vendredi 19 août 2016

Descartes, apenas um pouquinho

Costumamos dizer que fazer teologia implica em trabalhar com dois princípios. Um princípio é a revelação, e quando falamos de revelação, falamos de texto: é o princípio arquitetônico. Mas, se por um lado, temos a revelação, de outro há um novo elemento, um além de. A teologia é sempre uma contextualização da revelação. Por isso, a teologia muda. A teologia responde à necessidade que a Igreja tem de pregar o evangelho ao mundo, e de maneira que este entenda. E o mundo muda. Bonhoeffer verá isso claramente. Qual o problema que ele tenta resolver? O homem de sua época é não/religioso. Então, como a Igreja vai falar à essa sociedade? Como trabalhar a teologia?
Temos então a revelação, o texto revelado que é a base de toda teologia, ou princípio arquitetônico. E ao mergulhar no princípio arquitetônico trabalhamos com as estruturas de pensamento que uma determinada época produz. Essas estruturas colocam não apenas questionamentos, mas também induzem, às vezes não claramente, às soluções possíveis para os problemas de uma época. Aí se incluem as filosofias e a ciência com suas ramificações e o senso comum. A esse instrumental de interpretação, que usamos como ferramenta para entender a profundidade da revelação chamamos de princípio hermenêutico. 

Toda teologia é passageira, porque é uma reflexão humana sobre a revelação. Dentro desse conceito não há teologia na Bíblia, mas revelação. Ou seja, a Bíblia não apresenta reflexões humanas sobre a revelação, porque é a própria revelação. Embora trabalhe dentro da história e da linguagem humanas, a revelação vai além dos símbolos, produz signos, novos conceitos e novas interpretações da história, gerando assim uma nova linguagem que vai além da linguagem. Os conceitos do mundo grego, por exemplo, forneceram elementos para a linguagem da revelação neotestamentária. A filosofia grega permitiu ao apóstolo João apropriar-se do conceito logos, uma idéia-força do pensamento neoplatônico. Assim, a revelação se dá dentro da história e da linguagem humana.

Houve um momento da história humana onde o mundo vivia ao redor da religião. O mundo conhecido e desenvolvido era cristianizado. Deus era o centro, ou pelo menos, considerado o centro do conhecimento humano. Esse momento da história é conhecido como Idade Média. Descartes negou tudo isso, ao afirmar que qualquer pensamento que não tenha base científica, não merece confiança. Toda filosofia e teologia anteriores, a Escolástica, assim como o pensamento de Tomás de Aquino são negadas por Descartes (1596-1650). Nega porque não tendo base científica, não pode levar a uma certeza absoluta.

O papel da dúvida na construção da certeza

Descartes escreveu um trabalho intitulado Discurso do Método, onde traça o caminho para se chegar à certeza absoluta. Com Descartes há um retorno a maneira de pensar dos gregos. O pensamento grego negava a revelação de Deus e investigava a realidade do mundo à luz da razão. Dessa maneira, a partir de Descartes, a filosofia substitui o tema Deus, invertendo a preocupação central da filosofia medieval e consequentemente a teologia tomista ou escolástica. Ele baseia seus estudos no pensamento rebelde e criativo de cientistas que entraram em choque com a igreja católica, em especial no polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), no alemão Johann Kepler (1571-1630) e no italiano Galileu Galilei (1564-1642), que eram astrônomos e matemáticos. Esses homens entraram em choque com a igreja acerca de questões sobre a Terra ser redonda, o movimento dos corpos no espaço, o Sol como centro do sistema solar, etc. Eles mostraram que tudo em que se acreditava antes estava errado. Deus, então, vai ser substituído pela razão.

Para fazer essa transição, Descartes faz uma reflexão sobre a existência de Deus, sobre a relação entre filosofia, teologia e ciência. Escreveu Regras para a direção do espírito com a finalidade de evidenciar a única certeza absoluta que o homem pode ter: a certeza matemática. No seu Discurso do Método encontra-se sua famosa frase: “Penso logo existo”. Disse assim que a única certeza que alguém pode ter, de fato, é o próprio pensar.

“Notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, era necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E notando que esta verdade, penso, logo sou, era tão firme e tão segura que as mais extravagantes suposições dos céticos não podiam abalá-la, julgava que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como primeiro princípio da filosofia que buscava”.

O primeiro princípio da filosofia de Descartes é: “eu penso”. Quando se está pensando, agora, e tudo isso necessariamente não é verdade, ao menos o pensamento sobre isso é. Partindo de uma desconfiança universal, transformou-a em dúvida metódica. Ele não aceitava nada que não oferecesse garantia absoluta de verdade. Definiu quatro regras:

1. O critério geral da verdade. Tem de ter duas condições: a clareza e a distinção.

2. A regra de análise. Para se analisar alguma coisa, qualquer que seja, é preciso dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quanto possíveis e necessárias forem. Soluciona-se um problema, qualquer que seja, aos poucos e por partes.

3. A regra de síntese. O pensamento deve ser ordenado pelo mais simples e mais fácil de se conhecer, e subir aos poucos, como que por degraus até o conhecimento dos compostos, até a ordem daqueles que não precedem naturalmente uns aos outros. Por exemplo: H2O é a síntese, mas a análise diz H H O. 

4..A regra de comprovação. Fazer enumerações tão completas e revisões tão gerais até ter a certeza de não há erro. Todo o processo deve ser revisto e enumerado.

Descartes definiu um método para chegar a verdade natural. Isso para a Matemática. E Deus e a fé, onde ficam? Para encontrar Deus, ele não parte do mundo, mas de si mesmo, parte da revelação geral no próprio homem. O penso logo existo, tem um ponto de apoio: Deus. Ele é a causa de toda a perfeição, é uma idéia inata ao ser humano. Ele não descarta Deus, coloca-o como início do processo. Para Descartes, a fé é a exceção das regras gerais e evidentes, apresenta a certeza maior, não é fruto do intelecto que conhece, mas da vontade. Por isso, para ele a fé deve levar a ética.

O surgimento do pensamento científico vai influenciar os teólogos do século 19. Descartes é o início do período chamado Iluminismo. Ou seja, tem começo uma época que iluminará o mundo, antes imerso nas trevas da Idade Média. O Iluminismo vai abrir o longo período de modernidade, que deságua nas teologias dos séculos 19 e 20
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