lundi 30 novembre 2015

A nova esquerda -- primeira parte

A nova esquerda -- primeira parte
Jorge Pinheiro, PhD

Aparentemente, existem apenas dois posicionamentos extremos em relação à novidade que o Partido dos Trabalhadores representou na história política brasileira: a postura que considera o PT nada mais do que o último dos partidos comunistas; e a postura que vê no PT o início de algo inteiramente novo. Na verdade, as duas leituras desprezam o fato histórico de que a partir dos anos 60 surge uma nova esquerda no cenário político brasileiro e que está se fará presente na formação do Partido dos Trabalhadores. Podemos dizer, como já o fez Mondaini de Souza, que o Partido dos Trabalhadores constituiu na sua formação algo novo no cenário social e político brasileiro, mas novidade permeada de tradições e permanências legadas pelo passado. Ou como afirmou:

A nova esquerda traz em seu âmago – ora negando, ora afirmando – a velha esquerda, já que os agentes da renovação história têm como paradigma os agentes da conservação histórica, seja para negá-los abertamente ou para incorporá-los implicitamente. [1]

A nova esquerda do final dos anos 1960, em especial na França e Estados Unidos, se caracterizou por fazer uma leitura frankfurtiana, psicanalítica e rebelde do marxismo. Assim, autores como Herbert Marcuse, Wilhelm Reich e Rosa Luxemburg foram descobertos e transformaram-se em referenciais teóricos na leitura de Marx, em especial do jovem Marx de Os manuscritos econômico-filosóficos.

A petrificação da teoria marxista viola o princípio básico que a Nova Esquerda proclama: a unidade de teoria e prática. Uma teoria que não tenha acompanhado a evolução da prática capitalista não terá possibilidades de guiar a prática que visa à abolição do capitalismo. A redução da teoria marxista a sólidas estruturas divorcia a teoria da realidade e confere-lhe um caráter abstrato, remoto, ‘científico’, que facilita a sua ritualização dogmática”. [2]

Mas a teologia e o pensamento cristão, através de pensadores como Paul Tillich, influenciaram a nova esquerda. James Farrell [3] e Doug Rossinow [4] analisaram a importância da presença do pensamento cristão protestante e da espiritualidade evangelical na formação da nova esquerda norte-americana, que reafirmou valores ligados a ética social. Localizaram nessa presença, por exemplo, a dimensão moral do movimento dos direitos civis de Martin Luther King Jr. e o existencialismo cristão de Paul Tillich. Farrell e Rossinow foram unânimes ao afirmar que nos anos 1960, a vanguarda da nova esquerda norte-americana leu e discutiu Albert Camus, Dietrich Bonhoeffer e Paul Tillich. Em relação a Tillich, dois de seus livros marcaram essa presença na nova esquerda, a História do Pensamento Cristão e Coragem de Ser. Assim, para Rossinow, a nova esquerda trouxe para a mesa de discussão da política norte-americana o cristianismo reformado evangelical, o evangelho social e o feminismo popular. [5]

Marcuse e Reich, porém, foram os críticos do capitalismo posterior à Segunda Guerra mundial que discutiram o poder, a ideologia, a cultura e a repressão sexual a partir de novas perspectivas. Embora tenham trazido para o marxismo o ar fresco de uma leitura não dogmática e contextualizada de Marx, o poder para os dois ainda era visto apenas num sentido negativo, onde o futuro não existia, e se existia era como sombra ou barbárie. 

“Na fase suprema do capitalismo, a revolução mais necessária parece ser a mais improvável. A mais necessária porque o sistema estabelecido somente se preserva através da destruição global de recursos, da natureza, da vida humana, e das condições objetivas que poriam fim a tudo isso”. [6]

Assim, a nova esquerda viu a revolução como processo prenunciado sob forma ideológica pelas contra-imagens e contra-valores que contradiziam a imagem do universo capitalista, como “as manifestações de um comportamento não competitivo, a rejeição da virilidade brutal, o desmascaramento da produtividade capitalista do trabalho, a afirmação da sensibilidade, a sensualidade do corpo, o protesto ecológico, o desprezo pelo falso heroísmo no espaço exterior e nas guerras coloniais, o Movimento de Libertação das Mulheres (...), a rejeição do culto puritano, antierótico, da beleza e do asseio plásticos”. [7] Para a nova esquerda todas essas tendências contribuíam para o enfraquecimento do princípio do desempenho capitalista. Já nos anos 1980, essas questões do poder, da ideologia e da repressão sexual foram analisadas por dois outros teóricos, Michel Foucault e Félix Guattari, mas desde a perspectiva de inclusão, de atração do novo, que antes a nova esquerda não tinha visto. Assim, esses dois lados do processo capitalista, de destruição das forças produtivas, mas também de inclusão e apropriação da revolta cultural e ideológica, aparentemente antagônicos, serão debatidos pelos teóricos da nova esquerda, o que trouxe novos conteúdos, como o da biopolítica e da política do corpo, à teoria marxista.

Essas leituras não foram hegemônicas no pensamento da nova esquerda brasileira, que privilegiou a análise do “crescimento das forças anticapitalistas no Terceiro Mundo, (...) que reduz as reservas de exploração”, [8] mas estavam presentes nas discussões de uma parcela das lideranças, o que possibilitou nos anos 1980 uma leitura nova das questões de gênero, sexualidade e das questões nacionais que envolvem os povos indígenas e afrobrasileiros. Assim, a vanguarda da nova esquerda brasileira acompanhou os debates que aconteciam na Europa e nos Estados Unidos, leu marxistas não ortodoxos como Rosa Luxemburg, León Trotski e Che Guevara, e travou contato com pensadores cristãos, como Martin Luther King Jr. e Ernesto Cardenal. E se essa nova esquerda procurava levar a imaginação ao poder, por que não resgatar a ética humanista do socialismo?

A radicalização do movimento de massas nos anos 1960 e em especial a vitória da revolução cubana geraram as condições para o surgimento de uma nova esquerda desvinculada da tradição stalinista. A esta conjuntura acrescente-se um ingrediente novo, o crescimento da esquerda católica, em especial no movimento estudantil. É neste contexto que surgem duas organizações políticas que marcarão o pensamento da esquerda: a Política Operária-Polop, e a Ação Popular-AP. Mas aqui também se fará presente a influência do trotskismo, já que essa esquerda, parte da qual duas décadas mais tarde vai desaguar no Partido dos Trabalhadores, procurou nas idéias do revolucionário russo base para sua ação militante. Segundo Gorender,

A influência das idéias de Trotski não se restringiu ao trotskismo ortodoxo e orgânico. O crescimento do PCB e a sofisticação das suas teses reformistas impressionaram negativamente intelectuais do Rio, São Paulo e Minas Gerais, que aceitaram as idéias de Trotski sem rigor dogmático e buscaram outras fontes de inspiração em Rosa Luxemburg, Bukharin e Talheimer”. [9]

Notas
[1] Marco Antônio Mondaini de Souza, Da esquerda revolucionária pré-64 ao PT: continuidades e rupturas, São Paulo, FFLCH/USP, 1995, p. 8. 
[2] Herbert Marcuse, Contra-Revolução e Revolta, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978, p. 41. 
[3] James Farrell, “Review of Doug Rossinow, The Politics of Authenticity: Liberalism, Christianity and the New Left in America”, H-Pol, H-Net Reviews: 09.1998. Site: www.h-net.org/reviews (Acesso 15.10.2004). 
[4] Doug Rossinow, The Politics of Authenticity: Liberalism, Christianity, and the New Left in America, New York, Columbia University Press, 1998. 
[5] Doug Rossinow, op. cit., p. 312. 
[6] Herbert Marcuse, op. cit., p. 16. 
[7] Herbert Marcuse, op. cit., pp. 38-39. 
[8] Herbert Marcuse, op. cit., p. 16. 
[9] Jacob Gorender, Combate nas trevas, a esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada, São Paulo, Ática, 1987, p. 35.
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