vendredi 13 janvier 2017

A violência, uma leitura ontológica

Multiplicarei o teu sofrer e a tua conceição: em dor darás à luz filhos”.

A violência estabelece uma proposição: um princípio atemporal e não espacial, sobre o qual a razão titubeia, uma vez que aparentemente transcende a concepção de humanidade, mas, ao mesmo tempo, é reduz qualquer expressão humana. Parece estar além da razão: é impensável.

Podemos, no entanto, partir do postulado de que há uma violência absoluta, que antecede toda violência manifesta. Esta causa maior é a raiz sem raiz de tudo que foi e é violência. Despida de atributos não tem, a princípio, nenhuma relação com a violência expressa. É  a violência que é e está além da razão de ser violento.

O que é violência está simbolizado no ser violento sob dois aspectos: por um lado, é o não-espaço da subjetividade, aquilo que a mente humana não pode excluir, nem conceber por si mesma. Por outro lado, é movimento, a violência incondicionada. A consciência é inconcebível quando separada da mudança. E é o movimento que simboliza a mudança. Tal aspecto da violência é simbolizado na ideação multiplicarei o teu sofrer e a tua conceição: em dor darás à luz filhos”. Um símbolo gráfico da violência presente no entrar na vida. Este axioma fundante da violência, metafísico, remete àquilo que podemos simbolizar como características trinitárias da violência.

A natureza da causa da violência, derivada de causa sem causa, aflora como consciência da violência, impessoal, que permeia a natureza. Esta causa da violência é o campo da consciência, que transcende a relação com a existência e da qual a existência consciente é um símbolo condicionado. Mas, ao atravessar pela negação a dualidade, sobrevém a tríade da violência: o espírito de violência, a consciência da violência e a matéria da violência.

Espírito de violência, a consciência da violência e a matéria da violência devem ser consideradas não como independentes, mas correlações que constituem a base do ser ou estar violento. Considerada esta trindade da metafísica da violência como a raiz da qual procedem todas as manifestações violentas, a expressão multiplicarei o teu sofrer e a tua conceição: em dor darás à luz filhos” assume o caráter de ideação pré-humana. Ela é a fonte da força de toda violência individual e social e fornece os elementos para a análise da violência que perpassa o humano e sua história. Tal raiz pré-humana é o absoluto expresso no multiplicarei o teu sofrer e a tua conceição: em dor darás à luz filhos”, base da violência objetiva. Tal ideação pré-humana é a raiz da violência individual e social, porque a substância pré-humana é o substrato da matéria violenta em seus diferentes graus.

A correlação dos aspectos da violência absoluta, de origem, é fundante da existência enquanto violência manifesta. A ideação da humanidade, separada de sua substância, não se manifesta como violência individual e social, uma vez que é somente através de um veículo, a alienação da ideação, que a violência aflora como violência que é, como ato alienado que necessitou de base física para focar-se enquanto estágio de uma complexidade maior, humana. Da mesma forma, a substância do humano, separada da ideação da humanidade, permaneceria como uma abstração vazia da qual a violência não poderia emergir. A violência manifesta, assim, é permeada pela correlação, que é a própria essência de sua existência como violência manifesta.

As correlações entre violência manifesta, espírito e matéria da violência são símbolos da violência absoluta, presentes no universo manifestado da violência. Essa correlação é a alienação existencial, a ponte através da qual as idéias são impressas enquanto substância da natureza da violência, presentes na forma de leis da natureza e da sobrevivência do humano. A alienação, dessa maneira, é dinâmica da ideação do humano, é meio que guia a manifestação.

Ou como disse Lameque, o primeiro serial killer citado pelas escrituras hebraicas: Ada e Zilá, ouçam a minha voz. Escutem, mulheres de Lameque, as minhas palavras: matei um homem, porque me machucou. E um jovem, porque me pisou. Se por Caim tomar-se-á vingança sete vezes, com certeza por Lameque o será setenta e sete vezes”.

Assim, a consciência humana procede também da ideação da violência, e fornece os meios que possibilitam à violência individualizar-se como substância do humano, chegando àquilo que fez do humano, sapiens. A alienação em suas manifestações é o elo entre o espírito e a matéria da violência, presença que, dialeticamente, equilibra vida e morte, permanência e destruição.













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