samedi 26 novembre 2016

Cristo Jesus é Deus e homem

O Cristo
Jorge Pinheiro, PhD


A paixão é um marco/ Parabólica/ Dilatada/ Estrada que dói/ Encanto de flor/ Labirinto/ Espera de redes/ Parece toda raiz/ Só raiz/ Quando não canta o trovão/ Transfiguração”.
Transfiguração, Cordel do Fogo Encantado


Jesus, o Cristo, é uma identidade construída. Cristo significa Ungido, Messias. E logos, palavra. Portanto, Cristologia é a palavra sobre Cristo, pensamento ou fala sobre Cristo. Cristo exprime uma identidade e sem reconhecer essa identidade, essa pessoa, o Filho de Deus, mediante a fé, não há Cristologia, apenas um estudo sobre a historicidade de Jesus de Nazaré. Através da fé, o Espírito torna a pessoa do Cristo contemporânea, isto é, pessoal e relacional.

Fator histórico. Helenos e cristãos. O cristianismo deixou de ser judeu e palestino já no final do primeiro século e se tornou helênico. Em um sentido amplo, helenismo refere-se à influência que a cultura grega (helênica, de Hellas, Grécia) passou a ter no Império Próximo (Mediterrâneo Oriental: Síria, Egito, Palestina, chegando até a Pérsia e Mesopotâmia) após a morte de Alexandre (323 a.C.) e em conseqüência de suas conquistas. 

Ao estudar os últimos oitocentos anos da história da filosofia grega, vemos que ela vai da morte de Aristóteles (322 a.C.) até o fechamento das escolas pagãs de filosofia no Império do Oriente pelo imperador Justiniano (525 d.C.). O helenismo foi marcado na filosofia pelo desenvolvimento das escolas vinculadas a determinadas tradições, destacando-se a Academia de Platão, a escola aristotélica, as escolas epicurista e estóica, o ceticismo e o pitagorismo. Já na época do apóstolo Paulo havia uma tendência ao ecletismo e filósofos sofreram influências de diferentes escolas. A partir do primeiro século cristão, o principal centro da cultura helênica era Alexandria, no Egito. E foi da correlação entre a Revelação e o uso da Filosofia grega, como ferramenta hermenêutica, que nasceu a Teologia.

Nesse primeiro momento de expansão do Cristianismo no mundo helênico, a doutrina do Cristo foi um escândalo para os judeus, já que a deidade de Jesus era vista como heresia, e também porque os judeus esperavam um messias político e não um messias de amor. E era considerado um perigo pelos Romanos, uma ameaça a ideologia de culto à César, e nesse sentido uma ameaça política. 

A busca pela expansão da fé cristã foi naquela época, e é ainda hoje, um fato naturalm porque o Cristianismo tem um caráter missionário quanto ao querigma, ou seja, quanto à pregação. Dessa maneira, a pregação foi destemida: “é honra morrer por Cristo”; os cristãos arriscavam a vida e quando presos ou mortos eram considerados heróis por sua lealdade a Cristo. Desconsideravam a autoridade de César, caso se opusesse aos ensinos do Cristo. De 96 d.C. (Dominiciano) a 180 d.C. (Marco Aurélio), a prudência política dos romanos evitou, por razões humanitárias, processos sem bases reais e condenações à morte. Mas Tertuliano, advogado e defensor da fé cristã, apologista, diante das perseguições disse que “o sangue é semente”, ou seja, as prisões e martírios só faziam o Cristianismo crescer. Após 235 d.C., com a morte de Alexandre Severo houve uma perseguição acirrada e milhares de conversões. Por volta do ano 300 a.C., um terço da população do império já era cristã.

Dessa maneira, podemos dizer que a vida no mundo ocidental se dividiu em antes e depois dele, e que hoje nas festas cristãs, em especial Natal e Páscoa, cerca de dois bilhões de pessoas celebram Jesus, o Messias, um judeu que morreu de condenação ignominiosa sob ordens das autoridades romanas na Palestina. E, assim, dias, semanas, meses, anos passaram a ser contados a partir de seu nascimento, cuja data no entanto não se sabe ao certo.

Nenhuma vida foi tão pesquisada. Filho de Deus, rompeu o terceiro milênio cercado da fé, mas também de questões levantadas por cristãos e não-cristãos. Como teria nascido? Como viveu? Quem foi ele? Bilhões de pessoas seguem extasiadas esse personagem inacabado, obra aberta a desafiar teólogos. Mas não há explicação capaz de oferecer a versão definitiva, irrefutável, sobre o homem de Nazaré.

E no correr dos séculos foi transformado no símbolo de um dilema: ou os povos assimilam a convivência respeitosa num mundo marcado por diferenças -- daí os diálogos interreligiosos que procuram produzir convivência entre católicos, judeus e protestantes -- ou aprofundam os contrastes, raiz da proliferação do fundamentalismo. O mais estranho é que, na encruzilhada da civilização, cristãos e não-cristãos voltam ao começo de tudo.

Não restam dúvidas sobre sua passagem pelo planeta: Jesus viveu nesta Terra. Muitos estudiosos consideraram que em relação a tal fato existem mais fontes confiáveis do que em relação a Sócrates, cuja existência foi basicamente testemunhada por um único discípulo, Platão. Mas não é possível discorrer com a mesma segurança sobre a data de nascimento e a de morte de Jesus.

Um recenseamento promovido na Palestina por Herodes, interessado em regularizar a cobrança de impostos, forneceu evidências de que ele teria nascido cerca de seis anos antes do chamado ano zero. Teria morrido às vésperas da Páscoa judaica, numa sexta-feira. Conferindo calendários antigos, verifica-se que duas sextas-feiras coincidiram com a celebração naquele período: nos anos 30 e 33 da Era Cristã.

Juntamente com a Trindade, a teologia da encarnação ocupa uma posição central nos ensinamentos da igreja. Jesus é mais que um homem santo ou um mestre de moralidade. Ele é o Filho de Deus que se tornou Filho do Homem. A teologia da encarnação é uma expressão da experiência do Cristo na igreja. Nele, a divindade está unida à humanidade, sem a destruição de nenhuma dessas realidades. Jesus Cristo é verdadeiramente Deus, que tem em comum a mesma realidade igualmente com o Pai e o Espírito. Ele é verdadeiramente homem que compartilha com todos nós o que é humano. E como único Deus-homem, Jesus Cristo colocou a humanidade em comunhão com Deus.

Pela manifestação da Trindade, pelo ensinamento do significado da autêntica vida humana, e pela vitória sobre os poderes do pecado e da morte (1Co 15, Cl 1.19-20) através da ressurreição, Cristo é a expressão suprema do amor de Deus o Pai, por seu povo, tornado presente em cada época e em cada lugar pelo Espírito Santo através da vida da igreja. Os pais da igreja resumiram o ministério do Cristo nesta clara afirmação: "Deus tornou-se o que nós somos de tal maneira que podemos nos tornar o que Ele é."

É um risco separar Jesus e Cristo, ou ver a ação salvífica num e em outro não, ou teologicamente afirmar que há uma ação salvífica no Cristo em sua divindade, separada da humanidade do Cristo encarnado. É fundamental levar em conta, teologicamente, os dois aspectos complementares da cristologia. Ao dado da união das duas naturezas de Jesus, o Cristo, temos que compreender a questão da distinção, que nos alerta para o fato de que não há confusão entre essas duas naturezas.

O monofisismo (veja Glossário) se apresenta entre nós, quando iniciamos uma caminhada em direção à predileção por uma das naturezas do Cristo, no caso, a tendência de absorção da natureza humana na divina. Mas há um monofisismo invertido, que é um outro risco, atualmente menos comum, que é o da absorção da natureza divina na humana, ocasionando uma redução da divindade da pessoa do Verbo. 

A ação humana de Jesus é a ação do Cristo encarnado, mas há uma ação divina que permanece sempre distinta da humana. Há uma ação contínua do Logos antes e depois da encarnação, mas sem que isto signifique a negação do evento cristológico como concentração insuperável da auto-revelação divina. Isto porque a economia do Cristo encarnado constitui a revelação de uma economia mais ampla, a do Cristo eterno de Deus. 

A revelação de nosso Jesus, o Cristo, oferece à humanidade tudo o que é necessário para a salvação, não necessitando ser completada por qualquer outra ação ou processo, que não seja o arrependimento e a obediência. O evento Jesus, sem deixar de ser revelação universal da vontade de Deus, permanece particular em razão de sua historicidade. Significa que tal evento não diminui a potência salvífica de Deus, pois a ação universal do Cristo e do Espírito Santo não se circunscreve à humanidade de Jesus. Por isso não se pode reduzir Jesus a uma figura salvífica entre outras. A revelação operada em Jesus Cristo é definitiva e insuperável. 

Seria um erro entender a ação do Espírito deslocada da economia salvífica universal do Cristo encarnado. Na historicidade da igreja, é fundamental insistir na conjunção da cristologia com a pneumatologia, a fim de preservar a centralidade do evento Cristo. Irineu, pai da igreja, utiliza uma metáfora para nos explicar essa conjunção – que logicamente como qualquer metáfora tem suas limitações. Ele fala das duas mãos de Deus que operam juntas economia da salvação: a mão do Cristo e a mão do Espírito Santo. Mãos que atuam unidas, mas são distintas e complementares. A presença do Espírito na obra do Cristo encarnado não põe um fim na atuação do Espírito Santo depois do evento-Cristo. O Espírito Santo estava presente e operante antes da glorificação do Cristo e continua presente hoje. 

A revelação universal do Cristo não pode nos levar a considerar as religiões do mundo como caminhos complementares ao do corpo do Cristo. Quando muito a universalidade da revelação presente nessas religiões assumem um papel de preparação evangélica para a compreender no evento Cristo, não podendo ser consideradas caminhos de salvação. Ao longo da história cristã foram comuns injustiças e a perseguições aos grupos, denominações e religiões que discordavam do cristianismo hegemônico naquele momento. Ações essas que violentam a imago Dei, o livre-arbítrio e a compreensão da ação salvífica do Cristo.

Grupos, denominações e mesmo religiões não-cristãs não se resumem à mera representação de uma busca humana de Deus, mas traduzem a revelação universal de Deus, através da qual Ele tem se automanifestado à humanidade. São parte do processo de envolvimento pessoal de Deus com a humanidade, que atravessa a história, tendo como centro salvífico o evento Cristo. 

Jesus, o Cristo, é aquele que revela o Pai. Quando Deus dá-se a conhecer, de forma direta e especial, o faz através de seu Filho, em carne e osso. E é justamente essa verdade revelada em Cristo, que deve dirigir toda a nossa compreensão do ser humano e da igreja do Cristo.

Cristo Jesus é Deus e homem, consubstancialmente perfeito e pleno. Nesse sentido, entendemos que o Cristo encarnado possibilita uma compreensão do que é a humanidade, traduzindo numa linguagem cheia de vida os conteúdos fundamentais daquilo que está dito em Gênesis sobre o homem, antes do pecado.

O Cristo revelado é a dimensão mais profunda do humano, a dimensão que traduz aquilo que o cristão é: filho adotado do amor e da graça de Deus, criado para o louvor, honra e glória do Deus eterno.

O corpo do Cristo sobre a terra é uma nova vida com Cristo e em Cristo, dirigida pelo Espírito Santo. A luz da ressurreição do Cristo reina sobre a igreja (I Co 15.3-8) e a alegria da ressurreição, do triunfo sobre a morte, compenetra-se nela. O Senhor ressuscitado vive conosco e nossa vida é uma vida misteriosa em Cristo. Os cristãos levam este nome precisamente porque são do Cristo, vivem em Cristo e Cristo vive neles. A encarnação não é unicamente uma idéia ou uma teologia; é antes de tudo um fato que se produziu uma vez no tempo, mas que possui a força da eternidade. E esta encarnação perpetua, sem confusão, as duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana.

A igreja é o corpo místico do Cristo, enquanto unidade de vida com Ele. Expressa-se a mesma idéia quando se dá à igreja o nome de esposa do Cristo ou esposa do Verbo. A igreja, enquanto corpo do Cristo não é Cristo-Deus-homem, pois ela não é mais que sua humanidade; mas é a vida em Cristo e com Cristo, a vida do Cristo em nós: "Não sou mais eu quem vive, é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20). 

A igreja, em sua qualidade de corpo do Cristo, que vive da vida do Cristo, é por Ele mesmo o domínio, onde está presente e onde opera o Espírito Santo. Eis aqui, porque se pode definir a igreja como uma vida bendita no Espírito Santo. A igreja é obra da encarnação do Verbo, ela é encarnação: na igreja Deus se assimila à natureza humana e através da igreja o corpo se assimila à natureza divina. É a santificação, que os pais chamavam deificação, teose (veja Glossário), da natureza humana, conseqüência da união de duas naturezas em Cristo. Assim, a igreja é o corpo do Cristo: enquanto comunidade de fé participamos da vida divina da Trindade. Ela é a vida em Cristo, é o corpo do Cristo, que permanece unida à Trindade.


Fonte
Jorge Pinheiro, Teologia Bíblica e Sistemática, o ultimato da práxis protestante, São Paulo, Fonte Editorial, 2012, pp. 87-93.



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