dimanche 31 juillet 2016

Os sete espíritos de D'us

Dois ou três pensares sobre o Eterno
Jorge Pinheiro, PhD


“A felicidade aparece para aqueles que choram./ Para aqueles que se machucam. / Para aqueles que buscam e tentam sempre. / E para aqueles que reconhecem/ a importância das pessoas que passam por suas vidas”.
Há momentos, Clarice Lispector


A partir de uma teologia que parte da Torá e caminha através do Testamento cristão temos o Eterno como D'us (Jo 6.27; Ef 4.6), mas é simbolicamente interessante constatar que o nome hebraico Abba, que significa papai, está presente nas duas coleções de textos (Dt 32.6; 2Sm 7.14; 1Cr 17.13; 22.10; 28.6; Sl 68.5; 89.26; Is 63.16; 64.8; Jr 3.4,19; 31.19; Ml 1.6; 2.10). 

E no Testamento cristão, este Eterno, maravilhoso, D'us da eternidade, recebe o título de pai do Cristo (Mt 3.17; 11.27; Mc 14.36), pai dos crentes (Rm 8.14-17; Gl 3.20; Ef 4.6), pai da glória (Ef 1.17), pai das luzes (Tg 1.17), pai de todos (Ef 4.6), assim a compreensão de Adonai, o Eterno, remete à leitura de que Ele é a fonte de toas as relações, na divindade e na humanidade.

Segundo Anselmo, um dos patriarcas da comunidade cristã, se todas as pessoas têm a idéia de um Ser perfeito, tal consciência leva a crer que Ele seja de fato: “E disse D'us a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Ex.3.14). A compreensão de Anselmo recebe o nome de argumento ontológico e é dedutiva (a priori), e não indutiva (a posteriori). O Eterno, segundo as Escrituras judaicas e cristãs, é desde a eternidade e eternamente. Veja Gn 1.1 e Hb 11.3, 6. 

I. A pensar a Eternidade

As qualidades do Eterno estão presentes no primeiro e segundo testamentos e traduzem os pensares sobre o Ser e o estar (Sl 8.1,9; Jz 13,18; Ex 20,7). Tais pensares traduzem qualidades do Ser eterno --  Elohim, o poderoso, literalmente os poderosos, que aparece cerca de 2.500 vezes no primeiro testamento. Em Gênesis 1.1-2.3 é usado 35 vezes. Elohim descreve o Eterno como criador, mantenedor do mundo e do universo. É o termo mais comum na Torá para falar do Eterno, e normalmente nós traduzimos por D'us. Outro nome que designa o Eterno é Iavé, YHWH, conhecido como o tetragrama, raiz da expressão “Eu Sou o Que Eu Sou”. Na maioria dos casos, traduzimos por Senhor. Iavé aparece 5.321 vezes na Torá, e Iah, sozinho, aparece 50 vezes. No Testamento cristão aparece como Kyrios, Senhor. 

Adonai, que é outro nome do Eterno, vem de Adon, meu Senhor, meu Mestre (Ex 21.1-6; Js 5.15; Is 6.8-11; Sl 110.1). Freqüentemente é usado como Iavé, o Senhor D'us, conforme Is 61.1. 

O Eterno recebe ainda outros títulos: El, o poderoso Deus, Deus. É uma palavra presente em várias línguas semíticas e na Torá aparece junto a outros títulos de Deus. Temos ainda Baali, meu Senhor, meu Marido (Os 2.16), o Juiz de toda a terra (Gn 18.25), o meu Pastor (Gn 48.15; 49.24), e a Pedra, a Rocha de Israel (Gn 49.24). Os títulos Santo e Santíssimo (Is 1.4; 6.3; 43.3; 57.15), também aparecem no Testamento cristão (1Tm 2.8, Ap. 16.5; At 2.27; 1Jo 2.20. E Rei (Ex 15.18; Dt 33.5; Sl 5.2; 44.4, e 1Tm 2.8; Ap 15.3; 19.16). 

Temos ainda, o Ancião de Dias (Dn 7.9), Abba, Eterno (Rm 8.9; Gl 4.6), Mestre, Senhor (Lc 2.29; At 4.14), Soberano Senhor, cf. Tt 2.9, Todo-poderoso (Ap 1.8; 4.8; 11.17; 16.7). E os títulos compostos: El Elyon, o Altíssimo (Gn 14.18, Dt 32.8; Is 22.14), El Ro’i, o Poderoso que se vê (Gn 16.13), El Shadai, O D'us todo-poderoso (Gn 17.1-20), El Olam, o Eterno D'us (Gn 21.33; Is 40.28), El Betel, o D'us de Betel (Gn 31.13; 35.7), El Elohe Israel, o D'us de Israel (Gn 33.20), Iavé Jireh, o Senhor que provê (Gn 22.14), Iavé Nissi, o Senhor é minha bandeira (Ex 17.15), Iavé Shalom, o Senhor é paz (Jz 6.24), Iavé Tsabaot, o Senhor dos Exércitos (1Sm 1.3), Iavé Macadeshem, o Senhor vos santifica (Ex 31.13), Iavé Raah, o Senhor é meu Pastor (Sl 23.1) e Iavé Elohim Israel (Jz 5.3; Is 17.6).

Atividades do Eterno que as Escrituras descrevem -- O Eterno é o autor do decreto e da eleição (Sl 2.7-9; Ef 1.3-11; cf. Is 64.8), é o criador de todos, através do Verbo e do Espírito Santo (Ef 3.14s; Hb 12.9), é o Paternoster ou paterfamilias, ou seja, quem estabelece a família de Deus, administrando tanto a herança como a disciplina aos seus filhos (Gl 4.4-7; Hb 12.9). É ele Aquele que ama o mundo (Jo 3.16) e a Ele tudo retornará (1Co 15.24-28).

II. Os sete Espíritos de D'us

D'us Eterno é Espírito (Jo.4:24) infinito e eterno, imutável em seu Ser, sábio, poderoso, santo, justo, bom e verdadeiro. Nele todas as coisas tem sua origem, sustentação e fim (Jo.4:24; Ne.9:6; Ap.l:8; Is.48:12; Ap.1:17). Nas Escrituras, a expressão D'us é Luz (1Jo.1:5) traduz sua natureza, enquanto a expressão D'us é amor (IJo.4:7) expressa o Seu caráter. (ITm.6:16) 

“E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro animais viventes e entre os anciãos um Cordeiro, como havendo sido morto, e tinha sete pontas e sete olhos, que são os sete Espíritos de D'us enviados a toda a terra”. (Ap 5.6)

Os atributos, predicados, qualidades da natureza do D'us trino são chamados no livro do Apocalipse de os sete chifres, os sete espíritos e os sete olhos de Deus. Podemos assim nomear os sete espíritos de Deus.

1. Eternidade. Ele é o Eterno Eu Sou (Ex.3:14, Sl.90:2; 102:12,24-27; Sl.93:2; Ap.1:8; Dt.33:27; Hb.1:12). É absolutamente independente de tudo fora de Si mesmo para a continuidade e perpetuidade de Seu Ser. É a razão de sua própria existência (Jo.5:26; At.17:24-28; 1Tm.6:15,16). É infinito e está isento de toda e qualquer limitação (Jó.11:7-10; Mt.5:48). A infinitude contrasta com o nosso mundo finito, espaço-temporal. Eternidade. A eternidade de D'us não é apenas duração prolongada, mas transcendência diante das limitações espaço-temporais (2Pe 3.8, Is 57.15). A eternidade de D'us em relação ao espaço-tempo é chamada de imensidão (Jó.36:5,26; Jó.37:22,23; Jr.22:18; Sl.145:3). A imensidão de D'us transcende o espaço-tempo (Sl.139:7-12; Jr.23:23,24), e está fora do espaço-tempo (1Rs.8:27; Is.57:15). 

2. Onipresença. Se a imensidão se refere à transcendência do espaço-tempo, a onipresença traduz a imanência no espaço-tempo. D'us se faz imanente nas criaturas e na criação. A imanência não é panteísmo, que diz que D'us é tudo, ou deísmo, que diz que D'us está presente no mundo apenas com seu poder e age sobre o mundo à distância. D'us ocupa o espaço-tempo, não está ausente de sua criação, nem está mais presente num espaço ou num tempo mais do que em outros espaços e tempos (Sl.139:11,12). D'us não habita o universo como habita no céu, nos seres humanos, nos piedosos, na igreja e em Cristo (Is.66.1; At.17.27-28; conforme Ef.1.23; Cl.2.9-10). 

3. Imutabilidade. D'us não está sujeito às circunstâncias do espaço-tempo, por isso Ele não muda (Tg.1:17; Sl.102:26,27; Hb.1:12 e 13:8). Ele é Ele mesmo (Ex.3:14), é imutável como a rocha (Dt.32:4), mas atenção, imutabilidade não é imobilidade. Ele é um D'us de ação (Is.43:13). Imutabilidade significa que nele não há razão para arrependimento, embora alguns versículos falam dele como se arrependendo (Ex.32:14, IISm.24:16, Jr.18:8; Jl.2:13). Trata-se de um antropomorfismo, como encontramos outros na Escrituras (Nm.23:19; Rm.11:29; ISm.15:29; Sl.110:4). Imutabilidade significa que Ele é perfeito e seu caráter não muda (Ml.3:6). Ele é imutável em suas promessas (1Rs.8:56; 2Co.1:20); em sua misericórdia (Sl.103:17; Is.54:10); em sua justiça (Ez.8:18); e em seu amor (Gn.18:25,26). E o que Ele planejou é e será (Is.46:9,10; Sl.33:11; Hb.6:17). 

4. Onisciência. O conhecimento de D'us é arquetípico. D'us conhece o universo antes de sua existência como realidade finita no espaço-tempo. Este conhecimento não vem de fora, como o nosso, que exige observação e processo de raciocínio (Rm.11:33,34; Jó.37:16), é inato, imediato e simultâneo (Is.40:28). É um conhecimento completo (Sl.147:5), mas também necessário, porque não procede de uma ação da vontade divina. Um exemplo é o mal, porque não é da vontade de D'us que o mal lhe seja conhecido (Hc.1.13), mas o conhece, não por experiência, mas por ato intelectivo (2Co 5.21). E aqui surge uma pergunta: como D'us pode conhecer previamente as ações livres dos seres humanos? Porque D'us é Aquele que o conhecimento livre de todas as coisas reais, do espaço-tempo por inteiro, daquelas do passado, do presente e do futuro. É importante entender que Ele é eterno e está fora do espaço-tempo, que é finito e acontece dentro de limites, por isso Ele tem visionis, conhecimento de vista e presciência de tudo que é contingente (1Sm.23.12; 2Rs.13.19; Jr.38.17-20; Ez.3.6 e Mt.11;21). Nesse ponto, é importante explicar que D'us não criou o mal, mas a sua possibilidade (Is 45.7), probabilidade que nasce das ações livres do ser humano. A liberdade humana está condicionada à vontade de D'us (Jo.2:24,25), aos limites do espaço-tempo e às escolhas intelectuais e de caráter. Dessa maneira, a liberdade humana tem esses limites e se realiza através de escolhas e ações. Ou seja, o mal é sempre um fazer. A presciência de D'us é mais do que saber o que vai acontecer, e seu uso nas Escrituras é entendido como escolha efetiva (Nm.16:5; Jz.9:6; Am.3:2; Rm.8:29; IPe.1:2; Gl.4:9). Essa escolha efetiva está correlacionada aos desígnios de Deus, que também chamamos de "decreto sua vontade" (Ef.1:11), mas leva em conta a realidade espaço-temporal (Mt 4.6-7) e as escolhas intelectuais e de caráter de cada pessoa. 

5. Onipotência. O poder de D'us pode ser compreendido de duas maneiras: poder absoluto e poder ordenado. O poder absoluto é exercido sem a intervenção de causas secundárias (Gn 1.1-3), e o poder ordenado é exercido através operação de causas secundárias (1Rs 19.111-12). O poder ordenado é parte do poder absoluto. D'us tem poder fazer o que desejar, por isso tem poder para fazer o que deseja. Mas Deus, também, pode realizar coisas que Ele não desejaria realizar (Gn.18:14; Jr.32:27; Zc.8:6; Mt.3:9; Mt.26:53). E, mais ainda, há coisas que D'us não pode realizar. Ele não pode ir contra sua natureza e seu caráter, assim, não pode mentir, pecar ou negar-se a Si mesmo (Nm.23:19; 1Sm.15:29; 2Tm.2:13; Hb.6:18; Tg.1:13,17; Hb.1:13; Tt.1:3; Jó.11:7). D'us faz aquilo que quer fazer (Sl.115:3; Sl.135:6). A onipotência de D'us se expressa título hebraico El-Shaddai, Todo-Poderoso (Gn.17:1; Ex.6:3; Jó.37:23) e abrange todas as coisas (1Cr.29:12), traduz domínio sobre a natureza (Sl.107:25-29; Na.1:5,6; Sl.33:6-9; Is.40:26; Mt.8:27; Jr.32:17; Rm.1:20), domínio sobre a experiência humana (Sl.91:1; Dn.4:19-37; Ex.7:1-5; Tg.4:12-15; Pv.21:1; Jó.9:12; Mt.19:26; Lc.1:37), domínio sobre as regiões celestiais (Dn.4:35; Hb.1:13,14; Jó.1:12; Jó 2:6). Na criação, na providência e na redenção, manifestou (Rm.4:17; Is.44:24; 1Cr.29:11,12; Rm.1:16; ICo.1:24). 

6. Soberania. D'us possui autoridade sobre as coisas criadas (Gn.14:19; Ne.9:6; Ex.18:11; Dt.10:14,17; 1Cr.29:11; 2Cr.20:6; Jr.27:5; At.17:24-26; Jd.4; Sl.22:28; 47:2,3,8; 50:10-12; 95:3-5; 135:5; 145:11-13; Ap.19:6). Sua soberania é perfeita e Ele fica feliz consigo mesmo como Supremo Bem e deseja que suas criaturas o adorem por amor do Seu nome (Is.48:9,11,14; Ez.20:9,14,22,44; Ez.36:21-23). Sua soberania correlaciona-se à sua vontade, por isso podemos falar em soberania do preceito, quando estabelece leis morais para reger a vida dos seres pessoais. A soberania do preceito pode ser desobedecida (At.13:22; IJo.2:17; Dt.8:20). E podemos falar também em soberania do decreto, quando D'us projeta o que virá acontecer, quer causativamente, quer por intermédio da livre ação de suas criaturas (At.2:23; Is.46:9-11), esta não pode ser desobedecida. A soberania do decreto e a soberania do preceito se correlacionam no propósito de realizar algo. Podemos ainda falar de soberania da boa vontade, quando D'us se deleita em fazer algo (Gn 1.31; Sl.115:3; Is.44:28; Is.55:11) e soberania da vontade cumprida, quando D'us se alegra em ver sua vontade ser realizada por Suas criaturas (Is.65:12). A soberania da boa vontade e a soberania vontade cumprida relacionam-se ao prazer de ver algo realizado. Mas há ainda a vontade secreta de D'us (Sl.115:3; Dn.4:17,25,32,35; Rm.9:18,19; Rm.11:33,34; Ef.1:5,9,11), que é a vontade não revelada do Eterno. A diferença entre vontade oculta e vontade revelada (Mt.7:21; Mt.12:50; Jo.4:34; Jo.7:17; Rm.12:2) está presente em Dt 29:29. A vontade revelada está perto de nós (Dt.30:14; Rm.10:8). 

7. Liberdade. D'us age livremente. Essa liberdade de D'us está correlacionada com Ele próprio, através de sua vontade necessária, já que age de acordo com Sua natureza, que é plena e santa. Em relação às suas criaturas, Ele é livre, porque escolhe o que vai criar, as circunstâncias, lugares e tempos de suas criaturas (Jó.ll:10; Jó.23:13,14; Jó.33:13. Pv.16:4; Pv.21:1; Is.10:15; Is.29:16; Is.45:9; Mt.20:15; Ap.4:11;Rm.9:15-22; 1Co.12:11). 


Para não esquecer -- Estamos a fazer uma teologia focando os olhos também na religiosidade brasileira e, por isso, nos remetemos ao Novo Mapa das Religiões, coordenado por Marcelo Côrtes Neri, no item Classes Econômicas e os Grandes Grupos Religiosos,. Lá se lê: “Os dados mostram a classe E como a menos religiosa de todas (7,72% não possuem religião). A taxa de ateísmo é menor nas classes intermediárias, atingindo o seu menor nível na classe C, onde 5,73% da população não possui religião, e sobe para 6,91% na AB. Na faixa mais alta, os sem religião se denominam agnósticos. Analisando a economia das religiões a partir da adesão às diferentes seitas: o catolicismo se faz mais presente nos níveis extremos do espectro de renda (72,76% e 69,07% nas classes E e AB, respectivamente), enquanto que as seitas evangélicas pentecostais atingem os níveis intermediários inferiores da distribuição de renda, sendo 15,34%, na classe D, ou 2,4 vezes mais do que na AB (6,29%). os evangélicos tradicionais estão mais concentrados na faixa AB (8,35%) C (8,72%), e tendem a diminuir à medida que andamos desta classe em direção aos níveis mais baixos de renda, atingindo 4,69% da classe E, finalmente, a taxa de adesão a outras religiões cai monotonicamente de 9,25% na classe AB para 2,24% na E. Seitas espíritas ou espiritualistas chegam a 5,52% da população na classe AB, sendo o segundo grupo neste segmento atras dos católicos. Estes dados, tomados a valor de face, indicam que pertencer a uma religião alternativa corresponde a consumir um serviço de luxo”.

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