mercredi 20 avril 2016

Jacó e o chute

Mergulho na humanidade do texto
Jorge Pinheiro


A profundidade do texto é a sua humanidade. Ao mergulhar nessa humanidade temos a possibilidade de encontrar sua transcendentalidade. E isso pode ser alcançado de duas maneiras: a acadêmica, que nos interessa aqui, e aquela da própria vida, quando chegamos lá através da maceração de nossa pessoalidade, da crise, da dor e do risco.

Então, nesse exercício vamos analisar um verso de uma história da escrituras judaica. 

Na luta, o homem, ao ver que não podia vencer, bateu no vazio da coxa e enforcou a força de criar de Jacó”. (Gênesis 32.25).

O verso escolhido, que se situa no primeiro livro, o das origens, fala da luta do patriarca Jacó com um homem -- a palavra hebraica no texto é îxe, homem, macho, e não anjo. Na luta com esse que poderia ser seu próprio irmão ou um dos capangas dele, o homem não conseguiu vencer Jacó. Então, já cansado, o homem recorre ao golpe mais antigo, que acaba com qualquer luta, dá uma joelhada no vazio da coxa de Jacó e estrangula a sua força.

A região, de terminações nervosas, é protegida por uma grossa camada de derme, como ocorre com outras áreas de grande sensibilidade no corpo, como a ponta dos dedos. "É por isso que, apesar de ambos serem muito sensíveis, um impacto nos testículos dói muito mais do que, por exemplo, bater os dedos na mesa", diz o urologista Mário Paranhos, do Hospital das Clínicas, em São Paulo. 

Apesar de ser muito sensível à dor, o saco consegue se preserva de danos maiores por estar suspenso, o que amortece o trauma. Mas, às vezes, a pancada é tão forte que não há ovo que resista. Veja o que pode rolar : com o chute, pode rolar um sangramento interno causando inchaço e dor. O músculo que envolve os testículos pode se retrair tão depressa que nervos e artérias que seguram as bolas se enroscam, impedindo o fluxo de sangue. Se o coice for bravo mesmo, a cápsula que protege os ovos pode se romper e vazar o conteúdo interno.


Visto assim, na sua humanidade, o texto fala de dois homens que lutam madrugada adentro, e que um deles, o trapaceiro, é golpeado na força de sua virilidade, sendo derrubado por um golpe em baixo, por baixo, baixo. Caído, resfolegando no pó, entre gemidos, pede ao seu oponente um favor: liberdade para seguir adiante. E o homem – Esaú ou um capanga – diz para ele: segue seu caminho, hoje você não trapaceou, você venceu. Arrastando-se, aquele que se agarrava ao tornozelo do irmão, se levanta: é Israel, foi alforriado, está livre para seguir em frente.


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