jeudi 21 avril 2016

Sou negra e bela!

Sou negra e bela! 

Jorge Pinheiro, PhD 


“Oh mulheres de Jerusalém, eu sou negra e bela. Sou negra como as barracas do deserto, como as cortinas do palácio de Salomão". Cantares de Salomão 1.5. 

Afrobrasilidade: este é um assunto sobre o qual não temos nos debruçado muito. Quando falamos afrobrasileiras estamos nos referindo às nossas conterrâneas com ascendência da África subsaariana ou à influência cultural trazida pelos escravos africanos para o Brasil. Atualmente, no mundo, o Brasil é o país com a maior população de origem africana fora da África. Segundo o IBGE, os negros autodeclarados representam 6,3% e os pardos 43,2% da população brasileira, ou seja, oitenta milhões de brasileiros. E estudos genéticos dizem que 86% dos brasileiros apresentam mais de 10% de contribuição da África subsaariana em seu genoma, mesmo quando não apresentam fenótipos característicos de populações negras. [1] 

Mas, hoje, queremos pensar a afrodescendência a partir de uma história bíblica. E das diversas maneiras que foi lida no correr dos séculos.

Uma história de amor

Os leitores certamente se lembrarão das imagens de amor deste que é considerado um dos mais belos poemas da humanidade: o livro de Cantares de Salomão. Mas, a moça em torno da qual gira a narrativa é motivo de acirrada polêmica, principalmente para as teólogas e teólogos negros. Segundo a ensaísta norte-americana Peggy Ochoa, o livro de Cantares traz à tona os detalhes dolorosos da animosidade entre grupos étnicos no reinado de Salomão.

Para muitos estudiosos, aqui estamos diante de uma constatação: a Sulamita, mulher inspiradora dos poemas de amor do livro de Cantares era uma bela negra. E quando as filhas de Jerusalém, que faziam parte da elite ligada à corte protestaram ao descobrir a paixão do rei, a Sulamita respondeu ao clamor preconceituoso com a famosa afirmação: "Eu sou negra e formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão" (Cantares 1.5).

Na versão inglesa King James, a Sulamita diz nos versículos 5 e 6 (ênfase minha): "I am black, BUT comely". E na Bíblia hebraica lemos assim o mesmo texto, em representação fonética e ênfase minha: "shekhorah ani VE na'vah". Em hebraico não há distinção entre "porém" e "e". A conjunção hebraica "ve" pode ser traduzida por "porém" ou "e". O tradutor decidirá por um ou por outro com base no contexto. Mas, tanto no inglês, como no português, a escolha pode fazer uma enorme diferença. 

Mas, por que o tradutor da versão King James, assim como os nossos tradutores optaram pelo "porém"? Talvez porque essas traduções tenham sido feitas através do filtro cultural ocidental, já a partir da versão latina da Bíblia, a Vulgata, que introduziu o "porém": "Nigra sum sed formosa". Eu sou negra, "porém" formosa. Não negra e bela, mas bela apesar de negra.

A rainha negra

Segundo a teóloga Susan Durber, da St. Columba United Reformed Church, Oxford, no ensaio "A Rainha do Sul se fará presente no Julgamento quando esta geração estiver sendo julgada", uma mulher pode nos ajudar a entender este enigma. Em IReis 10 encontramos a história da rainha do Sul ou rainha de Sabá. Uma mulher inteligente, que fez perguntas duras a Salomão. Queria saber se ele era tão sábio quanto se comentava. Assim, a Bíblia está interessada nela por causa de sua inteligência.

Mas um fato significante sobre Sabá é que ela era negra. Não se sabe exatamente de que região. Poderia ser do Iêmen ou do Norte da África, possivelmente a Etiópia. Os falashas, judeus etíopes, e os rastafares reivindicam ser descendentes de Menelik, o filho de Salomão e Sabá. E também para os cristãos negros de todo o mundo, Sabá surge como ícone racial e é vista como a musa de Cantares de Salomão.

O poeta W. B. Yeats, por exemplo, releu o versículo "sou negra e bela" e poemou assim: "Salomão cantou a Sabá, e beijou a face negra dela".

Ainda segundo Durber, onde os cristãos africanos celebraram a cor negra de Sabá, o cristianismo europeu marginalizou sua história. Na rainha de Sabá viu a história de uma mulher pagã, uma mulher estrangeira que tinha se rendido à verdadeira fé. Em sua rendição, aparentemente, Sabá perdeu também a cor negra de sua pele.

Assim a história de uma mulher sábia aparentemente não combinaria com a história de uma negra, e tal leitura produziu uma terrível alienação na igreja cristã européia e norte-americana, que levou o terror e o medo ao outro de cor negra. Dessa maneira, o outro de cor negra foi seduzido, subjugado e domesticado. E a leitura do texto é que Sabá capitula a Salomão e torna-se culturalmente branca.

Na verdade, Sabá foi companheira de Salomão e o texto pode ser lido assim. Mas a tradição, a partir da Vulgata, fez dele um conquistador e dela uma conquista, gerando ideologias como a da vitória da Europa sobre Oriente, do homem sobre a mulher e do branco sobre o negro.

Mas a Bíblia hebraica fala de negros e de nações africanas como Cuxe, Mizraim e Pute, que hoje são Etiópia, Egito e Líbia. E até a construção do canal de Suez, em 1859, não se fazia distinção entre as terras bíblicas e esses países. O cenário da atuação divina cobria também a península do Sinai, o Egito, que está na África, e Israel era visto como parte do continente africano. Só com a construção do canal de Suez, a África passou a ser olhada como continente separado do Oriente Médio.

Assim, na Bíblia hebraica, Israel é uma nação africana e semita, e a mensagem que leva ao mundo teve início nesse continente negro. E, embora muitos afrobrasileiros vejam a igreja como de origem européia, a análise da história bíblica demonstra que teve origem multirracial e que a Bíblia começou a ser escrita na África.

Por isso, nossas irmãs afrodescendentes podem, conscientes de sua brasilidade, raça e cor, dizer com a Sulamita: "eu sou negra e bela, como as barracas do deserto, como as cortinas do palácio de Salomão".


Nota

[1] PENA, Sérgio D.J.; BORTOLINI, Maria Cátira. Pode a genética definir quem deve se beneficiar das cotas universitárias e demais ações afirmativas? São Paulo: Estudos Avançados, Vol. 18, No. 50, Jan./Abr. 2004.



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