mercredi 2 décembre 2015

A nova esquerda -- terceira parte

A nova esquerda -- terceira parte
Jorge Pinheiro, PhD


A experiência da Ação Popular nos ajuda a entender a relação entre esquerda cristã e socialismo, que nas décadas de 1970/80 retornou com força a partir da atuação das pastorais e das Comunidades Eclesiais de Base, fundadas na teologia da libertação. Na verdade a renovação intelectual do catolicismo brasileiro é bem anterior a esse processo, tendo sido influenciada, a partir do final do século XIX, pelo catolicismo social francês. Essa influência, até os anos 1920, foi sobretudo institucional, já que ordens religiosas francesas assumiram a formação do clero em várias dioceses brasileiras. 

A partir de 1920, essa influência chegou através da Ação Católica Francesa e depois via Jacques Maritain. Essas influências possibilitaram um diálogo com a modernidade, com a secularização e a participação nos processos democráticos. Depois da Segunda Guerra Mumdial, Emmanuel Mounier e o padre Lebret, entre outros, vão introduzir o pensamento social no meio católico francês, criando as condições para o surgimento da esquerda cristã brasileira.[1]

Mas de 1930 a 1960, um brasileiro será o porta-voz desse novo catolicismo social no país, Alceu de Amoroso Lima.[2] E a partir de 1960, outros intelectuais cumpriram papel marcante na formação de catolicismo social brasileiro. Entre eles podemos citar Cândido Mendes, frei Benvenuto Santa Cruz, que foi o principal colaborador brasileiro do padre Lebret, o teólogo frei Gorgulho, Plínio de Arruda Sampaio, Francisco Whitaker, Luís Eduardo Wanderley e Vinícius Caldeira Brandt,[3] e, logicamente, dom Helder Câmara. É interessante notar que nas suas viagens ao Brasil, entre 1947 e 1960, o padre Lebret realizou encontros no convento dos dominicanos em São Paulo, com alguns dos mais importantes intelectuais da esquerda não-comunista brasileira, entre os quais Mário Pedrosa, Antônio Cândido, Azis Simão e outros. 

Mas, o fenômeno do surgimento da nova esquerda no Brasil não estava desconectado das experiências revolucionárias que se davam em outras partes do mundo, em especial o impacto das revoluções chinesa, cubana e nicaragüense. A partir desse quadro internacional e das reflexões do catolicismo social, é interessante notar a tensão vivida pelos militantes da AP, que procuravam uma síntese entre o humanismo cristão e o ideário da revolução comunista. Esta tensão se traduzia em crise da espiritualidade, pois o discurso da luta de classes levava às propostas de luta armada,[4] o que aparentemente significava uma ruptura do mandamento do amor. Essa questão levou para dentro das organizações de esquerda brasileiras uma nova discussão, já realizada nas décadas de 20 e 30 por Paul Tillich e outros teólogos socialistas: qual a relação existente entre espiritualidade e política?

A Ação Popular nasceu entre militantes estudantis da Juventude Universitária Católica e de agremiações da Ação Católica. Segundo Jacob Gorender, esses militantes queriam criar um veículo de ação política “que permitisse a liberdade de atuação e não envolvesse a hierarquia católica hostil a politização esquerdizante”.[5] Em junho de 1962, em um congresso em Belo Horizonte, fez-se o lançamento da AP. No ano seguinte, em um segundo congresso em Salvador, a AP decidiu-se pelo socialismo humanista, buscando inspiração em Mounier, Teilhard de Chardin, Maritain e Padre Lebret. Teve uma vertente protestante, cujo representante mais conhecido foi Paulo Stuart Wright. Na maioria composta de lideranças estudantis, como Herbert José de Souza (Betinho), José Serra, Vinícius Caldeira Brant, Aldo Arantes, e outros, teve também a adesão de lideranças camponesas, como Manoel da Conceição e José Gomes Novais, e de lideranças operárias.

Antes do golpe militar de 1964, a organização publicou os jornais Ação Popular e Brasil Urgente, este último fundado pelo frei Carlos Josaphat, que fazia a defesa das reformas de base e das lutas dos trabalhadores, e que levou milhares de católicos às posições de vanguarda.[6] Após o golpe, esses ativistas se lançaram à clandestinidade ou deixaram o país.

Nos anos seguintes a AP reorganizava, aos poucos, sua estrutura, apoiando-se para tanto, especialmente, no meio universitário. E inicia uma demorada discussão para redefinir seus princípios políticos e filosóficos (...) De 1965 a 1967, em meio a controvertidas polêmicas, a organização caminha para a adoção do marxismo como guia teórico de suas atividades”.[7]

A AP deslocou militantes para as fábricas e para o meio rural e fez experiências de implantação em meios populares como o ABC paulista; na Zona Canavieira em Pernambuco; na região Cacaueira da Bahia; na área de Pariconha e Água Branca em Alagoas; e no Vale do Pindaré, no Maranhão, “onde se notabilizou a figura do líder camponês Manoel da Conceição, que teve uma perna amputada como decorrência de ferimento provocado por forças policiais e maus tratos na prisão”.[8]

Em 1968, surgiu uma dissidência, o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, PRT, liderada pelo padre Alípio de Freitas, Vinícius Caldeira Brant e Altino Dantas. O PRT foi duramente golpeado pela repressão em 1971, e desapareceu. No mesmo ano, a Ação Popular iniciou um processo de aproximação com o Partido Comunista do Brasil, de linha maoísta, e no ano seguinte as duas organizações fundiram-se. Um pequeno setor que passou a ser conhecido como AP Socialista manteve-se independente e, em 1973 aproximou-se da Polop e do MR-8, mas acabou por ser desarticulado pela repressão.[9]

[Na sequência, iniciaremos a série À sombra de León Trotski].


Notas

[1] Jesús García-Ruiz e Michael Lowy, “Religion e politique en Amérique Latine ”, Paris, Archives de Sciences des Religions, janeiro-março de 1997, p. 6. 
[2] Thomas Sanders, “Catholicism and development: the Catholic left in Brazil”, in K. Silvert, Churches and States: The religious institutions and modernisation, N. York, American University Field Staff, 1968, p. 86. 
[3] Michael Lowy e Jesús García-Ruiz, “Les sources françaises du christianisme de la libération au Brésil ”, Paris, Archives de Sciences des Religions, janeiro-março de 1997, pp. 19-20. 
[4] “Chamamos luta armada à ação que tenha um sentido social, de mudança, de reforma, de defesa dos direitos do cidadão, de revolução. É quando setores da sociedade, majoritários ou não, recorrem às armas como forma de luta contra a opressão, contra as injustiças”. Jaime Sautchuk, op. cit., p. 11. 
[5] Jacob Gorender, op. cit., pp. 36-37. 
[6] Jacob Gorender, op.cit. 38. 
[7] Brasil Nunca Mais, op. cit., p. 100. 
[8] Brasil Nunca Mais, op. cit., p. 101. 
[9] Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, Dos Filhos deste Solo, op. cit., pp. 487-488.
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