samedi 31 octobre 2015

Nosso futuro roubado

Para meus alunos que vão prestar o ENADE 

Teologia índia
“O Reino de Deus passa também pela construção de utopias ou sonhos de futuro”.

Publicado no site IHU On-Line em 16 de setembro de 2014

Um dos primeiros teólogos indígenas a trabalhar com a teologia índia na América Latina, Eleazar López Fernández à IHU On-Line comenta que, entre suas primeiras iniciativas, papa Francisco “eliminou as desconfianças que a cúria romana tinha em relação ao processo inculturador da Igreja de San Cristóbal de las Casas, Chiapas, e está garantindo a continuidade do processo com um pastor que conhece e apoia e com a ordenação de novos diáconos indígenas”.

“O diálogo com a Congregação para a Doutrina da Fé sobre os ‘pontos nevrálgicos’ da teologia indígena continua aberto e esperamos que logo seja concluído com posições mais flexíveis, que permitam avançar rumo ao seu reconhecimento como verdadeira teologia dentro da Igreja”, diz o teólogo.

“O Papa Francisco não chegou ao papado com um conhecimento amplo da realidade indígena da América Latina e do mundo. Mas muito rapidamente abriu-se a esta realidade e está tomando posição frente a ela”, diz Eleazar López Fernández à IHU On-Line.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Eleazar López faz uma análise da repercussão da teologia índia no continente e sua relação com o cristianismo. Na avaliação dele, ela “está tendo um impacto muito grande nas Igrejas cristãs”, porque “foi tema de diálogo praticamente das últimas três Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano e do Caribe daIgreja católica (Puebla, Santo Domingo e Aparecida); também da última assembleia geral do Conselho Mundial de Igrejas, em 2013, e de muitos congressos, simpósios, encontros, seminários e fóruns de cristãos comprometidos com a luta dos pobres”. Nesse sentido, pontua, Equador,Guatemala e México “distinguiram-se recentemente como os maiores impulsionadores da recuperação da força e sabedoria indígena que inspira as lutas atuais pelos plenos direitos dos povos, da humanidade e da terra”.

O teólogo explica que o “núcleo” central das teologias indígenas consiste em permitir “a maneira de entender e relacionar-se com Deus como Mãe-Pai de tudo o que existe; a maneira de entender e relacionar-se com os seres humanos como colaboradores de Deus e irmãos entre nós; a maneira de entender a natureza como expressão tangível de Deus e como o grande receptáculo ou matriz da vida, onde os humanos desfrutam desta vida em solidariedade e responsabilidade com os demais seres da criação”. Assim, a teologia indígena “distingue-se de outras vertentes teológicas cristãs porque tem sua raiz e origem antes e fora do cristianismo, e pode prosseguir seu caminho sem relação com a fé cristã. Mas ela foi introduzida nas Igrejas por indígenas cristãos para interagir com a proposta teológica que existe nas Igrejas, uma vez que, com a teologia indígena, muitos membros dos povos indígenas receberam a fé cristã e com ela refletem esta nossa fé em Cristo”.

Eleazar López Hernández destaca ainda o papel político, econômico e social a ser desempenhado pela teologia índia, como “uma proposta que os indígenas fazem para o resto da sociedade e das Igrejas, assinalando que a cosmovisão e os valores dos povos podem ser uma alternativa de vida para toda a humanidade; com estes valores, que já foram vividos pelos antepassados, podemos projetar juntos — indígenas e não indígenas — sociedades que superem as causas estruturais da crise atual”. E acrescenta: “A contribuição maior das teologias indígenas tem a ver com o futuro que é preciso construir. É aqui que as utopias de futuro (como a Terra sem Males dos guarani ou o Sumak Kawsay dos andinos) têm uma força muito grande para inspirar os contornos desse outro mundo possível que muitos desejam e que de muitas maneiras os povos indígenas ainda vivem em seus redutos de vida”.

Eleazar López Hernández une seus estudos teológicos à prática indígena. Nasceu em Juchitán, Oaxaca, no México, ingressou no seminário em 1961 e formou-se em Filosofia e Teologia. Também participou do primeiro curso de pastoral indigenista em Caracas, da primeira Conferência dos Povos Indígenas, em 1975, em Vancouver, da contribuição indígena para o Encontro de Puebla e de Santo Domingo, como conselheiro. Atualmente, trabalha no Centro Nacional de Ayuda a las Misiones Indígenas – CENAMI, no México, participa da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo e da equipe teológica Ameríndia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é a teologia indígena, como e por que ela surgiu na América Latina?

Eleazar López Fernández – A chamada “teologia indígena”na América Latina é o que resta das teologias originárias dos povos que habitavam este continente antes da chegada dos europeus, os quais, ao conquistar e dominar estes povos, chamaram-nos de “índios”, como sinônimo de vencidos que deviam ser sujeitados à lógica do vencedor. De modo que estamos falando de algo que não é novo, mas muito antigo nestas terras.

Durante toda a época colonial, esta teologia dos povos ameríndios foi atacada sistematicamente para erradicá-la e, assim, implantar o cristianismo. Mas ela sobreviveu nos redutos de vida destes povos. E, nos últimos 50 anos, indígenas convertidos à fé cristã a retomamos, em um primeiro momento reconhecendo e enfatizando sua situação “indígena” para, a partir daí, ir libertando-a deste condicionamento negativo a fim de que mostre para o futuro toda a sua vitalidade de teologia da vida para a vida. Este esforço intraeclesial leva-nos a exigir que seja valorizada e que se dê a ela o lugar que merece tanto em sua expressão autônoma fora das Igrejas como também dentro delas. E que aceite o desafio e a oportunidade de reparar erros do passado e construir outros modos de ser Igreja com a capacidade de incorporar em seu interior a diversidade humana e teológica, assumindo as novas contribuições dos povos mais antigos deste continente.

 “A teologia indígena está se tornando um assunto não exclusivamente de indígenas, mas algo que pode converter-se em patrimônio do conjunto da Igreja e da humanidade”

IHU On-Line – Qual é o núcleo da teologia indígena?

Eleazar López Fernández – Não é fácil responder a essa pergunta, pois a diversidade de povos que sobrevivem ao impacto, primeiro, do modelo colonial, depois do capitalista e agora da globalização neoliberal é muito grande e cada um tem acentos particulares em sua luta para sobreviver e construir possibilidades de futuro digno. No entanto, em base aos encontros amplos que tivemos recentemente para compartilhar experiências e ideias, nos damos conta de que existem certos elementos que podem ser considerados como núcleo das teologias indígenas de hoje e que são compartilhados com os demais, dentro e fora das Igrejas, e que são como as flores de nossos povos: a maneira de entender e relacionar-se com Deus como Mãe-Pai de tudo o que existe; a maneira de entender e relacionar-se com os seres humanos como colaboradores de Deus e irmãos entre nós; a maneira de entender a natureza como expressão tangível de Deus e como o grande receptáculo ou matriz da vida, onde os humanos desfrutam desta vida em solidariedade e responsabilidade com os demais seres da criação.

As teologias indígenas de hoje incluem tanto um enfoque de libertação de qualquer estrutura que oprime as pessoas e povos, e que continua a fazer indígenas os descendentes dos povos mais antigos e também outros, como uma proposta de construção de novas sociedades, onde caibam todos com as suas identidades particulares e, sobretudo, com a dignidade que todos merecem como filhos de Deus e irmãos entre nós.

IHU On-Line – Como a teologia indígena se distingue da teologia em geral? Há diferenças teológicas nas duas posições?
Eleazar López Fernández – A vertente chamada “Teologia Indígena” distingue-se de outras vertentes teológicas cristãs porque tem sua raiz e origem antes e fora do cristianismo, e pode prosseguir seu caminho sem relação com a fé cristã. Mas ela foi introduzida nas Igrejas por indígenas cristãos para interagir com a proposta teológica que existe nas Igrejas, uma vez que, com a teologia indígena, muitos membros dos povos indígenas receberam a fé cristã e com ela refletem esta nossa fé em Cristo. De modo que isso dá à nossa teologia e à vivência cristã um caráter especial como compreensão e vivência da fé com as categorias próprias dos povos indígenas. Esta teologia pode enquadrar-se no que agora se chama de inculturação do Evangelho de Cristo.

Mas a teologia indígena é também uma proposta que os indígenas fazem para o resto da sociedade e das Igrejas assinalando que a cosmovisão e os valores dos povos podem ser uma alternativa de vida para toda a humanidade; com estes valores, que já foram vividos pelos antepassados, podemos projetar juntos — indígenas e não indígenas — sociedades que superem as causas estruturais da crise atual. E também Igrejas que vão além do esquema colonial monocultural, em que se encontram atualmente, para serem verdadeiramente inculturadas e interculturais, onde as periferias tenham espaço sem que sua dignidade e identidade própria sejam menosprezadas.

IHU On-Line – Qual é a compreensão da teologia indígena sobre Deus?

Eleazar López Fernández – Reitero o que já disse antes: Deus, na maioria das teologias indígenas do continente, desde antes do cristianismo, é pensado como Pai-Mãe ou Mãe-Pai. O que quer dizer que Deus é a origem da vida ou que Ele nos dá e nos mantém com vida. E para expressar esta percepção profunda lançam mão de todos os nomes relacionados com a vida humana, a terra e o universo. A teologia dos povos originários toca facetas de Deus que, embora possam estar presentes também na proposta judaico-cristã, não estão suficientemente desenvolvidas ou enfatizadas, como o aspecto feminino e maternal e a relação profunda de Deus com a Mãe Terra.

IHU On-Line – Que leitura a teologia indígena faz da Bíblia?

Eleazar López Fernández – O tema da minha apresentação neste congresso teológico é precisamente a leitura que os indígenas fazem ou podem fazer da Bíblia. Reconhecendo que a Bíblia não apenas esteve longe dos povos indígenas durante estes 500 anos de contato, mas que foi utilizada para justificar a opressão dos indígenas e, consequentemente, como arma para agredir estes povos em suas crenças ancestrais, os indígenas cristãos assumem a tarefa de mudar esta relação mediante a implementação de um novo encontro com a Bíblia ao modo como as nossas avós e avôs se encontravam no passado com os mitos e crenças fundantes de outros povos, ou seja, como caminhos diversos e inovadores de relação com o mesmo Deus de todos os povos, Aquele que nos dá a Vida. E assim a Bíblia se converte em um espelho onde vemos o nosso próprio rosto e coração. De modo que a história da salvação contida na Bíblia converte-se também em história de salvação do nosso povo, sem a necessidade de negar a nossa realidade ou alienar-nos para assumir concepções vindas de fora. Só assim superamos o problema da estrangeiridade da Bíblia e da nossa possível alienação ao incorporá-la no mundo indígena. Pois, com a Bíblia, os indígenas reencontram-se com a sua identidade originária mais profunda e a consolidam plenificando-a em Cristo. Também para os indígenas Jesus não veio para abolir a lei e os profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento.

Uma leitura intercultural da Bíblia, desde os povos indígenas, permite-nos entender a proposta bíblica como um caminho paradigmático e privilegiado feito por um povo similar ao nosso que nos anima a fazer, também nós, o nosso caminho de encontro pleno com a proposta de vida que vem do mesmo Deus dos nossos antepassados, que é Criador e Formador, Aquele que, sendo Intangível e Impalpável (Yóhuali-Ehécatl), se coloca Perto e Junto de nós (Tloque-Nahuaque) porque une céu e terra ao ser Quetzalcóatl ou Coração do Céu-Coração da Terra. Um encontro assim com a Bíblia não destrói nem desqualifica a nossa caminhada, mas a assume e a leva à sua plenitude.

 “Países como o Brasil, que tem uma porcentagem muito pequena de indígenas e, no entanto, reconhece que o motor da vida destes povos é sua experiência e reflexão teológica, que pode inspirar também a luta dos demais empobrecidos”
 
IHU On-Line – Qual é o impacto da teologia indígena na América Latina? Quem são os partidários desta teologia? Em que países a teologia indígena tem maior representação?

Eleazar López Fernández – Numericamente, a população indígena do continente é reduzida, porque quase foi dizimada no passado; somos apenas cerca de 60 milhões em relação a 120 milhões de afrodescendentes e uma quantidade muito maior de mestiços. No entanto, a voz soterrada dos povos indígenas, antes negada e silenciada, está se levantando agora com uma força muito grande e com uma carga de conteúdos que suscita o interesse não apenas dos indígenas, mas também dos não indígenas. E, por esse motivo, a teologia indígena está tendo um impacto muito grande nas Igrejas cristãs. Ela foi tema de diálogo praticamente das últimas três Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano e do Caribe da Igreja católica (Puebla, Santo Domingo e Aparecida); também da última assembleia geral do Conselho Mundial de Igrejas, em 2013, e de muitos congressos, simpósios, encontros, seminários e fóruns de cristãos comprometidos com a luta dos pobres. A teologia indígena está se tornando um assunto não exclusivamente de indígenas, mas algo que pode converter-se em patrimônio do conjunto da Igreja e da humanidade.

Os partidários da teologia indígena são muitas irmãs e irmãos indígenas que vão compreendendo que ela é uma riqueza nossa que podemos oferecer aos demais; mas também muitos não indígenas se somaram a esta perspectiva porque descobrem a grandiosidade de suas proposições como buscas legítimas e enriquecedoras, que não somente não se opõem à proposta de Jesus e da Bíblia, mas que a enriquecem e a enraízam nas realidades humanas concretas de nossos tempos.

Países como o Equador, Guatemala e México distinguiram-se recentemente como os maiores impulsionadores da recuperação da força e sabedoria indígena que inspira as lutas atuais pelos plenos direitos dos povos, da humanidade e da terra; mas também países menores como El Salvador, Panamá, Belize, na América Central, estão impulsionando o desenvolvimento da sua teologia indígena; ou países como o Brasil, que tem uma porcentagem muito pequena de indígenas e, no entanto, reconhece que o motor da vida destes povos é sua experiência e reflexão teológica, que pode inspirar também a luta dos demais empobrecidos. Por isso, buscam e conseguem importantes alianças.

IHU On-Line – Qual é a relação da teologia índia com questões políticas e econômicas na América Latina? Qual é o significado de assumir uma postura crítica no momento político atual?

Eleazar López Fernández – As teologias indígenas de hoje não têm sua origem imediata na consciência crítica sobre a realidade de opressão sofrida pelos pobres, uma vez que elas existiram em contextos que não são de opressão. No entanto, enquanto atualmente são teologias marcadas pelo “índio” como categoria colonial que persiste, elas se ativam agora com uma carga forte de libertação, por serem teologias de resistência ao mal que se impôs há mais de 500 anos. No entanto, a contribuição maior das teologias indígenas tem a ver com o futuro que é preciso construir. É aqui que as utopias de futuro (como a Terra sem Males dos guarani ou o Sumak Kawsay dos andinos) têm uma força muito grande para inspirar os contornos desse outro mundo possível que muitos desejam e que de muitas maneiras os povos indígenas ainda vivem em seus redutos de vida.

A salvação que Cristo ganhou para nós com sua morte e ressurreição e que se concretiza na proposta do Reino ouReinado de Deus coincide maravilhosamente com os sonhos de futuro de muitos povos indígenas. De modo que, para os povos indígenas identificados com sua cultura e convertidos à fé cristã, construir o Reino de Deus passa também pela construção de suas utopias ou de sonhos de futuro.

 “A história da salvação contida na Bíblia converte-se também em história de salvação do nosso povo, sem a necessidade de negar a nossa realidade ou alienar-nos para assumir concepções vindas de fora. Só assim superamos o problema da estrangeiridade da Bíblia e da nossa possível alienação ao incorporá-la no mundo indígena”

IHU On-Line – Como a teologia indígena e o conceito de bem-viver podem ser aplicados na América Latina, dada a situação política e econômica atual?

Eleazar López Fernández – Muitos irmãos indígenas chegam à mesma conclusão de que utopias indígenas como o Sumak Kawsay ou o Bem-Viver dos andinos têm viabilidade histórica nos tempos atuais porque são paradigmas sociais que já funcionaram no passado dos nossos povos, mas, sobretudo, porque cada vez as maiorias do mundo estão mais convencidas de que o modelo econômico, político e social que agora impera na globalização não tem sustentabilidade para o futuro imediato. Em poucos anos serão necessários ao menos dois planetas Terra para serem devorados pela lógica do crescimento econômico e do consumo que esse modelo impulsiona.
A austeridade dos povos nômades, a relação harmoniosa com a natureza e a economia mais humana dos povos indígenas certamente poderão inspirar modelos mais adequados de desenvolvimento e que sejam sustentáveis. Como isso pode se dar concretamente? Será preciso sentar-se e projetar os caminhos; mas as ideias-chave estão nas utopias indígenas.

IHU On-Line – Quais são os principais desafios que a teologia indígena se propõe atualmente?

Eleazar López Fernández – São muitos os desafios que a teologia indígena enfrenta como vertente teológica dentro e fora das Igrejas. A agressão aos povos originários aumentou muito, porque a globalização do mercado cobiça os recursos naturais (terra, florestas, petróleo, minerais, água, vento) que se encontram em territórios indígenas. Isto colocou novamente os povos no olho do furacão da avançada colonial e neoliberal e não parece haver poder humano que possa deter este avanço. Em consequência, a luta indígena atual está marcada por esse desejo dos poderosos para exterminar os povos a fim de se apoderar de seus bens. E a única força maior que estes povos têm para enfrentar este avanço é precisamente sua teologia, que lhes serviu no passado para superar as crises que tiveram. Com esta teologia, tanto em sua vertente inteiramente indígena como em sua vertente cristã, os povos abrem caminho para si e abrem caminhos na sociedade envolvente e nas Igrejas pensando não apenas no bem do seu grupo humano particular, mas no bem de toda a humanidade e do planeta.

IHU On-Line – Como é a relação entre a teologia indígena e a teologia da Igreja católica no México?

Eleazar López Fernández – No México encontra-se uma das Igrejas que historicamente fez um caminho paradigmático do lado dos povos indígenas: a Igreja de San Cristóbal de las Casas, em Chiapas. Aí a luta indígena dentro da Igreja adquiriu a característica de impulsionar o surgimento de “Igrejas autóctones”, assistidas por diáconos indígenas que são formados na teologia clássica cristã e também na teologia indígena sob a supervisão das próprias comunidades. No âmbito civil, o levantamento zapatista colocou-se à recuperação dos direitos humanos e dos direitos específicos dos povos indígenas. Ambos os processos têm, certamente, uma inspiração que tem a ver com o que chamamos de“teologia indígena”: alguns, repensando os mitos fundantes na matriz cristã, e outros, colocando-os na matriz da luta civil para ganhar o lugar que merecemos na sociedade globalizada.

 “Para os povos indígenas identificados com sua cultura e convertidos à fé cristã, construir o Reino de Deus passa também pela construção de suas utopias ou de sonhos de futuro”
 
IHU On-Line – Qual é a sua avaliação do pontificado de Francisco? Quais são as reações ao pontificado de Francisco na Igreja mexicana?

Eleazar López Fernández – O Papa Francisco não chegou ao papado com um conhecimento amplo da realidade indígena daAmérica Latina e do mundo. Mas muito rapidamente abriu-se a esta realidade e está tomando posição frente a ela. Imediatamente eliminou as desconfianças que a cúria romana tinha em relação ao processo inculturador da Igreja de San Cristóbal de las Casas, Chiapas, e está garantindo a continuidade do processo com um pastor que conhece e apoia e com a ordenação de novos diáconos indígenas. O diálogo com a Congregação para a Doutrina da Fé sobre os “pontos nevrálgicos” da teologia indígena continua aberto e esperamos que logo seja concluído com posições mais flexíveis que permitam avançar rumo ao seu reconhecimento como verdadeira teologia dentro da Igreja.

IHU On-Line – Como avalia os partidos progressistas da América Latina? Houve avanços ou retrocessos em relação à questão indígena?

Eleazar López Fernández – Em geral, os partidos de esquerda da América Latina foram esquecendo suas propostas ideológicas e tornaram-se muito pragmáticos em relação à globalização neoliberal. Isto os levou a diferenciar-se muito pouco dos outros partidos. Nós vemos isso, sobretudo, quando tratam do assunto indígena que, para eles, têm um valor mínimo e estão dispostos a sacrificar estes povos para que os investimentos cheguem e façam a economia crescer.

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14/10/2010 – Missa Terra Sem Males: “memória, remorso, compromisso”
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23/08/2010 – Sumak Kawsa, Suma Qamaña, Teko Porã. O Bem-Viver
03/12/2010 – Elementos para a busca do bem viver – Sumak Kawsay – para todos e sempre
18/01/2013 – A desmistificação do desenvolvimento e as lições do Sumak Kawsay
15/07/2011 – “Nós, indígenas, somos parte da solução”, afirmou o zapoteca Eleazar López

Fonte
IHU On-Line
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/teologia-india-construir-o-reino-de-deus-passa-tambem-pela-construcao-de-utopias-ou-de-sonhos-de-futuro-entrevista-com-eleazar-lopez-fernandez/
 

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