jeudi 3 décembre 2015

À sombra de León Trotski

À sombra de León Trotski
Jorge Pinheiro, PhD


Desde 1929, diversos grupos políticos reuniram-se como oposição de esquerda ao stalinismo. Esses grupos quase sempre traduziam os ensinamentos de León Trotski, comandante do Exército Vermelho durante a Revolução Russa, de 1917, e depois da morte de Lênin, principal opositor de Stálin.

Em 1953, apesar da presença trotskista no PSB, surge o Partido Operário Revolucionário dos Trabalhadores, PORT, que seguia as diretrizes de Homero Cristali, mais conhecido pelo pseudônimo político de J. Posadas, então responsável pelo Bureau Latino-Americano da Quarta Internacional, fundada por Trotski, no México, em 1938. Durante anos seguintes, o PORT publicou o jornal Frente Operária. Na década de 1960, o PORT ficou conhecido por sua postura à esquerda do PCB. Estava presente em três estados, São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco, mas neste estado ligou-se às lutas das Ligas Camponesas e teve vários militantes presos ainda no governo Goulart. 

Depois do golpe militar, sofreu uma dura repressão política, mas conseguiu reorganizar sua estrutura principalmente nos meios estudantis de São Paulo, Brasília e Rio Grande do Sul.[1] Militantes foram deslocados para trabalhar como operários na indústria, como foi o caso de Olavo Hansen, morto em 1970 no DOPS de São Paulo, após ter sido preso distribuindo panfletos em uma manifestação de 1º de Maio. Entre 1970 e 1972, o PORT de novo foi atingido por ondas de prisões, ocorrendo o mesmo com sua dissidência, a Fração Bolchevique Trotskista (FBT). O que caracterizou a linha política do PORT no período foi a defesa do papel desempenhado pela União Soviética no contexto internacional; a condenação da luta armada, sustentada por grupos de esquerda; e o chamado para que militares nacionalistas se opusessem à ditadura e liderassem a redemocratização do país. 

Em 1968, constituiu-se a Fração Bolchevique Trotskista, dentro do PORT, principalmente no Rio Grande do Sul, enquanto em São Paulo formava-se outra dissidência denominada Primeiro de Maio. Em 1976, essas duas organizações iriam se unificar sob a sigla de Organização Socialista Internacionalista, OSI, mais conhecida no meio estudantil como Liberdade e Luta.

Em 1971, militantes da FBT exilados no Chile reuniram-se a ex-militantes de organizações armadas e criaram o grupo Ponto de Partida, que publicamente fez a crítica da estratégia de guerrilha em curso no Brasil. O grupo exortou à esquerda a ligar-se ao movimento operário e sindical e a preparar-se para o processo de redemocratização do país. Apoiado pelo PST argentino, liderado por Nahuel Moreno, e pelo Socialist Workers Party norte-americano, em dezembro de 1973, remanescentes do grupo Ponto de Partida e socialistas independentes fundaram a Liga Operária. 

Em abril de 1974, o primeiro grupo de militantes da Liga Operária entrou clandestinamente no Brasil e fundou suas primeiras células em São Paulo e no ABC paulista. Alinhada à minoria da Quarta Internacional, que reunia os partidos argentino, boliviano, peruano, norte-americano e dissidência em Portugal, a Liga Operária opunha-se à política do Partido Operário Comunista, POC, que, a partir de 1972, no exílio, assumiu as concepções do Secretariado Unificado da Quarta Internacional, que tinha como expoente o economista belga Ernest Mandel.[2]

Apesar de seu fracionamento organizativo, segundo Voigt, o monoclassismo operário do trotskismo defendido pelas organizações da Quarta Internacional possibilitou uma aproximação com o trabalho de base da Igreja e com o corporativismo dos sindicalistas combativos.

As correntes trotskistas deram uma contribuição histórica ao movimento social no Brasil ao formular teoricamente a proposta de autonomia política dos trabalhadores, além de realizarem um acerto tático ao se recusarem a ingressar na resistência armada ao regime. Passado o confronto, estes grupos puderam sair do isolamento político em que se encontravam e participar como segmentos da esquerda organizada na articulação do PT”. [3]

Também Gorender considerou importante esta posição do trotskismo em rejeitar a estratégia cubana da guerra de guerrilhas e a estratégica chinesa da guerra popular.

Sob o enfoque da revolução permanente, continuaram a se inspirar no modelo insurrecional soviético, seja no aspecto tático, seja no objetivo estratégico da ditadura do proletariado. Em conseqüência, atribuíram prioridade às lutas da classe operária nas cidades sob a direção do partido de vanguarda. Os trotskistas defendiam o caminho armado para a conquista do poder, porém recusavam o terrorismo e a luta armada isolada das massas”.[4]


Notas

[1] Brasil Nunca Mais, op. cit., p. 107. 
[2] Brasil Nunca Mais, op. cit., p. 109. 
[3] Leo Voigt, A formação do PT, esboço de reconstrução histórica, Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1990, p. 69. 
[4] Jacob Gorender, Combate nas trevas: a esquerda brasileira, das ilusões perdidas à luta armada, São Paulo, Ática, 1987, p. 83.
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