recuperarmos a profundidade da vida. Se a arquitectura reflecte o espírito duma época, as mega-estruturas e as casas em série expressam o espírito da técnica globalizada, onde a perma- nente novidade dos produtos se une a um tédio enfadonho. Não nos resignemos a isto nem re- nunciemos a perguntar-nos pelos fins e o sentido de tudo. Caso contrário, apenas legitimaremos o estado de facto e precisaremos de mais sucedâ- neos para suportar o vazio.
114. O que está a acontecer põe-nos perante a urgência de avançar numa corajosa revolução cultural. A ciência e a tecnologia não são neutrais, mas podem, desde o início até ao fim dum pro- cesso, envolver diferentes intenções e possibilida- des que se podem configurar de várias maneiras. Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a rea-
89
lidade doutra forma, recolher os avanços positi- vos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objectivos arrasados por um desenfreamento megalómano.
3. Crise do antroPoCentrismo moderno e suas ConsequênCias
115. O antropocentrismo moderno acabou, paradoxalmente, por colocar a razão técnica aci- ma da realidade, porque este ser humano « já não sente a natureza como norma válida nem como um refúgio vivente. Sem se pôr qualquer hipóte- se, vê-a, objectivamente, como espaço e matéria onde realizar uma obra em que se imerge com- pletamente, sem se importar com o que possa suceder a ela ». 92 Assim debilita-se o valor intrín- seco do mundo. Mas, se o ser humano não re- descobre o seu verdadeiro lugar, compreende-se mal a si mesmo e acaba por contradizer a sua própria realidade. «Não só a terra foi dada por Deus ao homem, que a deve usar respeitando a intenção originária de bem, segundo a qual lhe foi entregue; mas o homem é doado a si mesmo por Deus, devendo por isso respeitar a estrutura natural e moral de que foi dotado ».93
116. Nos tempos modernos, verificou-se um notável excesso antropocêntrico, que hoje, com
92 romano guardini, Das Ende der Neuzeit (Würzburg 91965), 63.
93 João Paulo ii, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 38: AAS 83 (1991), 841.
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outra roupagem, continua a minar toda a refe- rência a algo de comum e qualquer tentativa de reforçar os laços sociais. Por isso, chegou a hora de prestar novamente atenção à realidade com os limites que a mesma impõe e que, por sua vez, constituem a possibilidade dum desenvolvimen- to humano e social mais saudável e fecundo. Uma apresentação inadequada da antropologia cristã acabou por promover uma concepção er- rada da relação do ser humano com o mundo. Muitas vezes foi transmitido um sonho prome- teico de domínio sobre o mundo, que provocou a impressão de que o cuidado da natureza fosse actividade de fracos. Mas a interpretação correcta do conceito de ser humano como senhor do uni- verso é entendê-lo no sentido de administrador responsável.94
117. A falta de preocupação por medir os da- nos à natureza e o impacto ambiental das deci- sões é apenas o reflexo evidente do desinteresse em reconhecer a mensagem que a natureza traz inscrita nas suas próprias estruturas. Quando, na própria realidade, não se reconhece a importân- cia dum pobre, dum embrião humano, duma pes- soa com deficiência – só para dar alguns exem- plos –, dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado. Se o ser
94 Cf. Declaração Love for Creation. An Asian Response to the Ecological Crisis: Colóquio promovido pela Federação das Conferências Episcopais da Ásia, Tagaytay (31 de Janeiro a 5 de Fevereiro de 1993), 3.3.2.
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humano se declara autónomo da realidade e se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da sua existência, porque «em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, o homem substitui-se a Deus, e deste modo acaba por provocar a revolta da natureza ».95
118. Esta situação leva-nos a uma esquizo- frenia permanente, que se estende da exaltação tecnocrática, que não reconhece aos outros seres um valor próprio, até à reacção de negar qualquer valor peculiar ao ser humano. Contudo não se pode prescindir da humanidade. Não haverá uma nova relação com a natureza, sem um ser huma- no novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia. Quando a pessoa humana é con- siderada apenas mais um ser entre outros, que provém de jogos do acaso ou dum determinismo físico, « corre o risco de atenuar-se, nas consciên- cias, a noção da responsabilidade».96 Um antro- pocentrismo desordenado não deve necessaria- mente ser substituído por um «biocentrismo», porque isto implicaria introduzir um novo dese- quilíbrio que não só não resolverá os problemas existentes, mas acrescentará outros. Não se pode exigir do ser humano um compromisso para com o mundo, se ao mesmo tempo não se reconhe-
95 João Paulo ii, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 37: AAS 83 (1991), 840.
96 Bento Xvi, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, 2: AAS 102 (2010), 41.
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cem e valorizam as suas peculiares capacidades de conhecimento, vontade, liberdade e respon- sabilidade.
119. A crítica do antropocentrismo desorde- nado não deveria deixar em segundo plano tam- bém o valor das relações entre as pessoas. Se a crise ecológica é uma expressão ou uma mani- festação externa da crise ética, cultural e espiri- tual da modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais. Quando o pensamento cristão reivindica, para o ser humano, um valor peculiar acima das outras criaturas, suscita a valorização de cada pessoa humana e, assim, estimula o re- conhecimento do outro. A abertura a um «tu» capaz de conhecer, amar e dialogar continua a ser a grande nobreza da pessoa humana. Por isso, para uma relação adequada com o mundo criado, não é necessário diminuir a dimensão social do ser humano nem a sua dimensão transcendente, a sua abertura ao «Tu» divino. Com efeito, não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus. Seria um individualismo romântico disfarçado de beleza ecológica e um confinamen- to asfixiante na imanência.
120. Uma vez que tudo está relacionado, tam- bém não é compatível a defesa da natureza com a justificação do aborto. Não parece viável um percurso educativo para acolher os seres frágeis
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que nos rodeiam e que, às vezes, são molestos e inoportunos, quando não se dá protecção a um embrião humano ainda que a sua chegada seja causa de incómodos e dificuldades: « Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham também outras for- mas de acolhimento úteis à vida social ».97
121. Espera-se ainda o desenvolvimento duma nova síntese, que ultrapasse as falsas dialécticas dos últimos séculos. O próprio cristianismo, mantendo-se fiel à sua identidade e ao tesouro de verdade que recebeu de Jesus Cristo, não cessa de se repensar e reformular em diálogo com as novas situações históricas, deixando desabrochar assim a sua eterna novidade. 98
O relativismo prático
122. Um antropocentrismo desordenado gera um estilo de vida desordenado. Na exortação apostólica Evangelii gaudium, referi-me ao rela- tivismo prático que caracteriza a nossa época e que é «ainda mais perigoso que o doutrinal».99 Quando o ser humano se coloca no centro, acaba por dar prioridade absoluta aos seus interesses
97 idem, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 28: AAS 101 (2009), 663.
98 Cf. viCente de lerins, Commonitorium primum, cap. 23: PL 50, 668: « Ut annis scilicet consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate – Fortalece-se com o decorrer dos anos, desenvolve-se com o andar dos tempos, cresce através das idades ».
99 N. 80: AAS 105 (2013), 1053. 94
contingentes, e tudo o mais se torna relativo. Por isso, não deveria surpreender que, juntamente com a omnipresença do paradigma tecnocrático e a adoração do poder humano sem limites, se desenvolva nos indivíduos este relativismo no qual tudo o que não serve os próprios interesses imediatos se torna irrelevante. Nisto, há uma ló- gica que permite compreender como se alimen- tam mutuamente diferentes atitudes, que provo- cam ao mesmo tempo a degradação ambiental e a degradação social.
123. A cultura do relativismo é a mesma pato- logia que impele uma pessoa a aproveitar-se de outra e a tratá-la como mero objecto, obrigando- -a a trabalhos forçados, ou reduzindo-a à escra- vidão por causa duma dívida. É a mesma lógica que leva à exploração sexual das crianças, ou ao abandono dos idosos que não servem os interes- ses próprios. É também a lógica interna daqueles que dizem: «Deixemos que as forças invisíveis do mercado regulem a economia, porque os seus efeitos sobre a sociedade e a natureza são danos inevitáveis». Se não há verdades objectivas nem princípios estáveis, fora da satisfação das aspira- ções próprias e das necessidades imediatas, que limites pode haver para o tráfico de seres huma- nos, a criminalidade organizada, o narcotráfico, o comércio de diamantes ensanguentados e de pe- les de animais em vias de extinção? Não é a mes- ma lógica relativista a que justifica a compra de órgãos dos pobres com a finalidade de os vender
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ou utilizar para experimentação, ou o descarte de crianças porque não correspondem ao desejo de seus pais? É a mesma lógica do « usa e joga fora » que produz tantos resíduos, só pelo desejo de- sordenado de consumir mais do que realmente se tem necessidade. Portanto, não podemos pen- sar que os programas políticos ou a força da lei sejam suficientes para evitar os comportamentos que afectam o meio ambiente, porque, quando é a cultura que se corrompe deixando de reco- nhecer qualquer verdade objectiva ou quaisquer princípios universalmente válidos, as leis só se poderão entender como imposições arbitrárias e obstáculos a evitar.
A necessidade de defender o trabalho
124. Em qualquer abordagem de ecologia in- tegral que não exclua o ser humano, é indispen- sável incluir o valor do trabalho, tão sabiamente desenvolvido por São João Paulo II na sua encí- clica Laborem excercens. Recordemos que, segundo a narração bíblica da criação, Deus colocou o ser humano no jardim recém-criado (cf. Gn 2, 15), não só para cuidar do existente (guardar), mas também para trabalhar nele a fim de que pro- duzisse frutos (cultivar). Assim, os operários e os artesãos «asseguram uma criação perpétua» (Sir 38, 34). Na realidade, a intervenção huma- na que favorece o desenvolvimento prudente da criação é a forma mais adequada de cuidar dela, porque implica colocar-se como instrumento de Deus para ajudar a fazer desabrochar as poten- cialidades que Ele mesmo inseriu nas coisas: « O
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Senhor produziu da terra os medicamentos; e o homem sensato não os desprezará » (Sir 38, 4).
125. Se procurarmos pensar quais possam ser as relações adequadas do ser humano com o mundo que o rodeia, surge a necessidade duma concepção correcta do trabalho, porque, falando da relação do ser humano com as coisas, impõe- -se-nos a questão relativa ao sentido e finalidade da acção humana sobre a realidade. Não fala- mos apenas do trabalho manual ou do trabalho da terra, mas de qualquer actividade que impli- que alguma transformação do existente, desde a elaboração dum balanço social até ao projecto dum progresso tecnológico. Qualquer forma de trabalho pressupõe uma concepção sobre a rela- ção que o ser humano pode ou deve estabelecer com o outro diverso de si mesmo. A espiritua- lidade cristã, a par da admiração contemplativa das criaturas que encontramos em São Francisco de Assis, desenvolveu também uma rica e sadia compreensão do trabalho, como podemos en- contrar, por exemplo, na vida do Beato Carlos de Foucauld e seus discípulos.
126. Algo se pode recolher também da longa tradição monástica. Nos primórdios, esta favo- recia de certo modo a fuga do mundo, procu- rando afastar-se da decadência urbana. Por isso, os monges buscavam o deserto, convencidos de que fosse o lugar adequado para reconhecer a presença de Deus. Mais tarde, São Bento de Núrsia quis que os seus monges vivessem em comunidade, unindo oração e estudo com o tra-
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balho manual (« Ora et labora »). Esta introdução do trabalho manual impregnada de sentido es- piritual revelou-se revolucionária. Aprendeu-se a buscar o amadurecimento e a santificação na compenetração entre o recolhimento e o tra- balho. Esta maneira de viver o trabalho torna- -nos mais capazes de ter cuidado e respeito pelo meio ambiente, impregnando de sadia sobrieda- de a nossa relação com o mundo.
127. Afirmamos que «o homem é o protago- nista, o centro e o fim de toda a vida económico- -social ».100 Apesar disso, quando no ser humano se deteriora a capacidade de contemplar e res- peitar, criam-se as condições para se desfigurar o sentido do trabalho.101 Convém recordar sempre que o ser humano é «capaz de, por si próprio, ser o agente responsável do seu bem-estar ma- terial, progresso moral e desenvolvimento espi- ritual».102 O trabalho deveria ser o âmbito deste multiforme desenvolvimento pessoal, onde estão em jogo muitas dimensões da vida: a criatividade, a projectação do futuro, o desenvolvimento das capacidades, a exercitação dos valores, a comu- nicação com os outros, uma atitude de adoração. Por isso, a realidade social do munda actual exige que, acima dos limitados interesses das empresas
100 ConC. eCum. vat. ii, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 63.
101 Cf. João Paulo ii, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 37: AAS 83 (1991), 840.
102 Paulo vi, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 34: AAS 59 (1967), 274.
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e duma discutível racionalidade económica, «se continue a perseguir como prioritário o objectivo do acesso ao trabalho para todos ».103
128. Somos chamados ao trabalho desde a nos- sa criação. Não se deve procurar que o progresso tecnológico substitua cada vez mais o trabalho humano: procedendo assim, a humanidade pre- judicar-se-ia a si mesma. O trabalho é uma neces- sidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento hu- mano e realização pessoal. Neste sentido, ajudar os pobres com o dinheiro deve ser sempre um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro objectivo deveria ser sempre con- sentir-lhes uma vida digna através do trabalho. Mas a orientação da economia favoreceu um tipo de progresso tecnológico cuja finalidade é redu- zir os custos de produção com base na diminui- ção dos postos de trabalho, que são substituídos por máquinas. É mais um exemplo de como a acção do homem se pode voltar contra si mesmo. A diminuição dos postos de trabalho « tem tam- bém um impacto negativo no plano económico com a progressiva corrosão do “capital social”, isto é, daquele conjunto de relações de confian- ça, de credibilidade, de respeito das regras, indis- pensável em qualquer convivência civil».104 Em suma, «os custos humanos são sempre também custos
103 Bento Xvi, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 32: AAS 101 (2009), 666.
104 Ibidem.
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económicos, e as disfunções económicas acarretam sempre também custos humanos».105 Renunciar a investir nas pessoas para se obter maior receita imediata é um péssimo negócio para a sociedade.
129. Para se conseguir continuar a dar empre- go, é indispensável promover uma economia que favoreça a diversificação produtiva e a criativi- dade empresarial. Por exemplo, há uma grande variedade de sistemas alimentares rurais de pe- quena escala que continuam a alimentar a maior parte da população mundial, utilizando uma por- ção reduzida de terreno e de água e produzindo menos resíduos, quer em pequenas parcelas agrí- colas e hortas, quer na caça e recolha de produtos silvestres, quer na pesca artesanal. As economias de larga escala, especialmente no sector agríco- la, acabam por forçar os pequenos agricultores a vender as suas terras ou a abandonar as suas culturas tradicionais. As tentativas feitas por al- guns deles no sentido de desenvolverem outras formas de produção, mais diversificadas, resul- tam inúteis por causa da dificuldade de ter acesso aos mercados regionais e globais, ou porque a in- fra-estrutura de venda e transporte está ao servi- ço das grandes empresas. As autoridades têm o direito e a responsabilidade de adoptar medidas de apoio claro e firme aos pequenos produtores e à diversificação da produção. Às vezes, para que haja uma liberdade económica da qual todos real- mente beneficiem, pode ser necessário pôr limi-
105 Ibidem. 100
tes àqueles que detêm maiores recursos e poder financeiro. A simples proclamação da liberdade económica, enquanto as condições reais impe- dem que muitos possam efectivamente ter aces- so a ela e, ao mesmo tempo, se reduz o acesso ao trabalho, torna-se um discurso contraditório que desonra a política. A actividade empresarial, que é uma nobre vocação orientada para produ- zir riqueza e melhorar o mundo para todos, pode ser uma maneira muito fecunda de promover a região onde instala os seus empreendimentos, sobretudo se pensa que a criação de postos de trabalho é parte imprescindível do seu serviço ao bem comum.
A inovação biológica a partir da pesquisa
130. Na visão filosófica e teológica do ser hu- mano e da criação que procurei propor, aparece claro que a pessoa humana, com a peculiaridade da sua razão e da sua sabedoria, não é um fac- tor externo que deva ser totalmente excluído. No entanto, embora o ser humano possa intervir no mundo vegetal e animal e fazer uso dele quando é necessário para a sua vida, o Catecismo ensina que as experimentações sobre os animais só são legí- timas «desde que não ultrapassem os limites do razoável e contribuam para curar ou poupar vidas humanas».106 Recorda, com firmeza, que o poder humano tem limites e que «é contrário à digni- dade humana fazer sofrer inutilmente os animais
106 Catecismo da Igreja Católica, 2417.
101
e dispor indiscriminadamente das suas vidas».107 Todo o uso e experimentação « exige um respeito religioso pela integridade da criação ».108
131. Quero recolher aqui a posição equilibra- da de São João Paulo II, pondo em destaque os benefícios dos progressos científicos e tecnológi- cos, que « manifestam quanto é nobre a vocação do homem para participar de modo responsável na acção criadora de Deus », mas ao mesmo tem- po recordava que «toda e qualquer intervenção numa área determinada do ecossistema não pode prescindir da consideração das suas consequên- cias noutras áreas ».109 Afirmava que a Igreja apre- cia a contribuição « do estudo e das aplicações da biologia molecular, completada por outras disci- plinas como a genética e a sua aplicação tecno- lógica na agricultura e na indústria»,110 embora dissesse também que isto não deve levar a uma « indiscriminada manipulação genética »111 que ignore os efeitos negativos destas intervenções. Não é possível frenar a criatividade humana. Se não se pode proibir a um artista que exprima a sua capacidade criativa, também não se pode
  1. 107  Ibid., 2418.
  2. 108  Ibid., 2415.
  3. 109  Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 6: AAS 82
(1990), 150.
110 Discurso à Pontifícia Academia das Ciências (3 de Outubro
de 1981), 3: Insegnamenti 4/2 (1981), 333; L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 11/X/1981), 8.
111 Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 7: AAS 82 (1990), 151.
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obstaculizar quem possui dons especiais para o progresso científico e tecnológico, cujas capaci- dades foram dadas por Deus para o serviço dos outros. Ao mesmo tempo, não se pode deixar de considerar os objectivos, os efeitos, o contexto e os limites éticos de tal actividade humana que é uma forma de poder com grandes riscos.
132. Neste quadro, deveria situar-se toda e qualquer reflexão acerca da intervenção huma- na sobre o mundo vegetal e animal que implique hoje mutações genéticas geradas pela biotecnolo- gia, a fim de aproveitar as possibilidades presen- tes na realidade material. O respeito da fé pela razão pede para se prestar atenção àquilo que a própria ciência biológica, desenvolvida indepen- dentemente dos interesses económicos, possa ensinar a propósito das estruturas biológicas e das suas possibilidades e mutações. Em todo o caso, é legítima uma intervenção que actue sobre a natureza « para a ajudar a desenvolver-se na sua própria linha, a da criação, querida por Deus ».112
133. É difícil emitir um juízo geral sobre o de- senvolvimento de organismos modificados gene- ticamente (OMG), vegetais ou animais, para fins medicinais ou agro-pecuários, porque podem ser muito diferentes entre si e requerer distintas considerações. Além disso, os riscos nem sem-
112 João Paulo II, Discurso à 35a Assembleia Geral da Associa- ção Médica Mundial (29 de Outubro de 1983), 6: AAS 76 (1984), 394; L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 13/XI/1983), 7.
103
pre se devem atribuir à própria técnica, mas à sua aplicação inadequada ou excessiva. Na realidade, muitas vezes as mutações genéticas foram e con- tinuam a ser produzidas pela própria natureza. E mesmo as provocadas pelo ser humano não são um fenómeno moderno. A domesticação de ani- mais, o cruzamento de espécies e outras práticas antigas e universalmente seguidas podem incluir- -se nestas considerações. É oportuno recordar que o início dos progressos científicos sobre ce- reais transgénicos foi a observação de bactérias que, de forma natural e espontânea, produziam uma modificação no genoma dum vegetal. Mas, na natureza, estes processos têm um ritmo len- to, que não se compara com a velocidade impos- ta pelos avanços tecnológicos actuais, mesmo quando estes avanços se baseiam num desenvol- vimento científico de vários séculos.
134. Embora não disponhamos de provas defi- nitivas acerca do dano que poderiam causar os ce- reais transgénicos aos seres humanos e apesar de, nalgumas regiões, a sua utilização ter produzido um crescimento económico que contribuiu para resolver determinados problemas, há dificulda- des importantes que não devem ser minimizadas. Em muitos lugares, na sequência da introdução destas culturas, constata-se uma concentração de terras produtivas nas mãos de poucos, devido ao « progressivo desaparecimento de pequenos pro- dutores, que, em consequência da perda das ter- ras cultivadas, se viram obrigados a retirar-se da
104
produção directa».113 Os mais frágeis deles tor- nam-se trabalhadores precários, e muitos assala- riados agrícolas acabam por emigrar para miserá- veis aglomerados das cidades. A expansão destas culturas destrói a complexa trama dos ecossiste- mas, diminui a diversidade na produção e afecta o presente ou o futuro das economias regionais. Em vários países, nota-se uma tendência para o desenvolvimento de oligopólios na produção de sementes e outros produtos necessários para o cultivo, e a dependência agrava-se quando se pensa na produção de sementes estéreis que aca- bam por obrigar os agricultores a comprá-las às empresas produtoras.
135. Sem dúvida, há necessidade duma atenção constante, que tenha em consideração todos os aspectos éticos implicados. Para isso, é preciso assegurar um debate científico e social que seja responsável e amplo, capaz de considerar toda a informação disponível e chamar as coisas pelo seu nome. Às vezes não se coloca sobre a mesa a informação completa, mas é seleccionada de acordo com os próprios interesses, sejam eles políticos, económicos ou ideológicos. Isto torna difícil elaborar um juízo equilibrado e prudente sobre as várias questões, tendo presente todas as variáveis em jogo. É necessário dispor de espaços de debate, onde todos aqueles que poderiam de algum modo ver-se, directa ou indirectamente,
113 ConferênCia ePisCoPal da argentina – Comissão de Pastoral soCial, Una tierra para todos (Junho de 2005), 19.
105
afectados (agricultores, consumidores, autorida- des, cientistas, produtores de sementes, popu- lações vizinhas dos campos tratados e outros) tenham possibilidade de expor as suas problemá- ticas ou ter acesso a uma informação ampla e fi- dedigna para adoptar decisões tendentes ao bem comum presente e futuro. A questão dos OMG é uma questão de carácter complexo, que requer ser abordada com um olhar abrangente de todos os aspectos; isto exigiria pelo menos um maior esforço para financiar distintas linhas de pesqui- sa autónoma e interdisciplinar que possam trazer nova luz.
136. Além disso, é preocupante constatar que alguns movimentos ecologistas defendem a in- tegridade do meio ambiente e, com razão, recla- mam a imposição de determinados limites à pes- quisa científica, mas não aplicam estes mesmos princípios à vida humana. Muitas vezes justifica- -se que se ultrapassem todos os limites, quando se faz experiências com embriões humanos vivos. Esquece-se que o valor inalienável do ser huma- no é independente do seu grau de desenvolvi- mento. Aliás, quando a técnica ignora os grandes princípios éticos, acaba por considerar legítima qualquer prática. Como vimos neste capítulo, a técnica separada da ética dificilmente será capaz de autolimitar o seu poder.
106
CAPÍTULO IV
UMA ECOLOGIA INTEGRAL
137. Dado que tudo está intimamente relacio- nado e que os problemas actuais requerem um olhar que tenha em conta todos os aspectos da crise mundial, proponho que nos detenhamos agora a reflectir sobre os diferentes elementos duma ecologia integral, que inclua claramente as di- mensões humanas e sociais.
1. eCologia amBiental, eConómiCa e soCial
138. A ecologia estuda as relações entre os or- ganismos vivos e o meio ambiente onde se desen- volvem. E isto exige sentar-se a pensar e discutir acerca das condições de vida e de sobrevivência duma sociedade, com a honestidade de pôr em questão modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Nunca é demais insistir que tudo está interligado. O tempo e o espaço não são inde- pendentes entre si; nem os próprios átomos ou as partículas subatómicas se podem considerar se- paradamente. Assim como os vários componen- tes do planeta – físicos, químicos e biológicos – estão relacionados entre si, assim também as es- pécies vivas formam uma trama que nunca aca- baremos de individuar e compreender. Boa parte da nossa informação genética é partilhada com
107
muitos seres vivos. Por isso, os conhecimentos fragmentários e isolados podem tornar-se uma forma de ignorância, quando resistem a integrar- -se numa visão mais ampla da realidade.
139. Quando falamos de « meio ambiente », fa- zemos referência também a uma particular rela- ção: a relação entre a natureza e a sociedade que a habita. Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos. As ra- zões, pelas quais um lugar se contamina, exigem uma análise do funcionamento da sociedade, da sua economia, do seu comportamento, das suas maneiras de entender a realidade. Dada a ampli- tude das mudanças, já não é possível encontrar uma resposta específica e independente para cada parte do problema. É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interacções dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma am- biental e outra social; mas uma única e comple- xa crise sócio-ambiental. As directrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos ex- cluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.
140. Devido à quantidade e variedade de ele- mentos a ter em conta na hora de determinar o impacto ambiental dum empreendimento con- creto, torna-se indispensável dar aos pesquisa- dores um papel preponderante e facilitar a sua
108
interacção com uma ampla liberdade académica. Esta pesquisa constante deveria permitir reco- nhecer também como as diferentes criaturas se relacionam, formando aquelas unidades maiores que hoje chamamos «ecossistemas». Temo-los em conta não só para determinar qual é o seu uso razoável, mas também porque possuem um valor intrínseco, independente de tal uso. Assim como cada organismo é bom e admirável em si mesmo pelo facto de ser uma criatura de Deus, o mesmo se pode dizer do conjunto harmónico de organismos num determinado espaço, funcio- nando como um sistema. Embora não tenhamos consciência disso, dependemos desse conjunto para a nossa própria existência. Convém recor- dar que os ecossistemas intervêm na retenção do anidrido carbónico, na purificação da água, na contraposição a doenças e pragas, na compo- sição do solo, na decomposição dos resíduos, e muitíssimos outros serviços que esquecemos ou ignoramos. Quando se dão conta disto, muitas pessoas voltam a tomar consciência de que vi- vemos e agimos a partir duma realidade que nos foi previamente dada, que é anterior às nossas capacidades e à nossa existência. Por isso, quan- do se fala de «uso sustentável», é preciso incluir sempre uma consideração sobre a capacidade re- generativa de cada ecossistema nos seus diversos sectores e aspectos.
141. Além disso, o crescimento económico tende a gerar automatismos e a homogeneizar, a
109
fim de simplificar os processos e reduzir os cus- tos. Por isso, é necessária uma ecologia económi- ca, capaz de induzir a considerar a realidade de forma mais ampla. Com efeito, «a protecção do meio ambiente deverá constituir parte integrante do processo de desenvolvimento e não poderá ser considerada isoladamente».114 Mas, ao mes- mo tempo, torna-se actual a necessidade impe- riosa do humanismo, que faz apelo aos distintos saberes, incluindo o económico, para uma visão mais integral e integradora. Hoje, a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, ur- banos, e da relação de cada pessoa consigo mes- ma, que gera um modo específico de se relacio- nar com os outros e com o meio ambiente. Há uma interacção entre os ecossistemas e entre os diferentes mundos de referência social e, assim, se demonstra mais uma vez que « o todo é supe- rior à parte ».115
142. Se tudo está relacionado, também o es- tado de saúde das instituições duma sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana: « toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais».116 Neste sentido, a ecologia social é necessariamen-
114 Declaração do Rio sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, Rio de Janeiro (14 de Junho de 1992), princípio 4.
115 franCisCo, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novem- bro de 2013), 237: AAS 105 (2013), 1116.
116 Bento Xvi, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 51: AAS 101 (2009), 687.
110
te institucional e progressivamente alcança as di- ferentes dimensões, que vão desde o grupo social primário, a família, até à vida internacional, pas- sando pela comunidade local e a nação. Dentro de cada um dos níveis sociais e entre eles, desen- volvem-se as instituições que regulam as relações humanas. Tudo o que as danifica comporta efei- tos nocivos, como a perda da liberdade, a injusti- ça e a violência. Vários países são governados por um sistema institucional precário, à custa do so- frimento do povo e para benefício daqueles que lucram com este estado de coisas. Tanto dentro da administração do Estado, como nas diferentes expressões da sociedade civil, ou nas relações dos habitantes entre si, registam-se, com demasiada frequência, comportamentos ilegais. As leis po- dem estar redigidas de forma correcta, mas mui- tas vezes permanecem letra morta. Poder-se-á, assim, esperar que a legislação e as normativas relativas ao meio ambiente sejam realmente efi- cazes? Sabemos, por exemplo, que países dota- dos duma legislação clara sobre a protecção das florestas continuam a ser testemunhas mudas da sua frequente violação. Além disso, o que aconte- ce numa região influi, directa ou indirectamente, nas outras regiões. Assim, por exemplo, o consu- mo de drogas nas sociedades opulentas provoca uma constante ou crescente procura de produtos que provêm de regiões empobrecidas, onde se corrompem comportamentos, se destroem vidas e se acaba por degradar o meio ambiente.
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2. eCologia Cultural
143. A par do património natural, encontra-se igualmente ameaçado um património histórico, artístico e cultural. Faz parte da identidade co- mum de um lugar, servindo de base para cons- truir uma cidade habitável. Não se trata de des- truir e criar novas cidades hipoteticamente mais ecológicas, onde nem sempre resulta desejável viver. É preciso integrar a história, a cultura e a arquitectura dum lugar, salvaguardando a sua identidade original. Por isso, a ecologia envol- ve também o cuidado das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo. Mais directamente, pede que se preste atenção às cul- turas locais, quando se analisam questões relacio- nadas com o meio ambiente, fazendo dialogar a linguagem técnico-científica com a linguagem popular. É a cultura – entendida não só como os monumentos do passado, mas especialmente no seu sentido vivo, dinâmico e participativo – que não se pode excluir na hora de repensar a relação do ser humano com o meio ambiente.
144. A visão consumista do ser humano, incen- tivada pelos mecanismos da economia globaliza- da actual, tende a homogeneizar as culturas e a debilitar a imensa variedade cultural, que é um tesouro da humanidade. Por isso, pretender re- solver todas as dificuldades através de normati- vas uniformes ou por intervenções técnicas, leva a negligenciar a complexidade das problemáticas locais, que requerem a participação activa dos ha-
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bitantes. Os novos processos em gestação nem sempre se podem integrar dentro de modelos estabelecidos do exterior, mas hão-de ser prove- nientes da própria cultura local. Assim como a vida e o mundo são dinâmicos, assim também o cuidado do mundo deve ser flexível e dinâmico. As soluções meramente técnicas correm o ris- co de tomar em consideração sintomas que não correspondem às problemáticas mais profun- das. É preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos e das culturas, dando assim provas de compreender que o desenvolvimento dum gru- po social supõe um processo histórico no âmbito dum contexto cultural e requer constantemente o protagonismo dos actores sociais locais a par- tir da sua própria cultura. Nem mesmo a noção da qualidade de vida se pode impor, mas deve ser entendida dentro do mundo de símbolos e hábi- tos próprios de cada grupo humano.
145. Muitas formas de intensa exploração e de- gradação do meio ambiente podem esgotar não só os meios locais de subsistência, mas também os recursos sociais que consentiram um modo de viver que sustentou, durante longo tempo, uma identidade cultural e um sentido da existência e da convivência social. O desaparecimento duma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o de- saparecimento duma espécie animal ou vegetal. A imposição dum estilo hegemónico de vida liga- do a um modo de produção pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas.
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146. Neste sentido, é indispensável prestar uma atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quan- do se avança com grandes projectos que afectam os seus espaços. Com efeito, para eles, a terra não é um bem económico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um es- paço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objecto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projectos extractivos e agro-pecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura.
3. eCologia da vida quotidiana
147. Para se poder falar de autêntico progres- so, será preciso verificar que se produza uma me- lhoria global na qualidade de vida humana; isto implica analisar o espaço onde as pessoas trans- correm a sua existência. Os ambientes onde vi- vemos influem sobre a nossa maneira de ver a vida, sentir e agir. Ao mesmo tempo, no nosso quarto, na nossa casa, no nosso lugar de traba- lho e no nosso bairro, usamos o ambiente para exprimir a nossa identidade. Esforçamo-nos por nos adaptar ao ambiente e, quando este aparece desordenado, caótico ou cheio de poluição visiva
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e acústica, o excesso de estímulos põe à prova as nossas tentativas de desenvolver uma identidade integrada e feliz.
148. Admirável é a criatividade e generosidade de pessoas e grupos que são capazes de dar a volta às limitações do ambiente, modificando os efeitos adversos dos condicionalismos e apren- dendo a orientar a sua existência no meio da de- sordem e precariedade. Por exemplo, nalguns lu- gares onde as fachadas dos edifícios estão muito deterioradas, há pessoas que cuidam com muita dignidade o interior das suas habitações, ou que se sentem bem pela cordialidade e amizade das pessoas. A vida social positiva e benfazeja dos habitantes enche de luz um ambiente à primei- ra vista inabitável. É louvável a ecologia humana que os pobres conseguem desenvolver, no meio de tantas limitações. A sensação de sufocamento, produzida pelos aglomerados residenciais e pe- los espaços com alta densidade populacional, é contrastada se se desenvolvem calorosas relações humanas de vizinhança, se se criam comunida- des, se as limitações ambientais são compensadas na interioridade de cada pessoa que se sente inse- rida numa rede de comunhão e pertença. Deste modo, qualquer lugar deixa de ser um inferno e torna-se o contexto duma vida digna.
149. Inversamente está provado que a penú- ria extrema vivida nalguns ambientes privados de harmonia, magnanimidade e possibilidade de integração, facilita o aparecimento de comporta-
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mentos desumanos e a manipulação das pessoas por organizações criminosas. Para os habitantes de bairros periféricos muito precários, a experiên- cia diária de passar da superlotação ao anonima- to social, que se vive nas grandes cidades, pode provocar uma sensação de desenraizamento que favorece comportamentos anti-sociais e violên- cia. Todavia tenho a peito reiterar que o amor é mais forte. Muitas pessoas, nestas condições, são capazes de tecer laços de pertença e convivência que transformam a superlotação numa experiên- cia comunitária, onde se derrubam os muros do eu e superam as barreiras do egoísmo. Esta ex- periência de salvação comunitária é o que muitas vezes suscita reacções criativas para melhorar um edifício ou um bairro. 117
150. Dada a relação entre os espaços urbani- zados e o comportamento humano, aqueles que projectam edifícios, bairros, espaços públicos e cidades precisam da contribuição dos vários sa- beres que permitem compreender os processos, o simbolismo e os comportamentos das pessoas. Não é suficiente a busca da beleza no projecto, porque tem ainda mais valor servir outro tipo de beleza: a qualidade de vida das pessoas, a sua
117 Alguns autores puseram em evidência os valores que muitas vezes se vivem, por exemplo, nas «villas», «chabolas» ou favelas da América Latina: ver Juan Carlos sCannone S.I., « La irrupción del pobre y la lógica de la gratuidad », in Juan Carlos sCannone e marCelo Perine (eds.), Irrupción del pobre y quehacer filosófico. Hacia una nueva racionalidad (Buenos Aires 1993), 225- 230.
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harmonia com o ambiente, o encontro e ajuda mútua. Por isso também, é tão importante que o ponto de vista dos habitantes do lugar contribua sempre para a análise da planificação urbanista.
151. É preciso cuidar dos espaços comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas que melhoram o nosso sentido de pertença, a nossa sensação de enraizamento, o nosso sentimento de « estar em casa » dentro da cidade que nos en- volve e une. É importante que as diferentes par- tes duma cidade estejam bem integradas e que os habitantes possam ter uma visão de conjunto em vez de se encerrarem num bairro, renunciando a viver a cidade inteira como um espaço próprio partilhado com os outros. Toda a intervenção na paisagem urbana ou rural deveria considerar que os diferentes elementos do lugar formam um todo, sentido pelos habitantes como um con- texto coerente com a sua riqueza de significados. Assim, os outros deixam de ser estranhos e po- demos senti-los como parte de um «nós» que construímos juntos. Pela mesma razão, tanto no meio urbano como no rural, convém preservar alguns espaços onde se evitem intervenções hu- manas que os alterem constantemente.
152. A falta de habitação é grave em muitas partes do mundo, tanto nas áreas rurais como nas grandes cidades, nomeadamente porque os orçamentos estatais em geral cobrem apenas uma pequena parte da procura. E não só os po- bres, mas uma grande parte da sociedade encon-
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tra sérias dificuldades para ter uma casa própria. A propriedade da casa tem muita importância para a dignidade das pessoas e o desenvolvimento das famílias. Trata-se duma questão central da ecolo- gia humana. Se num lugar concreto já se desen- volveram aglomerados caóticos de casas precárias, trata-se primariamente de urbanizar estes bairros, não de erradicar e expulsar os habitantes. Mas, quando os pobres vivem em subúrbios poluídos ou aglomerados perigosos, «no caso de ter de se proceder à sua deslocação, para não acrescentar mais sofrimento ao que já padecem, é necessário fornecer-lhes uma adequada e prévia informação, oferecer-lhes alternativas de alojamentos dignos e envolver directamente os interessados ».118 Ao mesmo tempo, a criatividade deveria levar à inte- gração dos bairros precários numa cidade acolhe- dora: «Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os que são dife- rentes, fazendo desta integração um novo factor de progresso! Como são encantadoras as cidades que, já no seu projecto arquitectónico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o re- conhecimento do outro! » 119
153. Nas cidades, a qualidade de vida está larga- mente relacionada com os transportes, que mui- tas vezes são causa de grandes tribulações para
118 PontifíCio Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 482.
119 franCisCo, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novem- bro de 2013), 210: AAS 105 (2013), 1107.
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os habitantes. Nelas, circulam muitos carros utili- zados por uma ou duas pessoas, pelo que o tráfi- co torna-se intenso, eleva-se o nível de poluição, consomem-se enormes quantidades de energia não-renovável e torna-se necessário a construção de mais estradas e parques de estacionamento que prejudicam o tecido urbano. Muitos especialistas estão de acordo sobre a necessidade de dar prio- ridade ao transporte público. Mas é difícil que algumas medidas consideradas necessárias sejam pacificamente acolhidas pela sociedade, sem uma melhoria substancial do referido transporte, que, em muitas cidades, comporta um tratamento in- digno das pessoas devido à superlotação, ao des- conforto, ou à reduzida frequência dos serviços e à insegurança.
154. O reconhecimento da dignidade peculiar do ser humano contrasta frequentemente com a vida caótica que têm de fazer as pessoas nas nos- sas cidades. Mas isto não deveria levar a esquecer o estado de abandono e desleixo que sofrem tam- bém alguns habitantes das áreas rurais, onde não chegam os serviços essenciais e há trabalhadores reduzidos a situações de escravidão, sem direitos nem expectativas duma vida mais dignificante.
155. A ecologia humana implica também algo de muito profundo que é indispensável para se poder criar um ambiente mais dignificante: a re- lação necessária da vida do ser humano com a lei moral inscrita na sua própria natureza. Bento XVI dizia que existe uma « ecologia do homem », por-
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que «também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece ».120 Nesta linha, é preciso reconhecer que o nosso corpo nos põe em relação directa com o meio ambiente e com os outros seres vi- vos. A aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mun- do inteiro como dom do Pai e casa comum; pelo contrário, uma lógica de domínio sobre o pró- prio corpo transforma-se numa lógica, por vezes subtil, de domínio sobre a criação. Aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados é essencial para uma verda- deira ecologia humana. Também é necessário ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferen- te. Assim, é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente. Portanto, não é salutar um comportamento que pretenda « cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela ».121
4. o PrinCíPio do Bem Comum
156. A ecologia humana é inseparável da noção de bem comum, princípio este que desempenha
120 Discurso ao Bundestag, Berlim (22 de Setembro de 2011): AAS 103 (2011), 668; L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 24/IX/2011), 5.
121 franCisCo, Catequese (15 de Abril de 2015): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 16/IV/2015), 20.
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um papel central e unificador na ética social. É «o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada mem- bro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição ».122
157. O bem comum pressupõe o respeito pela pessoa humana enquanto tal, com direitos fun- damentais e inalienáveis orientados para o seu desenvolvimento integral. Exige também os dispositivos de bem-estar e segurança social e o desenvolvimento dos vários grupos intermédios, aplicando o princípio da subsidiariedade. Entre tais grupos, destaca-se de forma especial a famí- lia enquanto célula basilar da sociedade. Por fim, o bem comum requer a paz social, isto é, a esta- bilidade e a segurança de uma certa ordem, que não se realiza sem uma atenção particular à justi- ça distributiva, cuja violação gera sempre violên- cia. Toda a sociedade – e, nela, especialmente o Estado – tem obrigação de defender e promover o bem comum.
158. Nas condições actuais da sociedade mun- dial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à so- lidariedade e uma opção preferencial pelos mais
122 ConC. eCum. vat. ii, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 26.
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pobres. Esta opção implica tirar as consequên- cias do destino comum dos bens da terra, mas – como procurei mostrar na exortação apostólica Evangelii gaudium123 – exige acima de tudo con- templar a imensa dignidade do pobre à luz das mais profundas convicções de fé. Basta obser- var a realidade para compreender que, hoje, esta opção é uma exigência ética fundamental para a efectiva realização do bem comum.
5. a Justiça intergeneraCional
159. A noção de bem comum engloba também as gerações futuras. As crises económicas inter- nacionais mostraram, de forma atroz, os efeitos nocivos que traz consigo o desconhecimento de um destino comum, do qual não podem ser ex- cluídos aqueles que virão depois de nós. Já não se pode falar de desenvolvimento sustentável sem uma solidariedade intergeneracional. Quando pensamos na situação em que se deixa o planeta às gerações futuras, entramos noutra lógica: a do dom gratuito, que recebemos e comunicamos. Se a terra nos é dada, não podemos pensar apenas a partir dum critério utilitarista de eficiência e pro- dutividade para lucro individual. Não estamos a falar duma atitude opcional, mas duma questão essencial de justiça, pois a terra que recebemos pertence também àqueles que hão-de vir. Os bis- pos de Portugal exortaram a assumir este dever
123 Cf. nn. 186-201: AAS 105 (2013), 1098-1105. 122
de justiça: « O ambiente situa-se na lógica da re- cepção. É um empréstimo que cada geração rece- be e deve transmitir à geração seguinte ».124 Uma ecologia integral possui esta perspectiva ampla.
160. Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos dei- xar, referimo-nos sobretudo à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores. Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam alcançar efeitos importantes. Mas, se esta pergunta é posta com coragem, leva-nos inexoravelmente a outras ques- tões muito directas: Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Por isso, já não basta dizer que devemos preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo. Somos nós os primei- ros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto cha- ma em causa o significado da nossa passagem por esta terra.
124 ConferênCia ePisCoPal Portuguesa, Carta pastoral Responsabilidade solidária pelo bem comum (15 de Setembro de 2003), 20.
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161. As previsões catastróficas já não se po- dem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdí- cio e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida actual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está a acontecer periodicamente em várias regiões. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio actual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribui- rão aqueles que deverão suportar as piores con- sequências.
162. A dificuldade em levar a sério este desafio tem a ver com uma deterioração ética e cultu- ral, que acompanha a deterioração ecológica. O homem e a mulher deste mundo pós-moderno correm o risco permanente de se tornar pro- fundamente individualistas, e muitos problemas sociais de hoje estão relacionados com a busca egoísta duma satisfação imediata, com as crises dos laços familiares e sociais, com as dificuldades em reconhecer o outro. Muitas vezes há um con- sumo excessivo e míope dos pais que prejudica os próprios filhos, que sentem cada vez mais di- ficuldade em comprar casa própria e fundar uma família. Além disso esta falta de capacidade para pensar seriamente nas futuras gerações está liga- da com a nossa incapacidade de alargar o hori- zonte das nossas preocupações e pensar naqueles
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que permanecem excluídos do desenvolvimento. Não percamos tempo a imaginar os pobres do futuro, é suficiente que recordemos os pobres de hoje, que poucos anos têm para viver nesta terra e não podem continuar a esperar. Por isso, « para além de uma leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração ».125
125 Bento Xvi, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, 8: AAS 102 (2010), 45.
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CAPÍTULO V
ALGUMAS LINHAS DE ORIENTAÇÃO E ACÇÃO
163. Procurei examinar a situação actual da hu- manidade, tanto nas brechas do planeta que ha- bitamos, como nas causas mais profundamente humanas da degradação ambiental. Embora esta contemplação da realidade em si mesma já nos indique a necessidade duma mudança de rumo e sugira algumas acções, procuremos agora de- linear grandes percursos de diálogo que nos aju- dem a sair da espiral de autodestruição onde es- tamos a afundar.
1. o diálogo soBre o meio amBiente na PolítiCa internaCional
164. Desde meados do século passado e supe- rando muitas dificuldades, foi-se consolidando a tendência de conceber o planeta como pátria e a humanidade como povo que habita uma casa co- mum. Um mundo interdependente não significa unicamente compreender que as consequências danosas dos estilos de vida, produção e consumo afectam a todos, mas principalmente procurar que as soluções sejam propostas a partir duma perspectiva global e não apenas para defesa dos interesses de alguns países. A interdependência
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obriga-nos a pensar num único mundo, num projecto comum. Mas, a mesma inteligência que foi utili- zada para um enorme desenvolvimento tecno- lógico não consegue encontrar formas eficazes de gestão internacional para resolver as graves dificuldades ambientais e sociais. Para enfrentar os problemas de fundo, que não se podem resol- ver com acções de países isolados, torna-se in- dispensável um consenso mundial que leve, por exemplo, a programar uma agricultura sustentá- vel e diversificada, desenvolver formas de ener- gia renováveis e pouco poluidoras, fomentar uma maior eficiência energética, promover uma ges- tão mais adequada dos recursos florestais e ma- rinhos, garantir a todos o acesso à água potável.
165. Sabemos que a tecnologia baseada nos combustíveis fósseis – altamente poluentes, sobretudo o carvão mas também o petróleo e, em menor medida, o gás – deve ser, progressi- vamente e sem demora, substituída. Enquanto aguardamos por um amplo desenvolvimento das energias renováveis, que já deveria ter começa- do, é legítimo optar pelo mal menor ou recorrer a soluções transitórias. Todavia, na comunidade internacional, não se consegue suficiente acor- do sobre a responsabilidade de quem deve su- portar os maiores custos da transição energéti- ca. Nas últimas décadas, as questões ambientais deram origem a um amplo debate público, que fez crescer na sociedade civil espaços de notável compromisso e generosa dedicação. A política e
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a indústria reagem com lentidão, longe de estar à altura dos desafios mundiais. Neste sentido, po- de-se dizer que, enquanto a humanidade do pe- ríodo pós-industrial talvez fique recordada como uma das mais irresponsáveis da história, espera- -se que a humanidade dos inícios do século XXI possa ser lembrada por ter assumido com gene- rosidade as suas graves responsabilidades.
166. O movimento ecológico mundial já per- correu um longo caminho, enriquecido pelo es- forço de muitas organizações da sociedade civil. Não seria possível mencioná-las todas aqui, nem repassar a história das suas contribuições. Mas, graças a tanta dedicação, as questões ambientais têm estado cada vez mais presentes na agenda pública e tornaram-se um convite permanente a pensar a longo prazo. Apesar disso, as cimei- ras mundiais sobre o meio ambiente dos últimos anos não corresponderam às expectativas, por- que não alcançaram, por falta de decisão política, acordos ambientais globais realmente significati- vos e eficazes.
167. Dentre elas, há que recordar a Cimeira da Terra, celebrada em 1992 no Rio de Janeiro. Lá se proclamou que « os seres humanos constituem o centro das preocupações relacionadas com o desenvolvimento sustentável ».126 Retomando alguns conteúdos da Declaração de Estocolmo
126 Declaração do Rio sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, Rio de Janeiro (14 de Junho de 1992), princípio 1.
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(1972), sancionou, entre outras coisas, a coope- ração internacional no cuidado do ecossistema de toda a terra, a obrigação de quem contaminar assumir economicamente os custos derivados, o dever de avaliar o impacto ambiental de toda e qualquer obra ou projecto. Propôs o objectivo de estabilizar as concentrações de gases com efeito de estufa na atmosfera para inverter a tendência do aquecimento global. Também elaborou uma agenda com um programa de acção e uma con- venção sobre biodiversidade, declarou princípios em matéria florestal. Embora tal cimeira marcas- se um passo em frente e fosse verdadeiramente profética para a sua época, os acordos tiveram um baixo nível de implementação, porque não se estabeleceram adequados mecanismos de con- trole, revisão periódica e sanção das violações. Os princípios enunciados continuam a requerer caminhos eficazes e ágeis de realização prática.
168. Como experiências positivas, pode-se mencionar, por exemplo, a Convenção de Basi- leia sobre os resíduos perigosos, com um sistema de notificação, níveis estipulados e controles, e também a Convenção vinculante sobre o comér- cio internacional das espécies da fauna e da flora selvagens ameaçadas de extinção, que prevê mis- sões de verificação do seu efectivo cumprimento. Graças à Convenção de Viena para a protecção da camada de ozono e a respectiva implementa- ção através do Protocolo de Montreal e as suas emendas, o problema da diminuição da referida camada parece ter entrado numa fase de solução.
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169. No cuidado da biodiversidade e no con- traste à desertificação, os avanços foram muito menos significativos. Relativamente às mudanças climáticas, os progressos são, infelizmente, muito escassos. A redução de gases com efeito de estu- fa requer honestidade, coragem e responsabilida- de, sobretudo dos países mais poderosos e mais poluentes. A Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, chamada Rio+20 (Rio de Janeiro 2012), emitiu uma De- claração Final extensa mas ineficaz. As negocia- ções internacionais não podem avançar significa- tivamente por causa das posições dos países que privilegiam os seus interesses nacionais sobre o bem comum global. Aqueles que hão-de sofrer as consequências que tentamos dissimular, re- cordarão esta falta de consciência e de responsa- bilidade. Durante o período de elaboração desta encíclica, o debate adquiriu particular intensida- de. Nós, crentes, não podemos deixar de rezar a Deus pela evolução positiva nos debates actuais, para que as gerações futuras não sofram as con- sequências de demoras imprudentes.
170. Algumas das estratégias para a baixa emis- são de gases poluentes apostam na internaciona- lização dos custos ambientais, com o perigo de impor aos países de menores recursos pesados compromissos de redução de emissões com- paráveis aos dos países mais industrializados. A imposição destas medidas penaliza os países mais necessitados de desenvolvimento. Assim,
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acrescenta-se uma nova injustiça sob a capa do cuidado do meio ambiente. Como sempre, a corda quebra pelo ponto mais fraco. Uma vez que os efeitos das mudanças climáticas se farão sentir durante muito tempo, mesmo que agora sejam tomadas medidas rigorosas, alguns países com escassos recursos precisarão de ajuda para se adaptar a efeitos que já estão a produzir-se e afectam as suas economias. É verdade que há responsabilidades comuns, mas diferenciadas, pelo simples motivo – como disseram os bispos da Bolívia – que « os países que foram beneficia- dos por um alto grau de industrialização, à custa duma enorme emissão de gases com efeito de estufa, têm maior responsabilidade em contribuir para a solução dos problemas que causaram ».127
171. A estratégia de compra-venda de «crédi- tos de emissão » pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência dum certo compromisso com o meio ambien- te, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que per- mite sustentar o consumo excessivo de alguns países e sectores.
172. Para os países pobres, as prioridades de- vem ser a erradicação da miséria e o desenvol-
127 ConferênCia ePisCoPal da Bolívia, Carta pastoral El universo, don de Dios para la vida (2012), 86.
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vimento social dos seus habitantes; ao mesmo tempo devem examinar o nível escandaloso de consumo de alguns sectores privilegiados da sua população e contrastar melhor a corrupção. Sem dúvida, devem também desenvolver formas me- nos poluentes de produção de energia, mas para isso precisam de contar com a ajuda dos países que cresceram muito à custa da actual poluição do planeta. O aproveitamento directo da ener- gia solar, tão abundante, exige que se estabele- çam mecanismos e subsídios tais, que os países em vias de desenvolvimento possam ter acesso à transferência de tecnologias, assistência técnica e recursos financeiros, mas sempre prestando aten- ção às condições concretas, pois « nem sempre se avalia adequadamente a compatibilidade dos sis- temas com o contexto para o qual são projecta- dos ».128 Os custos seriam baixos se comparados com os riscos das mudanças climáticas. Em todo o caso, trata-se primariamente duma decisão éti- ca, fundada na solidariedade de todos os povos.
173. Urgem acordos internacionais que se cumpram, dada a escassa capacidade das instân- cias locais para intervirem de maneira eficaz. As relações entre os Estados devem salvaguardar a soberania de cada um, mas também estabelecer caminhos consensuais para evitar catástrofes locais que acabariam por danificar a todos. São necessários padrões reguladores globais que im-
128 PontifíCio Conselho « Justiça e Paz », Doc. Energia, Giustizia e Pace (Cidade do Vaticano 2013), 56.
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ponham obrigações e impeçam acções inaceitá- veis, como o facto de países poderosos descarre- garem, sobre outros países, resíduos e indústrias altamente poluentes.
174. Mencionemos também o sistema de go- vernança dos oceanos. Com efeito, embora tenha havido várias convenções internacionais e regio- nais, a fragmentação e a falta de severos mecanis- mos de regulamentação, controle e sanção aca- bam por minar todos os esforços. O problema crescente dos resíduos marinhos e da protecção das áreas marinhas para além das fronteiras na- cionais continua a representar um desafio espe- cial. Em definitivo, precisamos de um acordo so- bre os regimes de governança para toda a gama dos chamados bens comuns globais.
175. A lógica que dificulta a tomada de decisões drásticas para inverter a tendência ao aquecimen- to global é a mesma que não permite cumprir o objectivo de erradicar a pobreza. Precisamos duma reacção global mais responsável, que im- plique enfrentar, contemporaneamente, a redu- ção da poluição e o desenvolvimento dos países e regiões pobres. O século XXI, mantendo um sistema de governança próprio de épocas passa- das, assiste a uma perda de poder dos Estados nacionais, sobretudo porque a dimensão econó- mico-financeira, de carácter transnacional, tende a prevalecer sobre a política. Neste contexto, tor- na-se indispensável a maturação de instituições internacionais mais fortes e eficazmente organi- zadas, com autoridades designadas de maneira
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imparcial por meio de acordos entre os gover- nos nacionais e dotadas de poder de sancionar. Com afirmou Bento XVI, na linha desenvolvida até agora pela doutrina social da Igreja, «para o governo da economia mundial, para sanar as eco- nomias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e consequentes maio- res desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios urge a presença de uma verdadeira Autoridade polí- tica mundial, delineada já pelo meu predecessor, [São] João XXIII ».129 Nesta perspectiva, a diplo- macia adquire uma importância inédita, chamada a promover estratégias internacionais para pre- venir os problemas mais graves que acabam por afectar a todos.
2. o diálogo Para novas PolítiCas naCionais e loCais
176. Há vencedores e vencidos não só entre os países, mas também dentro dos países pobres, onde se devem identificar as diferentes responsa- bilidades. Por isso, as questões relacionadas com o meio ambiente e com o desenvolvimento eco- nómico já não se podem olhar apenas a partir das diferenças entre os países, mas exigem que se preste atenção às políticas nacionais e locais.
129 Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 67: AAS 101 (2009), 700.
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177. Perante a possibilidade duma utilização irresponsável das capacidades humanas, são fun- ções inadiáveis de cada Estado planificar, coor- denar, vigiar e sancionar dentro do respectivo território. Como pode a sociedade organizar e salvaguardar o seu futuro num contexto de cons- tantes inovações tecnológicas? Um factor que actua como moderador efectivo é o direito, que estabelece as regras para as condutas permitidas à luz do bem comum. Os limites que uma socie- dade sã, madura e soberana deve impor têm a ver com previsão e precaução, regulamentações adequadas, vigilância sobre a aplicação das nor- mas, contraste da corrupção, acções de controle operacional sobre o aparecimento de efeitos não desejados dos processos de produção, e opor- tuna intervenção perante riscos incertos ou po- tenciais. Existe uma crescente jurisprudência que visa reduzir os efeitos poluentes dos empreendi- mentos. Mas a estrutura política e institucional não existe apenas para evitar malversações, mas para incentivar as boas práticas, estimular a cria- tividade que busca novos caminhos, facilitar as iniciativas pessoais e colectivas.
178. O drama duma política focalizada nos re- sultados imediatos, apoiada também por popu- lações consumistas, torna necessário produzir crescimento a curto prazo. Respondendo a inte- resses eleitorais, os governos não se aventuram facilmente a irritar a população com medidas que possam afectar o nível de consumo ou pôr em
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risco investimentos estrangeiros. A construção míope do poder frena a inserção duma agenda ambiental com visão ampla na agenda pública dos governos. Esquece-se, assim, que «o tem- po é superior ao espaço »130 e que sempre somos mais fecundos quando temos maior preocupação por gerar processos do que por dominar espaços de poder. A grandeza política mostra-se quando, em momentos difíceis, se trabalha com base em grandes princípios e pensando no bem comum a longo prazo. O poder político tem muita difi- culdade em assumir este dever num projecto de nação.
179. Nalguns lugares, estão a desenvolver-se cooperativas para a exploração de energias reno- váveis, que consentem o auto-abastecimento lo- cal e até mesmo a venda da produção em exces- so. Este exemplo simples indica que, enquanto a ordem mundial existente se revela impotente para assumir responsabilidades, a instância local pode fazer a diferença. Com efeito, aqui é possí- vel gerar uma maior responsabilidade, um forte sentido de comunidade, uma especial capacidade de solicitude e uma criatividade mais generosa, um amor apaixonado pela própria terra, tal como se pensa naquilo que se deixa aos filhos e netos. Estes valores têm um enraizamento muito pro- fundo nas populações aborígenes. Dado que o direito por vezes se mostra insuficiente devido
130 franCisCo, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novem- bro de 2013), 222: AAS 105 (2013), 1111.
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à corrupção, requer-se uma decisão política sob pressão da população. A sociedade, através de organismos não-governamentais e associações intermédias, deve forçar os governos a desenvol- ver normativas, procedimentos e controles mais rigorosos. Se os cidadãos não controlam o poder político – nacional, regional e municipal –, tam- bém não é possível combater os danos ambien- tais. Além disso, as legislações municipais podem ser mais eficazes, se houver acordos entre popu- lações vizinhas para sustentarem as mesmas po- líticas ambientais.
180. Não se pode pensar em receitas unifor- mes, porque há problemas e limites específicos de cada país ou região. Também é verdade que o realismo político pode exigir medidas e tecnolo- gias de transição, desde que estejam acompanha- das pelo projecto e a aceitação de compromissos graduais vinculativos. Ao mesmo tempo, porém, a nível nacional e local, há sempre muito que fa- zer, como, por exemplo, promover formas de poupança energética. Isto implica favorecer mo- dalidades de produção industrial com a máxima eficiência energética e menor utilização de ma- térias-primas, retirando do mercado os produtos pouco eficazes do ponto de vista energético ou mais poluentes. Podemos mencionar também uma boa gestão dos transportes ou técnicas de construção e restruturação de edifícios que redu- zam o seu consumo energético e o seu nível de poluição. Além disso, a acção política local pode
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orientar-se para a alteração do consumo, o de- senvolvimento duma economia de resíduos e re- ciclagem, a protecção de determinadas espécies e a programação duma agricultura diversificada com a rotação de culturas. É possível favorecer a melhoria agrícola de regiões pobres, através de investimentos em infra-estruturas rurais, na organização do mercado local ou nacional, em sistemas de irrigação, no desenvolvimento de técnicas agrícolas sustentáveis. Podem-se facilitar formas de cooperação ou de organização comu- nitária que defendam os interesses dos pequenos produtores e salvaguardem da predação os ecos- sistemas locais. É tanto o que se pode fazer!
181. Indispensável é a continuidade, porque não se podem modificar as políticas relativas às alterações climáticas e à protecção ambiental to- das as vezes que muda um governo. Os resulta- dos requerem muito tempo e comportam cus- tos imediatos com efeitos que não poderão ser exibidos no período de vida dum governo. Por isso, sem a pressão da população e das institui- ções, haverá sempre relutância a intervir, e mais ainda quando houver urgências a resolver. Para um político, assumir estas responsabilidades com os custos que implicam não corresponde à lógica eficientista e imediatista actual da economia e da política, mas, se ele tiver a coragem de o fazer, poderá novamente reconhecer a dignidade que Deus lhe deu como pessoa e deixará, depois da sua passagem por esta história, um testemunho
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de generosa responsabilidade. Importa dar um lugar preponderante a uma política salutar, capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá- -las de bons procedimentos, que permitam supe- rar pressões e inércias viciosas. Todavia é preciso acrescentar que os melhores dispositivos acabam por sucumbir, quando faltam as grandes metas, os valores, uma compreensão humanista e rica de significado, capazes de conferir a cada sociedade uma orientação nobre e generosa.
3. diálogo e transParênCia nos ProCessos deCisórios
182. A previsão do impacto ambiental dos empreendimentos e projectos requer processos políticos transparentes e sujeitos a diálogo, en- quanto a corrupção, que esconde o verdadeiro impacto ambiental dum projecto em troca de fa- vores, frequentemente leva a acordos ambíguos que fogem ao dever de informar e a um debate profundo.
183. Um estudo de impacto ambiental não de- veria ser posterior à elaboração dum projecto produtivo ou de qualquer política, plano ou pro- grama. Há-de inserir-se desde o princípio e ela- borar-se de forma interdisciplinar, transparente e independente de qualquer pressão económica ou política. Deve aparecer unido à análise das condi- ções de trabalho e dos possíveis efeitos na saúde física e mental das pessoas, na economia local, na segurança. Assim os resultados económicos poder-se-ão prever de forma mais realista, tendo
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em conta os cenários possíveis e, eventualmen- te, antecipando a necessidade dum investimento maior para resolver efeitos indesejáveis que pos- sam ser corrigidos. É sempre necessário alcan- çar consenso entre os vários actores sociais, que podem trazer diferentes perspectivas, soluções e alternativas. Mas, no debate, devem ter um lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as finalidades que transcendem o interesse eco- nómico imediato. É preciso abandonar a ideia de «intervenções» sobre o meio ambiente, para dar lugar a políticas pensadas e debatidas por todas as partes interessadas. A participação requer que todos sejam adequadamente informados sobre os vários aspectos e os diferentes riscos e possi- bilidades, e não se reduza à decisão inicial sobre um projecto, mas implique também acções de controle ou monitoramento constante. É neces- sário haver sinceridade e verdade nas discussões científicas e políticas, sem se limitar a considerar o que é permitido ou não pela legislação.
184. Quando surgem eventuais riscos para o meio ambiente que afectam o bem comum pre- sente e futuro, esta situação exige «que as deci- sões sejam baseadas num confronto entre riscos e benefícios previsíveis para cada opção alternativa possível ».131 Isto vale sobretudo quando um pro-
131 PontifíCio Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 469.
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jecto pode causar um incremento na exploração dos recursos naturais, nas emissões ou descargas, na produção de resíduos, ou então uma mudança significativa na paisagem, no habitat de espécies protegidas ou num espaço público. Alguns pro- jectos, não apoiados por uma análise bem cui- dada, podem afectar profundamente a qualidade de vida dum lugar, devido a questões muito di- ferentes entre si, como, por exemplo, uma polui- ção acústica não prevista, a redução do horizonte visual, a perda de valores culturais, os efeitos do uso da energia nuclear. A cultura consumista, que dá prioridade ao curto prazo e aos interesses pri- vados, pode favorecer análises demasiado rápidas ou consentir a ocultação de informação.
185. Em qualquer discussão sobre um em- preendimento, dever-se-ia pôr uma série de per- guntas, para poder discernir se o mesmo levará a um desenvolvimento verdadeiramente integral: Para que fim? Por qual motivo? Onde? Quando? De que maneira? A quem ajuda? Quais são os riscos? A que preço? Quem paga as despesas e como o fará? Neste exame, há questões que de- vem ter prioridade. Por exemplo, sabemos que a água é um recurso escasso e indispensável, sendo um direito fundamental que condiciona o exer- cício doutros direitos humanos. Isto está, sem dúvida, acima de toda a análise de impacto am- biental duma região.
186. Na Declaração do Rio, de 1992, afirma- -se que, «quando existem ameaças de danos
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graves ou irreversíveis, a falta de certezas cien- tíficas absolutas não poderá constituir um moti- vo para adiar a adopção de medidas eficazes»132 que impeçam a degradação do meio ambiente. Este princípio de precaução permite a protecção dos mais fracos, que dispõem de poucos meios para se defender e fornecer provas irrefutáveis. Se a informação objectiva leva a prever um dano grave e irreversível, mesmo que não haja uma comprovação indiscutível, seja o projecto que for deverá suspender-se ou modificar-se. Assim, inverte-se o ónus da prova, já que, nestes casos, é preciso fornecer uma demonstração objectiva e contundente de que a actividade proposta não vai gerar danos graves ao meio ambiente ou às pessoas que nele habitam.
187. Isto não implica opor-se a toda e qualquer inovação tecnológica que permita melhorar a qualidade de vida duma população. Mas, em todo o caso, deve permanecer de pé que a rentabilida- de não pode ser o único critério a ter em conta e, na hora em que aparecessem novos elemen- tos de juízo a partir de ulteriores dados infor- mativos, deveria haver uma nova avaliação com a participação de todas as partes interessadas. O resultado do debate pode ser a decisão de não avançar num projecto, mas poderia ser também a sua modificação ou a elaboração de propostas alternativas.
132 Declaração do Rio sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (14 de Junho de 1992), princípio 15.
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188. Há discussões sobre problemas relativos ao meio ambiente, onde é difícil chegar a um consen- so. Repito uma vez mais que a Igreja não preten- de definir as questões científicas nem substituir-se à política, mas convido a um debate honesto e transparente, para que as necessidades particulares ou as ideologias não lesem o bem comum.
4. PolítiCa e eConomia em diálogo Para a Plenitude humana
189. A política não deve submeter-se à econo- mia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensan- do no bem comum, hoje precisamos imperiosa- mente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana. A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e refor- mar o sistema inteiro, reafirma um domínio ab- soluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois duma longa, custosa e aparente cura. A crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasião para o desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da actividade financeira especulativa e da riqueza virtual. Mas não houve uma reacção que fizesse repensar os critérios obsoletos que continuam a governar o mundo. A produção não é sempre racional, e muitas vezes está ligada a variáveis económicas que atribuem aos produtos um valor que não
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corresponde ao seu valor real. Isto leva frequen- temente a uma superprodução dalgumas merca- dorias, com um impacto ambiental desnecessário, que simultaneamente danifica muitas economias regionais.133 Habitualmente, a bolha financeira é também uma bolha produtiva. Em suma, o que não se enfrenta com energia é o problema da economia real, aquela que torna possível, por exemplo, que se diversifique e melhore a produ- ção, que as empresas funcionem adequadamente, que as pequenas e médias empresas se desenvol- vam e criem postos de trabalho.
190. Neste contexto, sempre se deve recordar que «a protecção ambiental não pode ser asse- gurada somente com base no cálculo financei- ro de custos e benefícios. O ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender ou a promover adequadamen- te».134 Mais uma vez repito que convém evitar uma concepção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos. Será realista esperar que quem está obcecado com a maximização dos lucros se detenha a considerar os efeitos ambientais que deixará às próximas gerações? Dentro do esque-
133 Cf. ConferênCia ePisCoPal do méXiCo – Comissão de Pastoral soCial, Jesucristo, vida y esperanza de los indígenas y campesinos (14 de Janeiro de 2008).
134 PontifíCio Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 470.
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ma do ganho não há lugar para pensar nos ritmos da natureza, nos seus tempos de degradação e re- generação, e na complexidade dos ecossistemas que podem ser gravemente alterados pela inter- venção humana. Além disso, quando se fala de biodiversidade, no máximo pensa-se nela como um reservatório de recursos económicos que po- deria ser explorado, mas não se considera seria- mente o valor real das coisas, o seu significado para as pessoas e as culturas, os interesses e as necessidades dos pobres.
191. Quando se colocam estas questões, alguns reagem acusando os outros de pretender parar, irracionalmente, o progresso e o desenvolvimen- to humano. Mas temos de nos convencer que, reduzir um determinado ritmo de produção e consumo, pode dar lugar a outra modalidade de progresso e desenvolvimento. Os esforços para um uso sustentável dos recursos naturais não são gasto inútil, mas um investimento que pode- rá proporcionar outros benefícios económicos a médio prazo. Se não temos vista curta, podemos descobrir que pode ser muito rentável a diver- sificação duma produção mais inovadora e com menor impacto ambiental. Trata-se de abrir ca- minho a oportunidades diferentes, que não im- plicam frenar a criatividade humana nem o seu sonho de progresso, mas orientar esta energia por novos canais.
192. Por exemplo, um percurso de desenvolvi- mento produtivo mais criativo e melhor orienta-
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do poderia corrigir a disparidade entre o exces- sivo investimento tecnológico no consumo e o escasso investimento para resolver os problemas urgentes da humanidade; poderia gerar formas inteligentes e rentáveis de reutilização, recupe- ração funcional e reciclagem; poderia melhorar a eficiência energética das cidades... A diversifi- cação produtiva oferece à inteligência humana possibilidades muito amplas de criar e inovar, ao mesmo tempo que protege o meio ambiente e cria mais oportunidades de trabalho. Esta se- ria uma criatividade capaz de fazer reflorescer a nobreza do ser humano, porque é mais dignifi- cante usar a inteligência, com audácia e respon- sabilidade, para encontrar formas de desenvolvi- mento sustentável e equitativo, no quadro duma concepção mais ampla da qualidade de vida. Ao contrário, é menos dignificante e criativo e mais superficial insistir na criação de formas de espo- liação da natureza só para oferecer novas possibi- lidades de consumo e de ganho imediato.
193. Assim, se nalguns casos o desenvolvi- mento sustentável implicará novas modalidades para crescer, noutros casos – face ao crescimen- to ganancioso e irresponsável, que se verificou ao longo de muitas décadas – devemos pensar também em abrandar um pouco a marcha, pôr alguns limites razoáveis e até mesmo retroceder antes que seja tarde. Sabemos que é insustentá- vel o comportamento daqueles que consomem e destroem cada vez mais, enquanto outros ainda
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não podem viver de acordo com a sua dignidade humana. Por isso, chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se pos- sa crescer de forma saudável noutras partes. Ben- to XVI dizia que «é preciso que as sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as condições da sua uti- lização ».135
194. Para que apareçam novos modelos de progresso, precisamos de «converter o mode- lo de desenvolvimento global»136, e isto impli- ca reflectir responsavelmente «sobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corri- gir as suas disfunções e deturpações».137 Não é suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preserva- ção do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tec- nológico e económico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmen- te superior, não se pode considerar progresso. Além disso, muitas vezes a qualidade real de vida
135 Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, 9: AAS 102 (2010), 46.
136 Ibidem.
137 Ibid., 5: o. c., 43.
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das pessoas diminui – pela deterioração do am- biente, a baixa qualidade dos produtos alimen- tares ou o esgotamento de alguns recursos – no contexto dum crescimento da economia. Então, muitas vezes, o discurso do crescimento susten- tável torna-se um diversivo e um meio de justifi- cação que absorve valores do discurso ecologista dentro da lógica da finança e da tecnocracia, e a responsabilidade social e ambiental das empresas reduz-se, na maior parte dos casos, a uma série de acções de publicidade e imagem.
195. O princípio da maximização do lucro, que tende a isolar-se de todas as outras considera- ções, é uma distorção conceptual da economia: desde que aumente a produção, pouco interes- sa que isso se consiga à custa dos recursos futu- ros ou da saúde do meio ambiente; se o derru- be duma floresta aumenta a produção, ninguém insere no respectivo cálculo a perda que implica desertificar um território, destruir a biodiversida- de ou aumentar a poluição. Por outras palavras, as empresas obtêm lucros calculando e pagando uma parte ínfima dos custos. Poder-se-ia consi- derar ético somente um comportamento em que «os custos económicos e sociais derivados do uso dos recursos ambientais comuns sejam reco- nhecidos de maneira transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui e não por ou- tras populações nem pelas gerações futuras».138
138 Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 50: AAS 101 (2009), 686.
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A mentalidade utilitária, que fornece apenas uma análise estática da realidade em função de neces- sidades actuais, está presente tanto quando é o mercado que atribui os recursos como quando o faz um Estado planificador.
196. Qual é o lugar da política? Recordemos o princípio da subsidiariedade, que dá liberdade para o desenvolvimento das capacidades presen- tes a todos os níveis, mas simultaneamente exige mais responsabilidade pelo bem comum a quem tem mais poder. É verdade que, hoje, alguns sec- tores económicos exercem mais poder do que os próprios Estados. Mas não se pode justificar uma economia sem política, porque seria incapaz de promover outra lógica para governar os vários aspectos da crise actual. A lógica que não deixa espaço para uma sincera preocupação pelo meio ambiente é a mesma em que não encontra espa- ço a preocupação por integrar os mais frágeis, porque, «no modelo “do êxito” e “individualis- ta” em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados pos- sam também singrar na vida ».139
197. Precisamos duma política que pense com visão ampla e leve por diante uma reformulação integral, abrangendo num diálogo interdiscipli- nar os vários aspectos da crise. Muitas vezes, a própria política é responsável pelo seu descré- dito, devido à corrupção e à falta de boas po-
139 franCisCo, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 209: AAS 105 (2013), 1107.
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líticas públicas. Se o Estado não cumpre o seu papel numa região, alguns grupos económicos podem-se apresentar como benfeitores e apro- priar-se do poder real, sentindo-se autorizados a não observar certas normas até se chegar às diferentes formas de criminalidade organizada, tráfico de pessoas, narcotráfico e violência muito difícil de erradicar. Se a política não é capaz de romper uma lógica perversa e perde-se também em discursos inconsistentes, continuaremos sem enfrentar os grandes problemas da humanidade. Uma estratégia de mudança real exige repensar a totalidade dos processos, pois não basta incluir considerações ecológicas superficiais enquanto não se puser em discussão a lógica subjacente à cultura actual. Uma política sã deveria ser capaz de assumir este desafio.
198. A política e a economia tendem a culpar- -se reciprocamente a respeito da pobreza e da degradação ambiental. Mas o que se espera é que reconheçam os seus próprios erros e encontrem formas de interacção orientadas para o bem co- mum. Enquanto uns se afanam apenas com o ganho económico e os outros estão obcecados apenas por conservar ou aumentar o poder, o que nos resta são guerras ou acordos espúrios, onde o que menos interessa às duas partes é pre- servar o meio ambiente e cuidar dos mais fracos. Vale aqui também o princípio de que « a unidade é superior ao conflito ».140
140 Ibid., 228: o. c., 1113.
151
5. as religiões no diálogo Com as CiênCias
199. Não se pode sustentar que as ciências em- píricas expliquem completamente a vida, a essên- cia íntima de todas as criaturas e o conjunto da realidade. Isto seria ultrapassar indevidamente os seus confins metodológicos limitados. Se se re- flecte dentro deste quadro restrito, desaparecem a sensibilidade estética, a poesia e ainda a capa- cidade da razão perceber o sentido e a finalidade das coisas.141 Quero lembrar que « os textos reli- giosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motiva- dora que abre sempre novos horizontes (...). Será razoável e inteligente relegá-los para a obscurida- de, só porque nasceram no contexto duma cren- ça religiosa? »142 Realmente, é ingénuo pensar que os princípios éticos possam ser apresentados de modo puramente abstracto, desligados de todo
141 Cf. franCisCo, Carta enc. Lumen fidei (29 de Junho de 2013), 34 [AAS 105 (2013), 577]: «Enquanto unida à verdade do amor, a luz da fé não é alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da vida luminosa de Jesus. A fé ilumina também a matéria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreensão. Deste modo, o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a sua riqueza inesgotável. A fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência ».
142 idem, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 256: AAS 105 (2013), 1123.
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o contexto, e o facto de aparecerem com uma linguagem religiosa não lhes tira valor algum no debate público. Os princípios éticos que a razão é capaz de perceber, sempre podem reaparecer sob distintas roupagens e expressos com linguagens diferentes, incluindo a religiosa.
200. Além disso, qualquer solução técnica que as ciências pretendam oferecer será impotente para resolver os graves problemas do mundo, se a humanidade perde o seu rumo, se esquece as grandes motivações que tornam possível a con- vivência social, o sacrifício, a bondade. Em todo o caso, será preciso fazer apelo aos crentes para que sejam coerentes com a sua própria fé e não a contradigam com as suas acções; será necessário insistir para que se abram novamente à graça de Deus e se nutram profundamente das próprias convicções sobre o amor, a justiça e a paz. Se às vezes uma má compreensão dos nossos princí- pios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o domínio despótico do ser humano sobre a criação, ou as guerras, a injustiça e a violência, nós, crentes, podemos reconhecer que então fo- mos infiéis ao tesouro de sabedoria que devía- mos guardar. Muitas vezes os limites culturais de distintas épocas condicionaram esta consciência do próprio património ético e espiritual, mas é precisamente o regresso às respectivas fontes que permite às religiões responder melhor às ne- cessidades actuais.
201. A maior parte dos habitantes do planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões
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a estabelecerem diálogo entre si, visando o cui- dado da natureza, a defesa dos pobres, a constru- ção duma trama de respeito e de fraternidade. De igual modo é indispensável um diálogo entre as próprias ciências, porque cada uma costuma fe- char-se nos limites da sua própria linguagem, e a especialização tende a converter-se em isolamen- to e absolutização do próprio saber. Isto impede de enfrentar adequadamente os problemas do meio ambiente. Torna-se necessário também um diálogo aberto e respeitador dos diferentes movi- mentos ecologistas, entre os quais não faltam as lutas ideológicas. A gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que « a realidade é superior à ideia ».143
143 Ibid., 231: o. c., 1114. 154
CAPÍTULO VI
EDUCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE ECOLÓGICAS
202. Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas antes de tudo é a humanidade que precisa de mudar. Falta a consciência duma ori- gem comum, duma recíproca pertença e dum futuro partilhado por todos. Esta consciência ba- silar permitiria o desenvolvimento de novas con- vicções, atitudes e estilos de vida. Surge, assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração.
1. aPontar Para outro estilo de vida
203. Dado que o mercado tende a criar um mecanismo consumista compulsivo para ven- der os seus produtos, as pessoas acabam por ser arrastadas pelo turbilhão das compras e gastos supérfluos. O consumismo obsessivo é o refle- xo subjectivo do paradigma tecno-económico. Está a acontecer aquilo que já assinalava Roma- no Guardini: o ser humano «aceita os objectos comuns e as formas habituais da vida como lhe são impostos pelos planos nacionais e pelos pro- dutos fabricados em série e, em geral, age assim com a impressão de que tudo isto seja razoável
155
e justo».144 O referido paradigma faz crer a to- dos que são livres pois conservam uma supos- ta liberdade de consumir, quando na realidade apenas possui a liberdade a minoria que detém o poder económico e financeiro. Nesta confu- são, a humanidade pós-moderna não encontrou uma nova compreensão de si mesma que a possa orientar, e esta falta de identidade é vivida com angústia. Temos demasiados meios para escassos e raquíticos fins.
204. A situação actual do mundo « gera um sen- tido de precariedade e insegurança, que, por sua vez, favorece formas de egoísmo colectivo».145 Quando as pessoas se tornam auto-referenciais e se isolam na própria consciência, aumentam a sua voracidade: quanto mais vazio está o cora- ção da pessoa, tanto mais necessita de objectos para comprar, possuir e consumir. Em tal con- texto, parece não ser possível, para uma pessoa, aceitar que a realidade lhe assinale limites; neste horizonte, não existe sequer um verdadeiro bem comum. Se este é o tipo de sujeito que tende a predominar numa sociedade, as normas serão respeitadas apenas na medida em que não con- tradigam as necessidades próprias. Por isso, não pensemos só na possibilidade de terríveis fenó- menos climáticos ou de grandes desastres natu- rais, mas também nas catástrofes resultantes de
  1. 144  Das Ende der Neuzeit (Würzburg 91965), 66-67.
  2. 145  João Paulo ii, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de
1990, 1: AAS 82 (1990), 147.
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crises sociais, porque a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e destruição recíproca.
205. Mas nem tudo está perdido, porque os se- res humanos, capazes de tocar o fundo da degra- dação, podem também superar-se, voltar a esco- lher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja imposto. São capazes de se olhar a si mes- mos com honestidade, externar o próprio pesar e encetar caminhos novos rumo à verdadeira li- berdade. Não há sistemas que anulem, por com- pleto, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir que Deus continua a animar no mais fundo dos nossos corações. A cada pessoa deste mundo, peço para não esque- cer esta sua dignidade que ninguém tem o direito de lhe tirar.
206. Uma mudança nos estilos de vida poderia chegar a exercer uma pressão salutar sobre quan- tos detêm o poder político, económico e social. Verifica-se isto quando os movimentos de con- sumidores conseguem que se deixe de adquirir determinados produtos e assim se tornam efica- zes na mudança do comportamento das empre- sas, forçando-as a reconsiderar o impacto am- biental e os modelos de produção. É um facto que, quando os hábitos da sociedade afectam os ganhos das empresas, estas vêem-se pressionadas a mudar a produção. Isto lembra-nos a respon-
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sabilidade social dos consumidores. «Comprar é sempre um acto moral, para além de econó- mico».146 Por isso, hoje, «o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós ».147
207. A Carta da Terra convidava-nos, a todos, a começar de novo deixando para trás uma etapa de autodestruição, mas ainda não desenvolvemos uma consciência universal que o torne possível. Por isso, atrevo-me a propor de novo aquele con- siderável desafio: «Como nunca antes na histó- ria, o destino comum obriga-nos a procurar um novo início (...). Que o nosso seja um tempo que se recorde pelo despertar duma nova reverência face à vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida ».148
208. Sempre é possível desenvolver uma nova capacidade de sair de si mesmo rumo ao outro. Sem tal capacidade, não se reconhece às outras criaturas o seu valor, não se sente interesse em cuidar de algo para os outros, não se consegue impor limites para evitar o sofrimento ou a de- gradação do que nos rodeia. A atitude basilar
146 Bento Xvi, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 66: AAS 101 (2009), 699.
147 IDEM, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, 11: AAS 102 (2010), 48.
148 Carta da Terra, Haia (29 de Junho de 2000). 158
de se auto-transcender, rompendo com a cons- ciência isolada e a auto-referencialidade, é a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do meio ambiente; e faz brotar a reacção moral de ter em conta o impacto que possa provocar cada acção e decisão pessoal fora de si mesmo. Quan- do somos capazes de superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida alternativo e torna-se possível uma mudança re- levante na sociedade.
2. eduCar Para a aliança entre a humanidade e o amBiente
209. A consciência da gravidade da crise cul- tural e ecológica precisa de traduzir-se em novos hábitos. Muitos estão cientes de que não basta o progresso actual e a mera acumulação de ob- jectos ou prazeres para dar sentido e alegria ao coração humano, mas não se sentem capazes de renunciar àquilo que o mercado lhes oferece. Nos países que deveriam realizar as maiores mu- danças nos hábitos de consumo, os jovens têm uma nova sensibilidade ecológica e um espírito generoso, e alguns deles lutam admiravelmente pela defesa do meio ambiente, mas cresceram num contexto de altíssimo consumo e bem-es- tar que torna difícil a maturação doutros hábitos. Por isso, estamos perante um desafio educativo.
210. A educação ambiental tem vindo a am- pliar os seus objectivos. Se, no começo, estava muito centrada na informação científica e na
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consciencialização e prevenção dos riscos am- bientais, agora tende a incluir uma crítica dos «mitos» da modernidade baseados na razão ins- trumental (individualismo, progresso ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras) e tende também a recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. A educação ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo. Além disso, há educadores capazes de reordenar os itinerá- rios pedagógicos duma ética ecológica, de modo que ajudem efectivamente a crescer na solidarie- dade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão.
211. Às vezes, porém, esta educação, chamada a criar uma « cidadania ecológica », limita-se a in- formar e não consegue fazer maturar hábitos. A existência de leis e normas não é suficiente, a lon- go prazo, para limitar os maus comportamentos, mesmo que haja um válido controle. Para a norma jurídica produzir efeitos importantes e duradou- ros, é preciso que a maior parte dos membros da sociedade a tenha acolhido, com base em motiva- ções adequadas, e reaja com uma transformação pessoal. A doação de si mesmo num compromis- so ecológico só é possível a partir do cultivo de virtudes sólidas. Se uma pessoa habitualmente se resguarda um pouco mais em vez de ligar o
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aquecimento, embora as suas economias lhe per- mitam consumir e gastar mais, isso supõe que ad- quiriu convicções e modos de sentir favoráveis ao cuidado do ambiente. É muito nobre assumir o dever de cuidar da criação com pequenas acções diárias, e é maravilhoso que a educação seja capaz de motivar para elas até dar forma a um estilo de vida. A educação na responsabilidade ambiental pode incentivar vários comportamentos que têm incidência directa e importante no cuidado do meio ambiente, tais como evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, diferenciar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes públicos ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores, apagar as luzes desnecessárias... Tudo isto faz parte duma criatividade generosa e dignificante, que põe a descoberto o melhor do ser humano. Voltar – com base em motivações profundas – a utilizar algo em vez de o desperdi- çar rapidamente pode ser um acto de amor que exprime a nossa dignidade.
212. E não se pense que estes esforços são in- capazes de mudar o mundo. Estas acções espa- lham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para além do que é possível constatar; provocam, no seio desta terra, um bem que sempre tende a difundir-se, por vezes invisivelmente. Além disso, o exercício destes comportamentos restitui-nos o sentimento da nossa dignidade, leva-nos a uma
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maior profundidade existencial, permite-nos ex- perimentar que vale a pena a nossa passagem por este mundo.
213. Vários são os âmbitos educativos: a esco- la, a família, os meios de comunicação, a cate- quese, e outros. Uma boa educação escolar em tenra idade coloca sementes que podem produzir efeitos durante toda a vida. Mas, quero salientar a importância central da família, porque « é o lugar onde a vida, dom de Deus, pode ser convenien- temente acolhida e protegida contra os múltiplos ataques a que está exposta, e pode desenvolver- -se segundo as exigências de um crescimento humano autêntico. Contra a denominada cultu- ra da morte, a família constitui a sede da cultura da vida ».149 Na família, cultivam-se os primeiros hábitos de amor e cuidado da vida, como, por exemplo, o uso correcto das coisas, a ordem e a limpeza, o respeito pelo ecossistema local e a protecção de todas as criaturas. A família é o lu- gar da formação integral, onde se desenvolvem os distintos aspectos, intimamente relacionados entre si, do amadurecimento pessoal. Na família, aprende-se a pedir licença sem servilismo, a dizer « obrigado » como expressão duma sentida avalia- ção das coisas que recebemos, a dominar a agres- sividade ou a ganância, e a pedir desculpa quando fazemos algo de mal. Estes pequenos gestos de sincera cortesia ajudam a construir uma cultura
149 João Paulo ii, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 39: AAS 83 (1991), 842.
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da vida compartilhada e do respeito pelo que nos rodeia.
214. Compete à política e às várias associações um esforço de formação das consciências da po- pulação. Naturalmente compete também à Igre- ja. Todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar nesta educação. Es- pero também que, nos nossos Seminários e Ca- sas Religiosas de Formação, se eduque para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente. Tendo em conta o muito que está em jogo, do mesmo modo que são ne- cessárias instituições dotadas de poder para punir os danos ambientais, também nós precisamos de nos controlar e educar uns aos outros.
215. Neste contexto, «não se deve descurar nunca a relação que existe entre uma educação estética apropriada e a preservação de um am- biente sadio ».150 Prestar atenção à beleza e amá- -la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista. Quando não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objecto de uso e abuso sem es- crúpulos. Ao mesmo tempo, se se quer conseguir mudanças profundas, é preciso ter presente que os modelos de pensamento influem realmente nos comportamentos. A educação será ineficaz
150 idem, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 14: AAS 82 (1990), 155.
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e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza. Caso contrário, continuará a perdurar o modelo consumista, transmitido pe- los meios de comunicação social e através dos mecanismos eficazes do mercado.
3. a Conversão eCológiCa
216. A grande riqueza da espiritualidade cris- tã, proveniente de vinte séculos de experiências pessoais e comunitárias, constitui uma magnífica contribuição para o esforço de renovar a humani- dade. Desejo propor aos cristãos algumas linhas de espiritualidade ecológica que nascem das con- vicções da nossa fé, pois aquilo que o Evangelho nos ensina tem consequências no nosso modo de pensar, sentir e viver. Não se trata tanto de propor ideias, como sobretudo falar das motivações que derivam da espiritualidade para alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Com efeito, não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima, sem «uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à acção pessoal e comuni- tária ».151 Temos de reconhecer que nós, cristãos, nem sempre recolhemos e fizemos frutificar as riquezas dadas por Deus à Igreja, nas quais a es- piritualidade não está desligada do próprio corpo
151 franCisCo, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 261: AAS 105 (2013), 1124.
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nem da natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos rodeia.
217. Se «os desertos exteriores se multipli- cam no mundo, porque os desertos interiores se tornaram tão amplos»,152 a crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior. Entre- tanto temos de reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragmático frequentemente se burlam das preocupações pelo meio ambiente. Outros são passivos, não se decidem a mudar os seus hábitos e tornam-se incoerentes. Falta-lhes, pois, uma conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os ro- deia, todas as consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto se- cundário da experiência cristã, mas parte essen- cial duma existência virtuosa.
218. Recordemos o modelo de São Francisco de Assis, para propor uma sã relação com a cria- ção como dimensão da conversão integral da pes- soa. Isto exige também reconhecer os próprios erros, pecados, vícios ou negligências, e arrepen- der-se de coração, mudar a partir de dentro. A Igreja na Austrália soube expressar a conversão
152 Bento Xvi, Homilia no solene início do Ministério Petrino (24 de Abril de 2005): AAS 97 (2005), 710; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 30/IV/2005), 5.
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em termos de reconciliação com a criação: « Para realizar esta reconciliação, devemos examinar as nossas vidas e reconhecer de que modo ofende- mos a criação de Deus com as nossas acções e com a nossa incapacidade de agir. Devemos fazer a experiência duma conversão, duma mudança do coração ».153
219. Todavia, para se resolver uma situação tão complexa como esta que enfrenta o mundo ac- tual, não basta que cada um seja melhor. Os indi- víduos isolados podem perder a capacidade e a li- berdade de vencer a lógica da razão instrumental e acabam por sucumbir a um consumismo sem ética nem sentido social e ambiental. Aos proble- mas sociais responde-se, não com a mera soma de bens individuais, mas com redes comunitárias: « As exigências desta obra serão tão grandes, que as possibilidades das iniciativas individuais e a cooperação dos particulares, formados de ma- neira individualista, não serão capazes de lhes dar resposta. Será necessária uma união de forças e uma unidade de contribuições».154 A conversão ecológica, que se requer para criar um dinamis- mo de mudança duradoura, é também uma con- versão comunitária.
220. Esta conversão comporta várias atitudes que se conjugam para activar um cuidado ge-
153 ConferênCia dos BisPos CatóliCos da austrália, A New Earth - The Environmental Challenge (2002).
154 romano guardini, Das Ende der Neuzeit (Würzburg 91965), 72.
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neroso e cheio de ternura. Em primeiro lugar, implica gratidão e gratuidade, ou seja, um reco- nhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai, que consequentemente provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos gene- rosos, mesmo que ninguém os veja nem agrade- ça. «Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita (...); e teu Pai, que vê o oculto, há-de premiar-te» (Mt 6, 3-4). Implica ainda a consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão uni- versal. O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhe- cendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres. Além disso a conversão ecológica, fazendo crescer as peculiares capacidades que Deus deu a cada crente, leva-o a desenvolver a sua criati- vidade e entusiasmo para resolver os dramas do mundo, oferecendo-se a Deus «como sacrifício vivo, santo e agradável» (Rm 12, 1). Não vê a sua superioridade como motivo de glória pessoal nem de domínio irresponsável, mas como uma capacidade diferente que, por sua vez, lhe impõe uma grave responsabilidade derivada da sua fé.
221. Ajudam a enriquecer o sentido de tal con- versão várias convicções da nossa fé, desenvolvi- das ao início desta encíclica, como, por exemplo, a consciência de que cada criatura reflecte algo de Deus e tem uma mensagem para nos transmitir, ou a certeza de que Cristo assumiu em Si mesmo este mundo material e agora, ressuscitado, habita
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no íntimo de cada ser, envolvendo-o com o seu carinho e penetrando-o com a sua luz; e ainda o reconhecimento de que Deus criou o mundo, inscrevendo nele uma ordem e um dinamismo que o ser humano não tem o direito de ignorar. Porventura uma pessoa, ouvindo no Evangelho Jesus dizer – a propósito dos pássaros – que « ne- nhum deles passa despercebido diante de Deus » (Lc 12, 6), será capaz de os maltratar ou causar- -lhes dano? Convido todos os cristãos a explici- tar esta dimensão da sua conversão, permitindo que a força e a luz da graça recebida se estendam também à relação com as outras criaturas e com o mundo que os rodeia, e suscite aquela sublime fraternidade com a criação inteira que viveu, de maneira tão elucidativa, São Francisco de Assis.
4. alegria e Paz
222. A espiritualidade cristã propõe uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, en- corajando um estilo de vida profético e contem- plativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo. É importante adoptar um antigo ensinamento, presente em distintas tradições religiosas e também na Bíblia. Trata- -se da convicção de que «quanto menos, tanto mais». Com efeito, a acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento. Pelo contrário, tornar-se sere- namente presente diante de cada realidade, por mais pequena que seja, abre-nos muitas mais pos-
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sibilidades de compreensão e realização pessoal. A espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entriste- cermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumu- lação de prazeres.
223. A sobriedade, vivida livre e consciente- mente, é libertadora. Não se trata de menos vida, nem vida de baixa intensidade; é precisamente o contrário. Com efeito, as pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aque- las que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coi- sa, aprendem a familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas. Deste modo conseguem reduzir o número das necessidades insatisfeitas e diminuem o cansaço e a ansieda- de. É possível necessitar de pouco e viver mui- to, sobretudo quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na frutificação dos próprios carismas, na música e na arte, no contacto com a natureza, na oração. A felicida- de exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim disponí- veis para as múltiplas possibilidades que a vida oferece.
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224. A sobriedade e a humildade não gozaram de positiva consideração no século passado. Mas, quando se debilita de forma generalizada o exer- cício dalguma virtude na vida pessoal e social, isso acaba por provocar variados desequilíbrios, mesmo ambientais. Por isso, não basta falar ape- nas da integridade dos ecossistemas; é preciso ter a coragem de falar da integridade da vida huma- na, da necessidade de incentivar e conjugar todos os grandes valores. O desaparecimento da hu- mildade, num ser humano excessivamente entu- siasmado com a possibilidade de dominar tudo sem limite algum, só pode acabar por prejudicar a sociedade e o meio ambiente. Não é fácil de- senvolver esta humildade sadia e uma sobriedade feliz, se nos tornamos autónomos, se excluímos Deus da nossa vida fazendo o nosso eu ocupar o seu lugar, se pensamos ser a nossa subjectividade que determina o que é bem e o que é mal.
225. Por outro lado, ninguém pode amadure- cer numa sobriedade feliz, se não estiver em paz consigo mesmo. E parte duma adequada com- preensão da espiritualidade consiste em alargar a nossa compreensão da paz, que é muito mais do que a ausência de guerra. A paz interior das pes- soas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflecte-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. A natureza está cheia de palavras de amor; mas, como poderemos ouvi-las no meio do ruído constante, da distracção per-
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manente e ansiosa, ou do culto da notoriedade? Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a atro- pelar tudo o que têm ao seu redor. Isto tem inci- dência no modo como se trata o ambiente. Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação, reflectir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre nós e naquilo que nos rodeia e cuja pre- sença « não precisa de ser criada, mas descoberta, desvendada ».155
226. Falamos aqui duma atitude do coração, que vive tudo com serena atenção, que sabe man- ter-se plenamente presente diante duma pessoa sem estar a pensar no que virá depois, que se entrega a cada momento como um dom divino que se deve viver em plenitude. Jesus ensinou- -nos esta atitude, quando nos convidava a olhar os lírios do campo e as aves do céu, ou quan- do, na presença dum homem inquieto, «fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele » (Mc 10, 21). De certeza que Ele estava plenamente presente diante de cada ser humano e de cada criatura, mostrando-nos assim um caminho para superar a ansiedade doentia que nos torna superficiais, agressivos e consumistas desenfreados.
155 franCisCo, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novem- bro de 2013), 71: AAS 105 (2013), 1050.
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227. Uma expressão desta atitude é parar a agradecer a Deus antes e depois das refeições. Proponho aos crentes que retomem este hábito importante e o vivam profundamente. Este mo- mento da bênção da mesa, embora muito breve, recorda-nos que a nossa vida depende de Deus, fortalece o nosso sentido de gratidão pelos dons da criação, dá graças por aqueles que com o seu trabalho fornecem estes bens, e reforça a solida- riedade com os mais necessitados.
5. amor Civil e PolítiCo
228. O cuidado da natureza faz parte dum esti- lo de vida que implica capacidade de viver juntos e de comunhão. Jesus lembrou-nos que temos Deus como nosso Pai comum e que isto nos tor- na irmãos. O amor fraterno só pode ser gratuito, nunca pode ser uma paga a outrem pelo que rea- lizou, nem um adiantamento pelo que esperamos venha a fazer. Por isso, é possível amar os inimi- gos. Esta mesma gratuidade leva-nos a amar e aceitar o vento, o sol ou as nuvens, embora não se submetam ao nosso controle. Assim podemos falar duma fraternidade universal.
229. É necessário voltar a sentir que precisa- mos uns dos outros, que temos uma responsabi- lidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos. Vivemos já muito tem- po na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de
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pouco nos serviu. Uma tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios in- teresses, provoca o despertar de novas formas de violência e crueldade e impede o desenvolvimen- to duma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente.
230. O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a pôr em prática o pequeno cami- nho do amor, a não perder a oportunidade duma palavra gentil, dum sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quoti- dianos, pelos quais quebramos a lógica da violên- cia, da exploração, do egoísmo. Pelo contrário, o mundo do consumo exacerbado é, simultanea- mente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas formas.
231. O amor, cheio de pequenos gestos de cui- dado mútuo, é também civil e político, manifes- tando-se em todas as acções que procuram cons- truir um mundo melhor. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também « as macrorrela- ções como relacionamentos sociais, económicos, políticos ».156 Por isso, a Igreja propôs ao mundo
156 Bento Xvi, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 2: AAS 101 (2009), 642.
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o ideal duma «civilização do amor».157 O amor social é a chave para um desenvolvimento autên- tico: « Para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social – nos planos político, económico, cultural – fazendo dele a norma constante e su- prema do agir».158 Neste contexto, juntamente com a importância dos pequenos gestos diários, o amor social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degrada- ção ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade. Quando alguém reconhece a vocação de Deus para intervir jun- tamente com os outros nestas dinâmicas sociais, deve lembrar-se que isto faz parte da sua espiri- tualidade, é exercício da caridade e, deste modo, amadurece e se santifica.
232. Nem todos são chamados a trabalhar de forma directa na política, mas no seio da socieda- de floresce uma variedade inumerável de associa- ções que intervêm em prol do bem comum, de- fendendo o meio ambiente natural e urbano. Por exemplo, preocupam-se com um lugar público (um edifício, uma fonte, um monumento aban- donado, uma paisagem, uma praça) para prote- ger, sanar, melhorar ou embelezar algo que é de todos. Ao seu redor, desenvolvem-se ou recupe-
157 Paulo vi, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1977: AAS 68 (1976), 709.
158 PontifíCio Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 582.
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ram-se vínculos, fazendo surgir um novo tecido social local. Assim, uma comunidade liberta-se da indiferença consumista. Isto significa também cultivar uma identidade comum, uma história que se conserva e transmite. Desta forma cuida- -se do mundo e da qualidade de vida dos mais pobres, com um sentido de solidariedade que é, ao mesmo tempo, consciência de habitar numa casa comum que Deus nos confiou. Estas acções comunitárias, quando exprimem um amor que se doa, podem transformar-se em experiências es- pirituais intensas.
6. os sinais saCramentais e o desCanso CeleBrativo
233. O universo desenvolve-se em Deus, que o preenche completamente. E, portanto, há um mistério a contemplar numa folha, numa vere- da, no orvalho, no rosto do pobre.159 O ideal não é só passar da exterioridade à interioridade para descobrir a acção de Deus na alma, mas também chegar a encontrá-Lo em todas as coisas, como
159 Um mestre espiritual, Ali Al-Khawwas, partindo da sua própria experiência, assinalava a necessidade de não separar demasiado as criaturas do mundo e a experiência de Deus na interioridade. Dizia ele: « Não é preciso criticar preconceituosa- mente aqueles que procuram o êxtase na música ou na poesia. Há um “segredo” subtil em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. Os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores que se curvam, a água que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos pássa- ros, o dedilhar de cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfer- mos, o gemido dos aflitos...» (eva de vitray-meyerovitCh, [ed.], Anthologie du soufisme, Paris 1978, 200).
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ensinava São Boaventura: « A contemplação é tan- to mais elevada quanto mais o homem sente em si mesmo o efeito da graça divina ou quanto mais sabe reconhecer Deus nas outras criaturas ».160
234. São João da Cruz ensinava que tudo o que há de bom nas coisas e experiências do mundo «encontra-se eminentemente em Deus de ma- neira infinita ou, melhor, Ele é cada uma destas grandezas que se pregam ».161 E isto, não porque as coisas limitadas do mundo sejam realmente divinas, mas porque o místico experimenta a li- gação íntima que há entre Deus e todos os seres vivos e, deste modo, « sente que Deus é para ele todas as coisas».162 Quando admira a grandeza duma montanha, não pode separar isto de Deus, e percebe que tal admiração interior que ele vive, deve finalizar no Senhor: «As montanhas têm cumes, são altas, imponentes, belas, graciosas, floridas e perfumadas. Como estas montanhas, é o meu Amado para mim. Os vales solitários são tranquilos, amenos, frescos, sombreados, ricos de doces águas. Pela variedade das suas árvores e pelo canto suave das aves, oferecem grande di- vertimento e encanto aos sentidos e, na sua so- lidão e silêncio, dão refrigério e repouso: como estes vales, é o meu Amado para mim ».163
  1. 160  In II Sententiarum, 23, 2, 3.
  2. 161  Cántico Espiritual, XIV, 5.
  3. 162  Ibidem.
  4. 163  Ibid., XIV, 6-7.
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235. Os sacramentos constituem um modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida so- brenatural. Através do culto, somos convidados a abraçar o mundo num plano diferente. A água, o azeite, o fogo e as cores são assumidas com toda a sua força simbólica e incorporam-se no louvor. A mão que abençoa é instrumento do amor de Deus e reflexo da proximidade de Cristo, que veio para Se fazer nosso companheiro no caminho da vida. A água derramada sobre o corpo da criança baptizada, é sinal de vida nova. Não fugimos do mundo, nem negamos a natureza, quando quere- mos encontrar-nos com Deus. Nota-se isto parti- cularmente na espiritualidade do Oriente cristão. « A beleza, que no Oriente é um dos nomes mais queridos para exprimir a harmonia divina e o modelo da humanidade transfigurada, mostra-se em toda a parte: nas formas do templo, nos sons, nas cores, nas luzes, nos perfumes ».164 Segundo a experiência cristã, todas as criaturas do universo material encontram o seu verdadeiro sentido no Verbo encarnado, porque o Filho de Deus incor- porou na sua pessoa parte do universo material, onde introduziu um gérmen de transformação definitiva: « O cristianismo não rejeita a matéria; pelo contrário, a corporeidade é valorizada ple- namente no acto litúrgico, onde o corpo humano mostra sua íntima natureza de templo do Espí-
164 João Paulo ii, Carta ap. Orientale lumen (2 de Maio de 1995), 11: AAS 87 (1995), 757.
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rito Santo e chega a unir-se a Jesus Senhor, feito também Ele corpo para a salvação do mundo ».165
236. A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravi- lhosa quando o próprio Deus, feito homem, che- ga ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-Lo a Ele no nosso pró- prio mundo. Na Eucaristia, já está realizada a ple- nitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito a Euca- ristia é, por si mesma, um acto de amor cósmico. « Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja da aldeia, a Euca- ristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo ».166 A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico, « a criação propen- de para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador ».167 Por isso,
165 Ibidem.
166 idem, Carta enc. Ecclesia de Eucharistia (17 de Abril de 2003), 8: AAS 95 (2003), 438.
167 Bento Xvi, Homilia na Missa de Corpus Christi (15 de Junho de 2006): AAS 98 (2006), 513; L ́Osservatore Romano (ed. portuguesa de 24/VI/2006), 3.
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a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambien- te, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira.
237. A participação na Eucaristia é especial- mente importante ao domingo. Este dia, à seme- lhança do sábado judaico, é-nos oferecido como dia de cura das relações do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo. O domingo é o dia da Ressurreição, o «primeiro dia» da nova criação, que tem as suas primícias na humanidade ressuscitada do Senhor, garantia da transfiguração final de toda a realida- de criada. Além disso, este dia anuncia «o des- canso eterno do homem, em Deus».168 Assim, a espiritualidade cristã integra o valor do repouso e da festa. O ser humano tende a reduzir o descan- so contemplativo ao âmbito do estéril e do inútil, esquecendo que deste modo se tira à obra rea- lizada o mais importante: o seu significado. Na nossa actividade, somos chamados a incluir uma dimensão receptiva e gratuita, o que é diferente da simples inactividade. Trata-se doutra maneira de agir, que pertence à nossa essência. Assim, a acção humana é preservada não só do activismo vazio, mas também da ganância desenfreada e da consciência que se isola buscando apenas o bene- fício pessoal. A lei do repouso semanal impunha abster-se do trabalho no sétimo dia, «para que descansem o teu boi e o teu jumento e tomem
168 Catecismo da Igreja Católica, 2175.
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fôlego o filho da tua serva e o estrangeiro resi- dente » (Ex 23, 12). O repouso é uma ampliação do olhar, que permite voltar a reconhecer os di- reitos dos outros. Assim o dia de descanso, cujo centro é a Eucaristia, difunde a sua luz sobre a semana inteira e encoraja-nos a assumir o cuida- do da natureza e dos pobres.
7. a trindade e a relação entre as Criaturas
238. O Pai é a fonte última de tudo, fundamen- to amoroso e comunicativo de tudo o que exis- te. O Filho, que O reflecte e por Quem tudo foi criado, uniu-Se a esta terra, quando foi forma- do no seio de Maria. O Espírito, vínculo infinito de amor, está intimamente presente no coração do universo, animando e suscitando novos ca- minhos. O mundo foi criado pelas três Pessoas como um único princípio divino, mas cada uma delas realiza esta obra comum segundo a própria identidade pessoal. Por isso, «quando, admira- dos, contemplamos o universo na sua grandeza e beleza, devemos louvar a inteira Trindade ».169
239. Para os cristãos, acreditar num Deus úni- co que é comunhão trinitária, leva a pensar que toda a realidade contém em si mesma uma marca propriamente trinitária. São Boaventura chega a dizer que o ser humano, antes do pecado, conse-
169 João Paulo ii, Catequese (2 de Agosto de 2000), 4: In- segnamenti 23/2 (2000), 112; L ́Osservatore Romano (ed. portugue- sa de 5/VIII/2000), 8.
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guia descobrir como cada criatura «testemunha que Deus é trino ». O reflexo da Trindade podia- -se reconhecer na natureza, «quando esse livro não era obscuro para o homem, nem a vista do homem se tinha turvado».170 Este santo francis- cano ensina-nos que toda a criatura traz em si uma estrutura propriamente trinitária, tão real que poderia ser contemplada espontaneamente, se o olhar do ser humano não estivesse limitado, obscurecido e fragilizado. Indica-nos, assim, o desafio de tentar ler a realidade em chave trinitária.
240. As Pessoas divinas são relações subsisten- tes; e o mundo, criado segundo o modelo divi- no, é uma trama de relações. As criaturas tendem para Deus; e é próprio de cada ser vivo tender, por sua vez, para outra realidade, de modo que, no seio do universo, podemos encontrar uma sé- rie inumerável de relações constantes que secre- tamente se entrelaçam.171 Isto convida-nos não só a admirar os múltiplos vínculos que existem entre as criaturas, mas leva-nos também a desco- brir uma chave da nossa própria realização. Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na própria existência aquele dina- mismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a
  1. 170  Quaestiones disputatae de Mysterio Trinitatis, 1, 2, concl.
  2. 171  Cf. tomás de aquino, Summa theologiae I, q. 11, art. 3;
q. 21, art. 1, ad 3; q. 47, art. 3.
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sua criação. Tudo está interligado, e isto convida- -nos a maturar uma espiritualidade da solidarie- dade global que brota do mistério da Trindade.
8. a rainha de toda a Criação
241. Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o cora- ção trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exter- minadas pelo poder humano. Ela vive, com Jesus, completamente transfigurada, e todas as criaturas cantam a sua beleza. É a Mulher « vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça» (Ap 12, 1). Elevada ao céu, é Mãe e Rainha de toda a criação. No seu corpo glorificado, juntamente com Cristo ressus- citado, parte da criação alcançou toda a plenitude da sua beleza. Maria não só conserva no seu co- ração toda a vida de Jesus, que « guardava » cuida- dosamente (cf. Lc 2, 51), mas agora compreende também o sentido de todas as coisas. Por isso, podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente.
242. E ao lado d’Ela, na sagrada família de Na- zaré, destaca-se a figura de São José. Com o seu trabalho e presença generosa, cuidou e defendeu Maria e Jesus e livrou-os da violência dos injus- tos, levando-os para o Egipto. No Evangelho, aparece descrito como um homem justo, traba-
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lhador, forte; mas, da sua figura, emana também uma grande ternura, própria não de quem é fraco mas de quem é verdadeiramente forte, atento à realidade para amar e servir humildemente. Por isso, foi declarado protector da Igreja universal. Também Ele nos pode ensinar a cuidar, pode motivar-nos a trabalhar com generosidade e ter- nura para proteger este mundo que Deus nos confiou.
9. Para além do sol
243. No fim, encontrar-nos-emos face a face com a beleza infinita de Deus (cf. 1 Cor 13, 12) e poderemos ler, com jubilosa admiração, o mis- tério do universo, o qual terá parte connosco na plenitude sem fim. Estamos a caminhar para o sábado da eternidade, para a nova Jerusalém, para a casa comum do Céu. Diz-nos Jesus: «Eu renovo todas as coisas» (Ap 21, 5). A vida eter- na será uma maravilha compartilhada, onde cada criatura, esplendorosamente transformada, ocu- pará o seu lugar e terá algo para oferecer aos po- bres definitivamente libertados.
244. Na expectativa da vida eterna, unimo-nos para tomar a nosso cargo esta casa que nos foi confiada, sabendo que aquilo de bom que há nela será assumido na festa do Céu. Juntamente com todas as criaturas, caminhamos nesta terra à procura de Deus, porque, «se o mundo tem um princípio e foi criado, procura quem o criou, procura quem lhe deu início, aquele que é o seu
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Criador».172 Caminhemos cantando; que as nos- sas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança.
245. Deus, que nos chama a uma generosa en- trega e a oferecer-Lhe tudo, também nos dá as forças e a luz de que necessitamos para prosse- guir. No coração deste mundo, permanece pre- sente o Senhor da vida que tanto nos ama. Não nos abandona, não nos deixa sozinhos, porque Se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos cami- nhos. Que Ele seja louvado!
** *
246. Depois desta longa reflexão, jubilosa e ao mesmo tempo dramática, proponho duas ora- ções: uma que podemos partilhar todos quantos acreditamos num Deus Criador Omnipotente, e outra pedindo que nós, cristãos, saibamos assu- mir os compromissos para com a criação que o Evangelho de Jesus nos propõe.
Oração pela nossa terra
Deus Omnipotente,
que estais presente em todo o universo
e na mais pequenina das vossas criaturas, Vós que envolveis com a vossa ternura tudo o que existe,
derramai em nós a força do vosso amor

172 Basílio magno, Hom. in Hexaemeron, 1, 2, 6: PG 29, 8. 184
para cuidarmos da vida e da beleza. Inundai-nos de paz,
para que vivamos como irmãos e irmãs sem prejudicar ninguém.

Ó Deus dos pobres,
ajudai-nos a resgatar
os abandonados e esquecidos desta terra
que valem tanto aos vossos olhos.
Curai a nossa vida,
para que protejamos o mundo
e não o depredemos,
para que semeemos beleza
e não poluição nem destruição.
Tocai os corações
daqueles que buscam apenas benefícios
à custa dos pobres e da terra.
Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa,
a contemplar com encanto,
a reconhecer que estamos profundamente unidos com todas as criaturas
no nosso caminho para a vossa luz infinita. Obrigado porque estais connosco todos os dias. Sustentai-nos, por favor, na nossa luta
pela justiça, o amor e a paz.

Oração cristã com a criação
Nós Vos louvamos, Pai,
com todas as vossas criaturas,
que saíram da vossa mão poderosa.
São vossas e estão repletas da vossa presença e da vossa ternura.
Louvado sejais!
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Filho de Deus, Jesus,
por Vós foram criadas todas as coisas. Fostes formado no seio materno de Maria,
fizestes-Vos parte desta terra,
e contemplastes este mundo
com olhos humanos.
Hoje estais vivo em cada criatura
com a vossa glória de ressuscitado. Louvado sejais!
Espírito Santo, que, com a vossa luz,
guiais este mundo para o amor do Pai
e acompanhais o gemido da criação,
Vós viveis também nos nossos corações
a fim de nos impelir para o bem.
Louvado sejais!
Senhor Deus, Uno e Trino,
comunidade estupenda de amor infinito, ensinai-nos a contemplar-Vos
na beleza do universo,
onde tudo nos fala de Vós.
Despertai o nosso louvor e a nossa gratidão por cada ser que criastes.
Dai-nos a graça de nos sentirmos intimamente unidos
a tudo o que existe.
Deus de amor,
mostrai-nos o nosso lugar neste mundo como instrumentos do vosso carinho
por todos os seres desta terra,
porque nem um deles sequer
é esquecido por Vós.
Iluminai os donos do poder e do dinheiro

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para que não caiam no pecado da indiferença, amem o bem comum, promovam os fracos,
e cuidem deste mundo que habitamos.
Os pobres e a terra estão bradando:

Senhor, tomai-nos
sob o vosso poder e a vossa luz, para proteger cada vida,
para preparar um futuro melhor, para que venha o vosso Reino de justiça, paz, amor e beleza. Louvado sejais!
Amen.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 24 de Maio – Solenidade de Pentecostes – de 2015, terceiro ano do meu Pontificado.
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ÍNDICE laudato si, mi’ Signore [1-2] . . .
Nada deste mundo nos é indiferente [3-6] . Unidos por uma preocupação comum [7-9]. São Francisco de Assis [10-12] . . . . O meu apelo [13-16] . . . . . . . .
. . . . . . . . . .
. 3 . 4 . 7 . 10 . 12
CaPítulo I
O QUE ESTÁ A ACONTECER À NOSSA CASA

1. Poluição e mudanças ClimátiCas . . 18
Poluição, resíduos e cultura do descarte
[20-22]............ 18
O clima como bem comum [23-26] . .
  1. a questão da água [27-31] . . .
  2. Perda de Biodiversidade [32-42].
  3. deterioração da qualidade de vida
    humana e degradação soCial [43-47] 34
  4. desigualdade Planetária [48-52] . . 37
  5. a fraqueza das reaCções [53-59] . . 43
  6. diversidade de oPiniões [60-61] . . . 47
    CaPítulo II
    O EVANGELHO DA CRIAÇÃO

  1. a luz que a fé ofereCe [63-64] . . . 49
  2. a saBedoria das narrações BíBliCas
    [65-75]............ 51
  3. o mistério do universo [76-83] . . . 60
  4. a mensagem de Cada Criatura na har-
    monia de toda a Criação [84-88]. . 66
  5. uma Comunhão universal [89-92] . . 70
. . 20
. . 24 . . 27
189
6. o destino Comum dos Bens [93-95] . . 73 7. oolhar de Jesus [96-100] . . . . . 75
CaPítulo iii
A RAIZ HUMANA DA CRISE ECOLÓGICA
  1. a teCnologia: Criatividade e Poder [102-105]........... 79
  2. a gloBalização do Paradigma teCno- CrátiCo[106-114]. . . . . . . . 82
  3. Crise do antroPoCentrismo moderno
    e suas ConsequênCias
    [115-121] . . 90 O relativismo prático [122-123]. . . . . 94
    A necessidade de defender o trabalho [124-129] 96 A inovação biológica a partir da pesquisa
    [130-136]........... 101
    CaPítulo iv
    UMA ECOLOGIA INTEGRAL
  1. eCologia amBiental, eConómiCa e so- Cial[138-142]......... 107
  2. eCologia Cultural [143-146] . . . . 112
  3. eCologia da vida quotidiana [147-155] 114
  4. o PrinCíPio do Bem Comum [156-158] 120
  5. a Justiça intergeneraCional [159-162] 122
    CaPítulo V
ALGUMAS LINHAS DE ORIENTAÇÃO E ACÇÃO
1. o diálogo soBre o meio amBiente na PolítiCa internaCional [164-175] . 127
2. o diálogo Para novas PolítiCas na- Cionais e loCais [176-181] . . . . 135
190
3. diálogo e transParênCia nos ProCes-
sos deCisórios [182-188] . . . . . 140
4. PolítiCa e eConomia em diálogo Para
a Plenitude humana
[189-198]. . . 144
5. as religiões no diálogo Com as Ciên- Cias[199-201]......... 152
CaPítulo VI
EDUCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE ECOLÓGICAS

1. aPontar Para outro estilo de vida [203-208]........... 155
2. eduCar Para a aliança entre a huma- nidade e o amBiente [209-215] . . 159 3. a Conversão eCológiCa [216-221] . . 164 4. alegriaePaz[222-227] . . . . . . 168 5. amor Civil e PolítiCo [228-232] . . . 172
6. os sinais saCramentais e o desCanso CeleBrativo [233-237] . . . . . . 175
7. a trindade e a relação entre as Cria- turas[238-240]......... 180 8. a rainha de toda a Criação [241-242] 182 9. Para além do sol [243-246]. . . . . 183
Oração pela nossa terra . . . . . . . . . . 184 Oração cristã com a criação . . . . . . . . . 185

TIPOGRAFIA VATICANA 
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