mardi 13 septembre 2016

Ser batista hoje

Existirmos -- a que será que se destina?
[Letra de Caetano Veloso, Cajuína. Álbum: Omaggio a Federico e Giulietta -- Ao Vivo, 1999].

O século XXI confronta. Diante disso, questões entram na ordem-do-dia: sabemos mais ou menos o que fomos e um pouco do que somos, mas nada ou pouco do que seremos. O ser batista tem raízes na revolução liberal inglesa do século XVII, porém fomos influenciados também pela Reforma radical e pela Reforma magisterial. Mas foi no século XVIII, sob o Iluminismo, que o pensar batista europeu lançou raízes e se espraiou. E desempenhou papel na história do pensamento na Inglaterra, na Europa continental e nos Estados Unidos. Combinou Escrituras judaico-cristãs e espiritualidade e no século XIX deu ao mundo pensadores de vanguarda, ao construir o que veio a se chamar Evangelho social.

Ser batista, hoje, não é algo definido e preciso, principalmente quando se entra na discussão se somos ou não protestantes e se pertencemos ou não ao tronco dos cristãos rebeldes da Idade Média. Por isso, os batistas são olhados como seitas autônomas sem representatividade civil e opositores de toda e qualquer ligação com o Estado. Idéia que em parte se justifica se olharmos os batistas a partir da ótica de Ernst Troeltsch e Max Weber. E como é difícil definir a diversidade, já que encontramos movimentos batistas fideístas, fundamentalistas, liberais e racionalistas, é necessário fazer o caminho da análise daquilo que é comum, ou seja, das formas do ser batista, mais ou menos presentes na teologia batista.

A fé sem razão e a razão sem fé

Em primeiro lugar o pensar batista busca uma fé inteligente. Nega o divórcio entre a fé e o pensamento, embora reconheça a importância das correntes cristãs que olham a fé como distanciamento da razão, ruptura da lógica e salto na irracionalidade do mistério insondável. O pensar batista procura a consistência e as correlações entre fé e razão. Por isso, interage com a cultura. Sem negar que existe o mistério, entende o pensamento como construção que não pode prescindir da fé e da razão.

O Brasil nesses tempos bicudos da alta modernidade combate o pensamento que se quer autônomo, por preferir a massificação das ideias. A sociedade brasileira na alta modernidade tem optado por reproduzir a globalização da indústria do entretenimento e da comunicação de massas. A vida proposta pela alta modernidade, para além dos problemas estruturais da sociedade brasileira, nos faz inquietos e superficiais. Visa o espetáculo e se perturba diante de perguntas que procuram razões. Desafiados a avançar, é preciso entender que aquilo que parece não é, e o que não parece, é. Não dá para depositar confiança, asi nomás.

O pensar exige uma fé que não se atrofie, por isso a espiritualidade é um aliado precioso na construção do sentido da vida. A razão sem fé, mesmo verdadeira, não é razoável, torna-se racionalismo. A razão, convenientemente amparada, reconhece que há coisas que estão além, e que é incapaz de penetrar a contento no mistério da vida e do universo. Aceita seus limites e, portanto, a existência de dimensões para além dela. No entanto, mantém abertura e espírito de crítica. Isso impede que ter fé seja dizer ou fazer qualquer coisa.
 
Atualmente, vemos piedades emocionais exuberantes, quentes. Cultivam afetos, mas temem o pensamento. Temos, então, dogmatismo, fundamentalismo, que ensinam a olhar, a fazer, a dizer, formatam opiniões blocadas. Oferecem certezas e, por extensão, conforto e preguiça. Fogem das questões e perguntas dolorosas. Estas formas de piedade repousam sobre o realismo literalista. Mas temos um outro lado, a vida no questionamento permanente, que duvida da possibilidade da verdade, embora busque freneticamente a descoberta. Repousa sobre o ceticismo nihilista. Ora, fé implica em crença, paixão e sentimentos, é experiência com o mistério do Eterno. As Escrituras judaico-cristãs desafiam o amor humano a se realizar diante do Eterno com coração, força, mas também com o pensar. E é esse pensar que aprofunda, fundamenta e direciona a fé. Essa compreensão se contrapõe ao realismo literalista e ao ceticismo nihilista.

A magia do texto, contextos e pretextos

O estudo cultural e histórico de cada porção das Escrituras judaico-cristãs, principalmente do Novo Testamento, é uma necessidade. Não basta a linguística e as línguas originais, porque o Novo Testamento não é revelação ditada, mas apresenta testemunhos da revelação. É um conjunto de escritos que nos dizem como pessoas, os discípulos,  receberam e compreenderam o que Jesus disse e fez no meio do povo.

“Pois quando tu me deste a rosa pequenina/ Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina/  Do menino infeliz não se nos ilumina”.

Jesus não escreveu. Sabemos de sua doutrina e vida por aquilo que os discípulos relataram. Suas idéias encontram-se nas suas histórias. Donde, temos a documentação neotestamentária como textos fundantes para conhecer Jesus de Nazaré e sua pregação. Mas a investigação do Jesus histórico continua, ao menos ao nível acadêmico, quando utilizamos outras fontes e métodos, que remetem ao estudo dos contextos e pretextos, porque a magia do texto sempre possibilitou através da história vôos inusitados.

A pessoa transcendente e a mensagem imanente

A tradição cristã sempre deu mais importância à pessoa transcendente de Jesus do que a imanência de seus ensinos. O Credo apostólico, por exemplo, diz que ele  "foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da Maria virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, subiu aos Céus ...". Menciona assim o Cristo da fé, encarnado, morto e ressurrecto, mas omite seu ministério.

Os eventos crísticos, que são ensinamentos, histórias e relatos, muitas vezes são esquecidos. Não podemos construir uma fé transformadora apenas sobre o Credo. A vida do Evangelho está no que Jesus disse, na forma como apresentou a ação e a presença do Eterno. Assim como sua concepção da existência humana, sobre o significado da fé. Para o ser humano, a imanência da mensagem é tão importante quanto o mensageiro transcendente. Em teologia dizemos que o Cristo cumpre três funções: uma função real, pois reina sobre o mundo; uma função sacrificial, pois foi oferecido em sacrifício para a salvação dos seres humanos; e uma função profética, pois ensina e prega.

Certas correntes do catolicismo romano e ortodoxo privilegiam a função real. O protestantismo magisterial realçou a função sacrificial. Mas não podemos deixar de lado, como que esquecida, sua função profética.

A crucificação de Jesus que respondeu às circunstâncias históricas, dentro do projeto de redenção, é uma necessidade teológica para a salvação dos seres humanos. Passagens neotestamentárias falam da morte de Jesus como sacrifício oferecido ao Eterno, como pagamento pela alforria. Mas esse projeto redentivo estaria capenga sem a função profética, que fez dele messias e salvador.j


Na Universidade de Salamanca
Enregistrer un commentaire