samedi 5 décembre 2015

Convergência socialista: o exemplo espanhol -- segunda parte

Convergência socialista: o exemplo espanhol -- segunda parte
Jorge Pinheiro, PhD


Nessa época, como membro da direção da Liga Operária brasileira e da Fração Bolchevique da Quarta Internacional, o autor da tese vivia no bairro de Aluche, na periferia de Madri. Suas atividades estavam voltadas à construção da seção espanhola da Quarta Internacional, tanto em Madri, como em Vigo, na Galícia. O fato de ser trotskista, aliado à história da oposição de esquerda e do POUM durante a Guerra Civil, possibilitou conversações com lideranças do proletariado madrilenho e com dirigentes sindicais, o que o levou a acompanhar de perto o processo de democratização espanhol e a unificação dos socialistas. 

Assim, trouxe a experiência vivida pelos socialistas espanhóis para o Brasil. Aprovada pelo comitê central do PST a proposta de centralizarmos a luta pela democratização na construção do Partido Socialista, iniciamos o processo do lançamento público da Convergência Socialista, que desde seu início foi além da leitura dogmática do marxismo, situando-se no campo da nova esquerda européia e norte-americana. Surgiu, dessa maneira, como novidade no espectro da esquerda brasileira. 

“Nos últimos dias do mês passado, diversos núcleos que participam desse movimento pela criação de um partido socialista deram um passo adiante. Em reunião realizada na PUC de São Paulo, no dia 28 passado, criaram o movimento Convergência Socialista, que tem como objetivo a unificação de todos os setores que lutam pela criação de um partido socialista”.[1]

E a reportagem esclarecia que participaram do encontro cerca de 200 pessoas, representando aproximadamente vinte entidades. E dizia ter sido formada uma coordenação provisória integrada por todos os grupos que participam da Convergência Socialista, a fim de desenvolver esforços na tentativa de uma reunião nacional, “pois a intenção é criar antes das eleições de novembro próximo pelo menos um amplo movimento pró-criação do PS”.[2] A partir daí a Convergência Socialista manteve um debate com a esquerda brasileira, realizando conversações com Almino Affonso, Chico Pinto, Edmundo Moniz, Fernando Henrique Cardoso, José Álvaro Moisés, Plínio de Arruda Sampaio, e a Tendência Socialista do MDB, no Rio Grande do Sul. [3]

A Convergência se lança como um movimento que pretende unir todos os socialistas, dispersos em muitos agrupamentos clandestinos, que tivessem posicionamento pela construção de um partido socialista dos trabalhadores. Nesse período começamos a ter uma unidade maior com os sindicalistas do ABC. No 1º de maio de 1978 a esquerda toda se dividiu entre comemorar com os sindicalistas do ABC ou fazer o 1º de maio com os da oposição em Osasco. Nós fomos a única corrente de esquerda que comemorou o 1º de maio no ABC. Dessa relação com eles surgiu o apoio eleitoral, no segundo semestre.[4]

A Convergência Socialista definiu, então, como tática apoiar candidatos operários dentro das listas do PMDB, “uma mediação para tentar construir a independência política de classe. Procuramos o Lula, ele não quis ser candidato. Apoiamos o Benedito Marcílio, que era o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André. Quando propusemos, como condição do acordo eleitoral, que no programa da candidatura estivesse explicitado que éramos por um partido socialista dos trabalhadores, o Marcílio nos disse: ‘Digamos por um Partido dos Trabalhadores, não se coloque o socialista. Construamos primeiro um PT e depois discutamos o que é o socialismo, porque os trabalhadores não sabem’. Aí surgem as primeiras articulações que vão originar o movimento pró-PT. Nesse processo começam a se unir muitos outros companheiros. Mas foi uma iniciativa pioneira. Nós temos orgulho”.[5] E no 9o. Congresso dos Metalúrgicos de São Paulo, em janeiro de 1979, em Lins (SP), Zé Maria[6], do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e militante da CS, propôs um manifesto chamando "todos os trabalhadores brasileiros a unir-se na construção de seu partido, o Partido dos Trabalhadores". A moção foi aprovada.[7]

“A proposta de formação de um Partido de Trabalhadores começou a ser veiculada pelo jornal Versus, influenciado pela organização Convergência Socialista, em meados do ano de 1978. Tal proposta se materializou na tese que o Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, apresentou no 9º Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos, Mecânicos e de Material Elétrico do Estado de São Paulo realizado na cidade de Lins, em janeiro de 1979.[8] A tese propunha um chamado a todos os trabalhadores brasileiros para a construção de ‘seu partido, o Partido dos Trabalhadores’. Tal partido deveria excluir a colaboração com a burguesia, deveria ser ‘de todos os trabalhadores da cidade e do campo’, [9] mas ‘sem patrões’.” [10]

Mas, se por um lado realizava conversações com as lideranças da esquerda, montava seus núcleos nas fábricas do ABC e atuava nas oposições sindicais classistas, por outro, a Convergência Socialista adotou a linguagem da nova esquerda européia e norte-americana, apresentando através do jornal Versus a política sob novas perspectivas. Entre as acusações que sofreu, era de que estava formada por estudantes e intelectuais, e que sua política de proletarização de quadros através do trabalho nas fábricas do ABC e a ida para os bairros operários, não poderia mudar a realidade de que seus militantes vinham da classe média. Na verdade, essa acusação já tinha sido feita antes à Polop e também à AP. Mas, como já tinha afirmado Marcuse, essa era uma característica da nova esquerda, que “assume um caráter aparentemente elitista, em virtude de seu conteúdo intelectual: um assunto mais para ‘intelectuais’ do que para ‘trabalhadores’”.[11]

“O predomínio de intelectuais (e de intelectuais antiintelectuais) no movimento é, de fato, obvio. Pode muito bem ser expressivo do crescente uso de intelectuais de todos os gêneros tanto na infraestrutura como no setor ideológico do processo econômico e político. Além disso, à medida que a libertação pressupõe o desenvolvimento de uma consciência radicalmente diferente (uma contraconsciência), capaz de suplantar o fetichismo da sociedade de consumo, ela pressupõe um conhecimento e uma sensibilidade que a ordem estabelecida, através do seu sistema de classes na educação, interdita à maioria das pessoas. Em sua fase atual, a Nova Esquerda e, necessária e essencialmente, um movimento intelectual (...)”.[12]

Consciente do papel intelectual que jogava, a Convergência procurou abrir ao máximo o espectro de suas relações com a radicalidade opositora ao regime: enfocou a questão negra e abrigou em suas fileiras ativistas do movimento negro unificado. E apoiou também outras minorias que começavam a se organizar. Um exemplo: em 1980, no Rio de Janeiro, durante a Semana Santa, foi realizado o I Encontro Brasileiro de Grupos Homossexuais. Participaram cerca de oitocentas pessoas e se fizeram presentes os grupos Eros de São Paulo, Somos de Sorocaba e do Rio de Janeiro, Beijo Livre de Brasília, Libertos de Guarulhos, Ação Lésbico-Feminista, e a Facção Homossexual da Convergência Socialista.[13] Manteve também um diálogo com a América Latina, Estados Unidos e Europa, através de relacionamento com partidos e pensadores trotskistas e da nova esquerda. E procurou participar do processo revolucionário latino-americano, mandando, por exemplo, militantes para a Nicarágua, que acompanharam a queda do regime de Somoza.

Dessa maneira, a tradição democrática do PSB, a revolução comportamental da nova esquerda e a crítica trotskista do stalinismo fizeram parte da história da esquerda brasileira no século XX e construíram compreensões da realidade que se fizeram presentes na formação do pensamento socialista no PT. Mas é importante entender como foram construídas as relações políticas entre o cristianismo social e essas correntes de esquerda. 


Citações

[1] “As articulações por um partido socialista”, Movimento, no. 136, São Paulo, 06.02.1978, p. 4. 
[2] “As articulações por um partido socialista”, artigo citado, p. 4. 
[3] Ênio Bucchioni e Omar de Barros Filho, “O editorial dos editoriais”, 1978, São Paulo, Versus no 28, 01.1979, pp.3-9. 
[4] Entrevista de Valério Arcary, artigo citado. 
[5] Entrevista de Valério Arcary, artigo citado. 
[6] “Foi um militante dessa tendência, o metalúrgico José Maria de Almeida, o Zé Maria, quem apresentou uma tese no Congresso dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo, realizado em janeiro de 1979 na cidade de Lins, propondo a criação de um ''partido de trabalhadores sem patrões''. A proposta era defendida, desde o final de 1978, pelo chamado Movimento Convergência Socialista (MCS). Lula, que até então havia se manifestado contrariamente à criação de um partido de trabalhadores, apoiou a proposta. Aprovada a proposta, uma primeira reunião para discutir a formação de um Movimento pró-PT foi realizada em 30 de janeiro no Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. Após essa reunião, coube a uma Comissão Provisória, composta por Jacó Bittar, Paulo Skromov, Henos Amorina, Wagner Benevides e Robson Camargo, discutir a Carta de Princípios do movimento. Camargo era diretor do Sindicato dos Artistas de São Paulo e membro do MCS. Nenhum representante do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema participava dela, o que indica o papel secundário ocupado por Lula e seus companheiros neste primeiro momento. O texto da Carta incorporava muitas propostas do MCS, dentre elas a recusa 'a aceitar em seu interior representantes das classes exploradoras'. Lula declarou ter participado da elaboração do texto e conhecer sua versão final, sem fazer objeções a ele. Mas logo a seguir, a distribuição da mesma Carta no 1º de maio de 1979 foi vetada pelo próprio Lula”. Alvaro Bianchi, “25 Anos de PT”, JB Online, 30.30.2005. 
[7] “Suplemento PSTU 10 anos”, PSTU. Site: www.pstu.org.br/jornal.asp?id=2028 (Acesso em 12/10/2004). 
[8] Partido dos Trabalhadores. “A Tese de ‘Santo André-Lins’, 1979”. In Resoluções de Encontros e Congressos. 1979-1998. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998, pp. 47-48. 
[9] Partido dos Trabalhadores. “A Tese de ‘Santo André-Lins”, 1979”, op. cit., p. 48. 
[10] Álvaro Bianchi, Do PCB ao PT: continuidades e rupturas na esquerda brasileira, São Bernardo do Campo, UMESP. Site: http://planeta.terra.com.br/educacao/politikon/dopcbaopt (Acesso em 15.10.2004). 
[11] Herbert Marcuse, Contra-revolução e revolta, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978, p. 39. 
[12] Marcuse, Contra-revolução e revolta, op. cit., p. 39. 
[13] “Livre Expressão, uma ação comunicativa contra o preconceito e pela cidadania”, Secretaria Nacional de Gays, Lésbicas e Homossexuais, PSTU, 15.03.1999. Site: www.pstu.org.br/gaylesb (Acesso em 15.10.2004).
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