samedi 18 juillet 2015

Murá e Chardin

Luis Murá, de óculos, e seus parceiros geniais

O EVOLUCIONISMO CRISTÃO

Em Teilhard De Chardin encontramos os seguintes conceitos: evolucionismo, estrutura orgânica do universo e tendência do ser a alcançar um estado cada vez mais orgânico, de unificação. O fim supremo da existência é a convergência das diversas consciências individuais na consciência única e total do centro Ômega, último momento e fim da evolução: Deus.
O universo está impregnado de pensamento, que se torna cada vez mais patente com a evolução da vida, através da crescente complexidade estrutural que a matéria alcança. Teilhard intuiu laivos de consciência incipiente mesmo nos graus ínfimos da existência, no plano físico do universo. A evolução levou esta consciência a revelar-se mais avançada e potente no homem. Ora, dado que a organicidade do todo implica uma lógica, seria absurdo determo-nos neste ponto do caminho sem continuá-lo.
Teríamos um fenômeno partido ao meio, que de repente pára, sem completar toda a sua trajetória e alcançar a necessária conclusão, ambas implícitas na lógica do desenvolvimento do próprio fenômeno. Então Cristo pode ser proposto à ciência como superbiotipo do futuro, como modelo que a raça humana poderá atingir com a evolução, e o Evangelho como a lei social da unidade coletiva representada pela super-humanidade do futuro. Fica assim esclarecido o sentido do processo da evolução, numa síntese lógica na qual concordam as verdades provadas pela ciência com os princípios finalísticos da concepção religiosa. O homem, no seu nível, faz parte deste processo.
[Teilhard trata assim de chegar a uma Nova Teologia em que tudo se santifica por meio da universal presença do pensamento de Deus imanente. É a tentativa de consagrar o evolucionismo no altar de Deus. Podemos ver assim que caminha no terreno de um cristianismo evolucionista. A substância da existência, a estrutura mais íntima do ser é de natureza psíquica, donde, conclui o teólogo: a vida é pensamento coberto de morfologia, e a espiritualidade, base das religiões, deve ocupar o ápice da evolução].
Cristo então é um superego hoje transcendente, mas amanhã ponto de chegada para a raça humana, ponto no qual o egoísmo separatista, vigente na luta pela sobrevivência, será substituído pela solidariedade coletiva unitária do amor universal. Assim Teilhard apresenta-nos uma espiritualização do universo, colocada sobre bases evolucionistas. O Evangelho representa uma transformação de leis biológicas, e significa a revolução operada pela passagem da vida de um nível de evolução a outro superior.
[A investigação do cientista deve ser livre, mas o ambiente dentro do qual o pensamento deve mover-se, para investigar e concluir, está limitado por barreiras. Por isso, seu método partiu do universal para o particular, em vez do particular para o universal. No primeiro caso a investigação está orientada em duas direções: teoria em direção aos fatos, e fatos em direção à teoria. Foi através desse segundo método, que chamamos intuição, que Teilhard de Chardin pode chegar a uma visão universal do todo, já que a ciência, com o seu método, não pode chegar ao terreno das visões teológicas. A ciência pode admitir, no máximo, que o produto da revelação deve ser tomado em consideração como hipótese de trabalho, para aceitar a parte que os fatos demonstrarem corresponder à realidade. A teoria da evolução em sua época era profundamente combatida pelo catolicismo.].
A evolução não é fenômeno que possa ser limitado à vida, porque numa visão universal, tudo deve estar incluído nela, todas as formas de existência, se não quisermos ficar fechados num só setor do fenômeno da evolução, limitados a um só trecho do seu desenvolvimento.
O universo astronômico, com a matéria, oferece a base física, constituindo a geosfera, coberta nos planetas de revestimento vivente, que representa a biosfera, cuja função, através da vida, consiste na revelação da consciência, que constitui a nooesfera, novo revestimento de pensamento e consciência. Este conceito de um crescente psiquismo e progressiva cerebralização do ser, reproduz em palavras científicas, segundo Chardin, o conceito da progressiva espiritualização cristã, de ascese da alma em direção a Deus. No terreno das nossas conquistas espirituais, à fé das religiões, sucede agora a certeza científica.
[Isto se explica pelo fato de que, sendo ele sobretudo geólogo e paleontólogo, não valorizou na economia do universo a importância da física nuclear, coisas que então acabavam de aparecer. Ao desconhecer a física moderna, Teilhard passou da matéria à vida sem o termo intermediário, a energia, sem a qual a ciência não explica a origem da vida. Ele não explica a passagem da química inorgânica à química orgânica, que representam formas exteriores e não a substância do fenômeno. Escapou-lhe a continuidade do processo].
Existem, pois, tristes lacunas em Teilhard. Em L’activation de l’energie define o mal como um efeito secundário, subproduto inevitável, do caminho do universo em evolução. O significado do pensamento de Teilhard está, sobretudo, nesta tentativa do catolicismo tardio de aproximar-se da ciência e assimilar suas conclusões. Estranho modo de avançar.
Desta maneira para o teólogo, o crescimento geológico e biológico desemboca na noogênese, isto é, termina na vitória final do espírito puro.
Para além e para cima do universo físico, Teilhard viu, movido mais pela razão do que pela fé, o universo psíquico, isto é, o universo numa nova dimensão, a do espírito, que é o terreno supersensível das religiões. Que fazer? Este é o grau de evolução da humanidade atual, e explicar não serve para nada. O indivíduo, então, perante ao grupo, pode escolher dois caminhos, segundo a sua própria natureza: o da liberdade ou da obediência, no primeiro caso pode conseguir o seu ideal segundo a sua consciência, entregar-se na busca da verdade, pensar e falar livremente, cumprir a sua missão. No segundo caso não haverá esta necessidade e gozará da vantagem de uma proteção que garante a vida e a tranqüilidade para trabalhar. Deve-se por isso pensar e trabalhar no interesse do grupo que, por fornecer o pão, tem o direito de exigir obediência espiritual e física. O reformador, desejando implantar uma ordem nova, sacode as bases do castelo no qual o grupo se aninha, leva desordem às sua filas, fato do qual os inimigos estão prontos a se aproveitar. O problema que o caso de Teilhard nos faz recordar, é o do choque entre a ciência de sua época e teologia católica antes do Concílio Vaticano II.
Para Teilhard, a massa, que forma o corpo da humanidade, é constituída por homens que optaram pela obediência em detrimento da liberdade. E eles lutam contra os do primeiro caminho para reduzi-los ao seu nível. É fácil constatar historicamente que a humanidade, antes de santificar, dá-se o gosto de sacrificar: trabalho nada espiritual da parte de quem o executa, mas que indubitavelmente faz parte da técnica da santificação. Em outra época, só por dizer isso, o teólogo já teria sido queimado!
Como darwinista católico, Teilhard de Chardin considerava que a vida se baseia na luta: o grupo tem necessidade de defesa para sobreviver. O direito de julgar e condenar se baseia nos fatos: 1) a posição do grupo perante o indivíduo é a do mais forte. O do reformador é o progresso, o do grupo e da autoridade que o dirige é continuar a viver com a menor fadiga e riscos possíveis. O inovador atenta contra a tranqüilidade e segurança do grupo, que assim se defende. A autoridade atenta contra a liberdade do espírito, quer dentro dele para deter ou torcer o pensamento, paralisando as mais nobres funções do ser. Todavia trata-se de duas funções, ambas necessárias, uma perante os homens por necessidade terrena, outra perante Deus por necessidade do ideal. Baseamo-nos na observação das leis biológicas do grupo, que são verdadeiras para cada grupo, portanto também para o religioso.
Teilhard obedeceu à autoridade, sofrendo em silêncio, mas sem renunciar às suas idéias. Ao povo católico não ofereceu a desobediência como alternativa. Aparentemente, escolheu o caminho do martírio, mas considerava que a ignorância humana assim o exigia. Havia também um outro lado de Teilhard.
Ele comia o pão da ordem religiosa de que fazia parte e à qual estava moralmente comprometido a ficar fiel. Que aconteceu então no espírito do cientista, que optou por respeitar a autoridade? Quais os seus direitos, as suas compensações? Para ele existe o caminho da paciência, do trabalho, do martírio, é o caminho da  santificação. Lemos em “O Jesuíta Proibido”, de G. Vigorelli:
“Não está ainda escrita a história secreta da “redução ao silêncio” de Teilhard de Chardin. Além do silencio foi-lhe imposto o exílio (...) Penetremos agora no seu espírito para compreender “os segredos mais profundos que se debatiam somente na sua própria consciência, um diálogo direto com Deus”.
“Perante Deus: comunhão, exaltação, segurança. Existe assim também o ativo dado pela própria santificação, pela afirmação da inviolabilidade da liberdade do espírito, e sobretudo por sentir-se puro perante Deus e pela satisfação de gozar no íntimo da própria consciência, do Seu consentimento, vizinhança e ajuda. É segundo a sua natureza, e assim a revelando, que o indivíduo escolhe colocar-se do lado do mundo ou do lado de Deus. As leis da vida garantem, pois o triunfo final do ideal, pelo qual o homem espiritual se sacrifica. Está em execução a liquidação da era constantiniana e do espírito sectário da contra-reforma (...) Em baixo está o mundo, na retaguarda da evolução; em direção ao alto se lança o evoluído, para a frente, avançando em direção a Deus distanciando-se do mundo. Ele está não do lado do mundo, mas do lado de Deus, que o espera, o convida, o impulsiona para diante, atraindo-o e ajudando-o. A grande força, a potente indenização do condenado, mesmo que o tenha sido em nome de Deus, é estar ao lado da verdade, do justo, de Deus; é encontrar-se ao lado da Sua Lei que estabelece que no fim o bem vence o mal, a afirmação domina a negação. A força de quem sofre lutando pela verdade está no fato que este indivíduo trabalha para avançar na direção que a evolução determina, sendo portanto arrastado em cheio pela sua corrente. Leva consigo o impulso irresistível da divina vontade da evolução que exige a ascese. As forças em defesa do inovador condenado não devem vir da Terra. Esta representa a parte inferior da existência, a parte negativa, adequada à resistência. Aquele indivíduo pertence, ao contrário, ao céu, que representa a parte superior, mais vizinha de Deus, a parte positiva e dinamizante. O primitivo rebela-se contra a autoridade, atua imediatamente segundo a lei da luta, que é a lei do seu plano, manifestando com isso a sua involução. Querer ficar quieto, abaixando todos ao nível dos mais inertes, pode constituir um delito contra a evolução espiritual, que devia ser a maior finalidade das religiões. Aquele tem necessidade do consenso de seus contemporâneos, de uma ajuda em vida, de uma compreensão imediata do seu próprio tempo, que o mantenha na função de produzir. De fato o cisma atual é o mais perigoso, porque não se apresenta na forma já conhecida, ou seja, com o surgir de uma nova religião inimiga que se pode combater como no passado, mas aparece como morte do espírito e do sistema de todas as religiões, como seu apagar-se no materialismo e na ciência, que simplesmente não as tomam mais em consideração. Assim no meio da indiferença geral, o pensamento dirigente não se interessa mais, e as abandona”. [H. De Lubac, Il pensiero religiodso di Pierre Teilhard de Chardin, Brescia, Morcelliana, 1965].
O objetivo da intuição antes mencionada deveria ser, ao lado do reconhecimento da necessidade de conservar, também o da necessidade de progredir.
A Cristologia de Teilhard
Teilhard expressa uma paixão muito especial por Cristo, racionalmente concebido como ponto de convergência da evolução da vida.
Aparece assim um Cristo universal, super-religioso, num sentido que está por cima do sectarismo separatista na qual tendem a dividir-se as religiões. Um Cristo que, em vez de isolar-se numa delas em oposição às demais, tende a uni-las todas, sendo concebido com a forma mental da imparcialidade científica, em termos vastíssimos em relação com as leis biológicas, como ponto de convergência e última meta divina da evolução da vida.
Trata-se de um Cristo muito maior, eixo espiritual do mundo, alcançável pelas vias do misticismo, como pelas vias da ciência, ponto Ômega desta como o é da fé, significado e conclusão da história, princípio, guia e cume da evolução, só hoje concebível desta maneira devido à atual maturação do pensamento humano. Um Cristo imanente, próximo, que enfrenta os problemas e ajuda a resolvê-los, em vez de desaparecer transcendente nos céus, inalcançável na sua glória. Um Cristo orientador da dinâmica da vida, operando junto no imenso esforço criador da era moderna, potencializando-o com os seus imensos valores espirituais. Um Cristo refúgio da pureza, fora de toda a sujidade humana, mesmo da que está escondida sob as aparências de religião.
Eis algumas palavras de Teilhard de Chardin na sua Messe sur le Monde: “Já que, Senhor, aqui nas estepes da Ásia, eu não tenho nem pão, nem vinho, nem altar, mas elevarei por sobre os símbolos, até à pura Majestade do Real, e vos oferecerei, eu, vosso sacerdote, em cima do altar da terra inteira, o trabalho e a dor do mundo (...) A oferta que Vós, Senhor, verdadeiramente esperais, não é outra senão o engrandecimento do mundo agitado pelo transformismo universal”.
Não se pode isolar num templo particular, num grupo humano, porque Ele está no centro da biologia universal do espírito. É um Cristo de dimensões cósmicas, superior a todas as formas e dimensões humanas, situado no centro de uma super-religião de substância, no vértice da evolução da vida no planeta, nos antípodas da baixa existência terrena, sempre presente para sanar com o Seu divino esplendor a cegueira humana, e com a Sua potência e bondade as misérias de mundo. Este é o Cristo de Teilhard.


Bibliografia

Teilhard de Chardin, Oeuvres, 13 volumes, Paris, Seuil, 1955-1976

Obras significativas
O fenômeno humano, SP, Herder, 1965
L’ambiente divino, Milão, Il Saggiatore, 1968
Le Coeur de la Matiére, Paris, Seuil, 1976

Sobre o autor
É. Borne, De Pascal à Teilhard de Chardin, Clermont-Ferrand, Ed. G. de Bussac, 1963
P. Schellenbaum, Le Christ dans l’energétique teilhardienne, Paris, Cerf, 1971
R. Gibellini, Teilhard de Chardin: l’ópera e le interpretazioni, Brescia, Queriniana, 1981
     A teologia do século XX, São Paulo, Loyola, 1998, pp. 175-182.
Pietro Ubaldi: Problemas do Futuro, cap. 3. Experiências em Biologia Transcendental.
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