jeudi 24 mars 2016

Teologia e política (1)

Por que estudar o pensamento de Paul Tillich? 
Jorge Pinheiro, PhD

Essa é uma pergunta que hoje se faz no Brasil, tanto nas faculdades de teologia, como nas áreas de filosofia e ciências sociais. Partindo de minha experiência como pesquisador e professor, considero que Tillich fornece fundamentos teóricos para aqueles que se interessam não somente pela política, mas pelas imbricações da política com a religião. Por isso, ele se torna referencial tanto para estudos no campo da teologia, como da filosofia e das ciências sociais. Sem dúvida, suas abordagens sobre essas correlações iluminam questões teóricas e possibilitam abordar realidades até agora pouco compreendidas. Ou seja, seus estudos sobre política, socialismo e religião, assim como sua teologia da cultura, nos permitem analisar questões desafiadoras sob novas perspectivas. 


A temática política e religião pode e deve ser abordada a partir de perspectiva teológica, mas isso nos remete à própria teologia e à pergunta: em que medida ela pode ser um instrumento para a análise política? A teologia, e aqui recorremos a Paul Tillich, relaciona pólos, a mensagem cristã e a interpretação dessa mensagem, que deve levar em conta a situação daqueles a quem ela se destina. 

Situação, aqui, são as formas científicas e artísticas, econômicas, políticas e éticas, através das quais as pessoas e grupos exprimem as suas interpretações da existência.1 Nesse sentido, a teologia pode dar respostas às perguntas implícitas na situação, não enquanto soluções definitivas, mas no sentido de procurar sínteses. 

(Notas -- 1 Paul Tillich, “Systematic Theology I”, Chicago, University Chicago Press, XI, 1951, pp. 3-4. “Das System der Wissenschaften nach Gegenstanden und Methoden”, Fruhe Hauptwerke, Gesammelte Werke I, Evangelisches Verlagswerk Stuttgart, 1955, pp. 265-290). 

Para isso, utilizamos o método da correlação, ou seja, a análise da situação humana, de forma que venham à tona perguntas e a individuação das respostas nos fatos reveladores, possibilitando respostas correlatas às perguntas colocadas pela própria existência. 

A partir daí nos vemos diante da questão: que sentido tem a história? Tillich nega o negativismo fundamentalista que não vê sentido na história, mas também vai além do progressismo intra-histórico, quer iluminista, quer marxiano. Para ele, o cristianismo propõe um símbolo religioso, o do reino de Deus, que deve ser interpretado como dimensão histórica e dimensão transistórica. Dessa maneira, o sentido da história está na manifestação do reino de Deus, quer enquanto reino da salvação em contraposição à história do mundo, quer enquanto diretrizes e movimento em direção à plenitude da história, que em sua dimensão transcendente e transistórica é a vida eterna. Esse processo, que parte do eterno e desemboca no eterno, Tillich chama de panenteísmo escatológico.2 

Perguntas acerca das situações e respostas teológicas estão ligadas à existência. Por isso, ao analisar a questão do socialismo, Tillich faz uma teologia política onde seu referencial primeiro é o ser. Nesse sentido, podemos dizer que faz uma fenomenologia política quando analisa questões como o ser, a origem do pensamento político enquanto mito, e a partir daí procura trazer à tona os elementos não reflexivos do pensamento político. E é a partir da análise do pensamento político que Tillich vai explicar o surgimento da democracia e do socialismo. 

Assim, este trabalho visa fornecer bases teóricas para a análise do pensamento político e da correlação política e religião, resgatando elementos para o estudo das raízes do pensamento político, do socialismo e de suas relações com a religiosidade contemporânea. Nossa intenção, aqui, foi apresentar uma contribuição da teologia para a compreensão da crise social e política de uma época (no caso de Tillich em relação à crise alemã e à ascensão do nazismo), que nos permita aprofundar o estudo das origens do pensamento político na própria realidade brasileira. Assim, a leitura teológica que fazemos contextualiza e traz para o momento presente a antropologia política de Paul Tillich, elaborada entre as duas grandes guerras do século vinte na Europa. 

(Nota -- 2 Paul Tillich, Systematic Theology I (1951), p. 421). 

Mas, é necessário fazer a crítica do socialismo religioso e do sentido dialético do método da correlação tillichianos, como questionamentos que nos permitam entender o fenômeno político brasileiro. E para realizar essa crítica recorremos a Enrique Dussel, com o conceito de religião infraestrutural e seu método analético. Dussel, que trabalha com abordagens construídas a partir de Lévinas e Marx, nos leva à pessoa enquanto outro que é revelação do mistério da liberdade, e nos leva também à religião, e aqui devemos entender ao cristianismo, enquanto infraestrutura que denuncia o poder excludente, o que nos ajuda a trazer Tillich para o tempo presente latino-americano. 

Embora saibamos que a fé é ato da inteligência, modo de ver, Dussel nos diz que a fé também mostra que nosso conhecimento sempre esbarra em algo que não pode transcender e pára ali sabendo, no entanto, que há algo mais. Quem é ou o que é que realmente ultrapassa o que se vê, que vai além do que se vê? Em primeiro lugar, é a esperança de que o outro se revelará, concretamente: o amor do outro. O amor é o que vai além da visão do rosto, porque o fogo que arde no arbusto não o consome, porque é um sinal da presença do outro. É um rosto. E todos os dias vemos rostos de pessoas, mas o rosto que vemos não é. Por isso, devemos nos abrir a ele como mistério da liberdade. Vemos cada um dos que nos rodeiam e também os grupos sociais que estão entre nós, mas o que vemos não é o outro como ser livre.3 

Por isso, para que a teologia direcione é necessário descobrir o sentido do presente histórico. E esse desvelar o sentido do presente histórico chama-se profecia, que significa falar diante. Mas falar diante de quem? Diante diante da assembléia de cidadãos. Profecia é isso: falar ao povo do sentido dos acontecimentos presentes.4 Esta compreensão, a partir da leitura de Paul Tillich e Enrique Dussel, mostra a importância da Teologia no debate interdisciplinar sobre a experiência brasileira da presença cristã e socialista na política recente do Brasil. 

Desde a primeira República com a chegada dos imigrantes europeus, em especial espanhóis e italianos, surgiram tentativas de construção de um partido operário que tivesse condições de ação político-eleitoral. Mas todas essas tentativas fracassaram. Até mesmo o Partido Comunista, fundado em 1922, por seu posicionamento ambíguo em relação à democracia e por traduzir, durante a longa presença de Josef Stálin na liderança da União Soviética, uma 

(Notas -- 3 Enrique Dussel, “Interpretação histórico-teológica”, in Caminhos da libertação latino-americana, vol. I, São Paulo, Paulinas, 1985, p. 13. 4 Enrique Dussel, Caminhos da libertação latino-americana, op. cit., p. 15). 

política ditada por interesses externos, mais precisamente do Cominter, não conseguiu ser este partido. Com o final do Estado Novo surgiu o Partido Trabalhista Brasileiro como organização populista, que combinava uma liderança burguesa e pelego-sindical com base eleitoral popular e de trabalhadores urbanos. Mas também não foi o partido operário sonhado pelos militantes socialistas da primeira República. Outra experiência que vale a pena ressaltar foi a do Partido Socialista Brasileiro, fundado por intelectuais e políticos socialistas- democráticos em 1947. Tendo que enfrentar, à esquerda, o PCB, marxista-leninista, e à direita o PTB, burguês, o PSB também não conseguiu construir o sonhado partido operário de massas, com inserção sindical e expressão político-eleitoral. 

Por esses motivos, quando no final dos anos 1970 surgiu o Partido dos Trabalhadores, que nucleou amplos setores sindicais e de trabalhadores fabris em todo o país, a esquerda brasileira, com raras exceções, começou a olhar tal fenômeno como algo novo na história brasileira. O sonho tornava-se realidade. Passados mais de duas décadas da fundação do PT, algumas questões são levantadas, todas girando ao redor da pergunta: que partido é esse? É marxista- leninista? É social-democrata? E se é socialista, que socialismo é esse? 

Trabalhos acadêmicos foram produzidos com a intenção de responder às questões, mas ao se olhar com atenção para o fenômeno ficou claro que ele rompia os padrões de um partido operário. Afinal, desde seu início teve uma forte presença cristã, que atuou nele através de organismos populares criados pela própria Igreja, como as Comunidades Eclesiais de Base. Mas não ficou aí a ruptura com o esquema clássico. Praticamente todas as correntes ideológicas do socialismo se fizeram presentes na formação do PT, indo do stalinismo, expresso nas correntes ligadas ao Partido Comunista do Brasil, PC do B, passando por seus opositores históricos, os trotskistas, até chegar aos social-democratas e socialistas lights, como foram chamados aqueles aparentemente não muito comprometidos com a idéia de revolução, conceito que pode ser entendido como momento onde a possibilidade humana se torna plena e, por ter a esperança por fundamento, aponta para a irrupção do novo, daquilo que é essencial. 

É interessante notar que no correr dos primeiros vinte anos do PT as correntes do marxismo- leninismo foram deglutidas e expurgadas. Prevaleceu um núcleo sindical, sem definição ideológica, e uma ampla base sentimentalmente socialista que, no entanto, nunca definiu claramente que socialismo era esse. Pretendemos aqui voltar à discussão sobre os socialismos petistas, mas a partir das ciências da religião, pois vemos na construção do PT a presença, tanto direta, como invisível, do cristianismo. Nesse sentido, não negamos a existência de um pensamento socialista no PT, mas entendemos esse socialismo enquanto fenômeno que traduzia realidades plasmadas na sociedade brasileira e que afloraram enquanto mitos de origem da política. 

Este é um livro sobre os componentes teológicos encontrados no pensamento socialista do Partido dos Trabalhadores. O trabalho cobre a história do PT, mas não pretende analisar o Governo Lula, embora acreditemos que a abordagem realizada forneça elementos que permitem entender o processo vivido pelo PT enquanto governo. Nossa análise toma como ponto-de-partida os documentos e as resoluções de encontros e congressos acontecidos entre os anos de 1979 e 1999, assim como matérias jornalísticas, artigos, editoriais e entrevistas, publicadas pela imprensa do PT e pela imprensa não partidária, mas recorremos também a documentos da esquerda anteriores a esse período e também a documentos posteriores. Isto porque nossa intenção não é somente a análise histórica, mas também uma leitura sistemática do socialismo no PT. 

Nosso projeto de pesquisa foi buscar as origens do socialismo do Partido dos Trabalhadores, a partir de abordagens comuns às ciências da religião e, por extensão, da teologia. Embora o pensamento socialista no Partido dos Trabalhadores não possa ser compreendido apenas a partir da leitura teológica das resoluções oficiais de encontros e congressos, por maior que seja sua importância, entendemos que seria de relevância fazer a releitura desses documentos como ponto-de-partida para a compreensão do papel do cristianismo na construção do Partido dos Trabalhadores. 

Dessa maneira, as apreciações e comentários sobre o Partido dos Trabalhadores, sua história e formação baseiam-se em documentação bibliográfica. Foi, ainda, nossa intenção apresentar memórias e testemunhos que completassem a documentação bibliográfica, já que fizemos parte da direção de um grupo político, a Convergência Socialista, que teve participação na formação do Partido dos Trabalhadores. Tal realidade foi a razão que nos levou a escrever o livro: e por mostrar-se necessário à pesquisa foram citados artigos assinados pelo mim, enquanto textos que traduzem o pensamento de uma das correntes socialistas presentes no Partido dos Trabalhadores à época de sua construção. 

O tema central de interesse é o socialismo em seus diversos matizes em sua correlação com o cristianismo e como ambas correntes de pensamento se aninharam no partido em formação, indo desde o socialismo de intelectuais que atuavam junto ao Movimento Democrático Brasileiro, aos agrupamentos da nova esquerda como Ação Popular, Convergência Socialista, Liberdade e Luta, Movimento pela Emancipação do Proletariado, Política Operária até as correntes representadas por lideranças religiosas de expressão nacional, como aquelas dos bispos católicos e outros que, diretamente ou indiretamente, influenciaram na construção do novo partido. 

Logicamente, tal questão nos leva a uma outra: como, a partir da luta entre as diversas correntes -- Democracia Radical, Articulação, Democracia Socialista, A Hora da Verdade, Vertente Socialista, Força Socialista, Brasil Socialista, O Trabalho, Movimento Tendência Marxista, e independentes -- deu-se um caldeamento que possibilitou a consolidação de uma corrente sindical. Ou, como afirmou Lince: [O PT] “teve que aprender, na prática e aceleradamente, o exercício da transposição de suas grandes bandeiras gerais em projetos políticos concretos, capazes de afirmar a sua vocação de instrumento de luta por uma nova hegemonia na sociedade brasileira”.5 

A inclusão da teologia na análise crítica da construção do pensamento socialista no Partido dos Trabalhadores, sem negar a importância de diálogos interdisciplinares, amplia o horizonte de compreensão dos estudos sobre política, cristianismo e socialismo no Brasil. Assim o livro pretende mostrar, também, a importância da abordagem comparativa6 representada pela presença da Teologia na discussão da política e do socialismo. Desta maneira, o debate acadêmico ampliará suas perspectivas de discussão interdisciplinar. Esta maneira de fazer teologia norteia o trabalho a ser desenvolvido. 

Quando pensamos nos componentes religiosos presentes no socialismo do Partido dos Trabalhadores, três questões exigiram de nós uma reflexão mais profunda. A primeira delas foi: podemos dizer com base no estudo das ciências da religião que existe, de fato, uma relação histórica e convergente entre cristianismo e socialismo? E, se existe, como essa relação se deu na formação e desenvolvimento do pensamento socialista no Partido dos 

(Notas -- 5 Leo Lince, “O modo petista de lutar no Parlamento”, in Emir Sader, 1994: Idéias para uma alternativa de esquerda à crise brasileira, Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1993, p.98. 6 Peter Berger, “A secularização e o problema da plausibilidade” in O dossel sagrado, Elementos para uma teoria sociológica da religião, São Paulo, Paulus, 1985, pp. 139-164). 

Trabalhadores? E a terceira questão que nos desafiou foi saber se este pensamento socialista, onde estão presentes componentes religiosos, e mais precisamente cristãos, leva a um tipo de socialismo diferente daquele proposto pelos partidos comunistas no século vinte. Essas três questões delimitaram o trabalho de pesquisa e a construção do livro.

Leia

Jorge Pinheiro, Teologia e Política, Paul Tillich, Enrique Dussel e a Experiência Brasileira, São Paulo, Fonte Editorial, 2006.


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